FAST HUGS BID: uma abordagem sistematizada para o cuidado diário do paciente crítico

Cuidar de um paciente crítico vai muito além de monitorar sinais vitais e administrar medicações. Na UTI, cada detalhe importa, e pequenas falhas podem gerar grandes impactos. Foi nesse contexto que surgiu o FAST HUGS, posteriormente ampliado para FAST HUGS BID, um checklist simples, porém extremamente poderoso, para garantir uma assistência integral, segura e contínua ao paciente internado em terapia intensiva.

Originalmente criado pelo intensivista Jean-Louis Vincent, esse mnemônico foi desenhado para garantir que nenhum cuidado essencial seja esquecido durante o plantão.

Para o estudante de enfermagem, o FAST HUGS BID funciona como uma bússola. Ele transforma a complexidade da UTI em uma lista mental estruturada que deve ser revisada pelo menos duas vezes ao dia (daí o “BID”, do latim bis in die). Vamos detalhar cada uma dessas letras, entendendo por que elas são fundamentais para a segurança do paciente crítico.

O que é o FAST HUGS BID?

O FAST HUGS BID é um método sistemático de avaliação diária do paciente crítico, utilizado principalmente em unidades de terapia intensiva. Ele funciona como um checklist que ajuda a equipe multiprofissional — especialmente a enfermagem — a não negligenciar cuidados essenciais.

A sigla representa aspectos fundamentais do cuidado, avaliados de forma rotineira, permitindo identificar precocemente falhas, riscos e oportunidades de intervenção.

A Primeira Parte: O FAST HUGS Original

O conceito inicial focava em aspectos metabólicos e preventivos que frequentemente passavam despercebidos na correria das emergências.

  • F de Feeding (Alimentação): O paciente crítico entra em um estado catabólico intenso. O enfermeiro deve verificar se a nutrição (enteral ou parenteral) está sendo administrada conforme o alvo calórico-proteico. É nossa função monitorar a tolerância à dieta, observar a presença de resíduo gástrico excessivo e garantir que o paciente não fique em jejum desnecessário, o que prejudica a cicatrização e a função imunológica.
  • A de Analgesia (Analgesia): A dor é o quinto sinal vital. Na UTI, muitos pacientes não conseguem falar, por isso usamos escalas como a CPOT para avaliar o sofrimento. É um erro comum sedar um paciente que, na verdade, sente dor. A regra de ouro é: trate a dor antes de aumentar a sedação. Um paciente sem dor colabora melhor com a ventilação e tem menos riscos de desenvolver delírio.
  • S de Sedation (Sedação): Aqui, o enfermeiro deve avaliar o nível de consciência através da Escala de RASS. O objetivo moderno é a “sedação leve”, onde o paciente fica calmo, mas pode ser despertado facilmente. Devemos evitar o excesso de sedação, que prolonga o tempo de ventilação mecânica e aumenta a fraqueza muscular adquirida na UTI.
  • T de Thromboembolic Prophylaxis (Prophylaxia Tromboembólica): Pacientes acamados têm um risco altíssimo de Trombose Venosa Profunda (TVP). A enfermagem deve garantir que a profilaxia medicamentosa (heparina) seja administrada e, tão importante quanto, que os métodos mecânicos, como as meias de compressão ou botas pneumáticas, estejam funcionando e bem posicionados.
  • H de Head of bed elevation (Elevação da Cabeceira): Manter a cabeceira entre 30° e 45° é a medida mais barata e eficaz para prevenir a Pneumonia Associada à Ventilação (PAV). Isso evita a microaspiração de secreções. Como enfermeiros, devemos vigiar esse posicionamento constantemente, especialmente após banhos ou mudanças de decúbito.
  • U de Ulcer Prophylaxis (Prophylaxia de Úlcera de Estresse): O estresse fisiológico da doença crítica aumenta a acidez gástrica, podendo causar sangramentos digestivos. O uso de protetores gástricos deve ser verificado, assim como a presença de sangue no conteúdo gástrico ou nas fezes.
  • G de Glycemic Control (Controle Glicêmico): A hiperglicemia de estresse é comum e aumenta a mortalidade e o risco de infecções. O enfermeiro gerencia os protocolos de insulina e realiza as glicemias capilares rigorosas, buscando manter os níveis geralmente entre 140 e 180 mg/dL, evitando tanto o excesso de açúcar quanto a hipoglicemia fatal.
  • S de Spontaneous Breathing Trial (Teste de Respiração Espontânea): Todos os dias, devemos nos perguntar: “Este paciente já pode respirar sozinho?”. A enfermagem colabora com a fisioterapia e a medicina no teste de despertar diário (desligar a sedação) e no teste de autonomia respiratória, visando a extubação o mais cedo possível.

O Complemento: O BID e a Vigilância Sistêmica

Com o tempo, percebeu-se que outros aspectos eram igualmente vitais para evitar complicações hospitalares, adicionando-se o sufixo BID.

  • B de Bowel habits (Hábito Intestinal): O intestino é muitas vezes o “órgão esquecido” da UTI. A constipação pode causar distensão abdominal e dificultar a ventilação. O enfermeiro deve registrar a frequência das evacuações e os ruídos hidroaéreos, sugerindo o uso de procinéticos ou laxantes quando necessário.
  • I de Indwelling catheters (Cateteres Invasivos): Cada cateter (venoso central, vesical de demora, arterial) é uma porta de entrada para bactérias. A pergunta diária da enfermagem deve ser: “Este cateter ainda é necessário?”. Retirar dispositivos invasivos assim que possível é a melhor forma de prevenir infecções da corrente sanguínea e do trato urinário.
  • D de Drug de-escalation (Descalonamento de Drogas): Refere-se à revisão das medicações. Estamos usando antibióticos que poderiam ser suspensos ou trocados por um de espectro menor? Alguma droga está causando efeitos colaterais desnecessários? Embora a decisão seja médica, o enfermeiro, que observa o paciente continuamente, é quem traz os dados para essa discussão.

Por que o FAST HUGS BID é tão importante na UTI?

O ambiente da UTI é complexo, dinâmico e exige tomadas de decisão rápidas. Em meio a tantos dispositivos, medicamentos e alterações clínicas, é fácil que cuidados básicos passem despercebidos.

O FAST HUGS BID ajuda a:

  • Reduzir eventos adversos;
  • Padronizar a assistência;
  • Melhorar a comunicação entre a equipe;
  • Aumentar a segurança do paciente;
  • Fortalecer o raciocínio clínico da enfermagem.

Ele transforma o cuidado fragmentado em um cuidado estruturado e intencional.

Cuidados de Enfermagem Integrados ao FAST HUGS BID

A implementação desse checklist não deve ser apenas burocrática. Na prática, o enfermeiro utiliza o momento da passagem de plantão e o exame físico da manhã para percorrer esses itens. O cuidado humanizado entra na personalização dessas letras: ao checar a analgesia, aproveitamos para oferecer suporte emocional; ao elevar a cabeceira, garantimos que o paciente tenha uma visão melhor do ambiente, reduzindo a desorientação.

A principal contribuição da enfermagem é a vigilância. Enquanto o médico prescreve as medidas, é o enfermeiro quem garante que a cabeceira permaneça elevada, que a insulina seja ajustada corretamente e que a sedação não passe do ponto necessário. Dominar esse mnemônico eleva o estudante de um nível operacional para um nível de pensamento crítico.

O FAST HUGS BID é uma ferramenta simples, mas extremamente eficaz, para garantir um cuidado completo ao paciente crítico. Para a enfermagem, ele representa organização, segurança e qualidade assistencial.

Incorporar essa abordagem à prática diária significa reduzir falhas, prevenir complicações e oferecer um cuidado mais humano, atento e responsável.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica. 2013. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/
  4. VINCENT, Jean-Louis. Give your patient a fast hug (at least) once a day. Critical Care Medicine, v. 33, n. 6, p. 1225-1229, 2005. Disponível em: https://journals.lww.com/ccmjournal/
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente em unidades de terapia intensiva. Brasília, 2021. Disponível em:https://www.gov.br/saude

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