Na rotina da enfermagem, o acesso venoso é a nossa principal linha de vida para o paciente. Seja uma veia periférica, um cateter central ou um port-a-cath, a manutenção da permeabilidade e a prevenção de incompatibilidades medicamentosas são de responsabilidade crítica da nossa equipe. É nesse contexto de segurança e rigor técnico que o protocolo ou técnica SAS (Salinizar, Administrar e Salinizar) se torna uma diretriz essencial.
O protocolo ou técnica SAS é um mnemônico simples, mas poderoso, que nos guia na sequência correta de infusão em qualquer acesso venoso. Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, dominar essa técnica não é apenas seguir uma regra; é garantir que o medicamento chegue ao paciente sem complicações, que o cateter funcione perfeitamente e que o paciente esteja seguro.
Vamos entender cada passo desse protocolo e por que ele é tão vital para o cuidado.
O que é a Técnica SAS? A tríade de segurança
A técnica SAS consiste em uma sequência simples e padronizada que deve ser seguida na administração de medicamentos por via intravenosa intermitente. O nome vem das três etapas fundamentais:
- S (Salinizar): lavar o cateter com solução salina (soro fisiológico 0,9%) antes da administração do medicamento;
- A (Administrar): injetar o medicamento prescrito;
- S (Salinizar novamente): lavar o cateter novamente com solução salina após a administração.
O principal objetivo dessa técnica é assegurar a limpeza do lúmen do cateter, evitando que resíduos do medicamento fiquem acumulados e causem obstrução ou precipitação química.
Salinizar (O Primeiro “S”): Abrindo o Caminho
Esta é a fase preparatória. Salinizar significa injetar uma solução salina com 5 a 10 mL de solução salina 0,9% (geralmente Cloreto de Sódio 0,9%) antes do medicamento principal.
Por que Salinizar?
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- Testar a Permeabilidade: A salinização (ou flush) confirma que o cateter está bem posicionado e funcionando corretamente (permeável) antes de injetar um medicamento valioso ou irritante. Se houver resistência, o cateter não está pronto e o medicamento não deve ser administrado.
- Limpar o Lúmen: Remove qualquer resíduo de medicamentos infundidos anteriormente ou resquícios de sangue que possam estar parados no lúmen do cateter.
- Técnica de Enfermagem: Usar a técnica do “push-pause” (empurrar e pausar) durante a injeção da salina. Essa técnica cria uma turbulência dentro do cateter, que é mais eficaz na remoção de depósitos do que uma injeção contínua.
Administrar (O “A”): O Momento Terapêutico
Esta é a fase onde o medicamento é injetado.
- Procedimento: Administrar o medicamento prescrito, respeitando o tempo de infusão recomendado.
- Cuidados de Enfermagem: A velocidade de administração é crucial. Injetar um medicamento rapidamente demais pode causar dor, irritação venosa e efeitos colaterais sistêmicos súbitos (ex: hipotensão com a administração rápida de Metoprolol).
Salinizar (O Segundo “S”): Fechando o Ciclo
Esta é a fase de limpeza e proteção, tão importante quanto as outras.
Por que Salinizar Novamente?
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- Limpar o Medicamento: Garante que todo o medicamento que estava no cateter chegue à corrente sanguínea. Sem o flush, o medicamento restante ficaria parado no lúmen ou no hub do cateter.
- Evitar Incompatibilidade: É o passo de segurança contra incompatibilidades. Se o medicamento administrado tiver que ser seguido por outro incompatível, a salinização remove o primeiro, impedindo que os dois se encontrem e precipitem no lúmen, causando a obstrução do cateter.
- Prevenir Obstrução (Trombose): Em cateteres que serão descontinuados ou intermitentes, o flush final ajuda a evitar que o sangue reflua e coagule, mantendo o cateter permeável para o próximo uso.
- Técnica de Enfermagem: Novamente, usar o “push-pause”. Em cateteres centrais e port-a-caths, a salinização final é seguida pelo clampeamento do cateter (fechamento) no momento exato em que a última porção de salina está sendo injetada, para criar uma pressão positiva e evitar o refluxo de sangue para dentro do lúmen.
Quando a Técnica SAS é Utilizada?
A SAS é utilizada principalmente em:
- Cateteres de uso intermitente, ou seja, que não estão sendo usados continuamente para infusão;
- Administração de medicamentos sequenciais, prevenindo interações entre fármacos incompatíveis;
- Dispositivos periféricos e centrais, especialmente em terapia intravenosa domiciliar, hospitalar ou em UTIs.
É importante diferenciar a SAS da técnica SASH (Salinizar, Administrar, Salinizar, Heparinizar), usada em casos em que o cateter requer manutenção com heparina, como alguns modelos de cateteres centrais.
Importância da Técnica SAS na Prática de Enfermagem
A aplicação correta da técnica SAS traz diversos benefícios para o paciente e para o serviço de saúde:
- Previne obstruções e trombos no cateter;
- Evita interações medicamentosas dentro do lúmen;
- Mantém a permeabilidade do acesso venoso por mais tempo;
- Reduz o risco de infecções relacionadas a cateter;
- Assegura a eficácia terapêutica do medicamento administrado.
O enfermeiro tem papel fundamental na padronização dessa técnica, na capacitação da equipe de enfermagem e na supervisão da prática segura de medicações intravenosas.
Cuidados de Enfermagem
- Higienização das mãos antes e após o procedimento;
- Verificar a prescrição médica e compatibilidade do medicamento com o soro fisiológico;
- Utilizar seringas de 10 mL ou mais, especialmente em cateteres centrais, para evitar pressão excessiva no lúmen;
- Observar sinais de flebite, infiltração ou extravasamento durante a infusão;
- Desinfetar o conector de acesso com álcool 70% antes de conectar as seringas;
- Registrar o procedimento no prontuário do paciente, incluindo data, hora, volume e condição do cateter.
A técnica SAS é uma prática simples, mas essencial para a manutenção de cateteres venosos e para a administração segura de medicamentos. Seu uso correto evita complicações comuns e assegura que o tratamento seja eficaz e livre de intercorrências.
Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender e aplicar essa técnica de forma adequada representa uma atitude de segurança, competência e compromisso com o cuidado humanizado.
Referências:
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMEIROS ONCOLOGISTAS (SBEO). Diretrizes para o Manejo e Cuidado de Cateteres Venosos Centrais. Disponível em: http://www.sbeo.com.br/. (Consultar seções sobre manutenção de cateteres).
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Segurança do Paciente: Prevenção de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde. (Referência a boas práticas em cateteres venosos). Brasília, DF: ANVISA, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília: ANVISA, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa
- INFUSION NURSES SOCIETY (INS). Infusion Therapy Standards of Practice. Journal of Infusion Nursing, 2021. Disponível em: https://www.ins1.org
- RODRIGUES, L. M. S.; SILVA, R. M. Administração de medicamentos intravenosos: práticas seguras na enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, 2020.
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SOUZA, T. M. et al. Manutenção de cateteres venosos e técnicas de lavagem: revisão integrativa. Revista de Enfermagem UFPE, 2019.









