
Vá direto ao ponto!
Na UTI, dizer que um paciente está “sedado” não é suficiente. É preciso saber quanto ele está sedado — e isso muda a forma de monitorar, mobilizar, avaliar delirium e até interpretar uma piora neurológica. A RASS transforma essa observação em uma pontuação objetiva, que pode ser acompanhada ao longo do plantão.
O que é a escala RASS?
A Richmond Agitation-Sedation Scale (RASS) é uma escala validada para avaliar o nível de agitação e sedação em adultos, especialmente no ambiente de terapia intensiva. Ela possui 10 níveis, variando de +4, agitação intensa, até −5, ausência de resposta. O zero representa o paciente alerta e calmo.
A lógica é simples: quanto maior o número positivo, maior a agitação; quanto mais negativo, maior a profundidade da sedação.
Entenda as pontuações
| RASS | Classificação | Como reconhecer |
| +4 | Combativo | Violento ou combativo, com perigo imediato para a equipe |
| +3 | Muito agitado | Remove ou tenta remover tubos/cateteres ou apresenta comportamento agressivo |
| +2 | Agitado | Movimentos frequentes e sem propósito ou assincronia paciente-ventilador |
| +1 | Inquieto | Ansioso ou apreensivo, sem movimentos agressivos |
| 0 | Alerta e calmo | Acordado, tranquilo e interagindo normalmente |
| −1 | Sonolento | Desperta à voz e mantém contato visual por mais de 10 segundos |
| −2 | Sedação leve | Desperta brevemente à voz, mantendo contato visual por menos de 10 segundos |
| −3 | Sedação moderada | Apresenta algum movimento à voz, mas sem contato visual |
| −4 | Sedação profunda | Não responde à voz, mas apresenta movimento ao estímulo físico |
| −5 | Não despertável | Não responde à voz nem ao estímulo físico |
Essa graduação é a estrutura original da RASS e continua sendo utilizada nas ferramentas da SCCM.
Como aplicar a RASS
A avaliação começa pela observação do paciente. Se ele está alerta e calmo, a pontuação pode ser 0. Se apresenta comportamento compatível com agitação, avaliam-se os critérios positivos.
Quando não está alerta, utiliza-se a voz: chamar o paciente pelo nome, solicitar que abra os olhos e estabeleça contato visual. O tempo de manutenção desse contato ajuda a diferenciar −1 de −2, enquanto uma resposta motora sem contato visual corresponde a −3.
Se não houver resposta à voz, passa-se ao estímulo físico. Movimento diante desse estímulo corresponde a −4; ausência de resposta à voz e ao estímulo físico corresponde a −5.
Um detalhe importante no plantão é não começar imediatamente pelo estímulo físico em um paciente sonolento. A própria sequência da escala prioriza observação, voz e somente depois estímulo físico.
RASS não é Glasgow
As duas escalas avaliam aspectos diferentes. A Escala de Coma de Glasgow foi desenvolvida para avaliação do nível de consciência por abertura ocular, resposta verbal e resposta motora, enquanto a RASS foi construída especificamente para graduar agitação e sedação.
Por isso, uma pontuação RASS não deve simplesmente ser convertida em um valor de Glasgow. Em pacientes críticos, cada instrumento responde a uma pergunta clínica diferente.
Também não se deve usar a RASS como escala de dor ou como diagnóstico de delirium. Para dor e delirium existem ferramentas específicas, como NRS, CPOT/BPS e CAM-ICU/ICDSC, conforme a capacidade do paciente e o protocolo utilizado.
A meta não é deixar todos profundamente sedados
Esse é um dos pontos mais importantes da atualização da assistência em UTI. A sedação deve ter uma meta individualizada, e a equipe precisa comparar o RASS observado com o alvo definido para aquele paciente.
As diretrizes PADIS recomendam, quando clinicamente apropriado, sedação leve em vez de sedação profunda para adultos criticamente enfermos em ventilação mecânica. A atualização de 2025 também sugere dexmedetomidina em vez de propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium, embora a escolha do sedativo dependa do contexto clínico.
Imagine um paciente intubado cujo alvo é RASS −1 a −2, mas que aparece repetidamente em −4. O número não deve ser apenas registrado. Ele sinaliza uma diferença entre a sedação observada e a meta, exigindo avaliação da equipe e revisão da estratégia conforme prescrição e protocolo.
Em outra situação, um paciente que vinha em RASS 0 passa repentinamente para +2, começa a puxar o circuito do ventilador e apresenta movimentos constantes. Antes de simplesmente aumentar o sedativo, é necessário investigar causas de agitação, como dor, hipóxia, retenção de CO₂, delirium, desconforto, retenção urinária ou outras alterações clínicas.
RASS e delirium caminham juntos
A RASS não diagnostica delirium, mas o nível de consciência influencia sua avaliação. Na prática, a RASS pode ser utilizada como parte da sequência de avaliação com ferramentas específicas de delirium, como o CAM-ICU.
Um paciente com RASS diferente de zero pode apresentar alteração do nível de consciência no CAM-ICU, mas o diagnóstico de delirium depende do conjunto dos critérios da ferramenta, não apenas da pontuação RASS.
Cuidados de enfermagem
A enfermagem deve avaliar e registrar a RASS conforme a rotina institucional, observando também a tendência das pontuações.
- Compare o RASS atual com o anterior.
- Confira a meta de sedação prescrita ou definida no protocolo.
- Observe agitação, assincronia, retirada de dispositivos e mudanças súbitas do comportamento.
- Em sedação profunda, avalie a necessidade de métodos objetivos adicionais quando a avaliação clínica estiver limitada.
- Investigue alterações inesperadas antes de simplesmente aumentar ou reduzir sedativos.
- Registre a pontuação e comunique mudanças relevantes.
A SCCM inclui RASS entre as ferramentas validadas para avaliação de sedação em adultos e recomenda que a profundidade e a qualidade da sedação sejam avaliadas rotineiramente. Em pacientes sob bloqueio neuromuscular, medidas objetivas da função cerebral podem ser necessárias como complemento, porque a resposta motora da RASS fica limitada.
Para memorizar rapidamente
+4 a +1 = agitação
0 = alerta e calmo
−1 a −2 = sedação leve
−3 = sedação moderada
−4 = sedação profunda
−5 = não despertável
A RASS é simples de aplicar, mas ganha valor quando a pontuação deixa de ser apenas um número no prontuário e passa a orientar a avaliação contínua do paciente crítico.
RASS: Saiba Avaliar a Sedação na UTI
- A RASS varia de +4 a -5
- Zero representa paciente alerta e calmo
- Pontuações negativas indicam diferentes níveis de sedação
- RASS auxilia no acompanhamento da meta de sedação
Referências:
- SESSLER, C. N. et al. The Richmond Agitation-Sedation Scale: validity and reliability in adult intensive care unit patients. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, v. 166, n. 10, p. 1338-1344, 2002. PubMed — RASS: validade e confiabilidade.
- LEWIS, K. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. SCCM — PADIS Focused Update 2025.
- DEVLIN, J. W. et al. Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 46, n. 9, p. e825-e873, 2018. SCCM — PADIS Guidelines.
- FUCHITA, M. et al. Inter-rater Agreement of Richmond Agitation Sedation Scale Assessments in Adult Patients Receiving Mechanical Ventilation in the ICU: A Cross-Sectional Study. Critical Care Explorations, v. 7, n. 9, e1302, 2025. PubMed — RASS em pacientes sob ventilação mecânica.
- SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. ICU Liberation Bundle: A-F. Mount Prospect: SCCM. SCCM — ICU Liberation Bundle
Delirium em UTI: como reconhecer precocemente com o CAM-ICU e quais são os principais cuidados de Enfermagem
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Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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