Medicamentos Anti-hipertensivos

A hipertensão arterial, ou “pressão alta”, é uma condição silenciosa que afeta milhões de pessoas no mundo e é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares graves, como infarto e AVC. O tratamento, muitas vezes, envolve o uso contínuo de medicamentos, os famosos anti-hipertensivos.

Mas você sabe como esses medicamentos funcionam? E por que existem tantas classes diferentes?

Para nós, profissionais de enfermagem e estudantes de enfermagem, entender a farmacologia dos anti-hipertensivos é crucial para garantir a segurança do paciente e o sucesso do tratamento. Vamos mergulhar nesse universo e desvendar cada classe!

A Hipertensão: Um Inimigo Silencioso

A pressão arterial é a força que o sangue exerce contra as paredes das artérias. Quando essa força é consistentemente muito alta, os vasos sanguíneos e o coração são danificados, aumentando o risco de diversas complicações. Os anti-hipertensivos agem de diferentes maneiras para reduzir essa pressão, protegendo os órgãos-alvo e melhorando a qualidade de vida do paciente.

As Principais Classes de Anti-hipertensivos

Existem diversas classes de anti-hipertensivos, e cada uma delas atua em um mecanismo específico do corpo para baixar a pressão. Muitas vezes, o médico pode prescrever uma combinação de medicamentos de diferentes classes para obter um melhor controle da pressão arterial.

Diuréticos: Eliminando o Excesso de Líquido

Os diuréticos são frequentemente a primeira linha de tratamento para a hipertensão, especialmente os tiazídicos. Eles agem nos rins, aumentando a eliminação de sódio e água pela urina. Com menos líquido circulando no corpo, a pressão sobre as paredes das artérias diminui.

  • Como agem: Aumentam a excreção de sal e água, diminuindo o volume de sangue.
  • Exemplos:
    • Tiazídicos: Hidroclorotiazida, Clortalidona, Indapamida. São os mais comuns para hipertensão não complicada.
    • De Alça: Furosemida, Bumetanida. Têm uma ação mais potente e são usados em casos específicos, como pacientes com insuficiência cardíaca ou renal, onde há grande retenção de líquidos.
    • Poupadores de Potássio: Espironolactona, Amilorida. São mais fracos que os outros, mas têm a vantagem de não causar a perda de potássio, podendo ser usados em combinação para evitar esse efeito colateral.
  • Atenção de Enfermagem: Monitorar o balanço hídrico rigoroso (ingesta e eliminação), peso diário, níveis de eletrólitos (principalmente potássio e sódio) e sinais de desidratação. Orientar o paciente sobre a importância da hidratação adequada, mas sem excessos, e sobre possíveis efeitos colaterais como tontura e cãibras.

Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA): Ação no Sistema Renina-Angiotensina

Os IECAs são medicamentos muito eficazes e protetores para diversos órgãos. Eles atuam bloqueando a enzima conversora de angiotensina, que é responsável por transformar a angiotensina I em angiotensina II. A angiotensina II é uma substância que causa vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos) e estimula a liberação de aldosterona (que retém sódio e água). Ao inibir essa enzima, os IECAs promovem a vasodilatação e a eliminação de sódio e água.

  • Como agem: Bloqueiam a formação de substâncias que elevam a pressão, causando vasodilatação e redução da retenção de líquidos.
  • Exemplos: Captopril, Enalapril, Lisinopril, Ramipril.
  • Atenção de Enfermagem: Monitorar a pressão arterial cuidadosamente (risco de hipotensão na primeira dose), níveis de potássio (podem aumentar), e função renal. Ficar atento a um efeito colateral comum e característico: a tosse seca e persistente. Orientar o paciente sobre a tosse e a importância de relatar qualquer sintoma ao médico.

Bloqueadores dos Receptores da Angiotensina II (BRA): Outra Via no Mesmo Sistema

Os BRAs atuam de forma semelhante aos IECAs, mas em um ponto diferente do sistema renina-angiotensina. Em vez de bloquear a enzima que produz a angiotensina II, eles bloqueiam os receptores onde essa substância se liga. Isso resulta em vasodilatação e redução da retenção de líquidos, sem o risco de tosse que os IECAs podem causar.

  • Como agem: Impedem que a angiotensina II aja nos vasos e rins, promovendo vasodilatação e menor retenção de líquidos.
  • Exemplos: Losartana, Valsartana, Candesartana, Irbesartana.
  • Atenção de Enfermagem: Similar aos IECAs, monitorar a pressão arterial, níveis de potássio e função renal. São uma boa alternativa para pacientes que não toleram a tosse causada pelos IECAs.

Bloqueadores dos Canais de Cálcio (BCC): Relaxando os Vasos Sanguíneos

Os BCCs agem bloqueando a entrada de cálcio nas células musculares lisas dos vasos sanguíneos e do coração. O cálcio é essencial para a contração muscular. Ao bloquear sua entrada, os BCCs promovem o relaxamento dos vasos (vasodilatação) e, em alguns casos, diminuem a frequência cardíaca, o que reduz a pressão arterial.

  • Como agem: Relaxam os vasos sanguíneos e, em alguns casos, diminuem a frequência cardíaca.
  • Exemplos:
    • Dihidropiridínicos (atuam mais nos vasos): Anlodipino, Nifedipino, Felodipino.
    • Não-dihidropiridínicos (atuam mais no coração): Verapamil, Diltiazem.
  • Atenção de Enfermagem: Monitorar a pressão arterial e a frequência cardíaca. Observar efeitos colaterais como edema de membros inferiores (inchaço nos tornozelos), cefaleia, tontura e, com Verapamil e Diltiazem, risco de bradicardia e constipação.

Betabloqueadores: Diminuindo o Ritmo do Coração

Os betabloqueadores agem bloqueando a ação da adrenalina e noradrenalina em receptores específicos (receptores beta) no coração e nos vasos sanguíneos. Isso resulta na diminuição da frequência cardíaca, da força de contração do coração e, consequentemente, da pressão arterial. Também podem ser usados para tratar arritmias e ansiedade.

  • Como agem: Reduzem a frequência cardíaca e a força de contração do coração, diminuindo a pressão.
  • Exemplos: Atenolol, Metoprolol, Propranolol, Carvedilol (este último tem também ação vasodilatadora).
  • Atenção de Enfermagem: Monitorar rigorosamente a frequência cardíaca (risco de bradicardia), pressão arterial e padrão respiratório (contraindicado em pacientes com asma ou DPOC grave). Observar efeitos colaterais como fadiga, tontura, insônia e disfunção erétil. Orientar o paciente a não interromper o uso abruptamente, pois isso pode causar um efeito rebote.

Alfabloqueadores: Relaxando os Vasos Sanguíneos de Outra Forma

Os alfabloqueadores agem bloqueando os receptores alfa-adrenérgicos nos vasos sanguíneos, o que leva ao relaxamento e dilatação dos vasos, diminuindo a pressão arterial.

  • Como agem: Dilatam os vasos sanguíneos, reduzindo a resistência.
  • Exemplos: Prazosina, Doxazosina, Terazosina.
  • Atenção de Enfermagem: Monitorar a pressão arterial, especialmente a pressão ortostática (ao levantar-se), devido ao risco de tontura e desmaios (síncope de primeira dose). Administrar a primeira dose, se possível, ao deitar.

Vasodilatadores Diretos: Ação Rápida no Vaso

Esses medicamentos agem diretamente relaxando as paredes dos vasos sanguíneos, causando uma vasodilatação potente. São geralmente utilizados em situações de urgência e emergência hipertensiva ou quando outras classes não foram suficientes.

  • Como agem: Relaxam diretamente as paredes dos vasos sanguíneos.
  • Exemplos: Hidralazina, Minoxidil (usado mais para hipertensão refratária). Nitroprusseto de Sódio (para emergências hipertensivas, uso EV).
  • Atenção de Enfermagem: Monitorização contínua e rigorosa da pressão arterial, frequência cardíaca e, em alguns casos (como o Nitroprusseto), sinais de toxicidade.

Agonistas Alfa-2 de Ação Central: Atuando no Sistema Nervoso Central

Esses medicamentos atuam no sistema nervoso central, diminuindo a atividade simpática (que causa vasoconstrição e aumenta a frequência cardíaca). O resultado é uma diminuição da frequência cardíaca e do relaxamento dos vasos.

  • Como agem: Reduzem a atividade do sistema nervoso que eleva a pressão.
  • Exemplos: Clonidina, Metildopa (muito usada em gestantes).
  • Atenção de Enfermagem: Monitorar a pressão arterial (com risco de hipotensão postural), frequência cardíaca e níveis de sedação. A clonidina tem risco de hipertensão de rebote se for suspensa abruptamente.

Cuidados de Enfermagem

  • Avaliação Completa: Aferir a pressão arterial corretamente, em diferentes posições (sentado, em pé, deitado, se necessário), e registrar os valores.
  • Educação em Saúde: Orientar o paciente sobre a doença, a importância da adesão ao tratamento (mesmo sem sintomas), a dieta (restrição de sódio), a prática de atividade física, o controle do estresse e a importância das consultas de acompanhamento.
  • Monitoramento de Efeitos Colaterais: Conhecer os principais efeitos adversos de cada classe e orientar o paciente a relatá-los. Ensinar a identificar sinais de alarme, como tontura intensa, desmaios, inchaço excessivo.
  • Adesão ao Tratamento: Fortalecer o vínculo com o paciente, reforçando a importância de tomar a medicação conforme a prescrição e nunca interromper por conta própria.
  • Manejo de Crises Hipertensivas: Em situações de crise, atuar rapidamente na administração de medicações, monitorar o paciente de perto e comunicar o médico.
  • Prevenção de Interações: Estar atento a possíveis interações medicamentosas, especialmente com outros fármacos que o paciente possa estar usando (como anti-inflamatórios).
  • Suporte Psicológico: A hipertensão é uma doença crônica. Oferecer apoio e escuta ativa para que o paciente se adapte à sua nova rotina e lide com os desafios.

Conhecer os anti-hipertensivos em suas diversas classes é uma ferramenta poderosa para o enfermeiro. Essa compreensão nos permite não apenas administrar os medicamentos com segurança, mas também educar, monitorar e empoderar nossos pacientes a viverem melhor com a hipertensão.

Referências:

  1. BARROSO, W. K. S. et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 116, n. 3, p. 516-658, mar. 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/qXwS3P9G6J8sQ6yH4hX7gK7/?lang=pt.
  2. KATZUNG, B. G.; MASTERS, S. B.; TREVOR, A. J. Farmacologia Básica e Clínica. 15. ed. Porto Alegre: AMGH, 2021. (Consultar capítulo sobre fármacos anti-hipertensivos).
  3. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas: Hipertensão Arterial Sistêmica. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
  4. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020. (Consultar capítulo sobre sistema cardiovascular e anti-hipertensivos).

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