A avaliação do tórax faz parte do exame físico básico na enfermagem e é essencial para detectar anomalias respiratórias, cardíacas e até ortopédicas. Embora o tórax normal seja o mais comum, diversas alterações em sua estrutura podem indicar doenças congênitas, crônicas ou posturais. Reconhecer essas diferenças ajuda o profissional de enfermagem a realizar encaminhamentos apropriados e contribuir para o diagnóstico precoce.
Nesta publicação, vamos explicar os principais tipos de tórax, suas características, implicações clínicas e os cuidados que a enfermagem deve ter durante a avaliação e o acompanhamento do paciente.
O Tórax Normal: O Padrão Ouro da Simetria
Comecemos pelo ideal. O tórax normal, ou normolíneo, é o que consideramos um tórax simétrico e equilibrado.
- Características:
- Simetria: Ambos os lados do tórax são iguais e se expandem de forma equilibrada durante a respiração.
- Diâmetros: O diâmetro anteroposterior (da frente para trás) é menor que o diâmetro laterolateral (de um lado para o outro), geralmente na proporção de 1:2.
- Ângulo Infraesternal: O ângulo formado pelas costelas na base do esterno (o osso do peito) é de aproximadamente 90 graus.
- Costelas e Espaços Intercostais: As costelas têm uma inclinação normal e os espaços entre elas são regulares.
- Significado: Geralmente indica um sistema respiratório e esquelético saudável, sem grandes deformidades que comprometam a função pulmonar.
Tórax Plano ou Chato: O Perfil Achatado
O tórax plano apresenta uma redução do diâmetro anteroposterior, ou seja, é como se fosse “achatado” da frente para trás.
- Características:
- O diâmetro anteroposterior é desproporcionalmente pequeno em relação ao diâmetro laterolateral.
- As costelas tendem a ser mais horizontais.
- Significado: Pode ser uma variação normal da constituição física em algumas pessoas, mas também pode estar associado a certas condições ou síndromes que afetam o crescimento ósseo. Pode levar a uma capacidade pulmonar um pouco reduzida, mas nem sempre causa sintomas respiratórios significativos.
Tórax em Tonel ou Barril: O Envelhecimento Pulmonar
Este é um dos tipos mais reconhecíveis e frequentemente associado a doenças pulmonares crônicas. O tórax em tonel se parece com um barril, com um aumento notável do diâmetro anteroposterior.
- Características:
- Aumento do Diâmetro AP: O diâmetro da frente para trás é igual ou quase igual ao diâmetro de um lado para o outro (proporção próxima de 1:1).
- Costelas Horizontalizadas: As costelas perdem sua inclinação normal e ficam mais na horizontal.
- Elevação do Ombro: Os ombros podem parecer mais elevados.
- Ângulo Infraesternal Aumentado: O ângulo na base do esterno fica maior que 90 graus.
- Significado: É um sinal clássico de hiperinsuflação pulmonar, comum em doenças como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), especialmente o enfisema pulmonar. Nesses casos, o pulmão perde elasticidade e o ar fica “preso”, expandindo cronicamente o tórax. Isso dificulta a expiração e o paciente pode ter dispneia (falta de ar) ao esforço.
Tórax Cifótico e Escoliótico: As Curvaturas da Coluna
Esses tipos de tórax estão diretamente relacionados a deformidades da coluna vertebral que, por sua vez, afetam o formato da caixa torácica.
Tórax Cifótico:
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- Características: Associado à cifose, que é um aumento exagerado da curvatura posterior da coluna torácica (aquela “corcunda” mais acentuada). Isso faz com que o tórax pareça arredondado na parte de trás.
- Significado: A cifose pode ser postural, congênita ou causada por doenças degenerativas (osteoporose, espondilite anquilosante). Uma cifose grave pode comprimir os pulmões e o coração, limitando a expansão pulmonar e causando problemas respiratórios restritivos.
Tórax Escoliótico:
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- Características: Associado à escoliose, uma curvatura lateral da coluna vertebral. Isso causa uma assimetria no tórax, que pode parecer desviado para um lado, com um ombro mais alto que o outro.
- Significado: A escoliose grave pode levar à distorção da caixa torácica, diminuindo o espaço disponível para os pulmões e o coração. Isso também pode resultar em problemas respiratórios restritivos e, em casos extremos, comprometer a função cardíaca.
Com Gibosidade:
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- Características: A gibosidade é uma proeminência ou “protuberância” em uma área específica da coluna ou do tórax, geralmente causada por uma curvatura angular aguda na coluna vertebral, decorrente de cifose ou escoliose severas.
- Significado: Indica uma deformidade estrutural mais localizada e acentuada, que pode ter implicações significativas na função cardiorrespiratória, dependendo da sua localização e tamanho.
Pectus Carinatum (Tórax em Quilha/Pombo): O Peito Para Fora
O Pectus carinatum é uma deformidade em que o esterno (osso do peito) e as costelas adjacentes se projetam para fora, parecendo uma quilha de navio ou o peito de um pombo.
- Características:
- Proeminência anterior do esterno.
- Pode ser simétrico (todo o esterno para fora) ou assimétrico (mais de um lado).
- Significado: Geralmente é uma deformidade congênita. Na maioria dos casos, é mais uma questão estética do que funcional, mas em casos graves, pode causar dificuldade respiratória durante exercícios intensos (dispneia de esforço) ou até mesmo compressão cardíaca.
Pectus Excavatum (Tórax em Funil/Coveiro): O Peito Para Dentro
O Pectus excavatum é o oposto do carinatum: o esterno e as costelas adjacentes se afundam para dentro, formando uma depressão na parte central do tórax, como um funil ou uma cova.
- Características:
- Depressão côncava do esterno, que pode ser leve ou profunda.
- Também pode ser simétrico ou assimétrico.
- Significado: É a deformidade congênita mais comum da parede torácica. Pode variar de uma depressão sutil a uma que comprime significativamente o coração e os pulmões. Em casos graves, pode levar a:
- Sintomas Cardíacos: Palpitações, dor no peito, sopros cardíacos (devido à compressão do coração).
- Sintomas Respiratórios: Dispneia de esforço, infecções respiratórias recorrentes, diminuição da capacidade pulmonar.
- Preocupações Psicológicas: Pode causar grande impacto na autoestima e na imagem corporal do indivíduo.
Cuidados de Enfermagem
Para nós, profissionais de enfermagem, a avaliação do tórax é um componente vital do exame físico. Nossos cuidados envolvem:
- Inspeção Visual Detalhada: Observar o paciente despido (ou com vestimenta que permita a visualização completa do tórax) em diferentes ângulos. Procurar por assimetrias, proeminências, depressões, curvaturas e o padrão respiratório.
- Palpação: Tocar o tórax para sentir a expansão, a sensibilidade, crepitações ou outras anormalidades ósseas.
- Anamnese Cuidadosa: Perguntar ao paciente sobre histórico de doenças respiratórias (DPOC, asma), traumas, cirurgias torácicas, histórico familiar de deformidades. Investigar sintomas como falta de ar, dor no peito, tosse, chiado.
- Avaliação da Função Respiratória: Observar a frequência respiratória, o uso de musculatura acessória, a presença de cianose (coloração azulada da pele).
- Encaminhamento Adequado: Se identificarmos uma deformidade significativa ou sintomas associados, é fundamental documentar e comunicar ao médico para investigação diagnóstica (radiografias, tomografias, provas de função pulmonar) e planejamento terapêutico.
- Suporte e Educação ao Paciente:
- Em casos de DPOC com tórax em tonel, orientar sobre técnicas de respiração (ex: respiração com lábios semicerrados), cessação do tabagismo e adesão ao tratamento medicamentoso.
- Para deformidades congênitas como Pectus carinatum ou excavatum, oferecer suporte emocional, pois podem afetar a autoestima. Explicar sobre as opções de tratamento (órteses, fisioterapia, cirurgia).
- Em escoliose ou cifose, orientar sobre postura, exercícios de fortalecimento e, se indicado, uso de coletes ou cirurgia.
- Monitorar o impacto das deformidades na capacidade respiratória e cardíaca ao longo do tempo.
Conhecer as diferentes formas do tórax nos permite ir além do óbvio. É um convite para um olhar mais atento, uma escuta mais aguçada e um cuidado mais individualizado, onde cada detalhe do corpo nos conta uma história sobre a saúde do nosso paciente.
Referências:
- JARVIS, C. Bates Propedêutica de Enfermagem. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. (Consultar capítulo sobre Exame Físico do Tórax e Pulmões).
- PORTO, C. C. Semiologia Médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. (Consultar capítulo sobre Exame do Tórax e Aparelho Respiratório).
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT). Recomendações para o Manejo de Doenças Pulmonares. (Consultar diretrizes específicas para DPOC, asma, etc., que podem abordar as alterações torácicas). Disponível em: https://sbpt.org.br/.
- BARROS, A. L. B. L. Exame físico: avaliação diagnóstica de enfermagem no adulto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
- BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.
- PORTO, C. C. Semiologia Médica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
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KISNER, C.; COLBY, L. A. Exercícios terapêuticos: fundamentos e técnicas. 6. ed. Barueri: Manole, 2016.








