
Vá direto ao ponto!
Nem toda mão que fica branca ou arroxeada no frio está apenas “com má circulação”. Quando a mudança de cor aparece em episódios, principalmente acompanhada de frio intenso, dormência, formigamento ou dor, pode estar ocorrendo um vasoespasmo típico do fenômeno de Raynaud.
O fenômeno de Raynaud ocorre quando pequenos vasos, principalmente dos dedos das mãos e dos pés, sofrem uma vasoconstrição exagerada diante do frio ou do estresse emocional. Com a redução temporária do fluxo sanguíneo, a região pode ficar pálida, azulada, avermelhada ou apresentar apenas algumas dessas mudanças antes de retornar ao normal.
As três cores são obrigatórias?
Não. A sequência branco, azul e vermelho é a apresentação mais conhecida, mas nem todas as pessoas passam pelas três fases. A palidez está relacionada à redução do fluxo sanguíneo, a coloração azulada pode surgir durante a desoxigenação e a vermelhidão aparece com a reperfusão. Alguns episódios apresentam apenas uma ou duas dessas alterações, geralmente acompanhadas de sensação de frio, dormência, parestesia ou dor.
Na prática clínica, é comum o paciente chegar depois que o episódio terminou. A mão já recuperou a cor e a única pista é a história de “dedos que ficam muito brancos quando pego algo gelado”. Por isso, perguntar sobre o aspecto durante a crise — e, quando possível, orientar o registro fotográfico dos episódios para avaliação médica — pode ajudar a caracterizar melhor o quadro.
Primário ou secundário?
O fenômeno de Raynaud primário ocorre sem uma doença associada identificável e, em geral, não provoca lesão permanente dos tecidos. Já o fenômeno de Raynaud secundário está relacionado a outra condição ou fator desencadeante e pode ser mais grave.
Entre as causas associadas estão doenças do tecido conjuntivo, especialmente a esclerose sistêmica, além de outras condições, exposições e medicamentos. Na esclerose sistêmica, por exemplo, o fenômeno de Raynaud pode ser uma manifestação inicial importante da doença.
Aqui está um ponto que merece atenção durante a assistência: uma pessoa com episódios antigos, leves e reversíveis pode ter um comportamento completamente diferente daquele paciente que relata dor intensa, feridas na ponta dos dedos ou crises progressivamente mais frequentes. A mudança desse padrão é mais relevante do que simplesmente memorizar a sequência das cores.
Quando o quadro merece investigação?
O diagnóstico do fenômeno de Raynaud é predominantemente clínico, mas a avaliação busca diferenciar a forma primária da secundária. Dependendo do caso, podem ser solicitados exames laboratoriais e métodos complementares, como a capilaroscopia.
Dor intensa, crises assimétricas, úlceras digitais, necrose, início recente ou piora importante dos sintomas devem chamar atenção para a possibilidade de doença secundária e necessidade de investigação. O fenômeno de Raynaud secundário pode evoluir com isquemia digital importante, infecções e, nos casos mais graves, perda de tecido.
O tratamento começa longe do medicamento
Evitar exposição ao frio e manter mãos e pés aquecidos são medidas fundamentais. A cessação do tabagismo também é importante, pois a nicotina favorece a vasoconstrição. Quando o estresse é um gatilho relevante, estratégias de controle e relaxamento podem ajudar a reduzir os episódios.
Nos casos em que as medidas não farmacológicas não são suficientes ou quando há maior gravidade, o tratamento médico pode incluir medicamentos vasodilatadores, especialmente bloqueadores dos canais de cálcio. Outras opções podem ser utilizadas conforme a causa, a intensidade do quadro e a presença de complicações; por isso, não existe uma única prescrição para todo paciente com Raynaud.
Cuidados de enfermagem
Durante a avaliação, observe a coloração, temperatura, sensibilidade e integridade da pele das extremidades. Pergunte sobre os gatilhos, duração das crises, presença de dor e se há feridas ou alterações persistentes entre os episódios.
Oriente o paciente a evitar exposição brusca ao frio, utilizar proteção adequada para as extremidades e não fumar. Diante de dor intensa, úlceras, áreas escurecidas, sinais de infecção ou alteração persistente da perfusão, o quadro precisa de avaliação médica. No Raynaud secundário, identificar precocemente o comprometimento digital pode fazer diferença na prevenção de complicações.
O mais importante para quem estuda ou trabalha na enfermagem é não reduzir o fenômeno de Raynaud a uma imagem de “dedos que ficam brancos, azuis e vermelhos”. Essa sequência ajuda a reconhecer o quadro, mas a avaliação precisa ir além: qual é o gatilho, como são os episódios, existe assimetria, há dor ou lesão e pode haver uma doença por trás?
Fenômeno de Raynaud: Não Ignore os Dedos
- Nem todos os episódios apresentam as três cores clássicas
- O frio e o estresse são gatilhos frequentes
- Raynaud pode ser primário ou secundário a outra doença
- Dor intensa e úlceras digitais exigem atenção
Referências:
- MANUAIS MSD. Fenômeno de Raynaud. Manual MSD: versão para profissionais. Revisado em jul. 2025. Disponível em: Manual MSD — Fenômeno de Raynaud.
- BMJ BEST PRACTICE. Fenômeno de Raynaud: sintomas, diagnóstico e tratamento. Revisão das evidências em 12 ago. 2026. Disponível em: BMJ Best Practice — Fenômeno de Raynaud.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Esclerodermia. Atualizado em 27 maio 2024. Disponível em: Sociedade Brasileira de Reumatologia — Esclerodermia.
- SANTIAGO, Tânia et al. Portuguese recommendations for the management of Raynaud’s phenomenon and digital ulcers in systemic sclerosis and other connective tissue diseases. ARP Rheumatology, v. 3, n. 2, p. 84-94, 2024. Disponível em: PubMed — Portuguese Recommendations for Raynaud’s Phenomenon.
Paciente Instável, o que avaliar primeiro?
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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