Classificação da Hipotermia

hipotermia é definida como a queda da temperatura corporal central abaixo de 35°C, podendo levar a complicações graves, incluindo arritmias cardíacas, falência de órgãos e morte. A classificação da hipotermia em leve, moderada e grave é essencial para determinar a abordagem terapêutica adequada.

Este artigo detalha cada estágio, seus sinais clínicos e os cuidados específicos de enfermagem necessários para um manejo eficaz.

Hipotermia Leve (32°C – 35°C)

Sinais e Sintomas

  • Tremores intensos (mecanismo de geração de calor);
  • Pele fria e pálida;
  • Taquicardia e taquipneia compensatórias;
  • Confusão leve e dificuldade de coordenação;
  • Pressão arterial normal ou levemente elevada.

Cuidados de Enfermagem

  • Aquecimento passivo:
    • Remover roupas molhadas e cobrir com cobertores secos.
    • Ambiente aquecido (25°C – 28°C).
  • Monitorar temperatura central (termômetro esofágico ou retal).
  • Oferecer líquidos quentes (se o paciente estiver consciente).
  • Evitar movimentos bruscos (risco de arritmia).

Hipotermia Moderada (28°C – 32°C)

Sinais e Sintomas

  • Tremores cessam (depleção de energia muscular);
  • Bradicardia e bradipneia;
  • Diminuição do nível de consciência (letargia, estupor);
  • Dilatação pupilar (midríase);
  • Hipotensão e diminuição do débito urinário;
  • Risco de fibrilação ventricular.

Cuidados de Enfermagem

  • Aquecimento ativo externo:
    • Manta térmica, compressas aquecidas (evitar queimaduras).
    • Oxigênio umidificado e aquecido (42°C – 46°C).
  • Monitorização cardíaca contínua (risco de arritmias).
  • Acesso venoso para fluidos aquecidos (soro fisiológico a 40°C – 42°C).
  • Preparo para intubação orotraqueal (depressão respiratória).

Hipotermia Grave (<28°C)

Sinais e Sintomas

  • Inconsciência (coma);
  • Arritmias graves (Fibrilação Ventricular, Assistolia);
  • Ausência de reflexos;
  • Pressão arterial indetectável;
  • Edema pulmonar e falência renal aguda;
  • Rigor mortis paradoxal (pode ser confundido com óbito).

Cuidados de Enfermagem

  • Aquecimento ativo interno:
    • Infusão intravenosa de soluções aquecidas.
    • Lavagem peritoneal ou pleural com fluido aquecido.
    • ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) em casos extremos.
  • Suporte avançado de vida (ACLS) com ênfase em:
    • Desfibrilação pode ser ineficaz abaixo de 30°C.
    • CPR prolongado até aquecimento (>30°C).
  • Evitar manipulação excessiva (risco de fibrilação ventricular).

Cuidados Gerais de Enfermagem

Prevenção de Complicações

  • Monitorização contínua: ECG, temperatura central, diurese.
  • Evitar rewarming shock (vasodilatação abrupta → hipotensão).
  • Avaliar lesões associadas (congelamento, trauma).

Educação ao Paciente e Familiares

  • Grupos de risco (idosos, alcoólatras, sem-teto).
  • Roupas adequadas para ambientes frios.
  • Reconhecer sinais precoces de hipotermia.

A classificação da hipotermia em leve, moderada e grave direciona a intervenção terapêutica, desde medidas simples de aquecimento até suporte avançado de vida. A enfermagem desempenha papel crucial no monitoramento, reaquecimento seguro e prevenção de complicações, melhorando o prognóstico dos pacientes.

Referências:

  1. ZAFREN, K. et al. Wilderness Medical Society Practice Guidelines for the Out-of-Hospital Evaluation and Treatment of Accidental Hypothermia. Wilderness & Environmental Medicine, v. 30, n. 4, p. S47-S69, 2019. Disponível em: https://www.wemjournal.org/article/S1080-6032(19)30170-6/fulltext.
  2. RASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Manejo da Hipotermia Acidental. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude.
  3. BROWN, D. J. A. et al. Accidental Hypothermia. New England Journal of Medicine, v. 367, n. 20, p. 1930-1938, 2012. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra1114208.
  4. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 142, n. 16, 2020. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/CIR.0000000000000916

O Papel Essencial da Equipe de Enfermagem na Parada Cardiorrespiratória

Na rotina de um hospital, especialmente em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), há momentos em que cada segundo conta. A Parada Cardiorrespiratória (PCR) é, sem dúvida, um desses momentos. Ela acontece quando o coração e a respiração de uma pessoa param de repente, e sem uma intervenção imediata, o resultado pode ser catastrófico para o cérebro e outros órgãos vitais.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, é fundamental entender que, em um cenário de PCR, o o profissional de enfermagem (enfermeiro, técnico ou auxiliar) não é apenas mais um membro da equipe. Ele é, muitas vezes, o primeiro a chegar, o primeiro a identificar o problema e o líder da resposta inicial.

Este é um papel que exige agilidade, conhecimento técnico apurado e, acima de tudo, uma liderança clara e assertiva. Vamos aprofundar um pouco mais sobre a atuação da equipe de enfermagem diante da PCR e entender como a sua liderança pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

A Resposta Imediata: O Reconhecimento e os Primeiros Passos

O enfermeiro e o técnico de enfermagem são os profissionais que estão ao lado do paciente 24 horas por dia, 7 dias por semana na UTI. Por isso, a sua capacidade de identificar os sinais de uma PCR é o ponto de partida para a sobrevivência do paciente. Ele percebe a falta de resposta, a ausência de pulso e a parada da respiração. Neste instante, a ação deve ser rápida e decisiva.

O profissional inicia imediatamente o Suporte Básico de Vida (SBV), que inclui as compressões torácicas de alta qualidade, e aciona a equipe de emergência. A partir desse momento, ele se torna o maestro de uma orquestra de socorro.

A Equipe da PCR: Cada Membro em Seu Papel

Em uma PCR, o trabalho em equipe é tudo. Uma equipe bem treinada e organizada atua de forma coordenada para garantir que as intervenções sejam feitas de maneira eficaz e sem atrasos. A organização ideal de uma equipe de resposta à PCR conta com o enfermeiro como um líder central e os seguintes papéis:

  • Responsável pela Ventilação: Um profissional que garante que as vias aéreas do paciente estejam desobstruídas e realiza a ventilação com bolsa-máscara (ambu).
  • Responsáveis pela Compressão Torácica: São necessários dois profissionais para revezar as compressões torácicas, garantindo a qualidade e a profundidade adequadas sem cansaço.
  • Líder Anotador: Um membro da equipe que registra os medicamentos administrados e o tempo de cada intervenção. Esta função é crucial para o acompanhamento e a tomada de decisões.
  • Responsável pelos Medicamentos: O profissional que prepara e administra os medicamentos conforme a indicação do médico ou o protocolo.
  • Profissional ao Lado do Monitor e Desfibrilador: Geralmente um médico, este membro da equipe avalia o ritmo cardíaco do paciente no monitor e, se indicado, realiza a desfibrilação com o Desfibrilador Externo Automático (DEA) ou o manual.

O Papel de Liderança do Enfermeiro: Organização e Ação

Em meio ao caos de uma PCR, o enfermeiro atua como um coordenador. Ele é quem direciona as ações da equipe, garantindo que cada um esteja em sua posição e cumprindo sua função. Sua autonomia e experiência são fundamentais.

  1. Coordenação da Equipe: O enfermeiro-líder distribui as tarefas, assegura que as compressões sejam eficientes e que a ventilação esteja adequada.
  2. Instalação do Desfibrilador: Ele é responsável por instalar o DEA no paciente e, se o ritmo for chocável, ele mesmo pode realizar a desfibrilação.
  3. Administração de Medicações: O enfermeiro supervisiona a manipulação e a administração dos medicamentos de emergência, como a adrenalina e a amiodarona, que são cruciais para o sucesso da reanimação.
  4. Aprimoramento Contínuo: Um bom enfermeiro-líder sabe que o aprendizado é constante. Ele busca o aprimoramento de sua equipe, utilizando tecnologias e protocolos atualizados (como os da American Heart Association – AHA) para garantir que a assistência seja sempre a mais eficaz possível.

O enfermeiro na UTI, com seu perfil de liderança, não apenas executa tarefas, mas otimiza recursos humanos e tecnológicos, tornando a assistência ágil, hábil e com maiores chances de sucesso. Acreditamos que a autonomia, a organização e o treinamento contínuo da equipe, liderados por um enfermeiro preparado, são a chave para um maior êxito na recuperação de um paciente em PCR.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). ACLS Suporte Avançado de Vida em Cardiologia. 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/en/resources/aha-guidelines/aha-acls-guidelines-cpr-and-ecc.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília, DF: ANVISA, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/manuais-e-guias/manual_seguranca_paciente_anvisa.pdf.
  3. BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016. (Referência para a metodologia de análise de conteúdo).

Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM)

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM) é uma das infecções hospitalares mais comuns nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e representa um grande desafio para os profissionais de saúde.

Quando falamos de pacientes críticos em ventilação mecânica, o risco de desenvolver essa complicação é significativo, e por isso é tão importante que o time de enfermagem compreenda bem os fatores envolvidos, formas de prevenção e os cuidados diretos com esses pacientes.

Nesta publicação, vamos explorar a PAVM de maneira didática, compreensível e com profundidade suficiente para que estudantes e profissionais da enfermagem possam aplicar esse conhecimento no cuidado diário com segurança e qualidade.

O que é PAVM?

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é definida como uma infecção pulmonar que ocorre após 48 horas da intubação orotraqueal e início da ventilação mecânica invasiva. É uma forma de pneumonia hospitalar, mas com características específicas, pois está diretamente relacionada ao uso do tubo orotraqueal e à presença do ventilador mecânico.

Quando o paciente é intubado, a barreira natural do trato respiratório é rompida, permitindo que microrganismos entrem com mais facilidade nos pulmões. Além disso, a própria manipulação do circuito do ventilador e a aspiração de vias aéreas podem contribuir para a colonização de bactérias nos pulmões.

Como a PAVM se desenvolve?

A PAVM geralmente é causada por bactérias gram-negativas, como Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae, além de gram-positivos como Staphylococcus aureus (inclusive a forma resistente à meticilina – MRSA).

Essas bactérias podem alcançar os pulmões por várias vias:

  • Aspiração de secreções da orofaringe contaminada
  • Formação de biofilme no tubo endotraqueal
  • Contaminação cruzada pelas mãos dos profissionais de saúde
  • Falhas na higienização dos circuitos respiratórios

O risco aumenta conforme o tempo de ventilação se prolonga, sendo um fator de mortalidade significativo entre pacientes críticos.

Sinais de Alerta: Como Desconfiar da PAVM?

Reconhecer a PAVM precocemente é vital. Fique atento a esses sinais no paciente intubado:

  • Febre: É um dos primeiros e mais comuns sinais de infecção.
  • Secreção Traqueal Purulenta: A secreção que vem do tubo fica mais amarelada, esverdeada, espessa e em maior quantidade.
  • Alteração na Ausculta Pulmonar: Presença de roncos, sibilos ou crepitações novas que não estavam lá antes.
  • Piora da Troca Gasosa: O paciente começa a precisar de mais oxigênio no ventilador (aumenta a FiO2) ou o ventilador precisa fazer mais esforço para ventilar (aumenta a pressão de pico).
  • Leucocitose: Aumento do número de glóbulos brancos no hemograma, indicando infecção.
  • Radiografia de Tórax: O raio-X do pulmão pode mostrar infiltrados novos ou progressão de infiltrados anteriores.

Tratamento

O tratamento da PAVM envolve o uso de antibióticos de amplo espectro, muitas vezes ajustados de acordo com a cultura e o antibiograma. O tempo de uso costuma variar entre 7 a 14 dias, dependendo do microrganismo causador e da resposta clínica do paciente.

Mas mais importante do que tratar é prevenir, e é aí que a enfermagem exerce um papel fundamental.

Cuidados de enfermagem na prevenção da PAVM

A prevenção da PAVM exige uma abordagem multiprofissional, mas a enfermagem está na linha de frente dessa missão. Vários protocolos e bundles (conjuntos de medidas baseadas em evidência) são aplicados em UTIs para reduzir a incidência da infecção. Entre os principais cuidados, destacam-se:

Elevação da Cabeceira do Leito: Manter a cabeceira elevada entre 30 a 45 graus (semi-Fowler). Isso reduz o risco de microaspiração de conteúdo gástrico ou secreções da orofaringe para os pulmões.

  • Cuidado de Enfermagem: Avaliar e registrar a elevação da cabeceira regularmente, lembrando de ajustar ao realizar alguns procedimentos (como o banho no le leito ou mudança de decúbito).

Higiene Oral Rigorosa: A boca do paciente intubado é um reservatório de bactérias. A higiene oral deve ser feita com antissépticos (como clorexidina 0,12%) a cada 6 ou 8 horas.

  • Cuidado de Enfermagem: Utilizar escovas macias, gazes e soluções antissépticas. Aspirar as secreções da boca antes e durante a higiene para evitar que desçam para os pulmões. Não esquecer da língua e das gengivas.

Aspiração de Secreções Subglóticas: Alguns tubos orotraqueais especiais possuem um lúmen acima do cuff que permite aspirar as secreções que se acumulam logo acima do balonete.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar se o TOT é um tubo com essa via de aspiração e realizar a aspiração conforme rotina da unidade ou necessidade.

Monitorização da Pressão do Cuff (Balonete): O cuff do TOT deve ser inflado com a pressão correta para evitar vazamentos e microaspirações. Uma pressão muito baixa permite a passagem de secreções, e uma pressão muito alta pode causar lesões na traqueia.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar a pressão do cuff regularmente (a cada 4 a 8 horas, ou conforme protocolo da unidade) com um cuffômetro, mantendo-a entre 20-30 cmH2O.

Avaliação Diária da Necessidade de Sedação e Extubação (Desmame): Quanto menos sedado e menos tempo no ventilador, menor o risco!

  • Cuidado de Enfermagem: Participar ativamente da discussão da equipe sobre a redução da sedação e os critérios para o desmame. Observar o nível de consciência do paciente e sua capacidade de tolerar a diminuição do suporte ventilatório. Realizar testes de respiração espontânea conforme protocolo e com o médico.

Mobilização Precoce e Fisioterapia Respiratória: Manter o paciente o mais ativo possível (mesmo no leito) e realizar fisioterapia respiratória para ajudar na mobilização de secreções e na expansão pulmonar.

  • Cuidado de Enfermagem: Auxiliar a fisioterapia, mudar o paciente de posição, incentivar exercícios passivos e ativos.

Higiene das Mãos: A regra de ouro da prevenção de infecções. Lavar as mãos com água e sabão ou álcool em gel antes e depois de qualquer contato com o paciente, o ventilador ou os equipamentos.

Cuidados com o Circuito Ventilatório: Trocar o circuito (tubos que conectam o paciente ao ventilador) apenas quando sujo ou danificado, e não rotineiramente. Isso evita a manipulação desnecessária e a contaminação.

Papel da enfermagem no manejo do paciente com PAVM

Além da prevenção, o profissional de enfermagem também tem papel importante no cuidado do paciente que já desenvolveu a PAVM. Monitorar os sinais vitais, observar alterações na secreção respiratória, auxiliar na administração correta dos antibióticos, garantir a posição adequada no leito e colaborar para o desmame da ventilação são tarefas fundamentais para o sucesso do tratamento.

A comunicação com a equipe médica e fisioterapêutica também é essencial, pois as decisões devem ser sempre compartilhadas com base na evolução clínica do paciente.

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é uma complicação grave, mas amplamente evitável com medidas simples e eficazes. Para os profissionais e estudantes de enfermagem, entender profundamente o processo de instalação da PAVM, os riscos envolvidos e as estratégias de cuidado pode fazer toda a diferença na vida dos pacientes internados em UTIs.

Estar atento aos protocolos, manter-se atualizado e aplicar o conhecimento técnico com sensibilidade são atitudes que elevam a qualidade da assistência e contribuem diretamente para a segurança do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. Brasília: ANVISA, 2017.
    Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude/view
  2. RUN-BUISSON, C. Pneumonia associada à ventilação mecânica: uma atualização sobre prevenção e tratamento. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 29, n. 4, p. 399–407, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbti/a/3hKbZYgSPwTqKdWrTjPpNcB/
  3. KLEVENS, R. M. et al. Estimativa da incidência de infecções relacionadas à assistência à saúde nos Estados Unidos. Infection Control and Hospital Epidemiology, v. 28, n. 6, p. 409–414, 2007.Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/infection-control-and-hospital-epidemiology/article/abs/estimating-healthcareassociated-infections/
  4. INSTITUTO BRASILEIRO PARA SEGURANÇA DO PACIENTE. Bundle para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV). 2022.
    Disponível em: https://segurancadopaciente.com.br/bundle-prevencao-pav/
  5. GARNICA, D. L.; LORENZI-FILHO, G.; AMANCIO, M. D. L. Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica: Fisiopatologia, Diagnóstico e Prevenção. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v. 37, n. 6, p. 778-789, nov./dez. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbp/a/yK8gC6mF4hX3jS2pQ7zW/?lang=pt.

Emergência e Urgência Hipertensiva: Entenda as Diferenças

A hipertensão arterial, ou pressão alta, é uma condição crônica muito comum. Muitos convivem com ela de forma controlada, com medicação e hábitos saudáveis. Mas, e quando a pressão sobe de repente para níveis altíssimos?

Aí, a situação muda de figura e podemos estar diante de um quadro que exige nossa atenção imediata: as crises hipertensivas.

Dentro das crises, existem duas condições que, embora pareçam semelhantes, têm implicações muito diferentes e exigem abordagens distintas: a emergência hipertensiva e a urgência hipertensiva.

Para nós, profissionais de enfermagem e estudantes de enfermagem, compreender essas diferenças é crucial para uma avaliação rápida e uma conduta que pode salvar a vida ou prevenir danos graves a órgãos.

Vamos desvendar cada uma delas?

O que é uma Crise Hipertensiva?

Crise hipertensiva é o termo utilizado para descrever uma elevação acentuada da pressão arterial, geralmente com valores acima de 180/120 mmHg. Essa condição pode se apresentar com ou sem sinais de lesão aguda em órgãos-alvo como o coração, cérebro, rins ou vasos sanguíneos.

A crise hipertensiva se divide em dois tipos principais:

  • Urgência hipertensiva: quando há elevação da pressão arterial sem sinais de dano imediato a órgãos-alvo.
  • Emergência hipertensiva: quando a elevação pressórica vem acompanhada de comprometimento agudo e progressivo de órgãos vitais.

Emergência Hipertensiva: O Perigo Iminente (Dano em Órgão-Alvo)

Imagine a pressão subindo tanto que começa a “quebrar” ou comprometer o funcionamento de órgãos vitais. Isso é uma emergência hipertensiva. Nela, a pressão arterial elevadíssima está causando ou ameaçando causar danos agudos e progressivos a órgãos como cérebro, coração, rins ou olhos.

Características Principais:

    • Valores de PA: Geralmente PA Sistólica ge 180 mmHg e/ou PA Diastólica ge 120 mmHg.
    • Presença de Lesão em Órgão-Alvo: Este é o critério DEFINIDOR. Não é apenas a pressão alta, mas o efeito que ela está causando no corpo.
    • Sintomas Graves: Os sintomas refletem o comprometimento dos órgãos.
    • Tratamento: Redução imediata e controlada da PA (em minutos a 1 hora), geralmente com medicamentos administrados por via intravenosa (IV) em ambiente de UTI ou emergência. A queda deve ser gradual para evitar hipoperfusão (falta de sangue) em órgãos, mas rápida o suficiente para cessar o dano.

Exemplos de Lesões de Órgão-Alvo e Sintomas:

    • Cérebro:
      • Encefalopatia Hipertensiva: Dor de cabeça intensa, confusão mental, convulsões, coma.
      • AVC (Acidente Vascular Cerebral): Fraqueza ou paralisia de um lado do corpo, dificuldade para falar, desvio de rima labial, alterações visuais súbitas.
      • Hemorragia Intracerebral: Sangramento no cérebro.
    • Coração:
      • Infarto Agudo do Miocárdio (IAM): Dor no peito (angina), que pode irradiar para braço, pescoço.
      • Edema Agudo de Pulmão (EAP): Falta de ar intensa, tosse com expectoração rosada, respiração ofegante.
      • Dissecção Aguda da Aorta: Dor torácica súbita e excruciante, que pode se irradiar para as costas.
    • Rins:
      • Insuficiência Renal Aguda: Diminuição acentuada da produção de urina, inchaço.
    • Olhos:
      • Retinopatia Hipertensiva: Visão turva, perda súbita da visão.
    • Outras: Eclâmpsia (em gestantes), crise adrenérgica.

Cuidados de Enfermagem na Emergência Hipertensiva:

    • Prioridade Absoluta: O paciente com emergência hipertensiva é uma prioridade CÓDIGO VERMELHO.
    • Monitorização Contínua: Monitorar a PA de forma invasiva (cateter arterial) ou não invasiva (aferição frequente), frequência cardíaca, saturação de oxigênio e nível de consciência.
    • Acesso Venoso: Garantir pelo menos dois acessos venosos calibrosos.
    • Administração de Medicação IV: Preparar e infundir medicamentos como Nitroprussiato de Sódio, Labetalol, Nicardipino, conforme prescrição médica, monitorando a resposta do paciente. Esses medicamentos exigem diluição e bomba de infusão.
    • Avaliação Neurológica: Realizar escalas neurológicas (Glasgow, NIHSS, se aplicável) e observar alterações.
    • Sinais e Sintomas: Estar atento aos sintomas relatados pelo paciente e a qualquer mudança no seu quadro.
    • Conforto e Segurança: Manter o paciente em repouso no leito, com cabeceira elevada se houver dispneia, e oferecer suporte emocional.
    • Registro Detalhado: Documentar os horários das aferições de PA, as medicações administradas, as doses e a resposta do paciente.

Urgência Hipertensiva: O Alerta Amarelo (Sem Dano em Órgão-Alvo)

Na urgência hipertensiva, a pressão arterial também está muito alta (geralmente nos mesmos níveis ou um pouco menores que na emergência: PA Sistólica ge 180 mmHg e/ou PA Diastólica ge 120 mmHg), mas a principal diferença é que NÃO há evidência de lesão aguda ou progressiva em órgãos-alvo. Os sintomas, se presentes, são mais inespecíficos.

Características Principais:

    • Valores de PA: Geralmente PA Sistólica ge 180 mmHg e/ou PA Diastólica ge 120 mmHg.
    • Ausência de Lesão Aguda em Órgão-Alvo: Este é o critério DEFINIDOR.
    • Sintomas Inespecíficos: Dor de cabeça leve a moderada, tontura, zumbido no ouvido, sangramento nasal (epistaxe), ansiedade.
    • Tratamento: Redução gradual da PA (em horas a dias), geralmente com medicamentos por via oral (VO). O objetivo é reduzir a pressão em 24-48 horas, sem pressa, para evitar hipoperfusão.
    • Manejo: Pode ser feito em ambulatório ou pronto-socorro, sem necessidade de UTI inicialmente.

Cuidados de Enfermagem na Urgência Hipertensiva:

    • Aferição Precisa da PA: Realizar várias aferições de PA, em ambos os braços, para confirmar os valores.
    • Avaliação de Sintomas: Perguntar sobre dor de cabeça, tontura, alterações visuais, e principalmente, investigar ativamente a presença de sintomas de lesão em órgão-alvo (dispneia, dor no peito, fraqueza em membros, confusão). A ausência desses é o que diferencia da emergência.
    • Acalmar o Paciente: Muitos pacientes ficam ansiosos com a pressão alta, o que pode piorar o quadro. Um ambiente calmo e acolhedor é importante.
    • Administração de Medicação VO: Preparar e administrar medicamentos anti-hipertensivos orais (ex: Captopril, Nifedipino de liberação lenta, Clonidina) conforme prescrição médica.
    • Reavaliação Periódica: Reafirmar a PA e reavaliar os sintomas a cada 30-60 minutos após a administração do medicamento oral, até que a pressão esteja em níveis mais seguros.
    • Orientação ao Paciente: Explicar sobre a importância da adesão ao tratamento, da dieta com baixo teor de sódio, da prática de exercícios e do acompanhamento médico regular.
    • Não Usar Nifedipino Cápsula Sublingual: Essa prática não é recomendada por causar queda brusca e descontrolada da PA, com risco de AVC e IAM.

Como é feito o tratamento?

O tratamento varia de acordo com o tipo de crise hipertensiva.

Na urgência hipertensiva, são utilizados antihipertensivos orais, como captopril, clonidina ou atenolol, com monitoramento em observação por algumas horas.

Já nas emergências hipertensivas, o paciente deve receber antihipertensivos intravenosos de ação rápida, como nitroprussiato de sódio, labetalol ou nitroglicerina, com redução da pressão em ambiente controlado e monitorizado, geralmente na UTI.

O Que Nos Leva a Confundir e Como Evitar?

A confusão entre emergência e urgência é comum porque ambos os quadros apresentam PA muito alta. O segredo para diferenciar é sempre procurar por SINAIS E SINTOMAS DE LESÃO EM ÓRGÃO-ALVO. Se a pressão está alta, mas o paciente está assintomático ou com sintomas leves e inespecíficos, é urgência. Se a pressão está alta e o paciente está com dor no peito, falta de ar, alteração neurológica, é emergência.

Nossa avaliação precisa e a comunicação clara com o médico são a chave para o sucesso no manejo dessas situações. Um erro de classificação pode levar a um tratamento inadequado, com consequências graves para o paciente.

Cuidados de Enfermagem

A enfermagem desempenha um papel essencial no reconhecimento, intervenção e monitoramento de pacientes em crise hipertensiva. Entre os principais cuidados, destacam-se:

Avaliação inicial

  • Verificar os sinais vitais com frequência, especialmente a pressão arterial em intervalos curtos.
  • Avaliar a presença de sintomas neurológicos, dor torácica, dispneia ou alterações na consciência.
  • Observar sinais de edema periférico, palidez, sudorese ou alterações visuais.

Administração medicamentosa

  • Administrar os medicamentos conforme prescrição médica, respeitando a via (oral ou intravenosa) e o tempo correto de infusão.
  • Monitorar os efeitos adversos dos anti-hipertensivos, como hipotensão súbita ou bradicardia.

Apoio emocional

  • Oferecer acolhimento ao paciente, explicando de forma simples o que está acontecendo.
  • Controlar o ambiente para reduzir estímulos estressores, como barulho ou agitação.

Registro e comunicação

  • Registrar todas as alterações no prontuário.
  • Comunicar imediatamente à equipe médica qualquer mudança no estado clínico do paciente.

Entender a diferença entre urgência e emergência hipertensiva é fundamental para que a equipe de enfermagem possa agir com rapidez e precisão. Em ambos os casos, o papel do enfermeiro e do técnico de enfermagem é decisivo na estabilização do paciente e na prevenção de complicações graves.

O conhecimento teórico aliado à prática clínica permite oferecer um cuidado mais seguro, humanizado e eficiente, contribuindo diretamente para a redução da mortalidade por causas cardiovasculares.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Rio de Janeiro, v. 116, n. 3, p. 516-658, mar. 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/S9Xg4JjV9Qz2Z5T8D9kC7qH/?lang=pt
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Hipertensão Arterial Sistêmica. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. 
  3. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Atendimento das Emergências Hipertensivas. 2022.
  5. SILVA, M. T. et al. Avaliação das Emergências Hipertensivas em Serviços de Urgência. Revista Brasileira de Clínica Médica, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 56-63, 2021. Disponível em: https://www.rbcm.org.br
  6. PEARCE, C. J. et al. Crises Hipertensivas: Diagnóstico e Manejo. The New England Journal of Medicine. 2019. Disponível em: https://www.nejm.org

Emergências Cardiológicas

As emergências cardiológicas são situações clínicas que envolvem risco imediato à vida devido a alterações no funcionamento do coração e do sistema circulatório. Para o profissional de enfermagem, é essencial reconhecer precocemente os sinais e sintomas dessas condições, a fim de atuar com rapidez e segurança.

As Principais Patologias que Constituem uma Emergência Cardiológica

Vamos conhecer as condições que frequentemente nos deparamos em um cenário de emergência cardíaca:

Infarto Agudo do Miocárdio (IAM)

O IAM, popularmente conhecido como ataque cardíaco, ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do músculo cardíaco é interrompido, geralmente por um trombo em uma artéria coronária. Isso leva à morte das células musculares cardíacas por falta de oxigênio.

Sinais e sintomas:
Dor intensa e prolongada no peito (geralmente em aperto), que pode irradiar para o braço esquerdo, mandíbula, pescoço ou costas. Também podem ocorrer suor frio, náuseas, vômitos, palidez e sensação de morte iminente.

Cuidados de enfermagem:

  • Monitorização dos sinais vitais e eletrocardiograma contínuo.
  • Administração de oxigênio, se saturação estiver < 94%.
  • Preparar e administrar medicamentos como ácido acetilsalicílico, nitratos e opioides, conforme prescrição.
  • Manter o paciente em repouso e em posição confortável.
  • Estar preparado para possíveis paradas cardiorrespiratórias.

Angina Instável

A angina instável é um quadro de dor torácica resultante da isquemia transitória do miocárdio. Diferentemente da angina estável, a instável ocorre em repouso, é mais intensa, prolongada e não responde bem à medicação.

Sinais e sintomas:
Dor no peito semelhante à do infarto, mas geralmente sem elevação de enzimas cardíacas. Pode ocorrer em repouso ou com esforço mínimo.

Cuidados de enfermagem:

  • Avaliar a dor: início, localização, intensidade e fatores de alívio ou piora.
  • Administrar nitratos sublinguais conforme prescrição.
  • Monitorar ECG e sinais vitais.
  • Preparar o paciente para exames como troponina e ecocardiograma.

Arritmias Cardíacas Graves

As arritmias são alterações no ritmo dos batimentos cardíacos. Elas podem ser rápidas (taquiarritmias), lentas (bradiarritmias) ou irregulares. Algumas arritmias, como fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso, são emergências que levam à parada cardíaca.

Sinais e sintomas:
Palpitações, tontura, síncope, dor no peito, falta de ar e, em casos graves, perda de consciência.

Cuidados de enfermagem:

  • Monitorização cardíaca contínua.
  • Reconhecer rapidamente sinais de instabilidade hemodinâmica.
  • Auxiliar em procedimentos como cardioversão elétrica ou uso de marcapasso, se necessário.
  • Manter materiais de reanimação prontos.

Insuficiência Cardíaca Aguda

Na insuficiência cardíaca aguda, o coração não consegue bombear sangue de forma eficaz, causando acúmulo de líquido nos pulmões e em outros tecidos. Pode ser descompensada por infarto, arritmias, hipertensão, infecções ou má adesão ao tratamento.

Sinais e sintomas:
Dispneia súbita, ortopneia, tosse com expectoração espumosa, taquicardia, crepitações pulmonares, confusão mental e sinais de hipoperfusão.

Cuidados de enfermagem:

  • Posicionar o paciente com o dorso elevado (Fowler).
  • Administrar oxigênio e monitorar a saturação.
  • Realizar controle rigoroso de balanço hídrico.
  • Verificar sinais de congestão pulmonar e periférica.
  • Auxiliar na administração de diuréticos e vasodilatadores.

Dissecção Aguda da Aorta

Essa é uma condição rara e extremamente grave, caracterizada pela ruptura na camada interna da aorta, criando um falso trajeto para o sangue. Pode ocorrer em pacientes com hipertensão mal controlada ou doenças do tecido conjuntivo.

Sinais e sintomas:
Dor torácica súbita e intensa, descrita como “em facada” ou “rasgando”, podendo irradiar para as costas, abdome ou membros. Pode haver diferença de pulsos entre os braços e sinais de choque.

Cuidados de enfermagem:

  • Reconhecer imediatamente os sinais e acionar a equipe médica.
  • Monitorar pressão arterial e manter controle rigoroso da dor.
  • Preparar para exames como tomografia e possível cirurgia emergencial.
  • Manter via venosa calibrosa e acesso a medicações intravenosas.

Crise Hipertensiva

A crise hipertensiva é uma elevação súbita e grave da pressão arterial, que pode ser uma urgência ou uma emergência.

  • Urgência Hipertensiva: Pressão arterial muito alta, mas sem lesão aguda de órgão-alvo (cérebro, coração, rins). O objetivo é reduzir a pressão em algumas horas, geralmente com medicação oral.
  • Emergência Hipertensiva: Pressão arterial muito alta, com lesão aguda e progressiva de órgão-alvo. Exige redução imediata da pressão arterial, geralmente com medicação intravenosa, para evitar danos irreversíveis.
    • Sintomas Comuns: Cefaleia intensa, dor no peito, falta de ar, alterações visuais, confusão mental, náuseas, vômitos. Os sintomas dependem do órgão que está sendo mais afetado.
  • Cuidados de Enfermagem:
    • Monitorização: Aferição frequente da pressão arterial (a cada 5-15 minutos em emergências), monitorização cardíaca.
    • Administração de Medicações: Administrar anti-hipertensivos IV de ação rápida (como Nitroprusseto de Sódio, Labetalol, Hidralazina) conforme prescrição, titulando a dose para atingir o alvo de pressão.
    • Acesso Venoso: Garantir acesso venoso calibroso.
    • Controle de Sintomas: Aliviar a dor e o desconforto.
    • Educação: Orientar o paciente e a família sobre a importância da adesão ao tratamento e do controle da pressão arterial.

Tromboembolismo Pulmonar (TEP) Maciço

O TEP ocorre quando um coágulo sanguíneo (geralmente formado nas pernas, em uma trombose venosa profunda – TVP) se desprende e viaja até os pulmões, bloqueando as artérias pulmonares. Um TEP “maciço” é uma emergência pois causa um impacto significativo no coração e na oxigenação.

Sintomas Comuns:

Dispneia súbita e intensa (geralmente sem causa aparente), dor torácica aguda (que piora ao respirar fundo), tosse (às vezes com sangue), taquicardia, tontura e ansiedade. Em casos graves, pode levar a choque e parada cardíaca.

  • Cuidados de Enfermagem:
    • Oxigenoterapia: Administração de oxigênio suplementar.
    • Monitorização: Sinais vitais, SatO2, monitorização cardíaca.
    • Acesso Venoso: Acesso para medicação e exames.
    • Preparo para Anticoagulação/Trombolíticos: Administrar anticoagulantes (heparina) ou, em casos graves, trombolíticos (medicamentos que dissolvem o coágulo) conforme prescrição.
    • Posicionamento: Confortar o paciente em posição que facilite a respiração.

O Enfermeiro no Epicentro da Emergência Cardiológica: Agilidade e Conhecimento

Em qualquer uma dessas emergências, o enfermeiro é a primeira linha de defesa. Nossa capacidade de realizar uma avaliação rápida e precisa, iniciar as intervenções de enfermagem protocolares, administrar medicações com segurança, monitorar o paciente de perto e comunicar-se efetivamente com a equipe médica pode ser a diferença entre a vida e a morte.

O conhecimento dessas patologias e a prática constante dos protocolos de emergência são essenciais para um atendimento de excelência.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). ACLS: Suporte Avançado de Vida em Cardiologia: Manual do Participante. Dallas, TX: AHA, 2020. (Consultar capítulos sobre síndromes coronarianas agudas, insuficiência cardíaca, arritmias e emergências hipertensivas).
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretriz de Emergências Cardiovasculares – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 116, n. 4, p. 869-913, abr. 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/S8fW4zY9wJ5c7bT3tV2xG7/?lang=pt
  3. BRUNNER, Lillian S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. Disponível em: https://www.elsevier.com/pt-br/books/tratado-de-enfermagem-medico-cirurgica/brunner/9788535284957
  4. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Enfermagem médico-cirúrgica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. Disponível em: https://www.livrariakoogan.com.br/enfermagem-medico-cirurgica-2v-9788527732653
  5. SILVA, Cláudia Maria S. da et al. Enfermagem em emergência e terapia intensiva. São Paulo: Yendis, 2020. Disponível em: https://www.editorayendis.com.br/enfermagem-em-emergencia-e-terapia-intensiva

Os Critérios de Admissão e Alta em uma UTI

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um ambiente de alta complexidade, onde cada minuto conta e a vida do paciente está em jogo. Não é um lugar para qualquer um, e sua capacidade é limitada. Por isso, a decisão de quem entra e quem sai de uma UTI é estratégica e baseada em critérios bem definidos, que levam em conta a condição clínica do paciente, a necessidade de recursos e o prognóstico.

Para nós, profissionais e estudantes de enfermagem, entender esses critérios é fundamental para compreendermos o fluxo de trabalho e o raciocínio clínico que permeiam o ambiente intensivo.

Vamos desvendar essa porta de entrada e saída?

A UTI: Um Refúgio para Pacientes Críticos

A UTI é um setor hospitalar projetado para atender pacientes em estado grave ou com risco iminente de agravamento, que necessitam de monitorização intensiva e suporte de vida avançado. É um ambiente com equipamentos de ponta, equipe multiprofissional altamente especializada e uma proporção reduzida de pacientes por profissional, o que permite um cuidado mais individualizado e constante.

Critérios de Admissão na UTI: Quem Precisa Entrar?

A decisão de internar um paciente na UTI é complexa e exige uma avaliação criteriosa por parte da equipe médica, muitas vezes em conjunto com a equipe de enfermagem. O principal objetivo é salvar vidas, mas também é preciso otimizar os recursos disponíveis. Basicamente, os pacientes que são admitidos na UTI são aqueles que:

  1. Possuem Instabilidade Fisiológica Aguda e Grave: Ou seja, suas funções vitais (coração, pulmões, rins, cérebro) estão comprometidas e precisam de suporte imediato para sobreviver.
    • Exemplos:
      • Insuficiência Respiratória Aguda: O paciente não consegue respirar adequadamente por conta própria e precisa de ventilação mecânica (respirador). Pode ser por pneumonia grave, crise asmática refratária, edema agudo de pulmão.
      • Choque: O sistema circulatório está falhando em fornecer sangue e oxigênio suficientes para os órgãos. Pode ser choque séptico (por infecção grave), choque cardiogênico (coração não bombeia), choque hipovolêmico (perda de muito sangue ou líquidos).
      • Emergências Cardiológicas: Infarto agudo do miocárdio com complicações, arritmias graves com instabilidade, insuficiência cardíaca descompensada.
      • Emergências Neurológicas: AVC grave com risco de edema cerebral, trauma cranioencefálico com aumento da pressão intracraniana, coma de causas diversas.
      • Insuficiência Renal Aguda Grave: Requerendo diálise de urgência.
      • Instabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial muito baixa, frequência cardíaca muito alta ou muito baixa, que não respondem a tratamentos menos intensivos.
  2. Necessitam de Monitorização Intensiva Contínua: Mesmo que ainda não estejam em falência de órgãos, têm alto risco de desenvolver complicações graves.
    • Exemplos:
      • Pós-operatório de cirurgias de grande porte (cardíacas, neurológicas, transplantes) com risco de instabilidade.
      • Pacientes com sepse (infecção generalizada) em fase inicial, que necessitam de monitorização rigorosa para prevenir choque séptico.
      • Queimaduras extensas.
      • Intoxicações graves.
  3. Têm Potencial de Recuperação: A UTI não é para pacientes que não têm chance de melhora. Os recursos são destinados àqueles que, com o tratamento intensivo, têm boa perspectiva de recuperação ou estabilização. Pacientes em fase terminal, sem possibilidade de benefício do tratamento intensivo, geralmente não são admitidos, a menos que haja um objetivo muito claro de estabilização paliativa em concordância com a família.
  4. Recursos Necessários: A UTI possui equipamentos e equipe especializados que não estão disponíveis em outras unidades do hospital, como monitores multiparamétricos, ventiladores mecânicos, bombas de infusão, equipamentos para hemodiálise, e a presença constante de médicos intensivistas e enfermeiros especializados.

Critérios de Alta da UTI: Quando o Paciente Pode Sair?

A alta da UTI é um momento de transição importante e também é baseada em critérios rigorosos. Não basta o paciente estar “melhor”; ele precisa estar estável o suficiente para continuar o tratamento em uma unidade de menor complexidade, como a enfermaria ou a unidade de internação. Os principais critérios para a alta da UTI incluem:

  1. Estabilidade Clínica:
    • Estabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial e frequência cardíaca estáveis, sem necessidade de medicamentos vasopressores (para manter a pressão).
    • Estabilidade Respiratória: Capaz de manter a respiração por conta própria, sem ventilação mecânica (desmame do respirador realizado com sucesso) ou apenas com oxigenoterapia simples.
    • Estabilidade Neurológica: Nível de consciência adequado para o prognóstico, sem sinais de piora neurológica.
    • Função Renal e Hidroeletrolítica Estável: Rins funcionando adequadamente, sem necessidade de diálise de urgência, e eletrólitos equilibrados.
  2. Não Necessidade de Monitorização Invasiva Contínua: O paciente não precisa mais de cateteres arteriais para monitorização invasiva da pressão, ou de cateteres venosos centrais para administração de medicações complexas que exigem monitoramento intensivo.
  3. Ausência de Risco Iminente de Agravamento: O risco de o paciente piorar subitamente e precisar de retorno à UTI é baixo.
  4. Capacidade da Unidade de Destino de Oferecer o Cuidado Necessário: A enfermaria precisa ter as condições e a equipe para continuar o tratamento do paciente (administração de medicações, curativos, fisioterapia, etc.).
  5. Critérios Específicos para Patologias: Por exemplo, em pacientes com IAM, a alta da UTI pode ocorrer após 24-48 horas se não houver complicações. Em pacientes com choque séptico, após estabilização e controle do foco de infecção.

A Visão da Enfermagem: Nossa Essência no Processo

Nós, profissionais de enfermagem, estamos no centro desses processos de admissão e alta.

Na Admissão:

  • Recepção do Paciente: Receber o paciente e a família, acolhê-los, explicar o ambiente da UTI e os procedimentos iniciais.
  • Avaliação Inicial de Enfermagem: Realizar uma avaliação rápida e completa, coletando dados essenciais, verificando o estado neurológico, respiratório e circulatório.
  • Organização do Leito: Preparar o leito com os equipamentos necessários (monitor, bomba de infusão, ventilador, etc.).
  • Instalação de Dispositivos: Passar acesso venoso, instalar sondas, iniciar a monitorização.
  • Documentação: Registrar detalhadamente todas as informações da admissão.

Na Alta:

  • Preparo do Paciente e Família: Preparar o paciente para a transição, explicando para onde ele vai, quem o atenderá e quais serão os próximos passos do tratamento. Orientar a família sobre a nova rotina.
  • Organização da Transição: Checar a disponibilidade de leito na unidade de destino, garantir a transferência segura, incluindo o transporte e a entrega de toda a documentação e informações relevantes para a equipe que vai receber.
  • Desconexão de Equipamentos: Remover os equipamentos e dispositivos que não serão mais necessários na enfermaria.
  • Documentação Detalhada: Registrar o processo de alta, incluindo o motivo, a condição do paciente e as orientações dadas.

A UTI: Um Cuidado Dinâmico e Desafiador

Os critérios de admissão e alta refletem a dinamicidade da UTI. É um ambiente onde o paciente está em constante avaliação, e a equipe atua de forma integrada para otimizar cada etapa do tratamento. Para nós, profissionais de enfermagem, essa compreensão nos permite atuar com mais segurança, ética e eficácia, contribuindo para o sucesso do tratamento e a recuperação da saúde dos nossos pacientes mais críticos. A UTI é um lugar onde a ciência encontra a humanidade em sua forma mais intensa.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 7, de 24 de fevereiro de 2010. Dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva e dá outras providências. Brasília, DF: ANVISA, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2010/rdc0007_24_02_2010.pdf.
  2. OLIVEIRA, L. B. et al. Critérios de Admissão e Alta em Unidade de Terapia Intensiva: Uma Revisão Integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 68, n. 4, p. 748-755, jul./ago. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/qXwS3P9G6J8sQ6yH4hX7gK7/?lang=pt.

RCP em Gestantes: Diretriz da AHA de 2020

Para muitos profissionais de saúde, o atendimento a uma gestante em parada cardiorrespiratória (PCR) pode gerar um nível extra de apreensão.

A complexidade de ter duas vidas em jogo e as particularidades fisiológicas da gestação podem tornar a situação ainda mais desafiadora.

Pensando nisso, a American Heart Association (AHA), na sua atualização de 2020 para as diretrizes de atendimento de PCR, dedicou um fluxograma específico para esse grupo especial de mulheres, trazendo mais clareza e direcionamento para um momento tão crítico. Vamos desvendar esse guia e entender seus pontos chave?

Prioridade Máxima: A Mãe em Primeiro Lugar (Com Impacto Direto no Bebê)

Ao analisarmos o novo fluxograma da AHA, uma mensagem central se destaca: a prioridade absoluta no atendimento da PCR em gestantes é a realização de manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) eficazes e de alta qualidade para a mãe.

Essa priorização pode parecer óbvia, mas é fundamental reforçar que a sobrevivência do feto está intrinsecamente ligada à estabilidade da mãe. Se não conseguirmos manter um bom fluxo de oxigênio e perfusão para a gestante, as chances de sobrevida do bebê são drasticamente reduzidas. Portanto, o foco inicial e principal é garantir a vida da mãe.

As Peculiaridades da Gestação: Detalhes que Fazem a Diferença no Atendimento

Para que o atendimento à gestante em PCR seja bem-sucedido, é crucial lembrar de algumas particularidades fisiológicas e anatômicas da gravidez que podem influenciar a abordagem:

  • Equipe Multidisciplinar Fortalecida: Durante o atendimento de uma PCR em gestante, a colaboração de diversos especialistas é fundamental. A presença do socorrista (primeiro a chegar), do obstetra (com expertise nas particularidades da gestação), do neonatologista (preparado para o atendimento ao recém-nascido, caso ocorra o parto) e, se possível, de um intensivista (para o manejo da paciente crítica) pode otimizar significativamente os resultados. Cada especialista traz um conhecimento específico que contribui para um atendimento mais completo e eficaz.
  • Alívio da Compressão Aortocava: Um Posicionamento Estratégico: Uma das manobras específicas para a gestante em PCR é o deslocamento do útero para a esquerda. O útero gravídico pode comprimir a veia cava inferior e a aorta, dificultando o retorno venoso e a perfusão materna (e, consequentemente, fetal). Esse deslocamento, conhecido como dextrorrotação uterina, pode ser conseguido facilmente com a inserção de uma “cunha” sob o quadril direito da paciente. Essa cunha pode ser improvisada com um frasco de soro de 1000 ml, compressão manual ou rolos feitos com lençóis, elevando o quadril em cerca de 30 graus. Essa manobra simples pode melhorar significativamente a eficácia das compressões torácicas.
  • Cesárea Perimortem: Uma Decisão Rápida em Cenários Específicos: Em situações onde a RCP na mãe não está sendo eficaz, e dependendo dos recursos humanos e materiais disponíveis, a realização de um parto por cesárea perimortem pode ser considerada. O objetivo principal dessa intervenção emergencial é melhorar a sobrevida materna (ao aliviar a compressão aortocava e melhorar a ventilação) e/ou fetal. A AHA 2020 sugere que, em alguns casos, essa cesárea pode ser considerada dentro dos primeiros 5 minutos de PCR para otimizar os resultados perinatais e maternos. É importante ressaltar que essa é uma decisão complexa, tomada por especialistas, e visa melhorar as condições para a RCP materna e, potencialmente, o prognóstico fetal.
  • Via Aérea Desafiadora: Atenção à Intubação: A via aérea na gestante geralmente apresenta desafios para a intubação endotraqueal devido a alterações fisiológicas como o aumento do volume sanguíneo e a congestão das vias aéreas. Por isso, é crucial selecionar o profissional mais experiente e capacitado para realizar esse procedimento. A AHA preconiza a intubação endotraqueal ou a utilização de uma via aérea avançada supraglótica o mais rápido possível. A confirmação do sucesso da intubação deve ser feita através da análise da onda na capnografia ou capnometria, garantindo a correta ventilação da paciente. Uma vez confirmada a via aérea avançada, a recomendação é oferecer uma respiração a cada 6 segundos (10 respirações por minuto) com compressões torácicas contínuas.

Após a Tempestade: Investigando as Causas da PCR

Após o atendimento inicial, a estabilização da paciente e a garantia de uma via aérea definitiva, o foco se volta para a identificação da causa da parada cardiorrespiratória. Para auxiliar nesse processo diagnóstico, a AHA 2020 e outras diretrizes utilizam o mnemônico ABCDEFGH, adaptado para o contexto obstétrico:

  • A – Anestesia: Investigar complicações relacionadas a procedimentos anestésicos.
  • B – Bleeding (Sangramento): Considerar sangramentos que podem levar à parada por hipóxia ou anemia aguda.
  • C – Cardiovascular: Avaliar a presença de doenças cardiovasculares prévias ou arritmias.
  • D – Drogas: Checar o uso de medicações prévias que possam ter contribuído para a PCR.
  • E – Embolia: Investigar a possibilidade de embolia pulmonar ou amniótica.
  • F – Febre: Considerar a febre como um possível fator desencadeante.
  • G – Generalidades: Avaliar causas não obstétricas de PCR, lembrando dos “H”s e “T”s.
  • H – Hipertensão: Investigar desordens hipertensivas e suas complicações (eclampsia, síndrome HELLP).

Relembrando os “H”s e “T”s (causas reversíveis de PCR):

  • Hipovolemia
  • Hipóxia
  • Hidrogênio (acidose metabólica)
  • Hipocalemia / Hipercalemia
  • Hipotermia
  • Tensão torácica (pneumotórax hipertensivo)
  • Tamponamento cardíaco
  • Toxinas (overdose de drogas, envenenamento)
  • Trombose pulmonar
  • Trombose coronariana

Seguir esse fluxograma e essa sistematização do atendimento à gestante em PCR oferece uma estrutura clara e organizada para a equipe de saúde. Ao priorizar a mãe, lembrar das particularidades da gestação e buscar ativamente as causas reversíveis da parada, aumentamos significativamente a chance de sucesso no resgate materno e oferecemos uma maior possibilidade de sobrevida ao feto.

Para nós, futuros enfermeiros, conhecer e compreender essas diretrizes é fundamental para estarmos preparados para atuar de forma eficaz em situações tão delicadas e desafiadoras.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Highlights of the 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas, TX: AHA, 2020. (Consultar seção específica sobre PCR em gestantes). Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/full/10.1161/CIRCULATIONAHA.120.022734.
  2. LAVERY, K. E.; FRIEDMAN, J. M.; SHARMA, P. P.; et al. Cardiac Arrest in Pregnancy. Obstetrics & Gynecology, v. 131, n. 5, p. 861-871, 2018. Disponível em: https://journals.lww.com/greenjournal/fulltext/201805000/Cardiac_Arrest_in_Pregnancy.20.aspx.
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Destaques das Diretrizes da AHA 2020 para RCP e ACE. [S. l.]: AHA, 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/-/media/cpr-files/cpr-guidelines-files/highlights/hghlghts_2020eccguidelines_portuguese.pdf

Escarotomia: O que é?

E aí, pessoal da enfermagem! Hoje a gente vai mergulhar em um procedimento cirúrgico que, apesar de parecer simples, faz uma diferença enorme na vida de pacientes com queimaduras graves: a escarotomia.

Já se depararam com essa situação ou ouviram falar? Se a resposta for não, ou se querem refinar o conhecimento, chega mais que vou desenrolar esse tema de um jeito bem prático e com o olhar atento que a enfermagem sempre tem.

Entendendo a “Armadura” da Queimadura Grave

Pensa numa queimadura daquelas bem profundas, que não pega só a camada superficial da pele, mas atinge tecidos mais internos. Em alguns casos, essa lesão evolui formando uma crosta espessa e rígida, tipo uma “armadura” sobre a área queimada. Essa crosta é a escara.

O problema é que essa escara, por ser tão dura e inflexível, começa a exercer uma pressão enorme sobre os tecidos subjacentes. É como se a pele queimada virasse uma roupa apertada demais, dificultando a circulação sanguínea.

Em queimaduras que circundam um membro inteiro (braço, perna) ou até o tronco, essa compressão pode ser tão severa que compromete a chegada de sangue, oxigênio e nutrientes, além de poder afetar nervos e a respiração.

É nesse cenário que a escarotomia se torna essencial. O procedimento consiste em realizar incisões cirúrgicas através dessa escara para aliviar a pressão. Imagina que são pequenos “cortes de alívio” que permitem que os tecidos se expandam e a circulação seja restabelecida.

O “Porquê” da Escarotomia: Mais que Alívio, Preservação

A indicação principal da escarotomia é justamente essa: descomprimir a área afetada para restaurar o fluxo sanguíneo. Essa restauração é crucial para evitar complicações graves, como:

  • Síndrome compartimental: Sabe quando a pressão dentro de um grupo muscular aumenta a níveis perigosos? Isso pode levar a danos musculares e nervosos irreversíveis. A escara circunferencial é um fator de risco importante para essa síndrome.
  • Comprometimento vascular: A pressão da escara pode esmagar os vasos sanguíneos, impedindo a chegada de sangue oxigenado aos tecidos. A isquemia (falta de oxigênio) prolongada pode levar à necrose (morte do tecido) e, em casos extremos, à necessidade de amputação.
  • Restrição respiratória: Em queimaduras que circundam o tórax, a escara pode impedir a expansão completa da caixa torácica durante a respiração, dificultando a ventilação e a oxigenação do paciente.

Percebem a seriedade da coisa? A escarotomia não é só para o paciente se sentir mais confortável, mas sim para prevenir danos sérios e preservar a vida e a função dos membros.

A Enfermagem em Ação: Antes, Durante e Depois da Escarotomia

A gente, como profissionais de enfermagem, tem um papel vital em todas as etapas desse processo.

Antes do Procedimento:

  • Avaliação Cirúrgica: Nossa avaliação constante é a chave. Precisamos estar atentos aos sinais que indicam a necessidade de uma escarotomia: dor intensa e desproporcional à lesão, palidez ou cianose (pele azulada) da extremidade distal à queimadura, diminuição ou ausência de pulsos periféricos, alteração da sensibilidade (formigamento, dormência) e dificuldade para movimentar os dedos.
  • Comunicação Imediata: Qualquer alteração nesses sinais precisa ser comunicada imediatamente à equipe médica. O tempo é crucial nesses casos.
  • Preparo do Paciente: Explicar o procedimento ao paciente e à família de forma clara e tranquilizadora (dentro do possível, considerando o estado emocional de todos). Preparar a área para o procedimento conforme a orientação médica, geralmente com limpeza e tricotomia (remoção de pelos) se necessário. Garantir que o paciente esteja o mais confortável possível antes do procedimento.
  • Monitorização Constante: Acompanhar de perto os sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória) e a oximetria de pulso.

Durante o Procedimento:

  • Auxílio ao Médico: Preparar todo o material necessário para o procedimento (bisturi, pinças hemostáticas, solução antisséptica, gazes, etc.) e auxiliar o médico durante a realização das incisões. Manter a área limpa e organizada.
  • Monitorização Contínua: Seguir monitorando os sinais vitais e observar a resposta do paciente ao procedimento, como o possível alívio da pressão e a melhora da perfusão periférica.
  • Suporte Emocional: Oferecer apoio emocional ao paciente, que pode estar apreensivo ou sentir dor durante o procedimento, mesmo sob analgesia.

Após o Procedimento:

  • Cuidados com as Incisões: Realizar os curativos conforme a prescrição médica, utilizando técnica asséptica para prevenir infecções. Observar atentamente os sinais de infecção nas áreas das incisões (vermelhidão, calor, edema, secreção purulenta, odor). Documentar as características do curativo e da ferida.
  • Avaliação da Perfuração: Continuar monitorando rigorosamente os pulsos distais, a coloração e a temperatura da pele, a sensibilidade e a motricidade da área afetada. Comparar com o membro contralateral, se houver. Qualquer sinal de piora deve ser comunicado imediatamente.
  • Controle da Dor: Administrar a medicação analgésica prescrita e avaliar a eficácia do tratamento, registrando a intensidade da dor em escalas adequadas. Oferecer medidas não farmacológicas para alívio da dor, como posicionamento adequado e distração.
  • Prevenção de Complicações: Manter o membro elevado (se for o caso) para auxiliar na redução do edema. Incentivar a movimentação dos dedos e do membro (quando possível e indicado pela equipe médica) para melhorar a circulação e prevenir trombose venosa profunda.
  • Educação do Paciente e Família: Orientar o paciente e a família sobre os cuidados com os curativos, os sinais de alerta de infecção, a importância de seguir as orientações médicas para a recuperação e os retornos para acompanhamento.

Cuidando com Atenção: Pontos Chave da Enfermagem na Escarotomia

Para reforçar, nossos cuidados de enfermagem na escarotomia se concentram em:

  • Reconhecimento precoce da necessidade do procedimento através de uma avaliação clínica detalhada e contínua.
  • Comunicação assertiva com a equipe médica sobre qualquer alteração observada.
  • Assistência qualificada e segura durante a realização do procedimento.
  • Monitorização constante e atenta da perfusão periférica e dos sinais vitais no pós-operatório.
  • Prevenção de infecções nas áreas das incisões cirúrgicas.
  • Manejo eficaz da dor do paciente.
  • Orientação e suporte ao paciente e seus familiares.

Lembrem-se que a escarotomia é um procedimento que pode mudar drasticamente o prognóstico de um paciente com queimaduras graves. Nosso olhar clínico e nossos cuidados dedicados são essenciais para garantir que essa intervenção seja realizada no momento certo e que a recuperação ocorra da melhor forma possível.

Referências:

  1. SILVA, M. A.; PEREIRA, A. B. Tratamento de queimaduras: guia prático para enfermagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  2. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth’s textbook of medical-surgical nursing. 14. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2018.
  3. Sociedade Brasileira de Queimaduras: https://sbqueimaduras.org.br/
  4. Revista Brasileira de Queimaduras: http://www.rbqueimaduras.com.br/

Desvendando a Pressão Arterial Invasiva (PAI)

Se você está entrando no universo da enfermagem em unidades de terapia intensiva (UTI) ou em cenários de cuidado crítico, prepare-se para se familiarizar com um dispositivo que nos dá uma leitura da pressão arterial do paciente de forma contínua e incrivelmente precisa: a Pressão Arterial Invasiva (PAI).

Pode parecer um pouco intimidador no começo, com tantos componentes e cuidados envolvidos, mas acredite, entender a PAI é fundamental para o manejo hemodinâmico de pacientes graves.

Vamos juntos desmistificar esse sistema e descobrir como ele funciona?

Por Que “Invadir” para Medir a Pressão? A Precisão em Primeiro Lugar

Você já sabe como medir a pressão arterial de forma não invasiva com aquele manguito (esfigmomanômetro) tradicional, certo? Ele é ótimo para monitorização de rotina. Mas em pacientes criticamente enfermos, onde cada milímetro de mercúrio (mmHg) conta e as variações de pressão podem ser rápidas e significativas, a precisão e a monitorização contínua se tornam cruciais. É aí que a PAI entra em cena.

Ao inserir um cateter fino diretamente em uma artéria (geralmente a radial, mas também podem ser utilizadas a femoral, umeral ou pediosa), conseguimos uma leitura direta da pressão dentro do vaso sanguíneo.

Isso elimina as interferências que podem ocorrer com a medição não invasiva, como o tamanho do manguito inadequado, a movimentação do paciente ou a dificuldade em obter leituras em pacientes com perfusão periférica comprometida. A PAI nos oferece um panorama em tempo real das variações da pressão sistólica, diastólica e média (PAM), permitindo ajustes rápidos e precisos no tratamento.

Conhecendo os “Ingredientes”: Os Componentes do Sistema de PAI

O sistema de PAI é composto por alguns elementos essenciais que trabalham em conjunto para nos fornecer essa leitura contínua. Vamos conhecer cada um deles:

  • Cateter Arterial: É um tubo fino e flexível, geralmente feito de teflon ou poliuretano, que é inserido na artéria do paciente por meio de uma punção percutânea (com agulha) ou através de uma dissecção cirúrgica (em casos mais complexos). O tamanho e o tipo de cateter variam dependendo da artéria escolhida e do tamanho do paciente.
  • Linha de Pressão (ou Tubo Extensor): É um tubo não complacente (rígido) que conecta o cateter arterial ao transdutor de pressão. Essa não complacência é crucial para garantir que a onda de pressão arterial seja transmitida com precisão até o transdutor, sem perdas ou distorções. Geralmente, essa linha possui um lúmen único e é preenchida com uma solução salina heparinizada sob pressão.
  • Transdutor de Pressão: É o “coração” do sistema de PAI. Esse dispositivo eletrônico converte a energia mecânica da pressão arterial em um sinal elétrico. Existem diferentes tipos de transdutores, mas o princípio básico é o mesmo: um diafragma sensível à pressão se move conforme as variações da pressão arterial, e essa movimentação é convertida em um sinal elétrico que será exibido no monitor. Muitos transdutores modernos são descartáveis e vêm em um conjunto fechado com a linha de pressão.
  • Cabo do Transdutor: É um cabo elétrico que conecta o transdutor ao monitor multiparâmetros. Ele transmite o sinal elétrico gerado pelo transdutor para o monitor, onde a pressão arterial é processada e exibida em forma de números e ondas.
  • Bolsa de Infusão sob Pressão: Contém a solução salina heparinizada que preenche a linha de pressão e o cateter arterial. Essa bolsa é pressurizada (geralmente a 300 mmHg) para garantir um fluxo lento e contínuo da solução (cerca de 3-5 mL/hora). Esse fluxo contínuo impede que o sangue reflua para o cateter e oclua, mantendo o sistema pérvio e garantindo leituras precisas.
  • Sistema de Lavagem Contínua (Flush Contínuo): Geralmente integrado ao transdutor, esse sistema permite a lavagem rápida do cateter com a solução salina heparinizada. Isso é essencial para remover coágulos ou bolhas de ar que possam interferir na leitura da pressão. Um dispositivo manual ou automático permite liberar um volume maior de solução para essa lavagem rápida.
  • Suporte do Transdutor: O transdutor precisa ser posicionado corretamente em relação ao nível do coração do paciente (mais especificamente, no nível do átrio direito, que em decúbito dorsal corresponde aproximadamente à linha axilar média, no quarto espaço intercostal). Um suporte fixo e ajustável garante que o transdutor permaneça nessa posição de referência para leituras precisas.

Montando o Quebra-Cabeça: Como Montar o Sistema de PAI Passo a Passo

A montagem do sistema de PAI requer atenção aos detalhes e técnica asséptica para evitar infecções. Embora o procedimento exato possa variar ligeiramente dependendo do fabricante e do protocolo institucional, os passos gerais são os seguintes:

  1. Reúna os materiais: Certifique-se de ter todos os componentes necessários: cateter arterial estéril, linha de pressão estéril com transdutor (se descartável), cabo do transdutor, bolsa de infusão com solução salina heparinizada, equipo de infusão, bolsa pressurizadora, suporte do transdutor estéril, material para fixação do cateter e EPIs (luvas estéreis, avental, máscara e óculos).
  2. Prepare a solução salina heparinizada: Conecte o equipo de infusão à bolsa de solução salina heparinizada e purgue o ar do sistema. Insira a bolsa na bolsa pressurizadora e ajuste a pressão para 300 mmHg.
  3. Conecte a linha de pressão ao transdutor: Se o transdutor não vier pré-conectado à linha, realize a conexão de forma estéril, preenchendo a linha com a solução salina heparinizada e removendo todas as bolhas de ar. As bolhas de ar podem amortecer a onda de pressão e levar a leituras imprecisas.
  4. Conecte o cabo do transdutor ao transdutor: Encaixe o cabo do transdutor na porta apropriada do transdutor.
  5. Posicione e fixe o transdutor: Utilize o suporte estéril para fixar o transdutor na altura do átrio direito do paciente. Marque essa referência no paciente para garantir a consistência nas leituras, especialmente em caso de mudança de decúbito.
  6. Zere o transdutor: Essa etapa é crucial para calibrar o sistema e eliminar a influência da pressão atmosférica. Para zerar, abra o sistema para a pressão atmosférica (geralmente abrindo uma torneirinha do transdutor para o ar) e pressione a função “zero” ou “calibrar” no monitor. O monitor deve exibir “0 mmHg”. Após zerar, feche o sistema para o ar novamente.
  7. Conecte a linha de pressão ao cateter arterial: Após a inserção do cateter arterial pelo médico (que também é um procedimento estéril), conecte a extremidade da linha de pressão à conexão do cateter, utilizando técnica asséptica.
  8. Verifique a onda de pressão: No monitor, você deverá visualizar uma onda de pressão arterial nítida e com características normais (onda sistólica, incisura dicrótica e onda diastólica). Observe os valores numéricos da pressão sistólica, diastólica e média.
  9. Fixe o cateter arterial: Utilize curativos estéreis e dispositivos de fixação adequados para garantir que o cateter permaneça no lugar e evitar deslocamentos ou infecções.
  10. Documente o procedimento: Registre no prontuário a data e hora da inserção, o local, o tipo e calibre do cateter, o profissional que realizou o procedimento, o tipo de sistema de PAI utilizado, a solução de infusão, a pressão da bolsa, a presença de ondas adequadas e a resposta do paciente.

Nossos Olhos Atentos: Cuidados de Enfermagem Essenciais com a PAI

Uma vez instalado, o sistema de PAI exige cuidados contínuos e rigorosos da equipe de enfermagem para garantir a precisão das leituras, prevenir complicações e manter a segurança do paciente:

  • Manutenção da Perviedade do Sistema: Garanta que a bolsa de infusão esteja sempre pressurizada a 300 mmHg e que haja fluxo contínuo da solução salina heparinizada. Verifique regularmente se há bolhas de ar ou coágulos na linha de pressão e realize o flush rápido conforme necessário.
  • Monitorização Contínua da Onda de Pressão e dos Valores: Observe atentamente a morfologia da onda de pressão no monitor. Uma onda amortecida pode indicar problemas no sistema (ar, coágulo, dobra na linha). Registre os valores da pressão arterial em intervalos regulares e sempre que houver alterações significativas no estado clínico do paciente.
  • Manutenção da Posição Correta do Transdutor: Verifique regularmente se o transdutor está posicionado na altura do átrio direito do paciente, especialmente após mudanças de decúbito. Qualquer alteração na altura do transdutor pode levar a leituras imprecisas.
  • Cuidados com o Sítio de Inserção do Cateter: Inspecione diariamente o local de inserção do cateter em busca de sinais de infecção (vermelhidão, calor, edema, secreção), hematoma ou sinais de flebite. Realize a troca do curativo conforme o protocolo institucional, utilizando técnica asséptica.
  • Prevenção de Complicações: Esteja atento a sinais de complicações como sangramento no local de inserção, trombose arterial, embolia gasosa ou lesão nervosa durante a inserção ou manutenção do cateter.
  • Educação da Equipe: Garanta que toda a equipe de enfermagem esteja devidamente treinada para manipular e monitorar o sistema de PAI, compreendendo a importância da técnica correta e dos cuidados contínuos.
  • Documentação Precisa: Registre todos os dados relevantes no prontuário do paciente, incluindo a data e hora de cada intervenção, as leituras da pressão arterial, as condições do sítio de inserção e qualquer intercorrência.

A Pressão Arterial Invasiva é uma ferramenta poderosa no cuidado ao paciente crítico, fornecendo informações valiosas para a tomada de decisões clínicas. Como futuros profissionais de enfermagem, dominar os princípios, a montagem e os cuidados com esse sistema nos permitirá contribuir de forma significativa para a segurança e o bem-estar dos nossos pacientes.

Lembre-se sempre da importância da técnica asséptica e da vigilância constante para garantir a precisão das leituras e prevenir complicações.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Manual de ACLS (Advanced Cardiovascular Life Support). [S. l.]: AHA.
  2. BARASH, P. G.; CULLEN, B. F.; STOELTING, R. K.; ORAL, J. A.; SWAN, J. T. Anesthesiology Clinical Pharmacology. 8th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2018.
  3. IRWIN, R. S.; RIPPE, J. M. Irwin and Rippe’s Intensive Care Medicine. 9th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2024.
  4. NANDA INTERNATIONAL. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA-I: Definições e Classificação 2021-2023. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021. 

Emergências Pediátricas

Para quem escolhe a enfermagem pediátrica, o cuidado com os pequenos é uma arte delicada e, por vezes, desafiadora.

E em pediatria, algumas situações acendem um sinal de alerta máximo: as emergências pediátricas.

Nesses momentos, cada segundo conta e a nossa capacidade de reconhecer os sinais precocemente e agir de forma rápida e eficaz pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte. Se você está trilhando esse caminho, prepare-se para conhecer algumas dessas patologias que exigem uma resposta imediata e os cuidados de enfermagem cruciais em cada cenário.

Quando o Tempo Urge: A Gravidade das Emergências Pediátricas

As crianças, com sua fisiologia e capacidade de comunicação ainda em desenvolvimento, podem apresentar quadros clínicos graves de forma rápida e, por vezes, silenciosa. A deterioração pode ser súbita e a janela de intervenção, estreita.

Por isso, o olhar atento, a avaliação criteriosa e o conhecimento das principais emergências pediátricas são ferramentas indispensáveis para nós, futuros profissionais de enfermagem. Reconhecer os sinais de perigo e priorizar o atendimento adequado são os primeiros passos para garantir o melhor desfecho para nossos pequenos pacientes.

Dificuldade para Respirar: O Sufoco que Não Espera

A insuficiência respiratória aguda é uma das emergências pediátricas mais comuns e graves. As vias aéreas menores e a menor reserva fisiológica tornam as crianças mais vulneráveis a quadros que comprometem a oxigenação e a ventilação. Diversas condições podem levar a essa emergência:

  • Crise de Asma Grave: A obstrução das vias aéreas por broncoespasmo, inflamação e hipersecreção de muco causa dificuldade respiratória intensa, com chiado no peito, tosse persistente, uso da musculatura acessória (batimento de asa de nariz, retração intercostal e supraesternal) e cianose (coloração azulada da pele e mucosas). Nossos cuidados aqui incluem: manter a criança em posição confortável (geralmente sentada ou semi-sentada), administrar oxigênio suplementar conforme prescrição médica, monitorizar continuamente a frequência respiratória, a frequência cardíaca e a saturação de oxigênio, auxiliar na administração de broncodilatadores de curta ação (como salbutamol) por via inalatória e estar preparado para auxiliar em procedimentos mais invasivos, como intubação orotraqueal, se necessário.
  • Bronquiolite Grave: Principalmente em lactentes, a infecção viral dos bronquiolos causa inflamação e obstrução das pequenas vias aéreas, levando a taquipneia (respiração rápida), sibilância, tosse, irritabilidade, dificuldade para se alimentar e, em casos graves, apneia (parada respiratória). Os cuidados de enfermagem envolvem: monitorizar os sinais vitais e a saturação de oxigênio, manter a criança em posição elevada, oferecer pequenas quantidades de líquidos por via oral se tolerado, aspirar secreções nasais para facilitar a respiração e administrar oxigênio suplementar conforme prescrito. Em casos graves, pode ser necessária ventilação não invasiva ou invasiva.
  • Pneumonia Grave: A infecção do parênquima pulmonar pode levar à insuficiência respiratória, especialmente em crianças pequenas. Os sinais incluem febre alta, tosse, taquipneia, batimento de asa de nariz, retração torácica e, em casos graves, cianose e gemido expiratório. Nossos cuidados incluem: monitorizar os sinais vitais e a saturação de oxigênio, administrar oxigênio suplementar, manter a criança em posição confortável, auxiliar na administração de antibióticos conforme prescrito e incentivar a hidratação.
  • Obstrução de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE): A aspiração de pequenos objetos é um risco em crianças, especialmente as menores. A obstrução pode ser parcial (com tosse eficaz) ou total (com incapacidade de tossir, falar ou respirar, cianose e perda de consciência). Nossa ação imediata é crucial: em caso de obstrução total em lactentes, realizar a manobra de Heimlich adaptada (compressões torácicas e golpes nas costas); em crianças maiores, realizar a manobra de Heimlich abdominal. Estar preparado para auxiliar em laringoscopia e remoção do corpo estranho, se necessário.

O Coração em Perigo: Emergências Cardiovasculares Pediátricas

Embora menos comuns que as respiratórias, as emergências cardiovasculares em pediatria exigem reconhecimento e intervenção rápidos:

  • Choque Séptico: A infecção grave pode levar a uma resposta inflamatória sistêmica intensa, resultando em disfunção orgânica e choque. Os sinais incluem febre (ou hipotermia), taquicardia, taquipneia, pele fria e pegajosa, livedo reticular (manchas na pele), oligúria (diminuição da produção de urina) e alteração do estado mental. Nossos cuidados são: monitorizar continuamente os sinais vitais (incluindo pressão arterial invasiva, se instalada), garantir acesso venoso rápido para administração de fluidos e medicamentos vasoativos conforme prescrição médica, administrar antibióticos de amplo espectro o mais rápido possível, monitorizar o débito urinário e a perfusão periférica e oferecer suporte ventilatório, se necessário.
  • Choque Hipovolêmico: A perda significativa de volume sanguíneo (por desidratação grave, hemorragia) leva à diminuição da perfusão tecidual. Os sinais incluem taquicardia, extremidades frias, pulsos periféricos filiformes, enchimento capilar lento, oligúria e alteração do estado mental. Nossos cuidados envolvem: garantir acesso venoso rápido para reposição volêmica agressiva conforme prescrição médica, monitorizar os sinais vitais e a perfusão periférica e identificar e tratar a causa da perda de volume.

A Mente em Crise: Emergências Neurológicas na Infância

As emergências neurológicas em pediatria podem ter diversas causas e exigem avaliação e intervenção rápidas:

  • Crise Convulsiva Aguda: Uma convulsão prolongada (geralmente > 5 minutos) ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas (estado de mal epiléptico) é uma emergência. Nossos cuidados incluem: proteger a criança de lesões, manter as vias aéreas permeáveis (lateralizar a cabeça, se necessário), monitorizar os sinais vitais e a saturação de oxigênio, administrar benzodiazepínicos por via intravenosa conforme prescrição médica e estar preparado para auxiliar em intubação orotraqueal se a convulsão não cessar ou houver comprometimento respiratório.
  • Meningite/Encefalite: A infecção do sistema nervoso central pode levar a um quadro grave com febre, cefaleia intensa, rigidez de nuca, fotofobia, irritabilidade, letargia, convulsões e alteração do estado mental. Nossos cuidados envolvem: monitorizar os sinais vitais e o estado neurológico, manter a criança em ambiente calmo e com pouca luz, administrar antibióticos e antivirais conforme prescrição médica e estar atento a sinais de aumento da pressão intracraniana.

O Abdome Agudo: Dor que Clama por Atenção

O abdome agudo em pediatria pode ter diversas causas (apendicite, invaginação intestinal, volvo intestinal, etc.) e, em alguns casos, evoluir para sepse e choque se não tratado rapidamente.

A dor abdominal intensa e persistente, associada a outros sinais como vômitos, distensão abdominal, febre e irritabilidade, exige avaliação cirúrgica urgente.

Nossos cuidados incluem: manter a criança em jejum, monitorizar os sinais vitais, avaliar a intensidade e as características da dor, observar o abdome e preparar a criança para exames complementares e possível intervenção cirúrgica.

A Pele que Queima: Grandes Queimaduras em Crianças

As grandes queimaduras em crianças são emergências devido ao risco de choque hipovolêmico, perda de calor, infecção e comprometimento das vias aéreas (em queimaduras faciais ou por inalação de fumaça).

Nossos cuidados iniciais incluem: interromper o processo de queimadura, avaliar a extensão e a profundidade da queimadura, garantir a permeabilidade das vias aéreas, administrar oxigênio suplementar, iniciar reposição volêmica intravenosa conforme protocolo, monitorizar os sinais vitais e a diurese e manter a criança aquecida.

A Importância da Sistematização do Cuidado e da Comunicação

Em todas essas emergências pediátricas, a organização do cuidado é fundamental. A avaliação rápida e sistemática (utilizando, por exemplo, a abordagem ABCDE – Vias Aéreas, Respiração, Circulação, Incapacidade Neurológica e Exposição), a priorização das intervenções e a comunicação eficaz com a equipe médica são cruciais para otimizar o atendimento.

A nossa capacidade de trabalhar em equipe, de manter a calma sob pressão e de executar os cuidados de enfermagem de forma precisa e oportuna pode salvar vidas.

Lembrem-se, futuros profissionais de enfermagem, que a pediatria é uma área que exige estudo constante e atualização. Estar familiarizado com as principais emergências, seus sinais e sintomas e os cuidados de enfermagem específicos é um passo essencial para oferecer o melhor cuidado possível aos nossos pequenos pacientes em momentos críticos.

Referências:

  1. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (AAP). Pediatric Advanced Life Support (PALS) Provider Manual. [S. l.]: AAP
  2. NELSON, W. E.; BEHRMAN, R. E.; KLIEGMAN, R. M.; JENSON, H. B. Nelson Textbook of Pediatrics. [Edição mais recente]. Philadelphia: Elsevier. 
  3. WONG, D. L.; HOCKENBERRY, M. J.; LOWE, J. R.; PERRY, S. E.; DALLAS, C.; WILSON, D. Wong’s Nursing Care of Infants and Children.  St. Louis: Mosby Elsevier.