
Infecções de pele são extremamente comuns na prática assistencial, especialmente em unidades de pronto atendimento, enfermarias e UTI. Entre elas, duas condições costumam gerar dúvidas frequentes, inclusive entre profissionais de saúde: a erisipela e a celulite infecciosa.
Embora muitas vezes usadas como sinônimos no dia a dia, essas duas doenças possuem diferenças importantes — tanto na profundidade da infecção quanto na apresentação clínica e no manejo.
Nesta publicação, vamos explorar de forma clara e prática tudo o que você precisa saber para diferenciar erisipela de celulite, com foco no raciocínio clínico e nos cuidados de enfermagem.
O que é a Erisipela?
A erisipela é uma infecção que atinge as camadas mais superficiais da pele, especificamente a derme superior, com um envolvimento marcante dos vasos linfáticos superficiais. O agente etiológico mais comum é o Streptococcus pyogenes. Uma das características mais marcantes da erisipela é o seu início súbito. O paciente costuma relatar que a mancha apareceu “do nada”, acompanhada de calafrios e febre alta.
O que realmente define a erisipela no exame visual são as suas bordas. Elas são nítidas e bem delimitadas. Você consegue ver exatamente onde a infecção termina e onde a pele sadia começa. A área afetada apresenta um aspecto de “casca de laranja”, é brilhante, endurecida e tem uma cor vermelho-viva, quase escarlate. É muito comum a presença de ínguas (linfonodomegalias) próximas à região, devido ao comprometimento do sistema linfático.
O que é a Celulite Infecciosa?
Diferente da erisipela, a celulite infecciosa (que não deve ser confundida com a “celulite” estética ou fibroedema geloide) atinge a derme profunda e o tecido subcutâneo, que é a nossa camada de gordura. Os vilões aqui costumam ser tanto o Streptococcus quanto o Staphylococcus aureus. Por ser uma infecção mais profunda, o processo costuma ser um pouco mais lento no início do que a erisipela, mas nem por isso menos grave.
Na celulite, as bordas da lesão são mal definidas. É difícil dizer com precisão onde a vermelhidão acaba, pois ela se “espalha” de forma gradual para os tecidos vizinhos. A cor tende a ser um vermelho mais fosco ou arroxeado, e a dor costuma ser descrita como algo mais profundo. Como a gordura está inflamada, o edema (inchaço) pode ser muito mais acentuado do que na erisipela, e o risco de formação de abscessos ou evolução para uma infecção sistêmica é considerável se não houver intervenção rápida.
Entenda suas diferenças
A diferença central entre essas duas condições está na profundidade da infecção e na aparência da lesão.
A erisipela é mais superficial e bem delimitada, enquanto a celulite é mais profunda e difusa.
Na prática clínica, isso se traduz em:
- erisipela com bordas nítidas versus celulite com limites imprecisos;
- erisipela mais associada ao sistema linfático;
- celulite com maior risco de complicações locais, como abscessos.
Outra diferença importante está na evolução.
A erisipela tende a ter início mais súbito, com sintomas sistêmicos mais evidentes. Já a celulite pode ter evolução mais insidiosa.
Fatores de risco
Ambas as condições compartilham fatores de risco semelhantes, o que explica por que muitas vezes ocorrem em perfis parecidos de pacientes.
Entre os principais fatores estão:
- diabetes mellitus;
- insuficiência venosa crônica;
- linfedema;
- obesidade;
- lesões cutâneas (fissuras, micoses, feridas).
A porta de entrada da bactéria é um ponto chave, especialmente em membros inferiores.
Diagnóstico clínico
O diagnóstico de erisipela e celulite é essencialmente clínico.
A avaliação deve considerar:
- aspecto da lesão;
- delimitação da área afetada;
- profundidade aparente;
- presença de sintomas sistêmicos.
Exames laboratoriais podem auxiliar, como leucograma e PCR, mas não são específicos.
Em casos mais graves, exames de imagem podem ser necessários para descartar complicações, como abscessos ou fasciíte necrosante.
Tratamento
O tratamento de ambas as condições é baseado em antibioticoterapia.
Na erisipela, o foco costuma ser em cobertura para estreptococos. Na celulite, especialmente quando há suspeita de infecção mais profunda ou purulenta, pode ser necessário ampliar a cobertura para incluir estafilococos.
Além disso, medidas de suporte são fundamentais:
- elevação do membro afetado;
- controle da dor;
- hidratação;
- tratamento da porta de entrada.
Complicações possíveis
Se não tratadas adequadamente, tanto a erisipela quanto a celulite podem evoluir com complicações.
Entre elas:
- abscessos;
- sepse;
- tromboflebite;
- necrose tecidual.
A celulite, por ser mais profunda, apresenta maior risco de complicações locais graves.
Cuidados de Enfermagem
O papel da enfermagem no tratamento dessas infecções é fundamental para a recuperação tecidual e prevenção de recidivas. O cuidado vai muito além de apenas administrar o antibiótico nos horários corretos.
Demarcação da Lesão e Monitoramento
Um dos cuidados mais práticos e eficazes é o uso de uma caneta dermográfica para contornar a área da vermelhidão no momento da admissão. Isso permite que a equipe de enfermagem visualize, de forma objetiva, se a infecção está regredindo com o tratamento ou se está avançando. Além disso, a aferição frequente da temperatura axilar e a palpação do calor local são essenciais para monitorar a resposta inflamatória.
Posicionamento e Conforto
O repouso com o membro elevado é uma das prescrições de enfermagem mais importantes. A elevação ajuda a reduzir o edema por gravidade, o que diminui a dor e facilita a chegada dos antibióticos aos tecidos. É preciso ter cuidado para que o apoio seja sob toda a perna, evitando pontos de pressão excessiva no calcanhar que possam gerar lesões por pressão.
Cuidados com a Pele e Higiene
Manter a pele limpa e seca é vital. Se houver bolhas, o enfermeiro deve avaliar a necessidade de curativos específicos, evitando estourá-las para não criar novas portas de entrada para bactérias. Além disso, é essencial tratar a causa primária. Se o paciente tem uma micose interdigital, de nada adiantará tratar a erisipela se a porta de entrada continuar aberta. A hidratação da pele (onde não houver lesão ativa) ajuda a prevenir novas fissuras.
Erisipela e celulite são infecções comuns, mas que exigem atenção e conhecimento para um manejo adequado. Saber diferenciá-las na prática clínica é essencial para direcionar o tratamento correto e prevenir complicações.
Para a enfermagem, essa diferenciação não é apenas teórica — ela impacta diretamente na avaliação, no cuidado e na segurança do paciente.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos de manejo de infecções de partes moles. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA (SBD). Erisipela e Celulite: Diagnóstico e Tratamento. Rio de Janeiro: SBD, 2024. Disponível em: https://www.sbd.org.br/.
- STEVENS, D. L.; BRYANT, A. E. Infectious Diseases of the Skin and Soft Tissue. In: Harrison’s Principles of Internal Medicine. 21. ed. New York: McGraw Hill, 2022.
- TAMEZ, Eloísa A.; SILVA, Maria Jones P. Enfermagem na Assistência em Infectologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
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STEvens, D. L. et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections. Clinical Infectious Diseases.
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