Vírus Sincicial Respiratório (VSR): o que o estudante de enfermagem precisa saber

O Vírus Sincicial Respiratório, conhecido pela sigla VSR, é um dos principais agentes causadores de infecções respiratórias, especialmente em lactentes e crianças pequenas, mas que também pode provocar quadros graves em idosos, imunossuprimidos e pacientes com comorbidades. Na prática assistencial, principalmente em períodos sazonais, o VSR é responsável por grande parte das internações por bronquiolite e pneumonia.

Compreender o funcionamento do vírus, sua transmissão, manifestações clínicas e os cuidados de enfermagem é essencial para uma assistência segura, eficaz e baseada em evidências.

O que é o Vírus Sincicial Respiratório?

O VSR é um vírus de RNA pertencente à família Paramyxoviridae, gênero Orthopneumovirus. Ele tem tropismo pelo trato respiratório, principalmente pelas vias aéreas inferiores, onde causa inflamação, edema e aumento da produção de muco.

A Fisiopatologia: O Porquê do Nome “Sincicial”

O nome do vírus não é por acaso. O termo “sincicial” refere-se à capacidade que o vírus tem de fazer com que as células infectadas das vias respiratórias se fundam, formando grandes massas celulares multinucleadas chamadas sincícios.

Quando o VSR entra no organismo, ele ataca as células epiteliais que revestem as vias aéreas. A resposta inflamatória é intensa: ocorre edema (inchaço) da mucosa, aumento absurdo na produção de muco e necrose das células epiteliais. Em adultos, isso se traduz em uma coriza chata. Mas em bebês, cujos bronquíolos são minúsculos, esse “combo” de inchaço e catarro obstrui a passagem do ar, levando ao quadro clássico de bronquiolite. O ar entra, mas tem dificuldade para sair, o que gera o aprisionamento de ar nos alvéolos e o esforço respiratório visível.

Epidemiologia e sazonalidade

O VSR é altamente prevalente em todo o mundo. A maioria das crianças é infectada pelo menos uma vez até os dois anos de idade. No Brasil, a circulação do vírus é mais intensa nos meses de outono e inverno, coincidindo com o aumento de síndromes respiratórias.

Em ambientes hospitalares, o VSR merece atenção especial devido à sua alta transmissibilidade, sendo causa frequente de surtos em enfermarias pediátricas e UTIs neonatais.

Como ocorre a transmissão do VSR?

A transmissão acontece principalmente por contato direto com secreções respiratórias. O vírus pode ser transmitido por gotículas eliminadas ao tossir, espirrar ou falar, além do contato com superfícies contaminadas.

Um ponto importante para a enfermagem é que o VSR pode sobreviver por algumas horas em superfícies como grades de berço, bancadas, estetoscópios e mãos não higienizadas, o que reforça a importância das medidas de controle de infecção.

Fisiopatologia: o que acontece no organismo

Após a entrada pelas vias aéreas superiores, o VSR pode progredir para os bronquíolos, causando inflamação intensa. O edema da mucosa, associado ao acúmulo de secreções, leva à obstrução das vias aéreas pequenas, dificultando a passagem de ar.

Em lactentes, que já possuem vias aéreas naturalmente estreitas, esse processo pode evoluir rapidamente para desconforto respiratório importante, hipoxemia e insuficiência respiratória.

Manifestações clínicas

Os sinais e sintomas variam conforme a idade e as condições clínicas do paciente.

Em crianças maiores e adultos, o VSR pode se manifestar como um quadro leve, semelhante a um resfriado comum, com coriza, tosse, febre baixa e mal-estar.

Já em lactentes, especialmente menores de seis meses, os sintomas costumam ser mais graves. É comum observar taquipneia, tiragem intercostal, batimento de asa de nariz, gemência, sibilância, dificuldade para mamar e episódios de apneia. Nesses casos, o diagnóstico de bronquiolite viral aguda é frequente.

Em idosos e pacientes com doenças crônicas cardíacas ou pulmonares, o VSR pode desencadear exacerbações de doenças de base e pneumonia viral.

Diagnóstico

O diagnóstico do VSR é geralmente clínico, baseado na história e no exame físico. Em ambiente hospitalar, especialmente em casos graves ou surtos, podem ser utilizados testes laboratoriais, como a detecção do antígeno viral ou RT-PCR em amostras de secreção respiratória.

Para a enfermagem, o reconhecimento precoce dos sinais de gravidade é mais importante do que a confirmação laboratorial imediata.

Sinais de Alerta: Quando o Resfriado Vira Emergência

Na maioria dos adultos e crianças maiores, o VSR se manifesta como uma síndrome gripal leve. Contudo, em lactentes, especialmente os menores de seis meses, precisamos estar atentos aos sinais de gravidade que indicam a evolução para bronquiolite ou pneumonia:

  • Taquipneia: O aumento da frequência respiratória é um dos primeiros sinais de que o bebê está compensando a dificuldade de troca gasosa.
  • Tiragem Intercostal e Retração Subcostal: O uso da musculatura acessória mostra que o esforço para respirar está exaustivo.
  • Batimento de Asa de Nariz: Um sinal clássico de desconforto respiratório em pediatria.
  • Cianose e Letargia: Sinais tardios e gravíssimos de hipóxia (baixa oxigenação).
  • Sibilância: O famoso “chiado no peito”, audível muitas vezes sem estetoscópio devido ao estreitamento dos bronquíolos.

Tratamento

O tratamento do VSR é predominantemente suporte clínico, pois não há, na maioria dos casos, terapia antiviral específica indicada.

As principais medidas incluem oxigenoterapia quando há hipoxemia, manutenção da hidratação, controle da febre e aspiração de vias aéreas superiores quando necessário. Em casos graves, pode ser necessário suporte ventilatório não invasivo ou invasivo.

O uso rotineiro de antibióticos não é indicado, exceto quando há suspeita ou confirmação de infecção bacteriana associada.

Cuidados de enfermagem no VSR

A assistência de enfermagem no manejo do VSR é fundamentalmente de suporte e vigilância. Como não existe um tratamento antiviral específico amplamente utilizado para todos os casos, o foco é manter o paciente estável enquanto o vírus cumpre seu ciclo.

Monitorização e Oxigenoterapia

O controle rigoroso da saturação de oxigênio SpO₂ através da oximetria de pulso é constante. Se a saturação cair abaixo dos níveis recomendados (geralmente 90-92% dependendo do protocolo local), a administração de oxigênio umidificado via cateter nasal ou máscara é iniciada. Em casos mais graves, a enfermagem auxilia na instalação da Ventilação Não Invasiva (VNI) ou do Cateter Nasal de Alto Fluxo, que ajuda a manter os bronquíolos abertos com pressão positiva.

Higiene Nasal e Permeabilidade das Vias Aéreas

Bebês são respiradores nasais preferenciais. Um nariz entupido por muco espesso pode causar desconforto respiratório severo e dificuldade de amamentação. O cuidado de enfermagem aqui é a lavagem nasal frequente com soro fisiológico e a aspiração das secreções, se necessário, especialmente antes das mamadas e do sono.

Hidratação e Nutrição

A taquipneia aumenta a perda de água pela respiração (perda insensível). Além disso, o bebê cansado não consegue sugar o leite. Devemos monitorar o balanço hídrico, observar o turgor da pele e a diurese. Se o esforço respiratório for muito grande, a enfermagem deve atentar para a necessidade de suspender a via oral e iniciar hidratação venosa ou gavagem (sonda) para evitar a aspiração de leite para os pulmões.

Controle de Infecção e Isolamento

O VSR é extremamente contagioso e sobrevive por horas em superfícies e mãos. O isolamento de contato (e às vezes por gotículas, dependendo do protocolo da instituição) é obrigatório. A higienização das mãos antes e após tocar o paciente ou o ambiente é a medida de ouro para evitar o surto hospitalar.

Prevenção: O Papel do Palivizumabe

Para grupos de altíssimo risco, como prematuros extremos e crianças com cardiopatias congênitas, existe o Palivizumabe. Não é uma vacina no sentido tradicional, mas sim um anticorpo monoclonal pronto que oferece uma “imunização passiva”. Ele é administrado em doses mensais durante os meses de maior circulação do vírus (sazonalidade). O enfermeiro tem papel fundamental na busca ativa dessas crianças e na administração correta da medicação.

Recentemente, novas vacinas para gestantes e idosos foram aprovadas, o que promete mudar o cenário epidemiológico nos próximos anos, protegendo os bebês através da transferência de anticorpos via placenta.

Outras medidas preventivas incluem ações simples e eficazes, como higienização frequente das mãos, limpeza de superfícies, evitar aglomerações e contato com pessoas sintomáticas, especialmente em períodos sazonais.

Em grupos específicos de alto risco, como prematuros extremos e crianças com cardiopatias ou doenças pulmonares crônicas, pode ser indicada a imunoprofilaxia com anticorpos monoclonais, conforme protocolos clínicos.

O Vírus Sincicial Respiratório é um agente de grande impacto na prática da enfermagem, principalmente nas áreas pediátrica, neonatal e de terapia intensiva. Embora muitas vezes subestimado, o VSR pode evoluir rapidamente para quadros graves, exigindo atenção, vigilância clínica e cuidados baseados em evidências.

Para o estudante de enfermagem, compreender o VSR vai além da teoria: significa estar preparado para reconhecer sinais precoces de gravidade, atuar na prevenção da transmissão e oferecer uma assistência segura e humanizada ao paciente e à família.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Diretrizes sobre o Vírus Sincicial Respiratório. Disponível em: https://www.sbp.com.br.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Vigilância Epidemiológica da Influenza e outros Vírus Respiratórios. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  3. BENTLEY, M. C. et al. Nursing care of the infant with respiratory syncytial virus. Nursing Standard, v. 35, n. 4, 2020. Disponível em: https://journals.rcni.com/nursing-standard
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Bronquiolite viral aguda: diagnóstico e manejo clínico. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Respiratory syncytial virus (RSV). Geneva: WHO, 2023. Disponível em:
    https://www.who.int 
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Documento científico: Vírus sincicial respiratório. São Paulo, 2021. Disponível em:
    https://www.sbp.com.br
  7. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
    https://www.grupogen.com.br

Cuidados de Enfermagem em UTI Neonatal

UTI Neonatal

Os chamados “cuidados gerais de Enfermagem em UTI Neonatal” são aqueles rotineiramente realizados pela equipe técnica de Enfermagem para com todos os bebês internados, salvo algumas exceções e/ou modificações de certos procedimentos para com certos pacientes, conforme prescrição médica e/ou de Enfermagem. Esses “cuidados gerais” incluem:

  • Verificação de Sinais Vitais (Saturação de oxigênio, Pulso ou Frequência Cardíaca, Respiração, Temperatura e Pressão Arterial e aplicação de escala de dor);
  • Manter elevação da cabeceira entre 30 e 45 graus conforme prescrição médica;
  • Permeabilizar os cateteres de acesso venoso periférico, cateter umbilical, flebotomia ou PICC (quaisquer que sejam que o RN esteja mantendo) conforme prescrição médica e de enfermagem e observar constantemente se não há sinais flogísticos ou de extravasamento no local de inserção dos cateteres;
  • Rodízio de sensor de oximetria contínua entre os MMSS e MMII (membros superiores e inferiores respectivamente);
  • Higiene oral e ocular dos recém nascidos;
  • Mudança de decúbito;
  • Higiene perineal e troca de fraldas;
  • Pesagem de fraldas e controle de eliminações vesico-fisiológicas;
  • Curativo de coto umbilical;
  • Banho do Recém nascido;
  • Troca de eletrodos e de roupas (ninho) do leito do recém nascido (sempre após o banho ou quando houver necessidade);
  • Sempre observar a posição de cânula orotraqueal e das sondas para certificar-se que o RN não está “extubando acidentalmente” ou “que saque a sonda”, quando necessário, colocar luvinhas para evitar que o RN saque a sonda gástrica;
  • Oferta de dieta por gavagem, sonda-dedo, copinho, ou posicionando o recém nascido em seio materno (conforme prescrição médica);
  • Manutenção do conforto geral do recém-nascido (diminuir luminosidade, ruídos e ter manuseio mínimo agrupando os cuidados);
  • Manter ambiente térmico neutro;

Esses cuidados listados acima são os principais cuidados rotineiros de uma UTI neonatal. Vejamos como é a técnica utilizada pela enfermagem para realizar cada um desses procedimentos.

Verificando os Sinais Vitais dos recém nascidos na UTI Neonatal

A rotina de verificação dos sinais vitais em UTI Neonatal costuma ser feita com um espaçamento de horas que varia de 4 em 4, 3 em 3, ou até 2 em 2 horas conforme o caso e a gravidade do recém nascido. Os sinais vitais são aqueles que nos informam sobre como está, basicamente, a hemodinâmica do bebê, e incluem verificar: Saturação de oxigênio, Temperatura, Frequência cardíaca, respiração por minuto, P.A. e verificar qual o nível de dor o RN aparenta naquele momento, através da aplicação “da escala de dor” própria.

Saturação de Oxigênio

O oxímetro de pulso é um método não invasivo que avalia a oxigenação dos tecidos por meio da espectrometria infravermelha e reflete a saturação de oxigênio da hemoglobina. Nos neonatos, a enfermagem deve colocar os eletrodos nas extremidades (mãos ou pés) sempre, com o eletrodo “aceso com a luz vermelha” em cima da artéria local para que consiga fazer a leitura, o de cima fica alinhado com o de baixo, e envolvem-se ambos com o coban para mantê-los posicionados. Faz-se o rodizio deste sensor aproximadamente de 3 em 3 horas.

Verificação da temperatura

A temperatura axilar do bebê pode ser verificada com termômetro digital. Antes e após utilizar o termômetro, deve-se fazer sua desinfecção com álcool a 70%. Posicionar o termômetro sob a axila do bebê e esperar que o mesmo “apite” avisando que já chegou a temperatura máxima, verificar e anotar nos controles do bebê. Se o bebê estiver mantendo sensor de pele ou sensor retal, a temperatura será mostrada continuamente na tela do monitor de parâmetros vitais juntamente com os outros sinais vitais.

Controle Térmico

A temperatura central pode ser obtida de forma intermitente por via axilar ou contínua por meio de sensor abdominal. A temperatura da pele sobre o fígado tem sido bastante usada como indicador da temperatura central. (sensor na linha média da porção superior do abdome, estando o recém-nascido em supino, ou colocar o sensor no dorso do recém-nascido, na região escapular) A temperatura periférica pode ser aferida nos membros, mais comumente nos pés.

Não se recomenda a avaliação da temperatura retal.

Faixa de normalidade: 36,5 a 37 °C

Hipotermia:

  • Potencial estresse do frio (hipotermia leve): temperatura entre 36,0 e 36,4°C;
  • Hipotermia moderada: temperatura entre 32,0 e 35,9°C;
  • Hipotermia grave: temperatura < 32,0°C Hipertermia: temperatura > 37,5°C;

Prevenção da Hipotermia:

  • Manter a temperatura da sala de parto maior ou igual a 25°C;
  • Ligar a fonte de calor radiante antes do nascimento e pré-aquecer os campos;
  • Recepcionar o recém-nascido em campos aquecidos e colocá-lo sob calor radiante;
  • Secar e remover os campos úmidos;
  • Uso de gorro de algodão;
  • Cobertura oclusiva com filme de polietileno, polivinil ou poliuretano (< 32 semanas);
  • Uso de saco plástico ( A respiração do recém nascido pode ser verificada de dois modos:
    Observando o abdome do bebê para contar (a cada inspiração e expiração uma respiração completa) por 1 minuto (para isso, utilize um relógio analógico).

A Frequência cardíaca

Observa-se, ou posicionando o estetoscópio na região apical do bebê e contando por um minuto ou observando o valor que aparece no monitor.

Lembrando que, para monitorizar o bebê, deve-se colar os eletrodos nas regiões indicadas e sobre eles colocar os sensores de acordo com a indicação do fabricante para que eles façam a leitura e também, deve-se programar o monitor para que este mostre os parâmetros desejados, programe o tipo de modo, o tipo de traçados e os limites que o aparelho deve alarmar como máximo e mínimos para as frequências cardíaca e respiratórias do bebê.

A Pressão arterial

Utilizar um manguito apropriado para o tamanho do bebê. O manguito deve cobrir dois terços do braço do bebê. Ele mostrará a pressão sistólica (máxima), a diastólica (mínima) e a média (que deve corresponder aproximadamente a quantas semanas o bebê tem.