O manuseio de medicamentos antineoplásicos e outras drogas intravenosas exige atenção redobrada dos profissionais de enfermagem, especialmente quando se trata de substâncias classificadas como vesicantes ou irritantes.
Apesar de ambas poderem causar reações locais importantes, suas consequências e formas de manejo são diferentes. Compreender essas diferenças é essencial para garantir a segurança do paciente e prevenir complicações graves.
A Droga Irritante: O Desconforto da Flebite
As drogas irritantes são aquelas que, ao serem infundidas, causam uma lesão na camada interna da veia (íntima), provocando inflamação.
- O Mecanismo: A irritação é causada principalmente pelo pH extremo do medicamento (muito ácido ou muito alcalino) ou pela sua alta osmolaridade. Essa irritação se manifesta como dor, sensibilidade e vermelhidão ao longo do trajeto da veia.
- O Risco Principal: O principal evento adverso é a flebite (inflamação da veia). Se houver extravasamento (o medicamento vazar para o tecido circundante), a irritação pode causar dor, inchaço e vermelhidão no local, mas raramente leva à necrose tecidual.
Exemplos Comuns:
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- Cloreto de Potássio (KCl) concentrado
- Certas preparações de antibióticos
- Fenitoína (quando administrada rapidamente)
A Droga Vesicante: O Perigo da Necrose Tecidual
As drogas vesicantes são o nível máximo de alerta. Elas são substâncias que, se extravasarem para o tecido subcutâneo (fora da veia), causam bolhas, inflamação grave, dor intensa e, mais importante, necrose tecidual (morte do tecido).
- O Mecanismo: A toxicidade dessas drogas é celular. Elas destroem diretamente as células do tecido, causando dano irreversível que pode levar à perda funcional e exigir desbridamento cirúrgico.
- O Risco Principal: Extravasamento seguido de necrose e, em casos graves, comprometimento funcional do membro. A dor e o inchaço são geralmente imediatos e intensos.
Exemplos Comuns (Sinais de Alerta Máximo):
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- Quimioterápicos: Doxorrubicina, Vincristina, Mitomicina C. (Estes são o “selo de ouro” dos vesicantes).
- Vasopressores: Noradrenalina, Dopamina, Fenilefrina. (Esses medicamentos contraem os vasos e, se extravasam, causam isquemia e necrose no tecido ao redor, sendo tratados como vesicantes).
- Soro Glicosado a 50% (por sua alta osmolaridade extrema, embora seja um irritante severo, muitas instituições o tratam como vesicante devido ao risco de necrose por osmolaridade).
Principais diferenças entre vesicantes e irritantes
| Característica | Drogas Vesicantes | Drogas Irritantes |
| Efeito local | Necrose, bolhas, ulceração | Inflamação, dor e eritema |
| Gravidade da lesão | Grave e permanente | Leve e reversível |
| Conduta após extravasamento | Interrupção imediata da infusão, aspiração do agente, aplicação de antídoto (quando disponível) e acompanhamento especializado | Suspensão temporária da infusão, compressas e observação |
| Risco de sequelas | Alto | Baixo |
Cuidados de enfermagem
O papel da enfermagem é fundamental na prevenção, identificação precoce e manejo de extravasamentos de drogas vesicantes e irritantes.
Prioridade Vesicante: Acesso Central é Melhor
- Intervenção: Sempre que possível, medicamentos vesicantes (especialmente quimioterápicos e vasopressores) devem ser administrados via Acesso Venoso Central (CVC). O fluxo sanguíneo no acesso central é maior, diluindo o medicamento rapidamente e minimizando o risco de dano grave se houver falha.
- Se for Acesso Periférico: Priorizar veias calibrosas e evitar áreas de flexão (cotovelo, punho) e veias de mão ou punho (onde há menos tecido subcutâneo para absorver um extravasamento).
Vigilância e Avaliação Contínua
- Durante a Infusão: O enfermeiro deve estar presente no início da infusão e monitorar o local com frequência (a cada 5-10 minutos, especialmente vasopressores).
- O Que Procurar: Qualquer queixa de dor, ardência, inchaço ou endurecimento no local da punção é um sinal de alerta e deve levar à interrupção imediata.
Em Caso de Extravasamento (Ação Rápida!)
Se houver extravasamento de um vesicante, a ordem de ação é crucial e deve ser feita em segundos:
- Parar a Infusão Imediatamente.
- NÃO Remover o Cateter: Tentar aspirar o máximo de medicamento extravasado através do próprio cateter.
- Remover o Cateter: Só depois de tentar aspirar.
- Aplicar o Antídoto: Dependendo do medicamento (ex: compressa fria ou quente, aplicação de antidotos específicos como hialuronidase ou fentolamina, conforme protocolo institucional).
Durante a administração:
- Verificar a permeabilidade do acesso venoso antes de iniciar a infusão.
- Preferir acessos venosos centrais para drogas vesicantes.
- Monitorar continuamente o local de infusão durante todo o procedimento.
- Orientar o paciente a comunicar imediatamente qualquer desconforto ou sensação de queimação.
Esses cuidados evitam complicações graves e demonstram a importância da vigilância contínua e do conhecimento técnico-científico por parte do profissional de enfermagem.
Conhecer a diferença entre drogas vesicantes e irritantes é essencial para garantir segurança e qualidade na assistência. A atuação do técnico e enfermeiro vai além da simples administração — envolve responsabilidade, observação, e tomada de decisões rápidas diante de intercorrências.
Além disso, o uso de protocolos institucionais e treinamentos periódicos são ferramentas indispensáveis para minimizar riscos e promover o cuidado seguro ao paciente em tratamento intravenoso.
Referências:
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMEIROS ONCOLOGISTAS (SBEO). Recomendações para a Prevenção e Tratamento do Extravasamento de Agentes Quimioterápicos. Disponível em: http://www.sbeo.com.br/.
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre terapia intravenosa e administração de medicamentos).
- INCA – Instituto Nacional de Câncer. Administração segura de quimioterápicos antineoplásicos: manual para profissionais de saúde. Rio de Janeiro: INCA, 2022. Disponível em: https://www.inca.gov.br
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília: MS, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/saude
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ONS – Oncology Nursing Society. Chemotherapy and Biotherapy Guidelines and Recommendations for Practice. 5th ed. Pittsburgh: ONS, 2019.










