Classificação de Feridas: Quanto ao tempo de traumatismo

No dia a dia da enfermagem, é muito comum nos depararmos com diferentes tipos de feridas — sejam elas cirúrgicas, traumáticas, infecciosas ou por pressão. Para garantir um cuidado eficaz e seguro, é fundamental saber identificar e classificar essas feridas de forma adequada. Um dos critérios mais utilizados é a classificação quanto ao tempo de traumatismo, que se baseia na evolução cronológica da ferida.

Essa classificação é essencial não só para a escolha do curativo mais apropriado, mas também para traçar condutas específicas, avaliar o risco de infecção e acompanhar a cicatrização.

Vamos entender melhor como essa classificação funciona e qual o papel da enfermagem no cuidado com cada tipo de ferida.

O que são feridas?

Antes de entrarmos na classificação, é importante relembrar o conceito de ferida. Ferida é toda interrupção na continuidade da pele, podendo atingir também tecidos mais profundos como músculos, ossos e órgãos. Elas podem ser provocadas por diferentes causas, como cortes, queimaduras, úlceras, cirurgias ou acidentes.

A classificação das feridas quanto ao tempo de evolução considera o momento em que o trauma ocorreu e o estágio em que a ferida se encontra.

Por Que Classificar Pelo Tempo? O Relógio da Cicatrização

Quando uma ferida acontece, o corpo imediatamente inicia um processo complexo para repará-la, a famosa cicatrização. Esse processo tem fases bem definidas (inflamatória, proliferativa e de remodelação). O tempo que a ferida existe nos dá informações cruciais sobre qual fase de cicatrização ela provavelmente está e, consequentemente, qual é o seu prognóstico e os desafios no tratamento.

Basicamente, as feridas podem ser classificadas em dois grandes grupos quanto ao tempo de traumatismo:

Feridas Agudas: As Lesões do Momento Presente

As feridas agudas são aquelas que aparecem de repente, têm um tempo de evolução curto e se espera que sigam o processo de cicatrização normal e sequencial. Elas cicatrizam em um tempo esperado para aquele tipo de lesão, sem intercorrências significativas. Pense em um corte limpo com uma faca, uma queimadura leve ou uma incisão cirúrgica.

  • Características Principais:
    • Origem: Geralmente traumática (corte, queda, queimadura, cirurgia).
    • Tempo de Cicatrização: Espera-se que cicatrizem em até 4 a 6 semanas, dependendo da extensão e profundidade.
    • Processo: Seguem as fases normais da cicatrização.
    • Contaminação: Podem ser classificadas como limpas, limpas-contaminadas, contaminadas ou infectadas no momento da lesão, mas o objetivo é que não evoluam para uma infecção persistente.
  • Exemplos Comuns:
    • Incisões Cirúrgicas: Um corte feito por um bisturi em um ambiente estéril.
    • Laceracões: Feridas causadas por objetos pontiagudos ou irregulares, com bordas irregulares.
    • Abrasões/Escoriações: Raspões superficiais na pele.
    • Queimaduras (primeiro e segundo grau): Lesões térmicas que se espera que cicatrizem em um tempo determinado.
    • Feridas por Trauma: Cortes, perfurações, contusões resultantes de acidentes.
  • Cuidados de Enfermagem na Ferida Aguda:
    • Avaliação Inicial Rápida: Avaliar tipo de lesão, profundidade, presença de sangramento, corpo estranho e extensão.
    • Controle de Hemorragia: Se houver sangramento, aplicar pressão direta, elevada.
    • Limpeza e Irrigação: Lavar a ferida com soro fisiológico 0,9% (ou água e sabão neutro, dependendo do protocolo e localização), removendo sujeiras e detritos. Isso é crucial para prevenir infecção.
    • Antissepsia (se indicada): Em alguns casos, pode ser usado um antisséptico na pele ao redor da ferida.
    • Proteção: Realizar o curativo com técnica asséptica, utilizando coberturas adequadas para proteger a ferida, absorver exsudato e manter um ambiente úmido para cicatrização.
    • Manejo da Dor: Administrar analgésicos conforme prescrição.
    • Orientação ao Paciente: Ensinar sobre sinais de infecção, troca de curativo (se em casa) e cuidados gerais.
    • Avaliação Diária: Monitorar o processo de cicatrização, buscando sinais de infecção ou complicação.

Feridas Crônicas: As Lesões que Não Cicatrizam no Tempo Esperado

As feridas crônicas são aquelas que, por algum motivo, não seguem o processo normal de cicatrização. Elas persistem por um período prolongado (geralmente mais de 6 semanas, podendo ser meses ou anos), mesmo com o tratamento adequado. A cicatrização é estagnada ou muito lenta, e elas frequentemente estão associadas a uma doença de base.

  • Características Principais:
    • Origem: Geralmente associadas a uma condição de saúde subjacente (diabetes, doenças vasculares, imobilidade, problemas nutricionais).
    • Tempo de Cicatrização: Demoram a cicatrizar ou não cicatrizam no tempo esperado, mantendo-se abertas por longos períodos.
    • Processo: Ocorre uma interrupção ou atraso nas fases da cicatrização, como inflamação prolongada ou dificuldade de formação de novo tecido.
    • Risco de Infecção: São mais propensas à colonização bacteriana e infecção.
  • Exemplos Comuns:
    • Úlceras por Pressão (Lesões por Pressão): Conhecidas como “escaras”, são causadas por pressão prolongada em uma área do corpo, levando à isquemia e necrose tecidual. Comuns em pacientes acamados ou com mobilidade reduzida.
    • Úlceras de Perna (Venosa e Arterial):
      • Úlcera Venosa: Causada por insuficiência venosa crônica, com acúmulo de sangue nas pernas e inchaço. A pele fica fragilizada e qualquer trauma pode virar uma úlcera.
      • Úlcera Arterial: Causada por problemas circulatórios nas artérias, levando à falta de sangue e oxigênio para os tecidos, resultando em necrose.
    • Pé Diabético: Feridas nos pés de pessoas com diabetes, frequentemente associadas a neuropatia (perda de sensibilidade) e problemas circulatórios, dificultando a cicatrização.
    • Úlceras Neuropáticas: Causadas por perda de sensibilidade em outras áreas do corpo.
    • Feridas Tumorais: Causadas pelo crescimento de tumores na pele.
  • Cuidados de Enfermagem na Ferida Crônica:
    • Avaliação Holística do Paciente: Além da ferida, é fundamental avaliar a saúde geral do paciente, sua nutrição, doenças de base, mobilidade e fatores que dificultam a cicatrização.
    • Limpeza e Desbridamento: A limpeza rigorosa é essencial. Muitas vezes, é necessário o desbridamento (remoção de tecido necrótico ou desvitalizado) para permitir a cicatrização. O desbridamento pode ser mecânico, autolítico (com coberturas específicas), enzimático ou cirúrgico.
    • Manejo do Exsudato: Controlar o excesso de secreção para evitar a maceração da pele ao redor.
    • Escolha da Cobertura Adequada: Utilizar coberturas específicas para feridas crônicas (hidrocoloides, alginatos, espumas, hidrogéis, carvão ativado, entre outros), que promovam um ambiente úmido ideal para cicatrização, absorvam exsudato e atuem em fatores específicos da ferida.
    • Prevenção de Infecção: Monitorar sinais de infecção e, se houver, colher cultura e auxiliar na administração de antibióticos.
    • Manejo da Dor: As feridas crônicas podem ser muito dolorosas. Administrar analgésicos e usar coberturas que minimizem a dor durante a troca.
    • Educação em Saúde: Orientar o paciente e a família sobre a doença de base, nutrição, mobilidade e cuidados com a ferida a longo prazo.
    • Suporte Nutricional: A nutrição adequada é vital para a cicatrização de feridas crônicas.
    • Mobilização e Alívio de Pressão: Para úlceras por pressão, o reposicionamento e o uso de colchões especiais são cruciais.

A importância de classificar corretamente

Classificar a ferida corretamente permite ao profissional:

  • Determinar a melhor abordagem terapêutica
  • Estabelecer um plano de curativo adequado
  • Avaliar a evolução do quadro
  • Prevenir complicações como infecções ou necroses
  • Documentar corretamente no prontuário

Além disso, é importante lembrar que uma ferida aguda pode se transformar em crônica se não for tratada de forma correta e oportuna.

Cuidados de enfermagem de acordo com a classificação

O papel da enfermagem na avaliação e tratamento de feridas é central. Desde a triagem até o acompanhamento da cicatrização, o enfermeiro deve estar atento a sinais locais e sistêmicos que podem indicar uma mudança de conduta.

Cuidados com feridas agudas

  • Higienizar corretamente o local com solução salina ou antissépticos indicados
  • Manter curativo limpo, seco e bem aderido
  • Observar sinais de infecção (vermelhidão, dor, calor, secreção purulenta)
  • Orientar o paciente sobre cuidados domiciliares
  • Evitar manipulação desnecessária da ferida

Cuidados com feridas crônicas

  • Avaliar a presença de tecido desvitalizado e necessidade de desbridamento
  • Utilizar coberturas específicas (como espumas, alginatos, hidrocolóides)
  • Controlar o exsudato e manter o ambiente úmido, porém limpo
  • Promover medidas de alívio de pressão ou melhora da circulação
  • Registrar evolução em ficha própria de avaliação de feridas
  • Realizar educação em saúde com o paciente e família sobre a doença de base

Além disso, o enfermeiro deve trabalhar em conjunto com a equipe multidisciplinar, incluindo médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e, quando necessário, estomaterapeutas.

Compreender a classificação das feridas quanto ao tempo de traumatismo é um passo fundamental para qualquer profissional de enfermagem que deseja prestar uma assistência segura, técnica e humanizada. Saber diferenciar uma ferida aguda de uma ferida crônica não é apenas um detalhe, mas sim uma habilidade que interfere diretamente na escolha do tratamento e no desfecho do paciente.

Feridas não tratadas corretamente podem comprometer a qualidade de vida, aumentar o tempo de internação e até levar a complicações graves. Portanto, avaliar bem, registrar corretamente e aplicar o conhecimento técnico são atitudes que fazem toda a diferença.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
  2. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. (Consultar capítulos sobre integridade da pele e cicatrização de feridas).
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM FERIDAS E ESTOMAS (SOBEFE). Consenso Brasileiro de Lesões de Pele. 2. ed. São Paulo: SOBEFE, 2021. Disponível em: https://www.sobefe.org.br/site/wp-content/uploads/2022/03/consenso-lesoes-de-pele-sobefe.pdf
  4. MEDEIROS, M. C. L. et al. Tratamento de feridas: da teoria à prática. São Paulo: Martinari, 2018. https://www.livrariamartinari.com.br/tratamento-de-feridas-da-teoria-a-pratica
  5. FERREIRA, A. M.; SOUZA, R. C. de. Enfermagem em feridas: uma abordagem prática. 2. ed. São Paulo: Yendis, 2020. https://www.editorayendis.com.br/enfermagem-em-feridas
  6. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: ANVISA, 2013. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf

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