
Vá direto ao ponto!
Quem avalia uma ferida olhando apenas para o leito pode perder uma informação importante: a borda mostra se o tecido está conseguindo avançar, se existe excesso de umidade, se há tecido espessado ou se a cicatrização está estagnada. Por isso, a margem da ferida deve fazer parte da avaliação sistemática, junto com tamanho, profundidade, leito, exsudato, pele perilesional e sinais de infecção.
O que observar na borda da ferida
A avaliação atual não precisa ficar limitada a uma lista fechada de “tipos de borda”. É mais útil descrever o que realmente está sendo observado: aproximação, epitelização, maceração, desidratação, espessamento ou enrolamento, hiperqueratose, calosidade e presença de descolamento ou undermining.
Bordas justapostas ou aproximadas
São margens que permanecem próximas, sem separação evidente entre os lados da lesão. Esse aspecto pode ser compatível com uma ferida em processo de fechamento, especialmente quando existe epitelização avançando sobre o leito.
É importante não transformar esse achado em diagnóstico de “boa cicatrização”. Perfusão, infecção, pressão, nutrição, etiologia e evolução do tamanho da ferida também precisam ser considerados.
Bordas em epíbole
A epíbole corresponde à borda enrolada ou espessada, geralmente voltada para dentro do leito. Ela pode dificultar o avanço das células epiteliais e está frequentemente associada a feridas de difícil fechamento.
Quando uma lesão permanece praticamente do mesmo tamanho por semanas e apresenta margem enrolada, esse detalhe merece ser registrado e discutido no plano de cuidado. O tratamento da epíbole pode exigir intervenção especializada, incluindo métodos de desbridamento conforme a etiologia, perfusão, localização e competência profissional.
Bordas maceradas
A maceração aparece quando a pele permanece excessivamente úmida, ficando esbranquiçada, amolecida ou com aspecto enrugado. Exsudato abundante é uma causa frequente, mas suor, incontinência e outros contatos prolongados com umidade também precisam ser considerados.
Na prática, uma ferida com grande quantidade de exsudato pode apresentar a cobertura aparentemente adequada, enquanto a pele ao redor começa a ficar branca e fragilizada. Esse achado é um sinal para reavaliar o manejo da umidade e a capacidade de absorção da cobertura, e não simplesmente trocar o curativo de forma automática.
Hiperqueratose e calosidade
O espessamento da pele junto à margem pode aparecer principalmente em feridas crônicas, como algumas lesões neuropáticas e do pé diabético. A hiperqueratose ou calosidade pode dificultar a visualização da verdadeira margem da lesão e, em determinadas situações, contribuir para pressão local.
A remoção desse tecido não deve ser tratada como procedimento automático para qualquer ferida. É necessário considerar etiologia, perfusão, sensibilidade, risco de sangramento e protocolo institucional, com desbridamento realizado por profissional habilitado quando indicado.
Descolamento, undermining e túneis
Uma borda pode estar não aderida ao leito, formando um espaço sob a pele. Esse achado deve ser diferenciado de um simples “descolamento” visual.
O undermining deve ser avaliado quanto à localização e extensão, podendo ser registrado utilizando posições de relógio e medida em centímetros. Túneis também devem ser identificados e documentados separadamente, pois podem esconder uma extensão maior da lesão.
Esse cuidado muda bastante a avaliação. Uma ferida que parece pequena na superfície pode apresentar uma área de descolamento extensa abaixo da pele, alterando a percepção real de sua dimensão e profundidade.
A borda também ajuda a acompanhar a evolução
Na reavaliação, não basta registrar “ferida sem alterações”. Compare tamanho, profundidade, condição da borda, exsudato, leito e pele perilesional com avaliações anteriores. Fotografias podem auxiliar no acompanhamento quando autorizadas e realizadas conforme protocolo institucional.
A ausência de redução da ferida, surgimento de borda enrolada, aumento do exsudato, piora da dor ou alterações da pele ao redor devem levar à revisão do plano de cuidado e investigação da causa.
Também é importante não interpretar vermelhidão isolada na borda como sinônimo de infecção. A avaliação deve considerar dor crescente, aumento do exsudato, calor, edema, deterioração da ferida e sinais sistêmicos, lembrando que a apresentação pode ser diferente em pessoas imunocomprometidas e em diferentes tons de pele.
Cuidados de enfermagem
Na avaliação da ferida, registre a condição da borda e da pele perilesional, além do tamanho, profundidade, exsudato, leito, dor e sinais de infecção. Observe se existe maceração, desidratação, hiperqueratose, calosidade, epíbole, undermining ou túnel.
Proteja a pele ao redor contra excesso de umidade, utilize a cobertura conforme a necessidade de exsudato e siga o protocolo institucional para limpeza e desbridamento. Alterações progressivas, estagnação da cicatrização, aumento da dor, sinais de infecção ou suspeita de comprometimento vascular devem ser comunicados e avaliados pela equipe responsável.
Um detalhe que costuma passar despercebido durante a troca de curativo é a comparação com o registro anterior. Se a borda que antes estava aderida passou a apresentar descolamento ou se a área macerada aumentou, essa mudança pode ser mais importante do que simplesmente descrever a ferida como “sem secreção”. É a evolução que transforma a observação em dado clínico.
Bordas de Feridas
- Avalie a borda junto com o leito e a pele perilesional
- Epíbole é uma borda enrolada que pode dificultar a epitelização
- Maceração indica excesso de umidade e exige revisão do manejo do exsudato
- Undermining deve ser localizado e medido
Referências:
- INTERNATIONAL WOUND INFECTION INSTITUTE. Wound Infection in Clinical Practice: International Consensus Update 2022. London: Wounds International, 2022. Disponível em: IWII — Wound Infection in Clinical Practice.
- WOUNDS INTERNATIONAL. The Triangle of Wound Assessment. London: Wounds International. Disponível em: Wounds International — Wound Assessment.
- WOUNDS UK. Wound assessment and management. London: Wounds UK, 2023. Disponível em: Wounds UK — Wound Assessment.
- AGENCY FOR HEALTHCARE RESEARCH AND QUALITY. On-Time Pressure Ulcer Healing: Assessment. Rockville: AHRQ. Disponível em: AHRQ — Pressure Ulcer Assessment.
- NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. Disponível em: NPIAP — Guideline Resources.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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