
Vá direto ao ponto!
Se você ainda chama todo acesso venoso central de “CVC”, não está sozinho. O termo continua amplamente utilizado na prática, mas a nomenclatura internacional vem buscando algo mais preciso: descrever o acesso pelo local onde ele é inserido e pelas características do dispositivo, reduzindo ambiguidades na comunicação entre profissionais.
O projeto NAVIGATE, desenvolvido pela GloVANet em colaboração com a WoCoVA, propôs uma nomenclatura padronizada para dispositivos de acesso vascular. Em 2026, a ABENTI, em parceria com o Departamento de Enfermagem da AMIB, incorporou essa lógica à Nota Técnica 01/2026 sobre manejo do acesso venoso central.
CVAD é o termo mais abrangente
CVAD significa Central Venous Access Device, ou dispositivo de acesso venoso central. Dentro dessa categoria, a nomenclatura diferencia principalmente o local de inserção e o tipo de implantação.
Os principais termos para adultos e crianças são PICC, CICC, FICC e PORT. A classificação pode ainda ser complementada por características como tunelização, presença de cuff e número de lúmens.
PICC
PICC — Peripherally Inserted Central Catheter é o cateter central de inserção periférica. Ele entra por uma veia periférica, geralmente no membro superior, e sua extremidade fica em posição central.
É utilizado em diferentes situações clínicas, inclusive quando há necessidade de terapia intravenosa prolongada. A palavra “periférico” aqui descreve o local de inserção, e não a posição final da ponta.
CICC
CICC — Centrally Inserted Central Catheter é o cateter central inserido por uma veia de acesso central. Jugular interna, subclávia e outros trajetos venosos centrais podem fazer parte dessa categoria, conforme a classificação utilizada.
É o grupo que mais se aproxima do que muitos profissionais tradicionalmente chamam simplesmente de “CVC”.
FICC
FICC — Femorally Inserted Central Catheter identifica o cateter central inserido por acesso femoral. A vantagem da nomenclatura é justamente deixar explícito, já no nome, que a via de inserção foi femoral.
Isso é útil durante a passagem de plantão, avaliação do sítio de inserção e planejamento dos cuidados, especialmente em pacientes críticos.
PORT
O PORT, ou dispositivo totalmente implantável, fica sob a pele e é acessado por meio de uma agulha apropriada. Pode receber nomenclatura complementar conforme a via de inserção, como PICC-port, CICC-port ou FICC-port na classificação apresentada pela ABENTI.
Tunelizado e não tunelizado também importa
A descrição não termina em PICC, CICC ou FICC. O dispositivo pode ser tunelizado e com cuff ou não tunelizado e sem cuff, e essa característica interfere na identificação e nos cuidados.
Na Nota Técnica ABENTI 01/2026 aparecem, por exemplo, as formas Tc-CICC, Tc-PICC e Tc-FICC para dispositivos tunelizados com cuff e Tnc-CICC, Tnc-PICC e Tnc-FICC para não tunelizados e sem cuff.
Imagine a passagem de plantão de um paciente crítico com “CVC duplo lúmen” registrado no prontuário. A informação é insuficiente para quem precisa avaliar rapidamente o acesso. Saber que se trata de um CICC não tunelizado, duplo lúmen, inserido em jugular direita, por exemplo, transmite muito mais informação e facilita a continuidade do cuidado.
O que muda para a enfermagem?
A principal mudança é de precisão na comunicação, não uma troca física dos cateteres que já estão instalados. O profissional precisa reconhecer o dispositivo que está manipulando e registrar suas características de maneira clara.
Uma documentação útil pode incluir tipo de dispositivo, local de inserção, número de lúmens, presença de tunelização ou cuff, condições do sítio e intercorrências relacionadas ao acesso, conforme o protocolo institucional. A padronização proposta pelo NAVIGATE foi justamente desenvolvida para reduzir termos ambíguos e melhorar a comunicação clínica.
Na prática da UTI, isso também aparece quando existem várias infusões simultâneas. Um paciente pode estar recebendo vasopressor, sedoanalgesia, antibiótico e eletrólitos pelo mesmo dispositivo, tornando essencial organizar os lúmens e verificar compatibilidade físico-química antes de compartilhar uma via. A ABENTI recomenda planejamento da terapia, organização dos lúmens e uso de fontes atualizadas de compatibilidade quando houver dúvida.
O cuidado continua sendo o mais importante
A nomenclatura nova não substitui as medidas de prevenção de infecção. Higienização das mãos, técnica asséptica, desinfecção adequada dos conectores, curativo apropriado, inspeção do sítio e avaliação diária da necessidade de permanência do dispositivo continuam fundamentais.
Para cateteres venosos centrais, a Anvisa mantém como componentes importantes do cuidado a prevenção durante inserção e manutenção, incluindo barreira máxima na inserção, preparo adequado da pele, desinfecção dos conectores e avaliação do sítio.
O curativo também não deve ser tratado por uma única regra para todos os dispositivos. Para cateteres centrais não tunelizados de curta permanência, por exemplo, o CDC recomenda cobertura estéril transparente semipermeável ou gaze estéril, com recomendações específicas para curativos impregnados com clorexidina em adultos quando o produto tiver indicação para redução de infecção relacionada ao cateter.
Flush, hub e manutenção
O flush deve seguir o tipo de dispositivo, fabricante e protocolo institucional. A ABENTI recomenda solução salina 0,9% e técnica pulsátil para CICC/FICC, além de evitar seringas menores que 10 mL por causa do risco de pressão excessiva. O volume e a frequência, entretanto, não devem ser transformados em uma regra universal para todos os cateteres.
Antes de acessar o hub, faça a desinfecção conforme o produto e o protocolo do serviço, respeitando o tempo de fricção e, principalmente, o tempo de secagem recomendado. O ponto crítico é não tratar a conexão como uma parte “limpa” simplesmente porque o cateter já está instalado.
Outro cuidado importante aparece quando uma infusão contínua precisa permanecer estável. Interromper uma droga vasoativa para administrar outro medicamento pelo mesmo lúmen pode ter consequências clínicas; por isso, a compatibilidade, a necessidade de via exclusiva e a organização prévia das infusões devem ser avaliadas antes da administração.
Cuidados de enfermagem
Na assistência, vale conferir principalmente:
- qual é o tipo de CVAD e onde ele foi inserido;
- número de lúmens e finalidade das infusões;
- permeabilidade e integridade do sistema;
- condições do sítio de inserção e do curativo;
- sinais de infecção, trombose, obstrução ou deslocamento;
- compatibilidade dos medicamentos antes da coadministração;
- desinfecção do hub antes de cada acesso;
- necessidade diária de permanência do dispositivo.
A organização do acesso deve ser registrada e comunicada de forma padronizada. A própria ABENTI destaca que a escolha do número de lúmens deve considerar a necessidade assistencial e evitar dispositivos mais complexos do que o necessário.
No fim do plantão, uma informação como “CICC não tunelizado, duplo lúmen, jugular direita, curativo íntegro” é muito mais útil para a equipe seguinte do que simplesmente escrever “CVC em jugular”. É justamente aí que uma mudança de nomenclatura deixa de ser apenas uma questão de sigla e passa a melhorar a comunicação do cuidado.
CVC mudou de nome? Entenda a nova nomenclatura
- CVAD é o termo abrangente para dispositivos de acesso venoso central
- PICC CICC FICC e PORT identificam diferentes tipos de acesso
- Tunelização cuff e número de lúmens complementam a identificação
- A nomenclatura precisa melhora a comunicação e a segurança da assistência
Referências:
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA. Nota Técnica 01/2026: Manejo do acesso venoso central. Rio de Janeiro: ABENTI, 2026. Disponível em: Nota Técnica ABENTI 01/2026.
- VAN RENS, Matheus Roland et al. The NAVIGATE project: a GloVANet–WoCoVA position statement on the nomenclature for vascular access devices. Journal of Vascular Access, v. 26, n. 5, p. 1439–1446, 2025. Disponível em: Artigo NAVIGATE – GloVANet/WoCoVA.
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo de prevenção de infecção primária de corrente sanguínea associada a dispositivos de acesso vasculares. Brasília, DF: Anvisa, 2026. Disponível em: Protocolo Anvisa – prevenção de IPCS.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Summary of Recommendations: Intravascular Catheter-Related Infection Prevention. Atlanta: CDC. Disponível em: CDC – prevenção de infecções relacionadas a cateteres.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Updated Recommendations on the Use of Chlorhexidine-Impregnated Dressings for Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: CDC – curativos impregnados com clorexidina.
- ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA. Nota Técnica 01/2026 – ABENTI-AMIB. São Paulo: AMIB, 2026. Disponível em: AMIB – Nota Técnica 01/2026.
Catéter Venoso Central (CVC)
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Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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