Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 (SBC): o que mudou e como aplicar na prática de enfermagem

A hipertensão arterial continua sendo um dos principais problemas de saúde pública no Brasil e no mundo. Silenciosa na maioria das vezes, ela está diretamente associada a eventos graves como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal e morte precoce.

Com o objetivo de melhorar o diagnóstico, a prevenção e o tratamento, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em parceria com outras entidades, publicou a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, trazendo mudanças importantes que impactam diretamente a prática clínica e a rotina da enfermagem.

Nesta publicação, você vai entender de forma completa e didática as principais atualizações da diretriz, com destaque para a nova classificação da pressão arterial em consultório, além de conceitos essenciais para o cuidado ao paciente.

O que é a Diretriz Brasileira de Hipertensão 2025?

A diretriz de 2025 é um documento baseado em evidências científicas atualizadas que orienta profissionais de saúde sobre:

  • diagnóstico da hipertensão arterial;
  • classificação da pressão arterial;
  • estratificação de risco cardiovascular;
  • tratamento farmacológico e não farmacológico;
  • metas terapêuticas.

Ela representa uma evolução em relação às diretrizes anteriores, com foco maior em prevenção precoce e intervenção antecipada.

A Técnica de Medida: Onde o Erro Não Pode Existir

Antes de falarmos sobre números, precisamos falar sobre como chegamos a eles. A diretriz de 2025 reforça que uma medida mal feita é pior do que nenhuma medida. Para o enfermeiro, garantir o preparo do paciente é o primeiro passo da assistência. O paciente deve estar em repouso de pelo menos cinco minutos em ambiente calmo, com as costas apoiadas, pernas descruzadas e pés no chão.

Um ponto que ganha ainda mais destaque é a escolha do manguito. Utilizar um manguito pequeno demais em um braço largo gera uma falsa leitura de pressão elevada. Além disso, a diretriz enfatiza a importância das medidas fora do consultório, como a Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA) e a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), para descartar o “efeito do avental branco” ou a “hipertensão mascarada”.

A Nova Classificação da Pressão Arterial (Acima de 18 Anos)

Uma das mudanças mais importantes da diretriz de 2025 foi a atualização da classificação da pressão arterial medida em consultório.

A principal novidade é que o famoso “12 por 8” deixou de ser considerado totalmente normal e passou a ser classificado como um estado de alerta.

Classificação atual segundo a SBC 2025

  • Pressão arterial normal:
    valores inferiores a 120 mmHg (sistólica) e inferiores a 80 mmHg (diastólica) – Este é o alvo ideal para a população geral.
  • Pré-hipertensão:
    pressão sistólica entre 120–139 mmHg e/ou diastólica entre 80–89 mmHg – Aqui, o paciente ainda não é considerado hipertenso, mas já possui um risco aumentado de evoluir para a doença, exigindo intervenções imediatas em estilo de vida.
  • Hipertensão arterial estágio 1:
    sistólica entre 140–159 mmHg e/ou diastólica entre 90–99 mmHg – Note que tornou-se o novo marco divisório para o início da classificação de hipertensão em muitos perfis de pacientes.
  • Hipertensão arterial estágio 2:
    sistólica entre 160–179 mmHg e/ou diastólica entre 100–109 mmHg – Nestes casos, a intervenção medicamentosa é quase sempre imediata, associada às mudanças de hábito.
  • Hipertensão arterial estágio 3:
    sistólica ≥ 180 mmHg e/ou diastólica ≥ 110 mmHg – O risco de um evento cardiovascular maior — como um Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico ou um Infarto Agudo do Miocárdio — é considerado alto ou muito alto, independentemente de o paciente possuir ou não outros fatores de risco.

Essa nova classificação reforça a importância de identificar precocemente indivíduos em risco, especialmente aqueles que antes eram considerados “normais” e agora estão em pré-hipertensão.

O que mudou na prática: o “12 por 8” agora é alerta

Historicamente, valores de 120/80 mmHg eram vistos como normais. No entanto, a diretriz de 2025 passou a considerar esses valores como pré-hipertensão.

Essa mudança tem um objetivo claro: identificar pacientes mais cedo e evitar a progressão para hipertensão estabelecida.

Isso muda completamente a abordagem clínica, pois pacientes que antes não recebiam intervenção agora passam a ser acompanhados de forma mais ativa.

Diagnóstico da hipertensão arterial

O diagnóstico de hipertensão não deve ser feito com apenas uma medida isolada.

A diretriz reforça que:

  • a pressão deve ser aferida corretamente, em ambiente adequado;
  • o paciente deve estar em repouso;
  • é necessário confirmar níveis elevados em mais de uma ocasião.

Além disso, métodos complementares como MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial) e MRPA (monitorização residencial) são fortemente recomendados para confirmar o diagnóstico e evitar erros como:

  • hipertensão do avental branco;
  • hipertensão mascarada.

Metas de tratamento na diretriz 2025

Outro ponto importante é a simplificação das metas terapêuticas.

A diretriz estabelece que, de forma geral:

  • a meta de pressão arterial é < 130/80 mmHg, quando tolerado pelo paciente

Essa padronização facilita a prática clínica e reduz a confusão que existia em diretrizes anteriores.

Tratamento da hipertensão arterial

Medidas não farmacológicas

A diretriz reforça que o tratamento não começa com medicamentos, mas sim com mudanças no estilo de vida.

Entre as principais recomendações estão:

  • redução do consumo de sal;
  • prática regular de atividade física;
  • controle do peso corporal;
  • cessação do tabagismo;
  • redução do consumo de álcool.

Essas medidas devem ser iniciadas já na fase de pré-hipertensão.

Tratamento medicamentoso

A diretriz de 2025 trouxe uma abordagem mais agressiva e precoce:

  • pacientes com ≥ 140/90 mmHg devem iniciar tratamento medicamentoso imediatamente;
  • em muitos casos, já se recomenda iniciar com combinação de duas medicações.

Isso ocorre porque o controle precoce reduz significativamente o risco de eventos cardiovasculares.

Estratificação de risco cardiovascular

A pressão arterial não deve ser analisada isoladamente.

A diretriz enfatiza a importância de avaliar o risco cardiovascular global do paciente, considerando:

  • idade;
  • diabetes;
  • dislipidemia;
  • doença renal;
  • histórico familiar;
  • tabagismo.

Pacientes com risco elevado podem necessitar de tratamento mais intensivo, mesmo com níveis pressóricos menores.

Complicações da hipertensão arterial

A hipertensão não controlada pode levar a lesões em órgãos-alvo, como:

  • coração (infarto, insuficiência cardíaca);
  • cérebro (AVC);
  • rins (insuficiência renal crônica);
  • retina (retinopatia hipertensiva).

Por isso, o controle adequado da pressão arterial é uma das estratégias mais importantes na prevenção de mortalidade.

Cuidados de enfermagem na hipertensão arterial

A enfermagem tem papel central na prevenção, diagnóstico e acompanhamento da hipertensão.

Aferição correta da pressão arterial

Um dos pontos mais importantes é a técnica correta:

  • paciente deve estar sentado, em repouso por pelo menos 5 minutos;
  • braço apoiado na altura do coração;
  • manguito adequado ao tamanho do braço;
  • evitar falar durante a medida.

Erros na técnica podem levar a diagnósticos incorretos.

Educação em saúde

A enfermagem atua diretamente na orientação do paciente:

  • explicando o que é hipertensão;
  • incentivando mudanças no estilo de vida;
  • orientando sobre adesão ao tratamento.

Esse acompanhamento é essencial, pois muitos pacientes abandonam o tratamento por falta de sintomas.

Monitorização e acompanhamento

O profissional de enfermagem também deve:

  • acompanhar níveis pressóricos;
  • identificar sinais de descompensação;
  • observar efeitos adversos de medicamentos;
  • reforçar o seguimento ambulatorial.

Promoção da prevenção

Com a nova classificação, a enfermagem passa a atuar ainda mais na fase de pré-hipertensão, promovendo intervenções precoces e evitando evolução da doença. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 representa uma mudança importante no cuidado cardiovascular no Brasil.

A reclassificação da pressão arterial, especialmente a inclusão da pré-hipertensão, reforça a necessidade de uma abordagem mais preventiva e menos reativa. Para a enfermagem, isso significa um papel ainda mais ativo na detecção precoce, educação em saúde e acompanhamento contínuo dos pacientes. Mais do que tratar a hipertensão, o foco agora é evitar que ela se desenvolva.

Referências:

  1. MALACHIAS, M. V. B. et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2024/2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, e20250624, 2025. Disponível em: https://abccardiol.org/wp-content/uploads/articles_xml/0066-782X-abc-122-09-e20250624/0066-782X-abc-122-09-e20250624.x66747.pdf
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Rio de Janeiro: SBC, 2024. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/
  3. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Consulta de Enfermagem ao Paciente com Hipertensão Arterial. São Paulo: COREN-SP, 2022. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Disponível em: Página oficial da SBC
  5. ESTRATÉGIA MED. Nova diretriz de hipertensão arterial 2025: o que mudou. Disponível em: https://med.estrategia.com/portal/noticias/nova-diretriz-de-manejo-da-pressao-arterial-passa-a-considerar-12-por-8-como-pre-hipertensao-entenda-a-mudanca/

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

EXPERIÊNCIA E ÁREAS DE CONHECIMENTO
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Conteúdo produzido com base em conhecimento, experiência profissional e educação em enfermagem.