Tríade de Charcot

A tríade de Charcot é um conjunto clássico de três sintomas clínicos que indicam a presença de uma colangite aguda, uma infecção das vias biliares, muitas vezes grave e potencialmente fatal se não tratada adequadamente. A identificação precoce desses sintomas é essencial para a evolução do paciente, e o profissional de enfermagem desempenha papel fundamental no reconhecimento e manejo inicial dessa condição.

Neste post, vamos explorar em detalhes o que é a tríade de Charcot, como ela se manifesta, qual o papel da enfermagem e como o tratamento é conduzido.

O Que É a Colangite Aguda?

A Colangite é a inflamação e infecção do ducto biliar comum, o canal que transporta a bile do fígado e da vesícula biliar para o intestino delgado.

  • A Causa Principal: Na grande maioria das vezes, a colangite é causada por uma obstrução. Geralmente, um cálculo (pedra) da vesícula biliar fica preso no ducto biliar (condição chamada coledocolitíase).
  • O Perigo: A obstrução causa o acúmulo de bile (estase biliar). Como a bile não consegue fluir, as bactérias (que sobem do intestino – colangite ascendente) proliferam rapidamente no fluido estagnado, levando a uma infecção maciça e perigosa que pode facilmente se espalhar para a corrente sanguínea.

O que é a Tríade de Charcot?

A tríade de Charcot foi descrita pelo médico francês Jean-Martin Charcot, em 1877, e refere-se a três sintomas característicos de colangite aguda. Ela é composta por:

Febre e Calafrios

Indicam a presença de uma infecção bacteriana sistêmica (bacteremia) grave. A febre é o sinal de que o corpo está lutando contra a proliferação bacteriana nas vias biliares. Os calafrios são intensos.

Dor Abdominal (Dor no Quadrante Superior Direito – QSD)

A dor ocorre na região do fígado e da vesícula biliar (hipocôndrio direito ou QSD). Esta dor é causada pelo aumento da pressão nos ductos biliares devido à obstrução e à inflamação.

Icterícia (Coloração Amarelada da Pele e dos Olhos)

Ocorre devido ao acúmulo de bilirrubina no sangue. A obstrução impede que a bilirrubina (o pigmento amarelo da bile) seja excretada normalmente, fazendo-a refluir para a corrente sanguínea.

Atenção de Enfermagem: A presença dessa tríade é suficiente para iniciar o tratamento empírico (baseado na suspeita) para a sepse e preparar o paciente para procedimentos de drenagem.

A Pentade de Reynolds: O Alerta Máximo

Em casos mais graves de colangite supurativa (onde há pus nas vias biliares), a infecção e a sepse evoluem para dois sinais adicionais, formando a Pentade de Reynolds:

  1. Febre
  2. Icterícia
  3. Dor no QSD
  4. Hipotensão Arterial (Pressão Baixa)
  5. Confusão Mental/Alteração do Estado Mental

A Pentade de Reynolds indica um quadro de choque séptico e exige drenagem imediata da via biliar.

Como a Tríade de Charcot se desenvolve?

A tríade de Charcot é um sinal de que uma infecção bacteriana está ocorrendo nas vias biliares, normalmente como consequência de uma obstrução biliar. Esse bloqueio pode ser causado por diversas condições, sendo as mais comuns:

  • Cálculos biliares (pedras na vesícula ou nas vias biliares)
  • Tumores (que podem obstruir o ducto biliar)
  • Estreitamento das vias biliares devido a processos inflamatórios

Quando ocorre essa obstrução, as bactérias que normalmente habitam o intestino podem ascender pelas vias biliares e se multiplicar, causando colangite.

Manifestação dos Sintomas da Tríade de Charcot

A tríade de Charcot se manifesta com os seguintes sintomas:

Dor no quadrante superior direito do abdômen:

A dor é intensa, geralmente no local onde se localiza a vesícula biliar. Ela pode irradiar para as costas e ombro direito, sendo frequentemente associada à sensação de distensão abdominal e mal-estar.

Icterícia:

A icterícia é a coloração amarelada da pele e das mucosas (principalmente na região dos olhos e da boca). Ela ocorre devido ao acúmulo de bilirrubina, uma substância normalmente eliminada pelo fígado. Quando há obstrução das vias biliares, a bilirrubina não consegue ser excretada e se acumula no sangue, causando a coloração amarelada.

Febre com calafrios:

A febre é uma resposta do corpo à infecção. Os calafrios ocorrem devido à elevação da temperatura corporal e são comuns nas infecções bacterianas agudas.

Diagnóstico da Tríade de Charcot

Embora a tríade de Charcot seja um forte indicativo de colangite, o diagnóstico definitivo é feito com base em uma combinação de exame físico, histórico clínico e exames complementares.

Exames laboratoriais:
O aumento de bilirrubina total e direta, leucocitose (aumento do número de glóbulos brancos) e fosfatase alcalina são indicadores de obstrução biliar e inflamação.

Ultrassonografia abdominal:
É o exame inicial para identificar obstruções, como cálculos biliares ou dilatação das vias biliares.

Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE):
Esse é o exame definitivo para diagnosticar e tratar obstruções nas vias biliares. Ele permite a remoção de cálculos e drenagem da bile.

Tratamento da Colangite e a Tríade de Charcot

O tratamento para a colangite aguda é uma emergência médica, e o manejo deve ser iniciado rapidamente. O objetivo é aliviar a obstrução das vias biliares e tratar a infecção.

Antibióticos

A terapia antibiótica de amplo espectro é iniciada imediatamente, geralmente com antibióticos que cobrem as bactérias mais comuns envolvidas na infecção, como Escherichia coli, Klebsiella, e Enterococcus. O regime antibiótico é ajustado conforme os resultados dos exames culturais.

Drenagem biliar

  • CPRE: Caso a causa da colangite seja a presença de cálculos biliares, a CPRE é utilizada tanto para diagnóstico quanto para remoção dos cálculos e drenagem das vias biliares.
  • Colecistectomia: Quando os cálculos estão presentes na vesícula biliar, a remoção da vesícula (colecistectomia) pode ser necessária.

Suporte clínico

Além da antibióticoterapia e drenagem, o paciente pode precisar de:

  • Fluidos intravenosos para manter a pressão arterial e hidratação
  • Analgésicos e antipiréticos para controle da dor e febre
  • Monitoramento contínuo para detectar sinais de septicemia ou falência de órgãos

Cuidados de Enfermagem no Manejo da Tríade de Charcot

O paciente com suspeita de Colangite Aguda, especialmente se apresentar a Tríade de Charcot, deve ser tratado como uma emergência de sepse:

  1. Monitoramento Hemodinâmico: Colocar o paciente em monitoramento contínuo de sinais vitais. Controlar rigorosamente a pressão arterial (PA) e a frequência cardíaca (FC). A queda da PA é um sinal de alerta da Pentade de Reynolds.
  2. Acessos Venosos e Coleta: Garantir acessos venosos calibrosos para hidratação e coletar culturas de sangue e outros exames laboratoriais (hemograma, bilirrubinas, enzimas hepáticas) imediatamente antes de iniciar a antibioticoterapia.
  3. Antibioticoterapia: Administrar o antibiótico intravenoso de amplo espectro prescrito na primeira hora após a suspeita clínica (Protocolo da Sepse).
  4. Controle de Sintomas: Oferecer conforto e segurança. Administrar antitérmicos e analgésicos conforme prescrição, enquanto se aguarda o tratamento definitivo (que é a descompressão biliar, geralmente realizada por Endoscopia – CPRE).
  5. Monitoramento Neurológico: Avaliar o nível de consciência. Qualquer sinal de confusão mental (Pentade de Reynolds) deve ser comunicado imediatamente ao médico, pois indica risco de morte.

A tríade de Charcot é um conjunto clássico de sinais que indicam uma colangite aguda, uma condição grave que exige atenção imediata. O reconhecimento precoce e a ação rápida, tanto do enfermeiro quanto da equipe médica, são cruciais para melhorar o prognóstico do paciente.

Com os cuidados adequados, a colangite pode ser tratada com sucesso, e o paciente pode se recuperar sem complicações graves. O papel da enfermagem, especialmente na observação dos sintomas e na gestão do suporte clínico, é essencial nesse processo.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA (SBG). Diretrizes para o Diagnóstico e Tratamento da Colangite Aguda. Disponível em: https://www.fbg.org.br/
  2. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre manejo da sepse e cuidados gastrointestinais).
  3. FERREIRA, R. L.; ALMEIDA, D. P. Doenças Hepatobiliares e o Tratamento da Colangite. São Paulo: Editora Manole, 2019.
  4. SILVA, M. R.; OLIVEIRA, A. A. Assistência de Enfermagem no Tratamento de Doenças Hepáticas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.
  5. GAMA, J. M.; LOPES, F. R. Manual de Patologias Abdominais para Enfermeiros. São Paulo: Ateneu, 2020.

Doença de Crohn: Entendendo a Doença Inflamatória Intestinal Imunomediada

A Doença de Crohn (DC) não é apenas uma “inflamação intestinal”; é uma condição crônica, complexa e imunomediada, onde o sistema imunológico, nosso protetor, se confunde e começa a atacar de forma persistente o próprio trato gastrointestinal (TGI).

Essa doença, que faz parte do grupo das Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs) — junto com a Retocolite Ulcerativa —, se manifesta de forma agressiva, causando dor, diarreia, desnutrição e uma série de complicações que afetam drasticamente a qualidade de vida.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, entender que o Crohn pode atingir qualquer parte do TGI, “da boca ao ânus,” e que seu manejo é a longo prazo, é crucial para oferecer um cuidado empático e tecnicamente rigoroso.

Vamos mergulhar na complexidade do Crohn e entender a simbologia por trás de sua cor.

O Que É a Doença de Crohn? 

A Doença de Crohn é uma inflamação crônica que se diferencia por duas características principais:

Transmural

 A inflamação atinge todas as camadas (transmural) da parede intestinal, e não apenas a camada mais superficial (mucosa), como na Retocolite Ulcerativa.

Segmentar e Descontínua

 A inflamação pode ocorrer em “manchas” ou segmentos separados por áreas de tecido saudável. Embora possa afetar qualquer parte do TGI, os locais mais comuns são o íleo terminal (porção final do intestino delgado) e o cólon.

O Mecanismo Autoimune

 A causa exata é desconhecida, mas envolve uma combinação de fatores genéticos, ambientais (como dieta e tabagismo) e uma resposta imunológica desregulada à flora bacteriana intestinal. O sistema imune interpreta a presença de bactérias comensais (normais) como uma ameaça e desencadeia uma reação inflamatória crônica.

Consequências

A inflamação constante leva a:

  • Estenoses: Estreitamento do intestino devido à cicatrização (fibrose).
  • Fístulas: Conexões anormais entre duas partes do intestino ou entre o intestino e a pele/outros órgãos, um desafio comum no cuidado perianal.
  • Má Absorção e Desnutrição: O dano ao intestino delgado, especialmente ao íleo, impede a absorção de nutrientes vitais, como a Vitamina B12.

Causas e Mecanismos Imunológicos

Ainda não se conhece uma causa única para o Crohn. Acredita-se que seja resultado de uma interação complexa entre fatores genéticos, imunológicos, ambientais e microbiológicos.

  1. Predisposição genética: indivíduos com histórico familiar têm risco aumentado.
  2. Sistema imunológico disfuncional: há uma resposta exacerbada das células imunes frente a bactérias intestinais inofensivas, levando à inflamação crônica.
  3. Fatores ambientais: tabagismo, dieta industrializada, estresse e uso de antibióticos na infância podem contribuir.
  4. Microbiota intestinal alterada: o desequilíbrio da flora intestinal (disbiose) parece ter papel importante na ativação da doença.

Por ser imunomediada, a doença de Crohn é considerada também autoimune, pois o sistema imunológico reage contra tecidos do próprio corpo, especialmente do intestino.

Sinais e Sintomas: O Que A Enfermagem Monitora

Os sintomas variam muito, mas os mais comuns incluem:

  • Dor Abdominal: Geralmente no quadrante inferior direito, de natureza cólica e persistente.
  • Diarreia Crônica: Muitas vezes sem sangue aparente.
  • Perda de Peso e Anemia: Devido à má absorção e à inflamação crônica.
  • Manifestações Extraintestinais: A inflamação pode afetar articulações (artrite), pele, olhos e fígado.
  • Sintomas Perianais: Fístulas, abscessos e fissuras perianais são extremamente comuns e dolorosos.

Durante os períodos de remissão, os sintomas diminuem ou desaparecem, mas podem retornar em momentos de crise, exigindo controle rigoroso.

Diagnóstico

O diagnóstico da doença de Crohn é clínico, laboratorial e por imagem. Envolve:

  • Endoscopia e colonoscopia com biópsia para identificar ulcerações e granulomas;
  • Exames de sangue (anemia, PCR e VHS elevados, deficiência de vitaminas);
  • Enterotomografia e ressonância magnética para avaliar complicações como fístulas ou abscessos;
  • Coprocultura e calprotectina fecal para diferenciar de outras causas de inflamação intestinal.

O diagnóstico precoce é fundamental para evitar complicações e iniciar o tratamento adequado.

Tratamento

O tratamento tem como objetivo reduzir a inflamação, controlar os sintomas e manter a remissão.

  • Corticosteroides (como budesonida e prednisolona): usados em fases agudas para controle da inflamação.
  • Imunossupressores (azatioprina, metotrexato): ajudam a reduzir a atividade do sistema imunológico.
  • Terapias biológicas (infliximabe, adalimumabe): bloqueiam moléculas inflamatórias específicas, como o TNF-alfa.
  • Antibióticos: usados quando há complicações infecciosas.
  • Cirurgia: indicada em casos de estenose, perfuração ou fístulas graves.

Além dos medicamentos, a dieta balanceada e o acompanhamento multiprofissional (enfermagem, nutrição, gastroenterologia e psicologia) são essenciais.

O Cuidado de Enfermagem: A Gestão da Crise e da Cronicidade

O manejo do Crohn é farmacológico (com imunossupressores, biológicos e corticoides), mas o cuidado de enfermagem é o pilar do suporte:

  1. Controle da Dor e Diarreia: Administrar medicamentos conforme prescrição e monitorar a eficácia. Ajudar o paciente a manter um diário alimentar para identificar gatilhos dietéticos.
  2. Suporte Nutricional: Muitos pacientes precisam de suplementação agressiva, incluindo ferro, cálcio, Vitamina D e, crucialmente, Vitamina B12 (devido à má absorção ileal). O enfermeiro orienta sobre a nutrição e monitora os sinais de desnutrição e anemia.
  3. Cuidados com Fístulas e Estomas: Pacientes com DC frequentemente passam por cirurgias. Se houver estoma (ileostomia ou colostomia), nosso cuidado na troca, limpeza e educação sobre o autocuidado é essencial. Se houver fístulas perianais, o manejo da dor, a higiene e a prevenção de infecção são prioridades.
  4. Adesão ao Tratamento Biológico: Muitos tratamentos envolvem medicamentos biológicos por via intravenosa ou subcutânea. O enfermeiro administra, monitora reações alérgicas e educa o paciente sobre a importância da adesão rigorosa para manter a remissão da doença.
  5. Apoio Psicossocial: Por ser uma doença crônica, imprevisível e que exige idas frequentes ao banheiro, o Crohn afeta a saúde mental. Oferecer escuta ativa e encaminhamento psicológico é parte integral do cuidado.

Por que a cor roxa representa as Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs)?

O roxo foi escolhido como cor simbólica das DIIs, incluindo a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, por representar dignidade, coragem e sensibilidade — características que refletem a luta diária das pessoas que convivem com essas doenças crônicas.

Além disso, o roxo também simboliza a união entre corpo e mente, remetendo à resiliência dos pacientes que enfrentam crises dolorosas, mudanças de rotina e tratamentos contínuos.

Essa escolha de cor é simbólica e representa uma combinação de fatores:

  • Visibilidade e Força: O roxo é uma cor forte, que chama a atenção, o que é essencial para dar visibilidade a doenças que são muitas vezes “invisíveis” ou mal compreendidas.
  • Combinação de Lutas: A cor púrpura é criada pela mistura de azul e vermelho, simbolizando a união de causas e a complexidade das DIIs, que afetam o bem-estar físico e emocional.
  • Realeza e Respeito: Historicamente, o roxo esteve ligado à realeza, e na conscientização da DII, ele evoca a necessidade de respeito e reconhecimento da seriedade da condição dos pacientes.

Todo dia 19 de maio é celebrado o Dia Mundial das Doenças Inflamatórias Intestinais (World IBD Day), com monumentos e prédios iluminados de roxo em várias partes do mundo, reforçando a importância da conscientização e empatia com quem vive com DII.

A doença de Crohn é um desafio tanto para o paciente quanto para os profissionais de saúde. Por ser uma condição autoimune e crônica, requer acompanhamento contínuo, tratamento individualizado e uma equipe de enfermagem preparada para oferecer assistência técnica e apoio emocional.

A informação, a empatia e o cuidado humanizado são pilares fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos portadores dessa condição e reduzir o impacto da doença na rotina diária.

Referências:

  1. DII BRASIL. Associação Nacional das Pessoas com Doenças Inflamatórias Intestinais. Disponível em: https://diibrasil.org.br/
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE COLOPROCTOLOGIA (SBCP). Doença de Crohn. Disponível em: https://www.sbcp.org.br/
  3. GRUPO DE ESTUDO DA DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL DO BRASIL (GEDIIB). Recomendações para o Diagnóstico e Tratamento da Doença de Crohn. Disponível em: http://gediib.org.br/
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Doenças Inflamatórias Intestinais. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude
  5. CROHN’S & COLITIS FOUNDATION. Understanding Crohn’s Disease. New York, 2022. Disponível em: https://www.crohnscolitisfoundation.org
  6. SOCIEDADE BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA. Doenças Inflamatórias Intestinais: diagnóstico e manejo. São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.sbgastro.org.br
  7.  ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Inflammatory Bowel Diseases Report. Geneva, 2021. Disponível em: https://www.who.int

Doenças intestinais: conhecendo os principais tipos

O intestino é um dos órgãos mais importantes e complexos do corpo humano. Ele participa da digestão, da absorção de nutrientes, da formação das fezes e ainda abriga grande parte do nosso sistema imunológico. Por isso, quando algo não vai bem no intestino, as consequências podem ser sentidas em todo o organismo.

As doenças intestinais são variadas e podem ter causas infecciosas, inflamatórias, anatômicas, autoimunes ou até tumorais. Conhecer os principais tipos, seus sinais clínicos e os cuidados de enfermagem é essencial para qualquer estudante ou profissional da área da saúde.

Nesta publicação, vamos abordar com clareza os principais tipos de doenças intestinais, desde os parasitas até o câncer colorretal.

Infecções e Invasores: Quando Micro-Organismos Causam Problemas

São as doenças mais comuns, muitas vezes agudas, que podem afetar o intestino.

Infecções Bacterianas:

    • O que são: Causadas por bactérias como Salmonella, Escherichia coli ou Shigella, geralmente por meio de alimentos ou água contaminados.
    • Sintomas: Diarreia, cólicas abdominais, febre, náuseas e vômitos. A gravidade varia muito, mas podem levar à desidratação.
    • Cuidados de Enfermagem: Focar na hidratação (soro de reidratação oral ou endovenosa em casos graves), monitorar sinais vitais e o balanço hídrico, orientar sobre higiene das mãos e preparo de alimentos.

Verminoses (Helmintíases):

    • O que são: Infecções causadas por vermes parasitas, como lombrigas (Ascaris lumbricoides) e tênias (Taenia solium). Transmissão por alimentos contaminados ou falta de saneamento básico.
    • Sintomas: Dor abdominal, diarreia, anemia, perda de peso e, em casos de Ascaris, tosse e eliminação do verme pelas fezes.
    • Cuidados de Enfermagem: Educar sobre higiene, saneamento básico e o tratamento medicamentoso. Orientar sobre o preparo correto dos alimentos e a importância da lavagem das mãos.

Condições Inflamatórias: A Guerra Interna

Aqui, o sistema imunológico tem um papel central, causando inflamação crônica do intestino.

Colite:

    • O que é: Inflamação do cólon (intestino grosso). Pode ser causada por infecções, isquemia, uso de medicamentos, ou doenças autoimunes como a Retocolite Ulcerativa.
    • Sintomas: Dor abdominal, diarreia, urgência para evacuar, sangramento retal.
    • Cuidados de Enfermagem: Controlar a dor, monitorar sangramento, orientar sobre o uso de medicamentos (anti-inflamatórios, imunossupressores) e apoiar o paciente no manejo de uma doença crônica.

Doença de Crohn:

    • O que é: Outra doença inflamatória intestinal (DII), mas que pode afetar qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus, de forma segmentada.
    • Sintomas: Diarreia, dor abdominal intensa, perda de peso, febre, fadiga e, em alguns casos, lesões perianais.
    • Cuidados de Enfermagem: Acompanhamento nutricional, monitoramento dos sintomas, educação sobre a doença e sobre os medicamentos imunossupressores e biológicos.

Síndrome do Intestino Irritável (SII):

    • O que é: Um distúrbio funcional do intestino. Não causa inflamação ou danos ao órgão, mas altera sua motilidade.
    • Sintomas: Dor e desconforto abdominal, inchaço, diarreia e/ou constipação, que melhoram após a evacuação. Os sintomas variam e são muito influenciados pelo estresse.
    • Cuidados de Enfermagem: Focar no apoio psicológico e na educação. Orientar sobre o manejo do estresse, dietas específicas (como a FODMAP) e a importância de manter um diário alimentar.

Obstáculos e Tumores: Quando a Passagem é Bloqueada ou Alterada

Essas condições alteram a anatomia e a função do intestino, podendo ser agudas ou crônicas.

Apendicite:

    • O que é: Inflamação do apêndice, um pequeno órgão em forma de dedo ligado ao intestino grosso.
    • Sintomas: Dor que começa ao redor do umbigo e se move para o lado inferior direito do abdômen, febre, náuseas e perda de apetite. É uma emergência cirúrgica!
    • Cuidados de Enfermagem: Avaliar a dor (usando escalas), monitorar sinais vitais, preparar o paciente para a cirurgia (jejum, acesso venoso) e oferecer cuidados no pós-operatório (controle da dor, deambulação precoce).

Aderências Intestinais:

    • O que são: Bandas de tecido cicatricial que se formam após cirurgias abdominais, traumas ou infecções.
    • Sintomas: Podem ser assintomáticas ou causar obstrução intestinal, levando a dor abdominal tipo cólica, inchaço, náuseas e vômitos.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar sinais de obstrução intestinal, oferecer cuidados de conforto e, no pós-operatório, monitorar a ferida cirúrgica e incentivar a deambulação.

Pólipos Intestinais:

    • O que são: Crescimentos de tecido na parede interna do intestino. A maioria é benigna, mas alguns podem se tornar cancerosos.
    • Sintomas: Geralmente assintomáticos, mas podem causar sangramento retal ou alterações nos hábitos intestinais.
    • Cuidados de Enfermagem: Educar sobre a importância do rastreamento (colonoscopia) e da remoção dos pólipos. Preparar o paciente para exames e procedimentos.

Câncer Colorretal:

    • O que é: O crescimento de células malignas no cólon ou no reto.
    • Sintomas: Sangramento nas fezes, anemia, alteração nos hábitos intestinais, dor abdominal, perda de peso.
    • Cuidados de Enfermagem: Atuar na prevenção (educação sobre colonoscopia de rastreamento), no suporte ao paciente durante o tratamento (quimioterapia, radioterapia, cirurgia) e no cuidado de estomas (ostomias), se necessário.

Problemas Vasculares e Anorretais

Estas condições afetam as veias e a passagem final do trato intestinal.

Hemorroidas:

    • O que são: Veias inchadas e inflamadas no ânus e na parte inferior do reto.
    • Sintomas: Sangramento indolor, coceira, dor e, em casos mais graves, a presença de uma protuberância no ânus.
    • Cuidados de Enfermagem: Educar sobre hábitos intestinais saudáveis (dieta rica em fibras, hidratação), evitar esforço excessivo para evacuar e orientar sobre banhos de assento com água morna para alívio.

Diverticulite:

    • O que é: Inflamação dos divertículos, que são pequenas bolsas na parede do cólon.
    • Sintomas: Dor abdominal no lado esquerdo inferior, febre, calafrios, náuseas e alteração do ritmo intestinal.
    • Cuidados de Enfermagem: Focar no controle da dor, administrar antibióticos e, em casos mais leves, orientar sobre uma dieta líquida. Em casos graves, preparar para a cirurgia.

Nosso Papel Crucial: Acolher, Educar e Cuidar

O intestino é um reflexo de muitos aspectos da nossa vida, da alimentação ao estresse. Como profissionais de enfermagem, nossa atuação vai muito além de procedimentos técnicos. Somos os educadores, os ouvintes e os defensores do paciente.

  • Anamnese Detalhada: Questionar sobre hábitos intestinais, dieta, uso de medicamentos e histórico familiar é o primeiro passo para identificar um problema.
  • Avaliação Holística: Observar a aparência do paciente, seu nível de dor, seus sinais vitais e o estado do abdômen (distensão, ruídos intestinais).
  • Educação em Saúde: Explicar a importância da fibra, da água, do exercício físico e do rastreamento de câncer.
  • Suporte Emocional: Muitas doenças intestinais, especialmente as crônicas, causam grande impacto psicológico. Oferecer um ombro amigo e encaminhar para apoio psicológico é fundamental.

Entender as doenças intestinais é entender uma parte fundamental da saúde humana. Com nosso conhecimento, podemos ser a bússola que guia o paciente para o diagnóstico, o tratamento e a recuperação, garantindo que o universo intestinal funcione em harmonia.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas: Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-pcdt/arquivos/2021/pcdt-doenca-de-crohn-e-retocolite-ulcerativa.pdf
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE COLOPROCTOLOGIA (SBCP). Doenças Intestinais. Disponível em: https://www.sbcp.org.br/
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulos sobre avaliação gastrointestinal e cuidados de enfermagem).

Fecaloma: O que é?

No cotidiano da assistência em saúde, especialmente em pacientes com mobilidade reduzida, idosos ou portadores de certas condições neurológicas, um problema intestinal pode se manifestar de forma silenciosa, mas com consequências significativas: o fecaloma.

Compreender o que é essa condição, seus fatores de risco, sinais de alerta e, principalmente, os cuidados de enfermagem essenciais, é crucial para prevenir complicações e promover o bem-estar dos nossos pacientes. Vamos juntos explorar os detalhes desse acúmulo fecal impactante.

O Que Exatamente é um Fecaloma? Uma Massa Endurecida no Intestino

Imagine o intestino grosso, responsável por processar os resíduos da digestão e formar as fezes. Em condições normais, essas fezes são eliminadas regularmente. No entanto, em algumas situações, as fezes podem se tornar ressecadas, compactadas e formar uma massa endurecida e volumosa dentro do reto ou do cólon sigmoide. Essa massa é o que chamamos de fecaloma.

Sua consistência pétrea dificulta ou impede a eliminação natural, causando um quadro de constipação severa e podendo levar a complicações importantes se não tratado adequadamente. O fecaloma não é apenas um “bolo de fezes endurecido”; ele pode exercer pressão sobre a parede intestinal, comprometer o fluxo sanguíneo local e até mesmo causar obstrução intestinal.

Quem Está Mais Suscetível? Fatores de Risco para o Desenvolvimento do Fecaloma

Embora possa ocorrer em qualquer idade, o fecaloma é mais comum em certos grupos de pacientes que apresentam fatores de risco específicos:

Idosos

Com o envelhecimento, ocorrem diversas alterações fisiológicas que podem contribuir para a constipação crônica, como a diminuição da motilidade intestinal (os movimentos que impulsionam as fezes), menor ingestão de líquidos, dieta pobre em fibras e o uso de certas medicações.

Pacientes com Mobilidade Reduzida ou Imobilizados

A falta de atividade física regular contribui significativamente para a lentidão do trânsito intestinal. Pacientes acamados, cadeirantes ou com limitações severas de movimento têm maior propensão a desenvolver fecaloma.

Pacientes com Condições Neurológicas

Certas condições neurológicas, como lesões medulares, esclerose múltipla, doença de Parkinson e acidente vascular cerebral (AVC), podem afetar o controle da função intestinal, levando à constipação e ao risco de fecaloma.

Pacientes com Distúrbios Psiquiátricos

Alguns transtornos psiquiátricos e o uso de certas medicações psicotrópicas podem alterar a motilidade intestinal e aumentar o risco de constipação crônica.

Pacientes em Uso de Certas Medicações

Diversos medicamentos podem ter como efeito colateral a constipação, incluindo opioides (analgésicos fortes), anticolinérgicos, alguns antidepressivos, antiácidos à base de alumínio e ferro.

Desidratação Crônica

A ingestão insuficiente de líquidos leva à desidratação das fezes no intestino, tornando-as mais ressecadas e difíceis de serem eliminadas.

Impactação Fecal Prévia

Pacientes que já tiveram episódios de impactação fecal (acúmulo de fezes que não evolui para fecaloma, mas causa dificuldade na evacuação) têm maior risco de desenvolver fecaloma no futuro.

Sinais de Alerta: Como Identificar um Fecaloma

A identificação precoce do fecaloma é crucial para evitar complicações. Os sinais e sintomas podem variar, mas alguns dos mais comuns incluem:

Constipação Severa e Persistente

Uma diminuição drástica na frequência das evacuações, com fezes endurecidas e dificuldade extrema para eliminar.

Dor e Desconforto Abdominal

Dor abdominal difusa ou localizada, sensação de peso ou plenitude abdominal.

Distensão Abdominal

Aumento do volume abdominal, sensação de inchaço.

Eliminação Fecal Líquida ou Semissólida (Enurese Fecal)

Paradoxalmente, pode ocorrer a eliminação de fezes líquidas ou semissólidas, que conseguem passar ao redor da massa endurecida do fecaloma, simulando diarreia.

Tenesmo

Sensação constante e dolorosa de necessidade de evacuar, mesmo após a tentativa.

Náuseas e Vômitos

Em casos mais avançados, a pressão do fecaloma pode levar a náuseas e vômitos.

Alterações no Estado Mental

Em idosos, especialmente, a impactação fecal severa pode contribuir para confusão mental, agitação ou letargia.

O Papel Essencial da Enfermagem: Cuidados Abrangentes no Fecaloma

O cuidado de enfermagem no fecaloma abrange desde a prevenção até o tratamento e o acompanhamento do paciente. Nossa atuação é fundamental para aliviar o desconforto, restaurar a função intestinal e prevenir recorrências.

Avaliação Detalhada

Realizar uma anamnese completa, investigando o histórico de hábitos intestinais do paciente, uso de medicações, dieta, ingestão de líquidos, nível de atividade física e presença de condições médicas preexistentes. Realizar um exame físico abdominal completo, incluindo inspeção, ausculta, percussão e palpação, buscando sinais de distensão, dor e a presença de massa palpável.

Monitorização dos Sinais e Sintomas

Acompanhar de perto a frequência e as características das evacuações, a presença e intensidade da dor abdominal, a ocorrência de náuseas e vômitos, e quaisquer alterações no estado geral do paciente.

Implementação de Medidas Não Farmacológicas

  • Aumento da Ingestão de Líquidos: Incentivar a ingestão adequada de água e outros líquidos para ajudar a amolecer as fezes.
  • Aumento da Ingestão de Fibras: Promover uma dieta rica em fibras (frutas, verduras, legumes, grãos integrais) para aumentar o volume das fezes e facilitar o trânsito intestinal, sempre que a condição do paciente permitir.
  • Incentivo à Mobilização: Estimular a atividade física regular, dentro das limitações do paciente, para promover a motilidade intestinal.
  • Estabelecimento de Rotina Intestinal: Auxiliar o paciente a estabelecer uma rotina regular para tentar evacuar, preferencialmente após as refeições, quando o reflexo gastrocólico está mais ativo.
  • Posicionamento Adequado: Auxiliar o paciente a adotar uma postura adequada no vaso sanitário ou no comadre, que facilite a evacuação (elevar os pés pode ajudar).

Administração de Medidas Farmacológicas (Sob Prescrição Médica)

  • Laxantes Orais: Administrar laxantes formadores de massa, emolientes, osmóticos ou estimulantes conforme a prescrição médica, observando a resposta do paciente e possíveis efeitos colaterais.
  • Supositórios e Enemas: A administração de supositórios de glicerina ou bisacodil, ou de enemas (água morna, solução salina, fosfato), pode ser necessária para tentar amolecer e facilitar a eliminação do fecaloma. A técnica de administração do enema deve ser realizada com cuidado para evitar lesões.

Remoção Manual do Fecaloma (Impacção Fecal)

Em casos de fecaloma volumoso e endurecido que não responde a outras medidas, a remoção manual pode ser necessária. Esse procedimento deve ser realizado com extrema cautela, seguindo o protocolo institucional e, idealmente, com a prescrição e supervisão médica. Envolve a introdução delicada de dedos lubrificados no reto para fragmentar e remover a massa fecal. É um procedimento desconfortável e pode causar dor, sangramento e estimulação vagal (levando à bradicardia e hipotensão). Monitorização dos sinais vitais antes, durante e após o procedimento é essencial.

Cuidados com a Pele Perianal

A eliminação frequente de fezes líquidas ao redor do fecaloma pode causar irritação e lesões na pele perianal. Realizar higiene perineal meticulosa após cada episódio de incontinência, utilizando produtos suaves e aplicando cremes de barreira para proteger a pele.

Educação do Paciente e da Família

Orientar o paciente e seus familiares sobre as causas do fecaloma, a importância da prevenção através de hábitos intestinais saudáveis (ingestão de líquidos e fibras, atividade física), o uso correto de laxantes (se prescritos) e os sinais de alerta para recorrência.

Monitoramento e Prevenção de Recorrências

Após a resolução do fecaloma, é crucial implementar estratégias para prevenir novos episódios, identificando e abordando os fatores de risco individuais do paciente. Isso pode envolver a manutenção de uma rotina intestinal regular, ajuste da dieta e da ingestão de líquidos, revisão da medicação e, em alguns casos, o uso regular de laxantes suaves sob orientação médica.

O fecaloma, embora muitas vezes subestimado, pode ter um impacto significativo na qualidade de vida e na saúde dos nossos pacientes. A atenção diligente da equipe de enfermagem, desde a identificação dos fatores de risco até a implementação de cuidados individualizados e a educação do paciente, é fundamental para prevenir, tratar e evitar a recorrência dessa condição.

Referências:

  1. Huff, J. S., &っておくべきこと, P. (2023). Fecal Impaction. In StatPearls. StatPearls Publishing. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK431093/
  2. Wald, A. (2020). Approach to chronic constipation in adults. UpToDate. Retrieved from https://www.uptodate.com/contents/approach-to-chronic-constipation-in-adults
  3. National Institute on Aging. (2023). Constipation. https://www.nia.nih.gov/health/constipation

Insuficiência hepática

A Insuficiência Hepática consiste na consequência clínica mais grave da doença hepática.Ela pode ser o resultado da necrose hepática súbita e maciça (insuficiência hepática fulminante), ou, mais frequentemente, representa o estágio final de uma lesão crônica progressiva do fígado.

A doença hepática em estágio terminal pode ocorrer por destruição insidiosa dos hepatócitos ou por ondas distintas e repetitivas de lesão parenquimatosa.

Qualquer que seja a sequência, 80% a 90% da capacidade funcional hepática deve ser perdida antes que a insuficiência hepática ocorra.

Quando o fígado já não consegue manter a homeostase corporal, o transplante hepático oferece melhor esperança de sobrevida; a mortalidade da insuficiência hepática sem transplante de fígado corresponde a aproximadamente 80%.

Categorias

  1. Insuficiência hepática aguda: definida como uma doença hepática aguda que está associada a encefalopatia dentro de 6 meses após o diagnóstico inicial. A condição é conhecida como insuficiência hepática fulminante quando a encefalopatia se desenvolve dentro de 2 semanas após o início de icterícia; e como insuficiência hepática subfulminante, quando a encefalopatia se desenvolve dentro de 3 meses após o início de icterícia. A insuficiência hepática aguda é causada por necrose hepática maciça, na
    maioria das vezes induzida por drogas ou toxinas. A ingestão acidental ou deliberada de acetaminofeno é responsável por quase 50% dos casos nos Estados Unidos. A exposição ao halotano, medicamentos antimicobacterianos (rifampicina, isoniazida), antidepressivos inibidores da enzima monoamina oxidase, agentes químicos industriais como o tetracloreto de carbono e o envenenamento por cogumelos (Amanita phalloides) coletivamente são responsáveis por outros 14% dos casos. A infecção pelo vírus da hepatite A representa um adicional de 4% dos casos, e a infecção pelo vírus da hepatite B de 8%. Hepatite autoimune e causas desconhecidas (15% dos casos) explicam os casos restantes. A infecção pelo vírus da hepatite C apenas raramente causa necrose hepática maciça. O mecanismo da necrose hepatocelular pode consistir em dano tóxico direto (p. ex., acetaminofeno, toxinas de cogumelos); porém, na maioria das vezes, consiste em uma combinação variável de toxicidade e destruição de hepatócitos mediada imunologicamente (p. ex., infecção viral).
  2. Doença hepática crônica: é a via mais comum para a insuficiência hepática e constitui o ponto final de uma hepatite crônica inexorável culminando com cirrose.
  3. Disfunção hepática sem necrose evidente (situação muito mais rara) – embora os hepatócitos sejam viáveis, encontram-se incapazes de desempenhar sua função metabólica normal; p.ex. fígado gorduroso agudo da gravidez, toxicidade pela tetraciclina.

A Hipoglicemia na Insuficiência Hepática

É uma condição em que o nível de glicose no sangue fica abaixo do normal devido à diminuição da capacidade do fígado de produzir, armazenar e liberar glicose.

O fígado é o principal órgão responsável pelo metabolismo da glicose e, quando está danificado, pode afetar a regulação da glicemia.

Pode causar sintomas como confusão mental, tremores, sudorese, palpitações e até coma. Podendo ser causada por diversas situações, como infecções virais, uso de medicamentos, cirurgia bariátrica, tumores pancreáticos ou autoimunidade.

O diagnóstico é feito por meio de exames de sangue que mostram alterações nos níveis de glicose, bilirrubina, albumina, transaminases e tempo de protrombina.

O tratamento depende da causa e da gravidade da hipoglicemia e pode incluir a administração de glicose por via oral ou intravenosa, além de medidas para corrigir a insuficiência hepática.

Outros aspectos clínicos

Os sinais clínicos de insuficiência hepática são basicamente os mesmos, independentemente da causa, e são o resultado da incapacidade dos hepatócitos executarem suas funções homeostáticas.

  1. Icterícia – é um achado quase invariável;
  2. Hipoalbuminemia – predispõe ao edema periférico;
  3. Hiperamonemia – desempenha papel importante na disfunção cerebral (encefalopatia hepática);
  4. Fetor hepaticus – trata-se de um odor corporal característico descrito como “bolorento” ou “agridoce”. Está relacionado à formação de mercaptanos pela ação das bactérias gastrointestinais sobre o aminoácido metionina, que contém enxofre, e ao desvio do sangue esplâncnico da circulação portal para a sistêmica (shunt portossistêmico).
  5. Angiomas aracneiformes cutâneos e eritema palmar – reflete provavelmente o prejuízo do metabolismo estrogênico e a consequente hiperestrogenemia. Cada angioma consiste em uma arteríola dilatada, central, pulsante, a partir da qual são irradiados pequenos vasos, enquanto o eritema palmar é reflexo da vasodilatação local. No sexo masculino, a hiperestrogenemia também provoca hipogonadismo e ginecomastia.
  6. Coagulopatia – atribuída a um prejuízo da síntese hepática de vários fatores de coagulação sanguínea. Esses defeitos podem causar um sangramento gastrointestinal maciço. A absorção intestinal do sangue gera uma carga metabólica adicional para o fígado, o que agrava o grau da insuficiência hepática.

A insuficiência hepática envolve importante risco à vida porque, com uma função hepática gravemente prejudicada, os pacientes ficam muito susceptíveis à encefalopatia hepática e à falência de múltiplos sistemas orgânicos. Uma rápida deterioração do estado clínico é o usual, e a morte sobrevém dentro de semanas a poucos meses.

Poucos pacientes sobrevivem aos episódios agudos de insuficiência hepática, uma vez que a função hepática pode ser restaurada por meio de regeneração hepatocelular quando o fígado não apresenta fibrose avançada. O TRANSPLANTE DE FÍGADO É A ÚNICA OPÇÃO DE TRATAMENTO DA INSUFICIÊNCIA HEPÁTICA.

Complicações Hepáticas

Três complicações particulares associadas à insuficiência hepática merecem uma consideração separada, uma vez que têm implicações graves.

ENCEFALOPATIA HEPÁTICA

Manifestada por um espectro de perturbações da consciência, variando de anormalidades comportamentais sutis, passando por confusão acentuada e estupor, até coma profundo e
morte. Essas alterações podem progredir durante horas ou dias na insuficiência hepática aguda ou mais insidiosamente numa pessoa com função hepática marginal decorrente de doença hepática crônica.

Os sinais neurológicos flutuantes associados incluem rigidez, hiperreflexia e asterixe: movimentos de extensão-flexão rápidos e não ritmados da cabeça e das extremidades, observados mais facilmente quando os braços são mantidos em extensão com os punhos em dorsoflexão. A encefalopatia hepática é compreendida como um distúrbio da neurotransmissão no sistema nervoso central e no sistema neuromuscular e parece estar associada à elevação dos níveis de AMÔNIA no sangue e no sistema nervoso central, o que prejudica a função neuronal e promove edema cerebral generalizado.

Na maioria dos casos, existem apenas alterações morfológicas mínimas no cérebro, como tumefação de astrócitos. A encefalopatia é reversível se a condição hepática subjacente puder ser corrigida.

SÍNDROME HEPATORRENAL

Refere-se ao aparecimento de insuficiência renal em indivíduos com doença hepática crônica grave, nos quais não existem causas morfológicas ou funcionais intrínsecas para a
insuficiência renal.

Retenção de sódio, prejuízo da excreção de água livre e diminuição da perfusão renal e da taxa de filtração glomerular constituem as principais anormalidades funcionais renais. A incidência desta síndrome corresponde a aproximadamente 8% por ano entre pacientes que apresentam cirrose e ascite.

Vários fatores estão envolvidos no seu desenvolvimento, incluindo diminuição da pressão de perfusão renal devido à vasodilatação sistêmica, ativação do sistema nervoso simpático renal com vasoconstrição das arteríolas renais aferentes e maior síntese de mediadores vasoativos renais, que diminuem ainda mais a filtração glomerular.

O início desta síndrome é anunciado pela queda do débito urinário associada a uma elevação dos níveis de ureia e creatinina no sangue. O prognóstico é ruim, com uma sobrevida mediana de apenas duas semanas na forma de início rápido, e de seis meses na forma de início insidioso. O tratamento de escolha é o transplante de fígado.

SÍNDROME HEPATOPULMONAR

Caracterizada pela tríade clínica: doença hepática crônica, hipoxemia e dilatações vasculares intrapulmonares (DVIP). Clinicamente, os pacientes podem apresentar redução da saturação arterial de oxigênio e aumento da dispneia ao passarem da posição supina para a ereta.

A maioria dos pacientes responde à terapia com oxigênio, embora o transplante de fígado seja o único tratamento curativo.

Referências:

  1. Robbins & Cotran, PATOLOGIA – Bases Patológicas das Doenças, 8ª ed., Editora Elsevier, 2010, 1458 p
  2. https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/distúrbios-hepáticos-e-biliares/abordagem-ao-paciente-com-doença-hepática/insuficiência-hepática-aguda

Hidrocolonterapia

A Hidrocólon, conhecida também como Hidrocolonterapia ou Hidroterapia do Cólon, é uma limpeza completa do cólon (intestino grosso), através de um banho suave com água morna, previamente filtrada e purificada.

Trata-se de um procedimento terapêutico – realizado através de um equipamento específico – que envia água sem drogas ou produtos químicos, desde o reto até o apêndice.

Como funciona?

O paciente fica deitado de forma confortável enquanto a água percorre o Cólon limpando todos os detritos. Com a participação das massagens do profissional, o peristaltismo intestinal é estimulado a colocar para fora os resíduos por meio de uma mangueira à cânula.

Este sistema evita odores desagradáveis e preserva a dignidade do paciente, que permanece em uma posição cômoda em uma maca, enquanto os resíduos acumulados no intestino grosso são eliminados, através de material descartável evitando qualquer possibilidade de contaminação. Esta limpeza é completamente segura, indolor, benéfica e não tóxica.

O procedimento para a sessão da Hidrocolonterapia conta com um sistema fechado de lavagem intestinal, com monitorização de temperatura, pressão e volume.

O visor do aparelho permite observar os conteúdos intestinais eliminados, facilitando o acompanhamento de cada paciente. O número e a frequência das sessões de Hidrocolonterapia dependem da situação de cada paciente. Após a sessão, é feita uma reposição de lactobacilos.

Indicações da Terapia

É indicado para pessoas submetidas a tratamentos com medicinas biológicas, terapias de reativação química e de regeneração orgânica e celular. Com relação à idade, a hidrocólon pode ser feita em crianças a partir dos nove anos, adolescentes, homens e mulheres, adultos ou idosos.

Contra Indicações

  • Enfermidades cardíacas severas;
  • Hipertensão arterial não controlada;
  • Aneurisma;
  • Hemorragia ou perfuração do trato intestinal;
  • Hemorróidas severas;
  • Carcinoma de cólon;
  • Fístulas e fissuras no cólon;
  • Gravidez a partir dos 4 meses;
  • Insuficiência renal;
  • Cirurgia recente do cólon.

Frequência da Terapia

Para um processo de desintoxicação do intestino grosso, são necessárias de 3 a 5 sessões. Para processos pré-cirúrgicos são recomendadas 3 sessões.

Para eliminação das placas (fezes negras antigas e mucos que ficam acumulados e aderidos nas paredes e vilosidades intestinais), são necessárias aproximadamente 10 sessões.

As sessões de hidrocólon duram cerca de 40 minutos e são seguidas por enemas de retenção (irrigação do cólon com fitoterápicos) e compressas abdominais de argila, que auxiliam no procedimento.

No final de cada sessão é feita uma renovação da flora intestinal. Uma sessão completa dura 1 hora e 30 minutos. Os demais procedimentos também têm duraçao de aproximadamente 1 hora e 30 minutos cada sessão.

A mangueira utilizada é transparante, o que possibilita à pessoa poder acompanhar a sua evolução e a necessidade de outras sessões, de acordo com a cor, consistência e aspecto das fezes.

Dependendo do número de sessões realizadas e dos hábitos alimentares, a pessoa refaz o procedimento no período de 6 meses a 1 ano ou realiza algumas manutenções quando achar necessário.

Referência:

  1. Hidrocolon – Colonterapia

Pancreatite: Sinais

A pancreatite aguda é uma inflamação do pâncreas que pode ser causada por diversos fatores, sendo os mais comuns os cálculos biliares e o consumo de álcool.

Em alguns casos, a pancreatite aguda pode ser grave e levar à necrose, hemorragia e infecção do pâncreas e dos tecidos adjacentes.

Os Sinais

Nesses casos, podem surgir sinais de extravasamento de sangue para a cavidade abdominal, como o sinal de Cullen e o sinal de Grey-Turner.

O sinal de Cullen é uma equimose periumbilical, ou seja, um hematoma na região do umbigo.

O sinal de Grey-Turner é uma equimose nos flancos, ou seja, um hematoma nas laterais do abdome.

Esses sinais aparecem 24 a 48 horas após a ruptura do pâncreas e indicam um prognóstico desfavorável, com alta taxa de mortalidade.

Diagnóstico

O diagnóstico da pancreatite aguda é feito pela avaliação clínica, dosagem de enzimas pancreáticas no sangue e exames de imagem. O tratamento é baseado em hidratação, analgesia e suporte nutricional.

Alguns Cuidados

  • Monitorar sinais vitais e sinais de choque ou peritonite;
  • Avaliar características da pele e mucosas, especialmente em relação à icterícia;
  • Manter o paciente em jejum absoluto e hidratado por via parenteral;
  • Administrar medicamentos conforme prescrição médica, como analgésicos, antieméticos, antibióticos e insulina;
  • Prevenir complicações como infecções, hemorragias, necrose ou pseudocistos pancreáticos;
  • Orientar o paciente sobre a dieta adequada, a abstinência alcoólica e o acompanhamento médico regular.

Referências:

  1. De Campos T, Parreira JG, Utiyama E, Rasslan S. Pesquisa nacional sobre condutas na pancreatite aguda. Rev Col Bras Cir [Internet]. 2008Sep;35(5):304–10. Available from: https://doi.org/10.1590/S0100-69912008000500006

Hipertensão Portal

A hipertensão portal é uma condição médica caracterizada por um aumento anormal da pressão sanguínea nas veias que transportam o sangue do intestino para o fígado. Essa veia principal, chamada de veia porta, funciona como uma “estrada” para o sangue rico em nutrientes absorvidos durante a digestão.

Quando essa pressão aumenta, o sangue encontra dificuldades para fluir normalmente, levando ao desenvolvimento de diversas complicações.

Quais são as causas da hipertensão portal?

A causa mais comum da hipertensão portal é a cirrose hepática. A cirrose é uma doença crônica do fígado que leva à formação de tecido cicatricial, dificultando o fluxo sanguíneo. Outras causas incluem:

  • Esquistossomose: Infecção parasitária que pode levar à obstrução das veias do fígado.
  • Obstrução da veia porta: Coágulos sanguíneos ou tumores podem bloquear o fluxo sanguíneo na veia porta.
  • Doenças congênitas: Defeitos presentes desde o nascimento podem afetar a estrutura das veias portais.

Quais são os sintomas da hipertensão portal?

Em estágios iniciais, a hipertensão portal pode não apresentar sintomas. No entanto, à medida que a doença progride, podem surgir:

  • Varizes esofágicas: Veias dilatadas no esôfago, que podem romper e causar sangramentos graves.
  • Ascite: Acúmulo de líquido na cavidade abdominal, causando inchaço abdominal.
  • Esplenomegalia: Aumento do baço.
  • Encefalopatia hepática: Confusão mental e alterações no comportamento devido ao acúmulo de substâncias tóxicas no sangue.
  • Icterícia: Amarelamento da pele e dos olhos.

Como a hipertensão portal é diagnosticada?

O diagnóstico da hipertensão portal é feito através de:

  • Exame físico: O médico avalia o abdômen, à procura de sinais de ascite e esplenomegalia.
  • Exames de sangue: Avaliam a função hepática e a presença de coagulopatias.
  • Ultrassonografia: Permite visualizar o fígado, o baço e as veias portais.
  • Endoscopia: Permite visualizar as varizes esofágicas e realizar procedimentos para tratá-las.

Qual é o tratamento da hipertensão portal?

O tratamento da hipertensão portal visa controlar os sintomas e complicações, e pode incluir:

  • Medicamentos: Para controlar o sangramento, reduzir a pressão portal e tratar a encefalopatia hepática.
  • Procedimentos endoscópicos: Para ligar as varizes esofágicas e prevenir sangramentos.
  • Transplante de fígado: Em casos avançados, o transplante de fígado é a única opção curativa.

Qual é a importância de um diagnóstico precoce?

O diagnóstico precoce da hipertensão portal é fundamental para iniciar o tratamento adequado e prevenir complicações graves, como sangramentos e encefalopatia hepática.

Cuidados de Enfermagem na Hipertensão Portal

A hipertensão portal exige cuidados de enfermagem especializados e contínuos, visando o controle dos sintomas, a prevenção de complicações e a promoção da melhor qualidade de vida do paciente.

Objetivos dos cuidados de enfermagem:

  • Monitorar e controlar os sinais vitais e os sintomas da doença.
  • Prevenir e identificar complicações, como hemorragias digestivas e encefalopatia hepática.
  • Promover o conforto e o bem-estar do paciente.
  • Educar o paciente e a família sobre a doença, o tratamento e os cuidados necessários.

Cuidados específicos:

  • Monitorização:
    • Sinais vitais: pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e temperatura.
    • Peso diário: para monitorar a ascite.
    • Abdômen: avaliar o tamanho e a sensibilidade, presença de ascite e distensão.
    • Icterícia: observar a coloração da pele e das mucosas.
    • Nível de consciência: avaliar a orientação, memória e atenção.
    • Deglutição: observar se há dificuldade em engolir.
    • Fezes: verificar a presença de sangue.
  • Prevenção de complicações:
    • Hemorragia digestiva: evitar atividades que aumentem a pressão abdominal, como esforço físico intenso e alimentos irritantes. Monitorar as fezes e o vômito quanto à presença de sangue.
    • Encefalopatia hepática: monitorar o nível de consciência, a função cognitiva e o comportamento do paciente.
    • Infecções: promover a higiene das mãos e monitorar sinais de infecção, como febre e calafrios.
  • Promoção do conforto:
    • Posição: manter o paciente em posição semi-sentada para facilitar a respiração e reduzir a pressão abdominal.
    • Alimentação: oferecer dieta rica em proteínas de alto valor biológico, pobre em sódio e restrita em líquidos, conforme orientação médica.
    • Higiene: realizar higiene corporal completa e troca de roupas de cama regularmente.
  • Educação:
    • Explicar a doença e o tratamento de forma clara e objetiva.
    • Ensinar o paciente e a família a reconhecer os sinais de alerta e a importância do acompanhamento médico.
    • Orientar sobre a importância de uma dieta equilibrada, da prática de atividade física regular e do controle do peso.

Outras medidas importantes:

  • Administração de medicamentos: conforme prescrição médica, para controlar a pressão portal, prevenir sangramentos e tratar outras complicações.
  • Coleta de exames: realizar exames de sangue e outros conforme indicação médica para monitorar a evolução da doença e a eficácia do tratamento.
  • Preparo para procedimentos: auxiliar o paciente nos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, como endoscopia e paracentese.

O papel do enfermeiro

O enfermeiro desempenha um papel fundamental na assistência ao paciente com hipertensão portal. Através da observação atenta, da comunicação eficaz e da implementação de cuidados individualizados, ele contribui para a melhoria da qualidade de vida e para o aumento da sobrevida desses pacientes.

Referências:

  1. Abraldes JG, Tarantino I, Turnes J, Garcia-Pagan JC, Rodes J, Bosch J. Hemodynamic response to pharmacological treatment of portal hypertension and long-term prognosis of cirrhosis. Hepatology. 2003;37:902-8.
  2. Kawamoto, E.E.. Hipertensão portal decorrente da esquistossomose: aspectos da assistência de enfermagem. Rev. Bras. Enf.; DF, 31 : 215-221, 1978.

Doença de Hirschsprung

A aganglionose colônica é a mais comum desordem congênita da motilidade intestinal. Também conhecida como doença de Hirschsprung (DH) ou aganglionose congênita do cólon, é causada pela ausência de células ganglionares nos plexos nervosos do intestino, causando a distensão da parte proximal do intestino, por isso também chamada de megacólon congênito.

O quadro clínico

Atraso na eliminação de mecônio é a característica mais frequentemente encontrada na DH. O recém-nascido pode apresentar-se com obstrução intestinal, com parada de eliminação de gases e fezes, distensão abdominal e vômitos biliosos.

Em 2/3 dos casos, o diagnóstico é obtido nos primeiros três meses de vida. Os lactentes também podem se apresentar com um quadro de infecção intestinal grave chamado de enterocolite.

O diagnóstico

Inicialmente deve-se colher uma boa história clínica e realizar um bom exame físico para suspeitar-se de doença de Hirschsprung.

A radiografia de abdome pode identificar um quadro de obstrução intestinal, com distensão generalizada das alças intestinais e em um enema opaco, exame com contraste feito pelo intestino do paciente, pode ser visualizada a zona ou o cone de transição, área que corresponde ao segmento de intestino entre o segmento com e o sem nervos.

Em casos duvidosos, pode-se realizar uma biópsia retal na qual as células ganglionares serão pesquisadas pelo patologista sob microscópio.

O tratamento

O tratamento é sempre cirúrgico e tem o objetivo de retirar o segmento agangliônico do intestino e o reestabelecimento do trânsito intestinal.

Existem várias técnicas cirúrgicas com esse objetivo sendo o abaixamento transanal endorretal vídeo-assistido ou não, em tempo único (uma única cirurgia) a técnica preferida por nossa equipe, evitando-se múltiplas cirurgias e tentando a resolução do caso em um único tempo, se possível ainda no período neonatal.

Os Cuidados de Enfermagem

Os cuidados de enfermagem iniciais referentes ao megacólon congênito, diz respeito a observação do recém nascido, sobre a eliminação do mecônio. É da responsabilidade do técnico de enfermagem, comunicar a enfermeira, caso haja necessidade.

Após realizado o dignóstico, a criança será submetida a uma colostomia, nessa fase os cuidados de enfermagem serão de extrema importância. Citaremos a seguir:

1) controle dos sinais vitais;
2) controle hídrico;
3) mantenha limpa e seca a área do estoma, observando as condições da pele;
4) observar a distensão abdominal;
5) observar as características das fezes;
6) evitar excesso de alimentação;
7) manter a criança confortável;
8) orientar os pais sobre os cuidados com essa criança.

Referências:

  1. COELHO, Julio César Uili. Aparelho disgestivo Clinica e Cirurgia. Vol. I
  2. CONCEIÇÃO. A. M. Perinatologia Fundamentos e Praticas 2002.
  3. GUANABARA. Koogan. Enfermagem Pediátrica Incrivelmente Fácil.
  4. VIEGAS, Dráuzio. Neonatologia clínica cirúrgica II 16 seções. Atheneu.
  5. JONES, Peter. Clinica Cirúgica em Pediatria Diagnóstico e Tratamento.
  6. HTTP://adam.sertaoggi.com.br/encyclopedia/emacy/articlei/001140.htm
  7. http://www.inst-medicina.com.br/hirschsprung.htm

Sondas Intestinais Longas

As Sondas intestinais longas são dispositivos médicos que são inseridos no intestino delgado para remover o conteúdo intestinal, descomprimir o órgão ou separá-lo cirurgicamente. Elas são usadas em casos de obstrução intestinal, cirurgias gastrointestinais ou outras condições que impedem a passagem normal do bolo alimentar.

Indicações de Uso

Para casos de constipação intestinal grave, obstrução intestinal, enema opaco, irrigação intestinal ou preparo para colonoscopia.

Os Tipos de Sondas Intestinais Longas

Sonda de Miller-Abbott

É usada para descomprimir o intestino delgado em casos de obstrução intestinal. Ela é composta por um tubo de borracha com dois balões infláveis na extremidade distal, um para ancorar a sonda no intestino e outro para ocluir o lúmen intestinal.

A sonda é introduzida pelo nariz e avança pelo esôfago, estômago e duodeno até atingir o íleo.

O avanço da sonda é facilitado pela pressão hidrostática exercida pelo líquido que preenche os balões. A sonda permite a drenagem do conteúdo intestinal e alivia os sintomas de distensão abdominal, náuseas, vômitos e dor.

A sonda intestinal longa Miller-Abbott é um procedimento invasivo que requer cuidados especiais de enfermagem e monitorização do paciente.

Sonda de Cantor

Usado para tratar a constipação crônica, a fecaloma ou a obstrução intestinal. Ela consiste em um tubo flexível e fino que é introduzido pelo nariz ou pela boca e avança até o intestino grosso.

A sonda permite a administração de líquidos, medicamentos ou enzimas que ajudam a dissolver ou remover as fezes endurecidas.

Pode causar complicações como sangramento, perfuração, infecção ou danos nos órgãos internos. Por isso, ela só é indicada em casos graves e refratários aos tratamentos convencionais.

Sonda de Andersen

Usado para tratar a obstrução intestinal. Ela consiste em um tubo flexível de plástico que é introduzido pelo nariz ou pela boca e avança até o intestino delgado.

A sonda tem uma ponta perfurada que permite a aspiração do conteúdo intestinal e a injeção de ar ou líquidos para desobstruir o intestino.

Pode ser usada em casos de obstrução intestinal causada por tumores, aderências, hérnias, volvo, intussuscepção ou impactação fecal.

É um procedimento invasivo que requer monitoramento e cuidados especiais, pode pode causar complicações como sangramento, perfuração, infecção ou lesão dos tecidos.

É uma alternativa à cirurgia em alguns casos de obstrução intestinal, mas nem sempre é eficaz ou segura.

Utilização das Sondas

As sondas intestinais longas cantor e Miller-Abott não são mais usadas na prática clínica atual, pois apresentam alto risco de complicações e baixa eficácia na descompressão intestinal, pois eram infladas com ar ou mercúrio para facilitar a drenagem do conteúdo intestinal.

Alguns Cuidados de enfermagem

  • Observar a progressão da sonda;
  • verificar a integridade do balão;
  • aspirar o conteúdo intestinal;
  • retirar a sonda lentamente quando indicado.

Referências:

  1. https://revista.facene.com.br/index.php/revistane/article/download/399/403/1948
  2. https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-gastrointestinais/procedimentos-diagn%C3%B3sticos-e-terap%C3%AAuticos-gastrointestinais/intuba%C3%A7%C3%A3o-nasog%C3%A1strica-ou-intuba%C3%A7%C3%A3o-intestinal