Qual o tempo de permanência preconizado para o cateterismo vesical de demora?

Na literatura são descritas diferentes técnicas e orientações com relação ao tempo de permanência da sonda, podendo ter sua troca realizada semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente,  mas não há consenso1.  O guidelines da American Urological Association (AUA), dados de pesquisas utilizadas na construção do guidelines eram insuficientes para realizar recomendações sobre se a rotina de mudança do cateter (por exemplo, a cada 2-4 semanas) reduziria o risco de infecção de trato urinário ou bacteriúria assintomática associada ao cateterismo em pacientes com cateterismo de demora ou pacientes com cateterismo supra-púbico, mesmo em pacientes que experimentam repetida obstrução de cateter 3. O International Clinical Practice Guidelines from the Infectious Diseases Society of America recomenda a retirada das sondas vesicais de demora quando clinicamente indicado, embora condições específicas possam necessitar o uso prolongado de sondas vesicais de demora; essas situações incluem quando a anatomia do trato urinário inferior é alterada, enquanto se aguarda a reparação definitiva ou em casos de dificuldades de realizar o cateterismo intermitente/sondagem vesical de alívio. 4

Considerando as informações acima, embora existam indicações de que a sonda vesical de demora deva ser trocada, esta decisão deve ser baseada na discussão do caso entre a equipe que acompanha o paciente em questão, pois o planejamento dos cuidados deve ser individualizado e estar em acordo com as condições clínicas de cada paciente. Visto que a cateterização vesical de demora é inevitável, deve-se realizar ações para evitar ou prevenir a infecção, como: – o cateter deve ser trocado periodicamente; – assepsia absoluta durante a introdução do cateter; – sistema de drenagem fechado estéril, não devendo ser desconectado do cateter; – a bolsa coletora não deve ser levantada acima do nível da bexiga do paciente; – não permitir acumulo de urina no tubo, não torcendo ou dobrando; – a bolsa de drenagem não deve tocar o chão; – a bolsa coletora deve ser esvaziada no mínimo a cada 8 horas ou não deixar que encha, através da válvula de drenagem; – não contaminar a válvula de drenagem; – se houver irrigação a mesma não deve ser realizada rotineiramente; – sempre que manusear o cateter as mãos devem estar higienizadas; – o cateter deve ser higienizado 2 vezes ao dia; – o cateter deve ser fixado apropriadamente, para evitar movimentação, assim minimizando traumatismo e também deve ser usado tamanho correto de cateter 5. Corroborando ainda a Resolução n°0450/2013 do Conselho Federal de Enfermagem de que a inserção de cateter vesical é privativa do Enfermeiro, que deve imprimir rigor técnico-científico ao procedimento6. A cateterização prolongada leva à bacteriuria assintomática em mais de 90% dos pacientes, não sendo recomendado o seu tratamento, já que é pouco efetivo e há probabilidade de selecionar germes resistentes. A prevenção é o mais importante. Os antimicrobianos devem ser usados quando houver sintomas ou evidência de bacteremia 7. Ressalta-se que o tempo de permanência do cateter deve ser monitorado de acordo com as condições clínicas do paciente. O cateter não deve ser mantido no paciente sem indicação clínica criteriosa. Para garantir a integralidade a coordenação do cuidado é fundamental com a equipe elaborando um projeto terapêutico singular (PTS) para o paciente, levando em consideração a história clínica, os achados do exame físico, a meta do plano terapêutico e o contexto onde o cuidado será realizado.

Bibliografia Selecionada

  1. Mazzo A, et al.Cateterismo urinário: facilidades e dificuldades relacionadas à sua padronização. Texto contexto – enferm. [online].2011; 20 (2): 333-339. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-07072011000200016  [acessado em  22 ago. 2016].
  2. Lenz LL. Cateterismo vesical: cuidados, complicações e medidas preventivas. Arquivos Catarinenses de Medicina. 2006; 35 (1): 82-91. Disponível em: http://www.acm.org.br/revista/pdf/artigos/361.pdf [acessado em 22 ago. 2016].
  3. American Urological Association. Catheter-associated Urinary Tract Infections: definitions and significance in the urologic patient. 2014. Disponível em: http://www.auanet.org/common/pdf/education/clinical-guidance/Catheter-Associated-Urinary-Tract-Infections-WhitePaper.pdf [acessado em 22 ago. 2016].
  4. Hooton TM et al. Diagnosis, Prevention, and Treatment of Catheter Associated Urinary Tract Infection in Adults: 2009 International Clinical Practice Guidelines from the Infectious Diseases Society of AmericaUrinary Catheter Guidelines • CID 2010: 50 (1 March)Disponível em: http://www.auanet.org/common/pdf/education/clinical-guidance/UTI-in-Adults.pdf [acessado em 22 ago. 2016].
  5. Brunner LS; Suddarth DS. Tratado de Enfermagem Médico-cirurgica. 8 ed. São Paulo: Guanabara Koogan. 1998. P. 980-983.
  6. Brasil. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução n°0450/2013. Normatiza o procedimento de Sondagem vesical no âmbito do Sistema Cofen / Conselhos Regionais de Enfermagem. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-04502013-4_23266.html [acessado em 21 ago. 2016].
  7. Barros E, Thomé F. Infecção Urinária em Adultos. In: Duncan, BB; Schmidt, MI, Giugliani ERJ et al. Medicina Ambulatorial: Condutas de Atenção Primária baseadas em evidências. 3 ed. Artmed. 2006. P. 1402 – 1408.
  8. Ambrose M, Bellak MW; Boucher MA et al. Doenças da Sintomatologia ao Plano de Alta. Vol 1. Guanabara Koogan. 421. 2005.
Christiane Ribeiro
Sou Técnica de Enfermagem Intensivista há 15 anos, atuando em UTI Adulto. Além da rotina hospitalar, também sou ilustradora digital, criando conteúdos educativos para facilitar o aprendizado na enfermagem. No blog e nas redes sociais, compartilho minhas experiências e ilustrações para ajudar quem está começando na área.
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