
A dor é uma das queixas mais frequentes nos serviços de saúde e, ao mesmo tempo, uma das mais complexas de avaliar e tratar. Para a enfermagem, lidar com pacientes em dor faz parte da rotina diária, seja em unidades de internação, emergência, ambulatórios ou terapia intensiva.
Cuidar da dor vai muito além de administrar um analgésico. Envolve escuta ativa, avaliação criteriosa, uso correto de escalas, monitorização contínua e intervenções farmacológicas e não farmacológicas. Para o estudante de enfermagem, compreender esses cuidados é essencial para oferecer uma assistência humanizada e baseada em evidências.
O que é dor?
A dor é definida como uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada ou semelhante àquela associada a uma lesão real ou potencial. Essa definição reforça que a dor não é apenas um fenômeno físico, mas também subjetivo, influenciado por fatores emocionais, culturais, sociais e psicológicos.
Por isso, a dor deve ser sempre valorizada quando relatada pelo paciente, mesmo quando não há sinais objetivos aparentes.
Por que Mensurar a Dor?
Diferente de uma febre que pode ser lida em um termômetro, a dor não pode ser vista diretamente. Por ser subjetiva, corremos o risco de subestimar o sofrimento do outro com base nos nossos próprios julgamentos. É por isso que utilizamos as escalas de dor. Elas servem para transformar uma sensação abstrata em um dado objetivo, permitindo que a equipe acompanhe se o tratamento está funcionando ou se a condição do paciente está piorando.
A escolha da escala ideal depende muito do perfil do paciente: sua idade, nível de consciência e capacidade de comunicação. Abaixo, detalho as ferramentas que você mais encontrará no dia a dia dos hospitais.
A dor como quinto sinal vital
Atualmente, a dor é considerada o quinto sinal vital, devendo ser avaliada com a mesma importância que temperatura, pulso, respiração e pressão arterial.
Para a enfermagem, isso significa que a avaliação da dor deve ser:
- Rotineira
- Sistemática
- Registrada em prontuário
- Reavaliada após intervenções
Ignorar ou subestimar a dor pode levar a sofrimento desnecessário, atraso na recuperação, aumento do tempo de internação e piora da qualidade de vida.
Tipos de dor mais encontrados na prática clínica
A dor pode ser classificada de diversas formas. Na prática assistencial, é comum lidar com dor aguda, como no pós-operatório, traumas e procedimentos invasivos, e dor crônica, presente em doenças oncológicas, musculoesqueléticas e neurológicas.
Também é importante reconhecer a dor nociceptiva, relacionada a lesão tecidual, e a dor neuropática, associada a lesões do sistema nervoso. Essa diferenciação auxilia na escolha das intervenções mais adequadas.
A importância da avaliação da dor pela enfermagem
A avaliação correta da dor é a base para um manejo eficaz. A enfermagem deve investigar não apenas a intensidade, mas também características como localização, duração, irradiação, fatores de melhora e piora, além do impacto da dor nas atividades diárias e no sono.
Uma avaliação incompleta pode levar a tratamentos ineficazes ou inadequados.
Escalas de mensuração da dor mais utilizadas
As escalas de dor são ferramentas fundamentais para tornar a avaliação mais objetiva, padronizada e comparável ao longo do tempo. A escolha da escala deve considerar a idade, o nível de consciência e a capacidade de comunicação do paciente.
Escala Numérica de Dor (END)
A Escala Numérica é uma das mais utilizadas na prática clínica. Nela, o paciente atribui um valor de 0 a 10 para a sua dor, sendo 0 ausência de dor e 10 a pior dor imaginável.
É uma escala simples, rápida e eficaz, indicada para pacientes conscientes, orientados e capazes de se comunicar verbalmente. A enfermagem deve explicar claramente o significado da escala antes de utilizá-la.
Escala Visual Analógica (EVA)
A Escala Numérica é a mais comum para pacientes adultos e lúcidos. Nela, perguntamos ao paciente: “Em uma nota de 0 a 10, sendo 0 nenhuma dor e 10 a pior dor da sua vida, quanto você está sentindo agora?”. Já a EVA costuma ser uma régua com uma linha de 10 centímetros, onde o paciente marca o ponto que representa sua dor.
Essas escalas classificam a dor em:
- Leve (1 a 3): Permite a realização de atividades e sono.
- Moderada (4 a 6): Interfere nas atividades e pode causar agitação.
- Intensa (7 a 10): Incapacitante, geralmente acompanhada de alterações em outros sinais vitais.
Escala de Faces (Wong Baker)
A Escala de Faces é amplamente utilizada em pediatria e também em pacientes com dificuldade de comunicação. Ela apresenta rostos que variam de expressão neutra a expressão de dor intensa.
A enfermagem deve orientar o paciente ou a criança a apontar a face que melhor representa como está se sentindo naquele momento, evitando associar as faces a emoções como tristeza ou medo.
Escala FLACC e CPOT (Para pacientes que não verbalizam)
Quando lidamos com bebês ou pacientes sedados em UTIs, precisamos observar o comportamento. A escala FLACC observa cinco critérios: expressão facial, movimento das pernas, atividade, choro e consolabilidade. Já a CPOT é a regra de ouro nas unidades intensivas, avaliando a tensão muscular e a sincronia com o ventilador mecânico para identificar o sofrimento em quem não pode falar.
Escala PAINAD
A escala PAINAD é indicada para pacientes com demência avançada ou incapacidade de comunicação verbal. Ela avalia indicadores comportamentais como respiração, vocalização, expressão facial, linguagem corporal e consolabilidade.
Essa escala reforça a importância da observação atenta da enfermagem, especialmente em pacientes vulneráveis.
Escala Behavioral Pain Scale (BPS)
Muito utilizada em unidades de terapia intensiva, a BPS é aplicada em pacientes sedados e em ventilação mecânica. Ela avalia expressão facial, movimentos dos membros superiores e adaptação ao ventilador.
Essa escala é essencial para evitar tanto a subanalgesia quanto a analgesia excessiva em pacientes críticos.
Cuidados de enfermagem no manejo da dor
O manejo da dor deve ser individualizado e contínuo. A enfermagem tem papel fundamental tanto na administração de medicamentos quanto na aplicação de medidas não farmacológicas.
Entre os cuidados estão a administração segura de analgésicos conforme prescrição, observando efeitos adversos, resposta terapêutica e necessidade de reavaliação. O uso correto das escalas antes e após a intervenção é indispensável.
Medidas não farmacológicas, como posicionamento adequado, aplicação de calor ou frio quando indicado, técnicas de relaxamento, escuta ativa e ambiente tranquilo, também contribuem significativamente para o alívio da dor.
Comunicação e registro da dor
Registrar corretamente a intensidade da dor, a escala utilizada, as intervenções realizadas e a resposta do paciente é uma responsabilidade ética e legal da enfermagem.
Além disso, comunicar alterações importantes à equipe multiprofissional garante continuidade do cuidado e ajustes terapêuticos adequados.
Intervenções Não Farmacológicas
Existem medidas que potencializam o efeito dos remédios e oferecem alívio imediato. O reposicionamento no leito é fundamental; às vezes, uma simples mudança de decúbito ou o uso de coxins para apoiar uma articulação reduz a pressão e a dor. O controle do ambiente também é nossa responsabilidade: reduzir ruídos, ajustar a luminosidade e garantir uma temperatura agradável ajudam a diminuir a ansiedade, que é um amplificador da dor.
Monitorização e Registro
Após administrar uma medicação para dor, o cuidado não termina. O enfermeiro deve realizar a reavaliação da dor após o tempo de pico da droga (geralmente 30 a 60 minutos para medicações orais e 15 a 30 minutos para venosas). É essencial registrar não apenas a nota da dor, mas também sua localização, característica (pontada, queimação, compressão) e se há fatores de melhora ou piora.
Comunicação e Apoio Emocional
A dor gera medo. Explicar ao paciente o que está acontecendo e garantir que a equipe está comprometida em aliviar seu sofrimento reduz o estresse psicológico. O acolhimento é uma ferramenta terapêutica poderosa. Nunca invalide a dor de um paciente; se ele diz que dói, o nosso dever ético é investigar e tratar.
Dominar as escalas de dor e os cuidados de conforto é o que permite que a enfermagem exerça sua autonomia. Ao reportar uma dor ao médico, você não deve apenas dizer “o paciente está com dor”, mas sim “o paciente apresenta dor nota 8 na escala numérica, localizada em abdômen inferior, tipo cólica, sem melhora após reposicionamento”. Esse nível de detalhamento técnico é o que garante a segurança do paciente e a eficácia da assistência.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o Programa Nacional de Segurança do Paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/documento_referencia_programa_nacional_seguranca_paciente.pdf.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Guia de Boas Práticas: Administração de Medicamentos. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br/.
- POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
- SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA DOR (SBED). Hospital sem dor: diretrizes para implantação. Disponível em: https://sbed.org.br/.
-
BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em:
https://www.grupogen.com.br











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