
A Classificação de Child-Pugh, também conhecida como Escore de Child-Turcotte-Pugh (CTP), é uma das ferramentas mais utilizadas na hepatologia para avaliar a gravidade da doença hepática crônica, especialmente da cirrose. Ela permite estimar a capacidade funcional do fígado, prever o prognóstico do paciente, auxiliar na tomada de decisões terapêuticas e avaliar o risco de complicações e de mortalidade.
Na prática clínica, esse escore é utilizado por médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde para acompanhar pacientes com doenças hepáticas avançadas, orientar a indicação de transplante hepático e estimar os riscos antes de procedimentos cirúrgicos.
Embora atualmente existam outros escores, como o MELD (Model for End-stage Liver Disease), a Classificação de Child-Pugh continua sendo extremamente importante por ser simples, rápida e baseada em informações facilmente obtidas durante a avaliação clínica.
Hoje você entenderá como funciona esse escore, como calcular sua pontuação, quais parâmetros são avaliados, suas vantagens, limitações e quais são os cuidados de enfermagem mais importantes.
O que é a Classificação de Child-Pugh?
A Classificação de Child-Pugh é um sistema de pontuação criado para avaliar o grau de comprometimento da função hepática em pacientes com cirrose.
Ela foi desenvolvida inicialmente por Child e Turcotte, em 1964, para estimar o risco cirúrgico em pacientes submetidos a cirurgias para hipertensão portal. Posteriormente, em 1973, Pugh e colaboradores modificaram a classificação, substituindo o estado nutricional pelo valor da Razão Normalizada Internacional (INR), tornando-a mais objetiva e amplamente utilizada.
Hoje, ela é empregada para:
- avaliar a gravidade da cirrose;
- estimar a sobrevida do paciente;
- orientar decisões terapêuticas;
- avaliar o risco de cirurgias;
- auxiliar na indicação de transplante hepático;
- prever complicações relacionadas à insuficiência hepática.
O que a Classificação de Child-Pugh avalia?
O escore avalia cinco parâmetros: Dois deles são clínicos, três são laboratoriais. Cada parâmetro recebe uma pontuação de 1 a 3 pontos.
Ao final, a soma define a classe do paciente. Os cinco critérios são:
- Bilirrubina total;
- Albumina sérica;
- INR (Razão Normalizada Internacional);
- Ascite;
- Encefalopatia hepática.
Como funciona a pontuação?
Cada variável recebe uma pontuação conforme sua gravidade.
| Critério | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
| Bilirrubina total | < 2 mg/dL | 2–3 mg/dL | > 3 mg/dL |
| Albumina | > 3,5 g/dL | 2,8–3,5 g/dL | < 2,8 g/dL |
| INR | < 1,7 | 1,7–2,3 | > 2,3 |
| Ascite | Ausente | Leve ou controlada | Moderada/grave ou refratária |
| Encefalopatia hepática | Ausente | Graus I-II | Graus III-IV |
Ao somar os cinco critérios, obtém-se a pontuação total.
Como interpretar o resultado?
Após calcular os pontos, o paciente é classificado em uma das três categorias.
Child-Pugh A (5 a 6 pontos)
Representa doença hepática compensada. O fígado ainda consegue realizar grande parte de suas funções.
Esses pacientes apresentam:
- melhor prognóstico;
- menor mortalidade;
- menor risco cirúrgico;
- maior sobrevida.
A sobrevida estimada em um ano costuma ser superior a 95%.
Child-Pugh B (7 a 9 pontos)
Representa comprometimento funcional moderado. Nessa fase, já podem surgir complicações importantes da cirrose.
Entre elas:
- ascite;
- varizes esofágicas;
- encefalopatia hepática;
- edema;
- alterações da coagulação.
A sobrevida diminui quando comparada ao estágio A. Esses pacientes exigem acompanhamento mais próximo.
Child-Pugh C (10 a 15 pontos)
É o estágio mais grave. Indica insuficiência hepática avançada e o risco de complicações e mortalidade é elevado. São pacientes que frequentemente apresentam:
- ascite volumosa;
- encefalopatia recorrente;
- icterícia intensa;
- alterações importantes da coagulação;
- insuficiência renal associada.
Muitos tornam-se candidatos ao transplante hepático.
Entendendo cada parâmetro
Bilirrubina
A bilirrubina é um pigmento produzido pela degradação das hemácias. O fígado saudável consegue metabolizá-la e eliminá-la pela bile e quando o fígado perde essa capacidade, ocorre aumento da bilirrubina no sangue, provocando icterícia. Quanto maior a bilirrubina, maior tende a ser a gravidade da doença hepática.
Albumina
A albumina é uma proteína produzida exclusivamente pelo fígado. Ela possui diversas funções importantes:
- manter a pressão oncótica;
- transportar hormônios;
- transportar medicamentos;
- transportar vitaminas.
Na insuficiência hepática sua produção diminui. Consequentemente surgem:
- edema;
- ascite;
- desnutrição.
INR
O INR mede a capacidade do sangue coagular. Como o fígado produz praticamente todos os fatores de coagulação, sua falência leva ao aumento do INR. Quanto maior o INR, menor é a capacidade de coagulação.
É importante lembrar que pacientes em uso de anticoagulantes podem apresentar INR elevado por causa da medicação, e não apenas pela função hepática. Nesses casos, a interpretação deve ser individualizada.
Ascite
A ascite corresponde ao acúmulo de líquido na cavidade abdominal e é uma das complicações mais frequentes da cirrose. Sua presença indica piora da hipertensão portal e redução da função hepática.
A avaliação considera:
- ausência;
- leve e controlada;
- importante ou refratária ao tratamento.
Encefalopatia hepática
É uma alteração neurológica causada pelo acúmulo de substâncias tóxicas, principalmente amônia, que deixam de ser metabolizadas pelo fígado, podendo variar desde pequenas alterações cognitivas até coma.
Os principais sintomas incluem:
- sonolência;
- inversão do ciclo sono-vigília;
- confusão mental;
- fala lenta;
- tremor tipo asterix;
- desorientação;
- coma.
Exemplo prático de cálculo
Imagine um paciente com:
- Bilirrubina: 3,8 mg/dL → 3 pontos
- Albumina: 2,9 g/dL → 2 pontos
- INR: 2,0 → 2 pontos
- Ascite leve → 2 pontos
- Encefalopatia grau I → 2 pontos
Total:
3 + 2 + 2 + 2 + 2 = 11 pontos
Resultado:
Child-Pugh Classe C
Isso indica doença hepática avançada, alto risco de complicações e necessidade de avaliação especializada.
Quais doenças utilizam esse escore?
Principalmente:
- cirrose alcoólica;
- cirrose por hepatites virais;
- esteato-hepatite associada à síndrome metabólica (MASH, anteriormente NASH);
- hepatite autoimune;
- colangite biliar primária;
- colangite esclerosante primária;
- hemocromatose;
- doença de Wilson;
- outras hepatopatias crônicas.
Qual a diferença entre Child-Pugh e MELD?
Embora ambos avaliem pacientes com cirrose, possuem objetivos diferentes.
Child-Pugh
- avalia função hepática;
- utiliza parâmetros clínicos e laboratoriais;
- simples;
- muito utilizado na prática clínica.
MELD
- utiliza fórmula matemática;
- baseia-se em creatinina, bilirrubina, INR e, na versão MELD-Na, sódio sérico;
- estima mortalidade em curto prazo;
- é utilizado para priorização na fila de transplante hepático em muitos países, incluindo o Brasil.
Na prática, ambos são frequentemente utilizados de forma complementar.
Limitações da Classificação de Child-Pugh
Apesar de muito útil, ela apresenta algumas limitações.
A avaliação da ascite e da encefalopatia depende da interpretação clínica, podendo haver variações entre observadores.
Além disso, não considera outros fatores importantes, como:
- função renal;
- sódio sérico;
- pressão portal;
- idade;
- outras doenças associadas.
Mesmo assim, continua sendo um dos escores mais utilizados mundialmente.
Você sabia?
A Classificação de Child-Pugh é utilizada há mais de cinco décadas e permanece como uma das ferramentas mais conhecidas na hepatologia. Ela é recomendada em diversas diretrizes internacionais para avaliar a gravidade da cirrose e auxiliar na escolha de tratamentos.
Pacientes classificados como Child-Pugh C apresentam risco significativamente maior de complicações pós-operatórias, razão pela qual o escore também é amplamente empregado na avaliação do risco cirúrgico. Diversos medicamentos têm sua dose ajustada ou são contraindicados em pacientes com comprometimento hepático grave (Child-Pugh B ou C), devido ao risco aumentado de acúmulo e toxicidade.
Cuidados de enfermagem
A equipe de enfermagem desempenha papel fundamental no acompanhamento de pacientes com cirrose e insuficiência hepática. Entre os principais cuidados estão:
- Realizar avaliação clínica diária, observando sinais de piora da função hepática.
- Monitorar nível de consciência, identificando precocemente alterações compatíveis com encefalopatia hepática.
- Avaliar diariamente a presença de ascite, edema periférico e aumento da circunferência abdominal.
- Controlar rigorosamente o balanço hídrico.
- Monitorar peso corporal diariamente, preferencialmente no mesmo horário.
- Observar sinais de sangramento, como hematêmese, melena, equimoses, petéquias e sangramento gengival.
- Monitorar resultados laboratoriais, incluindo hemograma, bilirrubina, albumina, INR, creatinina e eletrólitos.
- Administrar medicamentos conforme prescrição, como diuréticos, lactulose, rifaximina, albumina humana e outros.
- Orientar dieta conforme recomendação médica e nutricional, controlando sódio em pacientes com ascite e garantindo ingestão proteica adequada, salvo contraindicações específicas.
- Manter vigilância para sinais de infecção, já que pacientes cirróticos apresentam maior susceptibilidade a infecções bacterianas.
- Orientar paciente e familiares sobre adesão ao tratamento, abstinência de álcool quando aplicável, vacinação e necessidade de acompanhamento regular.
A Classificação de Child-Pugh permanece como uma ferramenta simples, prática e extremamente útil para avaliar a gravidade da cirrose hepática. Ao combinar parâmetros clínicos e laboratoriais, ela permite estimar o prognóstico, orientar condutas terapêuticas e auxiliar na avaliação do risco cirúrgico e da necessidade de transplante hepático.
Para os profissionais e estudantes de enfermagem, compreender esse escore é essencial, pois muitos pacientes internados em enfermarias, unidades de terapia intensiva e ambulatórios de hepatologia são classificados por meio dele. Conhecer seus critérios facilita a interpretação do estado clínico, contribui para um cuidado mais seguro e permite identificar precocemente sinais de descompensação hepática.
Referências:
- PUGH, R. N. H. et al. Transection of the oesophagus for bleeding oesophageal varices. British Journal of Surgery, v. 60, n. 8, p. 646-649, 1973. Disponível em: https://bjssjournals.onlinelibrary.wiley.com
- KUMAR, V. et al. Robbins & Cotran: Bases Patológicas das Doenças. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
- EASL. EASL Clinical Practice Guidelines on the management of decompensated cirrhosis. Journal of Hepatology, 2018. Disponível em: https://easl.eu
- AASLD. Practice Guidance on Cirrhosis and Portal Hypertension. Disponível em: https://www.aasld.org
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Cirrose Hepática e suas Complicações. Disponível em: https://www.gov.br/saude
- POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.
-
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos clínicos em hepatologia. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.





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