Wake Up Stroke

Imagine a cena: você vai dormir se sentindo bem, acorda e percebe que não consegue mexer um lado do corpo ou que sua fala está arrastada. Essa é a realidade assustadora de quem sofre um Wake-Up Stroke (AVC ao acordar), um tipo de Acidente Vascular Cerebral que acontece durante o sono ou no período em que a pessoa está dormindo, e os sintomas só são notados ao despertar.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, o Wake-Up Stroke representa um desafio particular.

Por que?

Porque o tempo é cérebro no AVC, e a ausência de um horário claro de início dos sintomas complica a janela de tratamento. Entender essa condição e como abordá-la é crucial para otimizar as chances de recuperação dos nossos pacientes. Vamos mergulhar nesse mistério?

O Que É o Wake-Up Stroke? O AVC Silencioso da Noite

Um AVC tradicional tem um horário de início dos sintomas bem definido – a pessoa estava bem em um momento e, de repente, sente a boca torta, o braço fraco ou a fala enrolada. Isso é fundamental para decidir o tratamento, especialmente a trombólise (uso de medicamentos para dissolver o coágulo), que tem uma “janela de tempo” limitada.

No Wake-Up Stroke, a pessoa acorda com os sintomas neurológicos e não consegue dizer quando eles começaram. Isso significa que o momento exato do AVC é desconhecido. Por convenção, para fins de tratamento, a última vez que o paciente foi visto bem (geralmente ao ir para a cama na noite anterior) é considerada o “tempo zero” do AVC. Isso, muitas vezes, coloca o paciente fora da janela de tratamento padrão para a trombólise venosa.

Por que acontece?

O AVC ao acordar, na maioria das vezes, é um AVC isquêmico (causado por um coágulo que bloqueia uma artéria no cérebro). Durante o sono, há variações na pressão arterial e na frequência cardíaca que podem favorecer a formação ou deslocamento de coágulos.

Os Desafios do Diagnóstico e Tratamento: O Relógio Está Contra Nós

A grande questão do Wake-Up Stroke é a janela terapêutica. A trombólise venosa com alteplase, o principal tratamento para o AVC isquêmico agudo, é mais eficaz e segura se administrada em até 4,5 horas do início dos sintomas. Se não sabemos quando o AVC começou, como decidir?

Antigamente, muitos pacientes com Wake-Up Stroke eram excluídos da trombólise. No entanto, a medicina evoluiu, e hoje temos ferramentas que nos ajudam a identificar pacientes que ainda podem se beneficiar.

  • Ressonância Magnética (RM) de Crânio: Essa é a principal ferramenta. Através de sequências específicas (como FLAIR e difusão), a RM pode ajudar a estimar se o AVC é “recente” (menos de 4,5 horas) ou mais antigo.
    • Sequência de Difusão (DWI): Mostra áreas de infarto agudo (onde o tecido cerebral está morrendo) que aparecem rapidamente após o AVC.
    • Sequência FLAIR: Demora um pouco mais para mostrar alterações (horas).
    • “Mismatch” DWI-FLAIR: Se a lesão aparece na difusão, mas não na FLAIR, isso sugere que o AVC é recente (provavelmente dentro da janela de 4,5 horas). Esse achado permite que esses pacientes sejam considerados para a trombólise.
  • Trombectomia Mecânica: Mesmo que o paciente esteja fora da janela da trombólise venosa, se tiver uma oclusão de grande vaso cerebral (identificada por angiotomografia ou angioressonância), ele ainda pode ser elegível para a trombectomia mecânica (retirada do coágulo por um cateter), que tem uma janela de tempo mais estendida (até 24 horas em casos selecionados, dependendo da área do cérebro em risco).

Sinais de Alerta: Identificando um Possível Wake-Up Stroke

Embora os sintomas só sejam notados ao acordar, eles são os mesmos de qualquer AVC. Nós, profissionais de enfermagem, precisamos estar aptos a identificá-los rapidamente:

  • FAST (Face, Arm, Speech, Time):
    • F (Face – Face): Um lado do rosto caído ao sorrir ou pedir para mostrar os dentes.
    • A (Arm – Braço): Fraqueza ou dormência em um braço ao tentar levantá-los.
    • S (Speech – Fala): Dificuldade para falar (fala arrastada, incompreensível) ou para entender.
    • T (Time – Tempo): Chamar o SAMU/Emergência imediatamente. Embora o tempo de início seja desconhecido, a urgência é a mesma!
  • Outros Sinais:
    • Confusão mental súbita.
    • Alteração súbita na visão em um ou ambos os olhos.
    • Dificuldade súbita para andar, tontura, perda de equilíbrio ou coordenação.
    • Dor de cabeça súbita e intensa sem causa aparente.

Cuidados de Enfermagem: Nossa Atuação Imediata e Abrangente

No caso de um paciente que chega com suspeita de Wake-Up Stroke, nossa conduta é decisiva:

  1. Prioridade e Rapidez: Receber o paciente como uma urgência neurológica. O tempo entre a chegada ao hospital e o início do tratamento (Door-to-Needle Time) precisa ser o menor possível.
  2. Anamnese Focada: Obter o máximo de informações da família ou acompanhantes sobre a última vez que o paciente foi visto bem, medicações em uso, histórico de doenças (hipertensão, diabetes, arritmias, tabagismo).
  3. Avaliação Neurológica Rápida:
    • Escala de Glasgow: Para avaliar o nível de consciência.
    • NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale): Essencial para quantificar o déficit neurológico. Essa escala deve ser realizada rapidamente e de forma precisa, pois orienta o tratamento.
  4. Monitorização Constante:
    • Sinais Vitais: Pressão arterial (manter em níveis que garantam perfusão cerebral, mas evitem hemorragia), frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação de oxigênio, temperatura.
    • Glicemia Capilar (HGT): Realizar imediatamente, pois hipo ou hiperglicemia podem mimetizar ou agravar os sintomas do AVC.
  5. Preparação para Exames:
    • Acesso Venoso: Garantir pelo menos dois acessos venosos calibrosos.
    • Exames Laboratoriais: Coletar sangue para coagulograma (INR, PTTa), hemograma, eletrólitos, função renal, entre outros.
    • Eletrocardiograma (ECG): Realizar ECG de 12 derivações para avaliar arritmias.
    • Tomografia Computadorizada (TC) de Crânio Imediata: Para excluir sangramento cerebral. Se não houver sangramento, o paciente pode ser elegível para RM.
  6. Gerenciamento da Via Aérea e Ventilação: Garantir que o paciente esteja com via aérea pérvia e boa oxigenação. Se necessário, elevar a cabeceira do leito para prevenir broncoaspiração.
  7. Preparação para o Tratamento: Se o paciente for elegível para trombólise, preparar a medicação (Alteplase), bomba de infusão, e monitorar o paciente rigorosamente para sinais de complicação (hemorragia).
  8. Suporte e Educação à Família: Explicar a situação, a necessidade de agilidade e as etapas do tratamento. A família geralmente está em choque e precisa de informações claras e apoio.
  9. Registro Preciso: Documentar minuciosamente o tempo de chegada, os achados da avaliação, os exames realizados, as medicações administradas e a resposta do paciente.

O Wake-Up Stroke, embora desafiador pela incerteza do tempo, é um campo onde a inovação diagnóstica e a agilidade da equipe de enfermagem fazem uma diferença monumental. Estar preparado para identificar, agir e coordenar o cuidado com excelência é a nossa contribuição vital para esses pacientes que, ao acordar, se deparam com a realidade de um AVC.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA) / AMERICAN STROKE ASSOCIATION (ASA). Guidelines for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline for Healthcare Professionals From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke, Dallas, v. 50, n. 12, p. e344-e418, dez. 2019. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/full/10.1161/STR.0000000000000211. (É fundamental consultar a edição mais recente das diretrizes da AHA/ASA, pois elas são atualizadas com base nas últimas pesquisas, incluindo Wake-Up Stroke).
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_acidente_vascular_cerebral.pdf
  3. CAMPOS, P. M. C. et al. Tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico agudo: uma revisão da literatura. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, São Paulo, v. 14, n. 2, p. 106-111, 2016.

A Pinça de Carretel (Ou de Ordenha)

A pinça de carretel, também conhecida como pinça de ordenha, é um instrumento bastante utilizado em enfermagem, principalmente em procedimentos hospitalares que envolvem sondas, cateteres e drenos.

Embora seu nome possa soar estranho para quem está começando na área, trata-se de uma ferramenta simples, mas extremamente útil para garantir a segurança do paciente e a eficiência de determinados cuidados.

O Que É a Pinça de Carretel?

A pinça de carretel é formada por um corpo cilíndrico, que lembra um pequeno carretel, e uma superfície que permite realizar pressão controlada sobre tubos flexíveis. Sua principal função é interromper ou controlar temporariamente o fluxo de líquidos, como no caso de drenos, sondas nasogástricas, sondas vesicais ou equipos de infusão.

O material de fabricação costuma ser plástico ou metal, com design anatômico para facilitar o manuseio. Por não perfurar ou cortar o tubo, ela preserva a integridade do material, evitando danos que poderiam levar a vazamentos ou contaminações.

Indicações de Uso

A pinça de carretel é indicada para diversas situações no ambiente hospitalar, como:

  • Interrupção temporária do fluxo de líquidos em sondas e drenos durante a troca de bolsas coletoras.
  • Ordenha de drenos cirúrgicos para manter a permeabilidade e evitar obstruções por coágulos.
  • Controle momentâneo de fluxo em equipos de infusão para troca de frascos ou ajuste de medicações.
  • Auxílio em procedimentos de higiene ou transporte de pacientes, evitando extravasamento de fluidos.

Como Usar a Pinça de Carretel?

O uso da pinça de carretel deve ser cuidadoso e seguir protocolos de segurança para evitar complicações. O processo básico inclui:

  1. Higienização das mãos antes de qualquer manipulação.
  2. Posicionamento correto da pinça no tubo ou dreno, pressionando de forma suficiente para interromper o fluxo, mas sem danificar o material.
  3. Ordenha, se necessário, realizando movimentos suaves no sentido do corpo do paciente para o reservatório, a fim de deslocar coágulos ou detritos.
  4. Retirada da pinça somente no momento adequado, para restabelecer o fluxo de forma controlada.

É importante nunca deixar a pinça fechada por tempo prolongado sem indicação médica ou de protocolo, pois isso pode levar a complicações como refluxo, aumento de pressão no sistema ou falha na drenagem.

Cuidados de Enfermagem

  • Sempre confirmar a necessidade e o tempo de uso da pinça conforme prescrição ou protocolo institucional.
  • Observar o paciente durante e após o procedimento, monitorando sinais de dor, desconforto ou alteração no fluxo.
  • Manter a pinça limpa e, quando reutilizável, realizar a devida desinfecção ou esterilização conforme as normas.
  • Evitar uso excessivo de força para não deformar ou romper a sonda/dreno.
  • Registrar no prontuário o motivo, o tempo e o resultado da utilização da pinça.

A pinça de carretel é um recurso simples, mas essencial na prática de enfermagem. Seu uso correto garante segurança, eficiência nos procedimentos e conforto para o paciente. Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender sua função e técnica de utilização é parte fundamental do cuidado qualificado.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de cuidados com sondas, drenos e cateteres. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_cuidados_sondas_drenos_cateteres.pdf.
  2. FERNANDES, A. T.; SILVA, A. P. Procedimentos de enfermagem: fundamentos técnicos e científicos. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br.
  3. SOBECC – Associação Brasileira de Enfermeiros de Centro Cirúrgico. Práticas recomendadas. 7. ed. São Paulo: SOBECC, 2017. Disponível em: https://www.sobecc.org.br. 

Tudo sobre a coleta de sangue à vácuo

A coleta de sangue é um procedimento fundamental na rotina hospitalar e ambulatorial, sendo crucial para diagnósticos, monitoramento de doenças e avaliação de tratamentos. Entre os métodos mais utilizados está a coleta de sangue à vácuo, considerada segura, rápida e eficaz.

Mas como ela funciona na prática? Quais cuidados devem ser tomados? E como o profissional de enfermagem deve se preparar?

Neste artigo, vamos explorar todos os aspectos da coleta de sangue à vácuo, de forma clara, natural e didática, especialmente para quem está começando na enfermagem.

O Que É o Sistema a Vácuo? 

O sistema de coleta de sangue a vácuo é um conjunto fechado e estéril que permite coletar múltiplas amostras de sangue de uma única punção venosa. A “mágica” acontece por causa da pressão negativa (vácuo) dentro dos tubos de coleta.

Ele é composto por três elementos principais que trabalham em harmonia:

  1. Agulha de Múltiplas Coletas (ou Agulha de Punção): É uma agulha com duas pontas. Uma ponta (a mais longa e visível) é usada para puncionar a veia do paciente. A outra ponta (mais curta e protegida por uma capa de borracha) é inserida no tubo de coleta.
  2. Holder (Adaptador ou Suporte): É um cilindro de plástico que serve como um “cabo” para a agulha de punção e onde o tubo a vácuo é encaixado. Ele permite que a agulha perfure a tampa do tubo sem que o sangue vaze para fora.
  3. Tubos a Vácuo (Vacuolizadores): São os tubos de coleta de sangue, feitos de plástico ou vidro, que contêm uma quantidade predeterminada de vácuo em seu interior. Essa pressão negativa é o que “puxa” o sangue para dentro do tubo automaticamente quando a agulha o perfura. Muitos desses tubos já vêm com aditivos específicos (anticoagulantes, géis separadores) para os diferentes tipos de exames.

Por Que o Sistema a Vácuo É o Padrão Ouro? As Vantagens Inegáveis

Se você já coletou sangue com seringa e agulha convencionais, sabe que é possível. Mas o sistema a vácuo oferece uma série de benefícios que o tornam a escolha preferencial:

  • Segurança para o Profissional: O sistema é fechado. Isso significa que há menor exposição ao sangue, reduzindo o risco de acidentes com perfurocortantes (como o reencape da agulha) e contaminação. As agulhas de segurança (que se retraem ou possuem um protetor após o uso) aumentam ainda mais essa segurança.
  • Segurança para o Paciente:
    • Menos Punções: Como a agulha de múltipla coleta permite acoplar vários tubos, geralmente é necessária apenas uma única punção venosa para coletar todas as amostras necessárias. Isso significa menos dor e trauma para o paciente.
    • Qualidade da Amostra: O vácuo dos tubos é calibrado para puxar a quantidade exata de sangue necessária, evitando excesso ou falta de volume. Além disso, a velocidade de entrada do sangue é controlada, minimizando a hemólise (quebra das células sanguíneas), o que comprometeria o resultado do exame.
  • Padronização e Eficiência: Os tubos já vêm com os aditivos corretos e na proporção certa, eliminando a necessidade de transferir sangue para outros recipientes e misturar manualmente, o que pode gerar erros. O processo é mais rápido e organizado.
  • Controle de Infecção: Por ser um sistema fechado e de uso único, diminui drasticamente o risco de contaminação das amostras e de infecções cruzadas.

O Passo a Passo da Coleta a Vácuo

Para que a coleta a vácuo seja um sucesso, cada etapa é importante:

Preparação de Material:

    • Luvas de procedimento.
    • Agulha de múltipla coleta (calibre adequado para a veia e o exame).
    • Holder.
    • Garrote (torniquete).
    • Antisséptico (álcool 70% ou clorexidina alcoólica 0,5%).
    • Algodão seco.
    • Esparadrapo/micropore.
    • Tubos a vácuo (na ordem correta de coleta, que geralmente segue a padronização do laboratório para evitar contaminação por aditivos).
    • Caixa de descarte de perfurocortantes (descarpack).
    • Bandeja limpa.

Preparação do Paciente:

    • Identificação: Confirmar a identificação do paciente (nome completo, data de nascimento) e os exames solicitados. ESSENCIAL!
    • Orientação: Explicar o procedimento, tranquilizar o paciente, e questionar sobre alergias, histórico de desmaios ou problemas de coagulação.
    • Posicionamento: Deixar o paciente confortável, com o braço estendido e apoiado.

Seleção do Local de Punção:

    • Geralmente as veias da fossa cubital (dobra do cotovelo) são as preferenciais (cefálica, basílica, mediana cubital).
    • Avaliar veias calibrosas, visíveis e palpáveis, sem sinais de inflamação ou esclerose.
    • Palpação: Usar luvas para palpar a veia.

Colocação do Garrote:

    • Aplicar o garrote 5 a 10 cm acima do local de punção.
    • Pedir para o paciente fechar e abrir a mão algumas vezes, e mantê-la fechada.
    • Tempo: O garrote não deve ficar por mais de 1 minuto, para evitar hemoconcentração e alteração dos resultados.

Antissepsia:

    • Realizar a desinfecção da pele com álcool 70% ou clorexidina alcoólica 0,5%, em movimentos únicos e amplos do centro para a periferia.
    • Aguardar a secagem completa do antisséptico para evitar hemólise e dor.

Punção Venosa:

    • Com a pele esticada e firme, introduzir a agulha com o bisel para cima, em um ângulo de 15 a 30 graus, no sentido do fluxo venoso.
    • Quando a agulha estiver dentro da veia, você sentirá uma pequena “perda de resistência”.

Conexão dos Tubos:

    • Com a agulha estabilizada na veia, encaixe o primeiro tubo no holder e empurre-o até que a agulha perfure a tampa. O sangue começará a fluir automaticamente devido ao vácuo.
    • Deixar o tubo encher completamente.
    • Remoção do Garrote: Assim que o sangue começar a fluir para o primeiro tubo, ou antes de preencher o último tubo (dependendo do protocolo do laboratório), solte o garrote.
    • Inversão dos Tubos: Remover o tubo do holder e inverter (virar suavemente para cima e para baixo) o número de vezes recomendado pelo fabricante para garantir a mistura adequada do sangue com o aditivo.
    • Encaixar os tubos seguintes na ordem correta, invertendo-os também.

Ordem de coleta dos tubos

A ordem correta de coleta evita contaminações entre os aditivos dos tubos. Um exemplo padrão é:

  1. Tubo para hemocultura (quando solicitado)
  2. Tubo com citrato de sódio (coagulação – tampa azul)
  3. Tubo sem aditivo ou com ativador de coágulo (bioquímica – tampa vermelha ou amarela)
  4. Tubo com heparina (gases ou bioquímica – tampa verde)
  5. Tubo com EDTA (hematologia – tampa roxa)
  6. Tubo com fluoreto (glicose – tampa cinza)

Remoção da Agulha:

    • Após coletar todas as amostras, remover o último tubo.
    • Colocar um algodão seco sobre o local da punção (sem pressionar a agulha!).
    • Remover a agulha com um movimento rápido e firme.
    • Ativar o dispositivo de segurança da agulha imediatamente.

Compressão e Curativo:

    • Orientar o paciente a comprimir o local da punção com o algodão seco por 2 a 5 minutos (ou mais se ele for anticoagulado).
    • Verificar se não há sangramento ou hematoma.
    • Fazer um pequeno curativo compressivo.

Descarte e Organização:

    • Descartar a agulha no descarpack imediatamente.
    • Descartar luvas e demais materiais no lixo hospitalar.
    • Organizar os tubos na bandeja para encaminhamento ao laboratório.

Cuidados de Enfermagem

Nosso papel vai muito além de seguir um protocolo. A coleta de sangue é um momento de ansiedade para muitos pacientes, e nossa postura faz toda a diferença:

  • Comunicação Clara e Empática: Explicar o que será feito, tranquilizar o paciente, responder às suas perguntas. Se for uma criança, envolver os pais e usar uma linguagem lúdica.
  • Observação Constante: Atentar para a reação do paciente (palidez, sudorese, tontura – sinais de lipotimia/desmaio).
  • Manejo da Dor: Realizar a punção de forma rápida e precisa. Se o paciente relatar muita dor, reavaliar a técnica.
  • Prevenção de Complicações:
    • Hematomas: Orientar sobre a compressão adequada e evitar múltiplas punções.
    • Lipotimia/Desmaio: Se o paciente referir tontura, deitá-lo, elevar as pernas e monitorar.
    • Dor Pós-Coleta: Explicar que uma leve dor ou sensibilidade é normal, mas que dor intensa ou inchaço devem ser comunicados.
  • Qualidade da Amostra: Garantir que os tubos sejam preenchidos até o volume indicado e que a inversão seja feita corretamente para evitar amostras coaguladas ou hemolisadas.
  • Registro: Documentar o procedimento, o local da punção, as intercorrências e as orientações fornecidas.

A coleta de sangue a vácuo é uma técnica rotineira, mas que exige maestria e responsabilidade. Ao dominá-la, garantimos não apenas a qualidade dos exames, mas também a segurança e o conforto do nosso paciente, que é sempre a nossa maior prioridade.

Referências:

  1. CLSI. Clinical and Laboratory Standards Institute. Collection of Diagnostic Venous Blood Specimens. 8th ed. Wayne, PA: CLSI, 2017. (Documento M29-A5). (Referência internacional padrão-ouro para coleta de sangue).
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Manual de Biossegurança. Brasília, DF: ANVISA. (Buscar por guias e manuais de biossegurança atualizados no site da ANVISA, que abordarão as práticas seguras para coleta de sangue). Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/manuais-e-guias/manual_biosseguranca.pdf.
  3. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre coleta de sangue e segurança do paciente/profissional).

O Papel Essencial da Equipe de Enfermagem na Parada Cardiorrespiratória

Na rotina de um hospital, especialmente em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), há momentos em que cada segundo conta. A Parada Cardiorrespiratória (PCR) é, sem dúvida, um desses momentos. Ela acontece quando o coração e a respiração de uma pessoa param de repente, e sem uma intervenção imediata, o resultado pode ser catastrófico para o cérebro e outros órgãos vitais.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, é fundamental entender que, em um cenário de PCR, o o profissional de enfermagem (enfermeiro, técnico ou auxiliar) não é apenas mais um membro da equipe. Ele é, muitas vezes, o primeiro a chegar, o primeiro a identificar o problema e o líder da resposta inicial.

Este é um papel que exige agilidade, conhecimento técnico apurado e, acima de tudo, uma liderança clara e assertiva. Vamos aprofundar um pouco mais sobre a atuação da equipe de enfermagem diante da PCR e entender como a sua liderança pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

A Resposta Imediata: O Reconhecimento e os Primeiros Passos

O enfermeiro e o técnico de enfermagem são os profissionais que estão ao lado do paciente 24 horas por dia, 7 dias por semana na UTI. Por isso, a sua capacidade de identificar os sinais de uma PCR é o ponto de partida para a sobrevivência do paciente. Ele percebe a falta de resposta, a ausência de pulso e a parada da respiração. Neste instante, a ação deve ser rápida e decisiva.

O profissional inicia imediatamente o Suporte Básico de Vida (SBV), que inclui as compressões torácicas de alta qualidade, e aciona a equipe de emergência. A partir desse momento, ele se torna o maestro de uma orquestra de socorro.

A Equipe da PCR: Cada Membro em Seu Papel

Em uma PCR, o trabalho em equipe é tudo. Uma equipe bem treinada e organizada atua de forma coordenada para garantir que as intervenções sejam feitas de maneira eficaz e sem atrasos. A organização ideal de uma equipe de resposta à PCR conta com o enfermeiro como um líder central e os seguintes papéis:

  • Responsável pela Ventilação: Um profissional que garante que as vias aéreas do paciente estejam desobstruídas e realiza a ventilação com bolsa-máscara (ambu).
  • Responsáveis pela Compressão Torácica: São necessários dois profissionais para revezar as compressões torácicas, garantindo a qualidade e a profundidade adequadas sem cansaço.
  • Líder Anotador: Um membro da equipe que registra os medicamentos administrados e o tempo de cada intervenção. Esta função é crucial para o acompanhamento e a tomada de decisões.
  • Responsável pelos Medicamentos: O profissional que prepara e administra os medicamentos conforme a indicação do médico ou o protocolo.
  • Profissional ao Lado do Monitor e Desfibrilador: Geralmente um médico, este membro da equipe avalia o ritmo cardíaco do paciente no monitor e, se indicado, realiza a desfibrilação com o Desfibrilador Externo Automático (DEA) ou o manual.

O Papel de Liderança do Enfermeiro: Organização e Ação

Em meio ao caos de uma PCR, o enfermeiro atua como um coordenador. Ele é quem direciona as ações da equipe, garantindo que cada um esteja em sua posição e cumprindo sua função. Sua autonomia e experiência são fundamentais.

  1. Coordenação da Equipe: O enfermeiro-líder distribui as tarefas, assegura que as compressões sejam eficientes e que a ventilação esteja adequada.
  2. Instalação do Desfibrilador: Ele é responsável por instalar o DEA no paciente e, se o ritmo for chocável, ele mesmo pode realizar a desfibrilação.
  3. Administração de Medicações: O enfermeiro supervisiona a manipulação e a administração dos medicamentos de emergência, como a adrenalina e a amiodarona, que são cruciais para o sucesso da reanimação.
  4. Aprimoramento Contínuo: Um bom enfermeiro-líder sabe que o aprendizado é constante. Ele busca o aprimoramento de sua equipe, utilizando tecnologias e protocolos atualizados (como os da American Heart Association – AHA) para garantir que a assistência seja sempre a mais eficaz possível.

O enfermeiro na UTI, com seu perfil de liderança, não apenas executa tarefas, mas otimiza recursos humanos e tecnológicos, tornando a assistência ágil, hábil e com maiores chances de sucesso. Acreditamos que a autonomia, a organização e o treinamento contínuo da equipe, liderados por um enfermeiro preparado, são a chave para um maior êxito na recuperação de um paciente em PCR.

Referências:

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). ACLS Suporte Avançado de Vida em Cardiologia. 2020. Disponível em: https://cpr.heart.org/en/resources/aha-guidelines/aha-acls-guidelines-cpr-and-ecc.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília, DF: ANVISA, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/manuais-e-guias/manual_seguranca_paciente_anvisa.pdf.
  3. BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2016. (Referência para a metodologia de análise de conteúdo).

Entendendo o Borderline

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), também conhecido como transtorno de personalidade limítrofe, é uma condição de saúde mental marcada por instabilidade emocional intensa, comportamentos impulsivos e relacionamentos interpessoais turbulentos. Embora seja um transtorno frequentemente mal compreendido, ele tem grande impacto na vida do paciente e exige atenção cuidadosa da equipe de enfermagem, especialmente em ambientes hospitalares, de urgência e saúde mental.

Esta publicação tem como objetivo explicar de forma clara e prática o que é o transtorno borderline, como ele se manifesta e quais são os cuidados que o profissional de enfermagem deve ter no acompanhamento dessas pessoas.

O Que É o Borderline? Viver no Limite das Emoções

Imagine viver em uma montanha-russa emocional constante, onde os altos são eufóricos e os baixos são abismos profundos, e essa mudança pode acontecer em questão de minutos ou horas. Essa é uma das características mais marcantes do TPB: uma instabilidade emocional intensa e persistente.

Mas não é só isso. O termo “borderline” (linha limite) surgiu porque, por muito tempo, a condição era vista como estando na “fronteira” entre a neurose e a psicose. Hoje, sabemos que é um transtorno de personalidade, caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade nas relações interpessoais, autoimagem, afetos e impulsividade.

Os Pilares da Instabilidade: Sintomas que Revelam o TPB

Para que um diagnóstico de TPB seja feito, a pessoa precisa apresentar pelo menos cinco dos nove critérios abaixo, de forma persistente e em diversos contextos da vida, começando geralmente na adolescência ou início da vida adulta:

Instabilidade Afetiva (Emocional): A Montanha-Russa Interna

  • Oscilações Intensas de Humor: Mudanças rápidas e drásticas de humor, que podem ir da euforia à raiva, tristeza profunda ou ansiedade, em pouco tempo. As emoções são vividas de forma muito mais intensa do que o comum.
    • A verdade nua e crua: Não é “drama” ou “birra”. É uma dificuldade genuína em regular as próprias emoções, que são sentidas de forma avassaladora e que fogem ao controle.

Padrão de Relacionamentos Instáveis e Intensos: Amor e Ódio

  • Idealização e Desvalorização: As relações são extremas. A pessoa com TPB pode idealizar alguém intensamente, vendo-o como perfeito, e de repente, desvalorizá-lo completamente, como se fosse a pior pessoa do mundo, por pequenos motivos. Essa mudança é chamada de “cisão” ou “divisão”.
  • Medo Intenso de Abandono: Um pavor paralisante de ser abandonado, seja real ou imaginário. Isso pode levar a esforços desesperados para evitar o abandono, como suplicar, se humilhar, ou até mesmo ameaçar a si mesmo.
    • A verdade nua e crua: Esse medo de abandono é a raiz de muitos comportamentos. A pessoa age de forma a “testar” o limite dos outros, na tentativa de ter certeza de que não será deixada, mas acaba afastando as pessoas.

Perturbação da Identidade: Quem Sou Eu?

  • Autoimagem Instável: Uma profunda sensação de incerteza sobre quem realmente é. Os valores, objetivos, a identidade sexual e até a carreira podem mudar drasticamente em pouco tempo.
    • A verdade nua e crua: A pessoa não tem um senso sólido de si mesma, o que gera um vazio crônico e uma busca incessante por algo que preencha essa lacuna.

Impulsividade: Agir Antes de Pensar

  • Comportamentos Impulsivos e Potencialmente Prejudiciais: Gastos excessivos, sexo desprotegido, abuso de substâncias (álcool, drogas), direção imprudente, compulsão alimentar.
    • A verdade nua e crua: A impulsividade é uma forma de tentar aliviar a dor emocional intensa, mesmo que traga consequências negativas a longo prazo.

Comportamentos Suicidas Recorrentes ou Automutilação: O Alívio Doloroso

  • Ameaças, Gestos ou Tentativas de Suicídio: São comuns e devem ser levados a sério.
  • Comportamentos Automutilatórios: Cortar-se, queimar-se, bater a cabeça. Não são necessariamente tentativas de suicídio, mas formas de lidar com a dor emocional extrema, transformando-a em dor física, ou de “sentir algo” quando o vazio é insuportável.
    • A verdade nua e crua: Esses atos são um grito de socorro e uma tentativa desesperada de aliviar o sofrimento. Exigem intervenção imediata e acompanhamento contínuo.

Instabilidade Afetiva (Parte 2): Raiva Intensa e Inadequada

  • Raiva Inadequada e Dificuldade em Controlá-la: Explosões de raiva, fúria constante, brigas físicas recorrentes, que são desproporcionais à situação.
    • A verdade nua e crua: A raiva é mais uma emoção sentida em grau máximo, e a pessoa não tem ferramentas para gerenciá-la de forma saudável.

Sentimentos Crônicos de Vazio: Um Buraco na Alma

  • Sensação Persistente de Vazio: Um sentimento de oco, de que algo falta, que pode levar à busca por excitação constante ou comportamentos de risco para preencher esse vazio.

Ideação Paranoide Transitória ou Sintomas Dissociativos Graves: Desconexão da Realidade

  • Sintomas Dissociativos: Sentir-se desconectado do próprio corpo (despersonalização) ou da realidade ao redor (desrealização) em momentos de estresse intenso.
  • Ideação Paranoide: Desconfiança excessiva em relação aos outros, especialmente em situações de estresse.
    • A verdade nua e crua: Esses sintomas são mecanismos de defesa do cérebro para lidar com o sofrimento insuportável.

As Causas: Uma Trama Complexa

Não há uma causa única para o TPB. Geralmente, é uma combinação de fatores:

  • Genética: Há uma predisposição familiar.
  • Neurobiologia: Disfunções em áreas do cérebro que regulam emoções, impulsividade e tomada de decisões.
  • Traumas na Infância: Histórico de abuso (físico, sexual, emocional), negligência, abandono ou ambientes familiares instáveis.

O Tratamento: Um Caminho de Aprendizado e Superação

A boa notícia é que o TPB tem tratamento, e a terapia é o pilar fundamental.

  • Terapia Dialética Comportamental (TDC): É a terapia de escolha para o TPB. Ela ensina habilidades para regular emoções, tolerar o sofrimento, melhorar relacionamentos e lidar com a impulsividade.
  • Psicoterapia Individual: Outras abordagens terapêuticas também podem ser eficazes.
  • Farmacoterapia: Não existe um medicamento específico para o TPB, mas os remédios (antidepressivos, estabilizadores de humor, antipsicóticos) podem ser usados para tratar sintomas específicos como ansiedade, depressão, raiva ou psicose.
  • Internação Hospitalar: Em crises graves, especialmente com risco de suicídio ou automutilação, a internação pode ser necessária para estabilização e segurança.

Cuidados de Enfermagem

Nós, profissionais de enfermagem, somos peças-chave no cuidado a pacientes com TPB, seja no hospital, no CAPS, no ambulatório ou no home care. É um trabalho desafiador, que exige paciência, consistência e muito conhecimento.

Estabelecer uma Relação Terapêutica:

    • Consistência e Limites Claros: Seja previsível e estabeleça limites firmes, mas empáticos. Pessoas com TPB testam os limites, não por maldade, mas pela dificuldade em confiar e regular emoções.
    • Validação Emocional: Reconheça e valide os sentimentos do paciente (“Eu entendo que você esteja se sentindo assim, é muito doloroso”), mesmo que você não concorde com o comportamento.
    • Evitar Julgamentos: Lembre-se de que os comportamentos são sintomas de um sofrimento intenso.

Manejo da Crise e Risco de Suicídio/Automutilação:

    • Avaliação de Risco Contínua: Pergunte diretamente sobre pensamentos suicidas e planos. Leve todas as ameaças a sério.
    • Contrato de Segurança: Se apropriado, pode-se estabelecer um contrato de segurança com o paciente.
    • Remoção de Meios: Retirar objetos cortantes, medicamentos em excesso, etc., do ambiente.
    • Monitoramento e Supervisão: Aumentar a vigilância, especialmente em momentos de crise.
    • Técnicas de Redução de Danos: Ensinar alternativas à automutilação (ex: segurar gelo na mão, prender um elástico no pulso, desenhar com caneta vermelha no local que quer cortar).

Manejo da Impulsividade e da Raiva:

    • Ambiente Seguro: Manter o ambiente seguro para o paciente e para a equipe.
    • Técnicas de Relaxamento: Ensinar exercícios de respiração, mindfulness.
    • Estratégias de Comunicação: Encorajar o paciente a expressar a raiva de forma construtiva.

Educação em Saúde:

    • Sobre o Transtorno: Explicar ao paciente e à família o que é o TPB, que é uma condição tratável e que não é culpa de ninguém.
    • Adesão ao Tratamento: Reforçar a importância da terapia e da medicação, se prescrita.
    • Sinais de Alerta: Ensinar a identificar os próprios gatilhos e os sinais de que uma crise está se aproximando.

Cuidados com a Equipe:

    • Reuniões de Equipe: Discutir estratégias de manejo e alinhar condutas.
    • Suporte Emocional: Trabalhar com pacientes com TPB pode ser exaustivo. Buscar apoio entre a equipe e supervisão é fundamental para evitar o burnout.

O Transtorno da Personalidade Borderline é uma condição que exige um olhar humano, compreensivo e, ao mesmo tempo, técnico e assertivo. Nós, profissionais de enfermagem, temos um papel transformador na vida desses pacientes, oferecendo estabilidade em meio ao caos emocional e guiando-os no caminho da recuperação. É um trabalho desafiador, mas que nos lembra constantemente da importância de ver o ser humano além do diagnóstico.

Referências:

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. (Capítulo sobre Transtornos da Personalidade).
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Saúde Mental. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
  3. LINEHAN, M. M. Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno da Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed, 2010. (Obra fundamental sobre a Terapia Dialética Comportamental – TDC).
  4. SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A.; RUIZ, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Capítulo sobre Transtornos da Personalidade).

Medicamentos Nefrotóxicos

Os rins desempenham papel essencial na filtração do sangue, eliminação de toxinas e equilíbrio de eletrólitos e líquidos no corpo. No entanto, eles são órgãos altamente vulneráveis a lesões, especialmente causadas por alguns medicamentos. Esses fármacos, conhecidos como nefrotóxicos, podem comprometer a função renal, provocar insuficiência renal aguda ou crônica e gerar complicações graves se não forem utilizados com cautela.

Para o estudante e o profissional de enfermagem, é fundamental compreender quais são os principais medicamentos nefrotóxicos, como eles afetam os rins e quais cuidados devem ser observados durante seu uso.

O Que São Medicamentos Nefrotóxicos?

Medicamentos nefrotóxicos são aqueles capazes de provocar algum tipo de dano ao rim, seja reduzindo o fluxo sanguíneo renal, provocando inflamação ou levando à destruição de células renais. Esse efeito pode ser temporário ou permanente, dependendo da dose, do tempo de uso e das condições de saúde do paciente.

Principais Grupos de Medicamentos Nefrotóxicos

Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs)

Os AINEs, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, são amplamente utilizados para controle da dor e inflamações. Seu uso prolongado ou em doses elevadas pode reduzir o fluxo sanguíneo renal, aumentando o risco de insuficiência renal, especialmente em idosos e pacientes com doenças crônicas.

Antibióticos

Alguns antibióticos, como aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina), vancomicina e anfotericina B, são conhecidos pelo risco de toxicidade renal. Eles podem provocar necrose tubular aguda e perda progressiva da função renal quando não monitorados adequadamente.

Quimioterápicos

Medicamentos utilizados no tratamento do câncer, como cisplatina e ifosfamida, também apresentam potencial nefrotóxico. Eles podem causar lesões diretas nos túbulos renais, além de favorecer distúrbios eletrolíticos importantes.

Contrastes Radiológicos

Os contrastes iodados, usados em exames de imagem como tomografias e angiografias, podem causar nefropatia induzida por contraste, caracterizada por um declínio agudo da função renal horas ou dias após o procedimento. Pacientes diabéticos e com insuficiência renal prévia estão em maior risco.

Imunossupressores

Medicamentos como ciclosporina e tacrolimo, utilizados em transplantes e doenças autoimunes, podem comprometer a circulação renal e provocar hipertensão arterial, além de lesão progressiva do parênquima renal.

Outros Medicamentos

A lista é longa, mas outros exemplos incluem os antifúngicos (como a anfotericina B), antivirais (como a tenofovir, usados para tratar o HIV), inibidores da bomba de prótons (como o omeprazol, em uso prolongado), e até o lítio, usado em psiquiatria.

Fatores de Risco para Nefrotoxicidade

  • Idade avançada
  • Doença renal pré-existente
  • Diabetes mellitus
  • Hipertensão arterial
  • Uso simultâneo de múltiplos medicamentos nefrotóxicos
  • Desidratação

Cuidados de Enfermagem

O nosso papel é fundamental para proteger os rins dos pacientes. Não podemos simplesmente evitar o uso dessas medicações, mas podemos mitigar os riscos.

  1. Avaliação Inicial: Antes da administração, é crucial verificar o histórico do paciente. Perguntar sobre doenças renais pré-existentes, diabetes, hipertensão e idade. Avaliar os exames laboratoriais, como a creatinina e a ureia, que indicam a função renal.
  2. Monitoramento Contínuo: Durante o tratamento, monitorar a função renal é uma prioridade. Verificar a creatinina e a ureia em exames de rotina, e estar atento a sinais clínicos de lesão renal, como a diminuição do débito urinário, edema (inchaço), e alterações na pressão arterial.
  3. Hidratação: A hidratação adequada é a melhor forma de proteger os rins. Incentivar a ingestão de líquidos (oralmente ou, se necessário, por via intravenosa), especialmente antes e após o uso de contrastes radiológicos ou medicamentos altamente nefrotóxicos.
  4. Administração e Doses: Administrar os medicamentos na dose e frequência corretas, sem atrasos ou adiantamentos que possam alterar a concentração sérica. A administração de aminoglicosídeos, por exemplo, deve ser espaçada para permitir a eliminação e diminuir o risco de toxicidade.
  5. Educação ao Paciente: Educar o paciente sobre a importância da hidratação, a necessidade de relatar qualquer alteração na urina (cor, odor, frequência) e evitar o uso de automedicação, especialmente com AINEs.
  6. Comunicação com a Equipe: Relatar imediatamente ao médico qualquer alteração na função renal ou sinais clínicos de lesão. Essa comunicação é vital para que a medicação possa ser ajustada ou suspensa a tempo.

O conhecimento sobre medicamentos nefrotóxicos é indispensável para garantir a segurança do paciente. Embora esses fármacos sejam muitas vezes necessários, seu uso deve ser criterioso, acompanhado por monitoramento contínuo e pela atuação vigilante da equipe de enfermagem. Reconhecer precocemente os sinais de nefrotoxicidade pode evitar complicações graves e preservar a função renal.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia prático para o tratamento de nefropatias por medicamentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_pratico_tratamento_nefropatias_medicamentos.pdf
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA (SBN). Doença Renal Crônica. Disponível em: https://www.sbn.org.br/leigos/doenca-renal-cronica/. 2025. (O site da SBN é uma excelente fonte de informação para pacientes e profissionais).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre sistema urinário e administração de medicamentos).
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes clínicas para o cuidado ao paciente com doença renal crônica no Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_clinicas_cuidado_paciente_renal.pdf.
  5. KELLUM, J. A.; LAMEIRE, N. Diagnosis, evaluation, and management of acute kidney injury: a KDIGO summary. Critical Care, v. 17, n. 1, p. 1-15, 2013. Disponível em: https://ccforum.biomedcentral.com/articles/10.1186/cc11454. 
  6. PERAZELLA, M. A. Pharmacology behind common drug nephrotoxicities. Clinical Journal of the American Society of Nephrology, v. 13, n. 12, p. 1897-1908, 2018. Disponível em: https://journals.lww.com/cjasn.

Que Medicamento é Esse?: Complexo B

As vitaminas do complexo B exercem várias funções no organismo, como a produção de energia, a manutenção da saúde do sistema nervoso, da pele, dos cabelos e do intestino. Elas também são fundamentais na prevenção de anemia e para evitar a baixa do sistema imunológico.

Como Funciona?

As vitaminas do complexo B são um grupo de vitaminas hidrossolúveis (solúveis em água), que, geralmente, atuam como coenzimas (substância necessária ao funcionamento de certas enzimas). Essas vitaminas, assim como as outras existentes, devem ser incluídas em nossa dieta, e sua carência pode causar problemas de saúde.

As vitaminas do complexo B apresentam uma numeração e um nome específico. São elas: vitamina B1 (tiamina), vitamina B2 (riboflavina), vitamina B3 (niacina), vitamina B5 (ácido pantotênico), vitamina B6 (piridoxina), vitamina B7 (biotina), vitamina B9 (ácido fólico) e vitamina B12 (cobalamina).

Os Efeitos Colaterais

Diarréia, desordem da condução cardíaca, tontura, olhos secos, peles secas, piora de úlcera péptica (lesão no estômago ou duodeno), desmaios, hiperglicemia (aumento de glicose no sangue), prurido na pele (coceira na pele), hiperuricemia (altos níveis de ácido úrico no sangue), mialgia (dor muscular), vômito e náusea.

Quando é Contraindicado?

Este medicamento é contraindicado para uso por pacientes com antecedentes de alergia a quaisquer constituintes da fórmula ou/e às vitaminas do Complexo B. O Complexo B não está indicado no tratamento de hipovitaminoses específicas (falta de vitaminas específicas).

Os Cuidados de Enfermagem

  • Não administrar a vitamina B6 com a levodopa, a não ser que ela esteja associada a um inibidor da descarboxilase.
  • Administrar com cuidado em casos de úlcera péptica.
  • Não está indicado no tratamento de hipovitaminoses específicas grave.
  • Categoria C: não foram realizados estudos em animais e nem em mulheres grávidas ou então, os estudos em animais revelaram risco, mas não existem estudos disponíveis realizados em mulheres grávidas.
  • Este medicamento não deve ser utilizado por mulheres grávidas sem orientação médica.

Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM)

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM) é uma das infecções hospitalares mais comuns nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e representa um grande desafio para os profissionais de saúde.

Quando falamos de pacientes críticos em ventilação mecânica, o risco de desenvolver essa complicação é significativo, e por isso é tão importante que o time de enfermagem compreenda bem os fatores envolvidos, formas de prevenção e os cuidados diretos com esses pacientes.

Nesta publicação, vamos explorar a PAVM de maneira didática, compreensível e com profundidade suficiente para que estudantes e profissionais da enfermagem possam aplicar esse conhecimento no cuidado diário com segurança e qualidade.

O que é PAVM?

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é definida como uma infecção pulmonar que ocorre após 48 horas da intubação orotraqueal e início da ventilação mecânica invasiva. É uma forma de pneumonia hospitalar, mas com características específicas, pois está diretamente relacionada ao uso do tubo orotraqueal e à presença do ventilador mecânico.

Quando o paciente é intubado, a barreira natural do trato respiratório é rompida, permitindo que microrganismos entrem com mais facilidade nos pulmões. Além disso, a própria manipulação do circuito do ventilador e a aspiração de vias aéreas podem contribuir para a colonização de bactérias nos pulmões.

Como a PAVM se desenvolve?

A PAVM geralmente é causada por bactérias gram-negativas, como Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae, além de gram-positivos como Staphylococcus aureus (inclusive a forma resistente à meticilina – MRSA).

Essas bactérias podem alcançar os pulmões por várias vias:

  • Aspiração de secreções da orofaringe contaminada
  • Formação de biofilme no tubo endotraqueal
  • Contaminação cruzada pelas mãos dos profissionais de saúde
  • Falhas na higienização dos circuitos respiratórios

O risco aumenta conforme o tempo de ventilação se prolonga, sendo um fator de mortalidade significativo entre pacientes críticos.

Sinais de Alerta: Como Desconfiar da PAVM?

Reconhecer a PAVM precocemente é vital. Fique atento a esses sinais no paciente intubado:

  • Febre: É um dos primeiros e mais comuns sinais de infecção.
  • Secreção Traqueal Purulenta: A secreção que vem do tubo fica mais amarelada, esverdeada, espessa e em maior quantidade.
  • Alteração na Ausculta Pulmonar: Presença de roncos, sibilos ou crepitações novas que não estavam lá antes.
  • Piora da Troca Gasosa: O paciente começa a precisar de mais oxigênio no ventilador (aumenta a FiO2) ou o ventilador precisa fazer mais esforço para ventilar (aumenta a pressão de pico).
  • Leucocitose: Aumento do número de glóbulos brancos no hemograma, indicando infecção.
  • Radiografia de Tórax: O raio-X do pulmão pode mostrar infiltrados novos ou progressão de infiltrados anteriores.

Tratamento

O tratamento da PAVM envolve o uso de antibióticos de amplo espectro, muitas vezes ajustados de acordo com a cultura e o antibiograma. O tempo de uso costuma variar entre 7 a 14 dias, dependendo do microrganismo causador e da resposta clínica do paciente.

Mas mais importante do que tratar é prevenir, e é aí que a enfermagem exerce um papel fundamental.

Cuidados de enfermagem na prevenção da PAVM

A prevenção da PAVM exige uma abordagem multiprofissional, mas a enfermagem está na linha de frente dessa missão. Vários protocolos e bundles (conjuntos de medidas baseadas em evidência) são aplicados em UTIs para reduzir a incidência da infecção. Entre os principais cuidados, destacam-se:

Elevação da Cabeceira do Leito: Manter a cabeceira elevada entre 30 a 45 graus (semi-Fowler). Isso reduz o risco de microaspiração de conteúdo gástrico ou secreções da orofaringe para os pulmões.

  • Cuidado de Enfermagem: Avaliar e registrar a elevação da cabeceira regularmente, lembrando de ajustar ao realizar alguns procedimentos (como o banho no le leito ou mudança de decúbito).

Higiene Oral Rigorosa: A boca do paciente intubado é um reservatório de bactérias. A higiene oral deve ser feita com antissépticos (como clorexidina 0,12%) a cada 6 ou 8 horas.

  • Cuidado de Enfermagem: Utilizar escovas macias, gazes e soluções antissépticas. Aspirar as secreções da boca antes e durante a higiene para evitar que desçam para os pulmões. Não esquecer da língua e das gengivas.

Aspiração de Secreções Subglóticas: Alguns tubos orotraqueais especiais possuem um lúmen acima do cuff que permite aspirar as secreções que se acumulam logo acima do balonete.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar se o TOT é um tubo com essa via de aspiração e realizar a aspiração conforme rotina da unidade ou necessidade.

Monitorização da Pressão do Cuff (Balonete): O cuff do TOT deve ser inflado com a pressão correta para evitar vazamentos e microaspirações. Uma pressão muito baixa permite a passagem de secreções, e uma pressão muito alta pode causar lesões na traqueia.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar a pressão do cuff regularmente (a cada 4 a 8 horas, ou conforme protocolo da unidade) com um cuffômetro, mantendo-a entre 20-30 cmH2O.

Avaliação Diária da Necessidade de Sedação e Extubação (Desmame): Quanto menos sedado e menos tempo no ventilador, menor o risco!

  • Cuidado de Enfermagem: Participar ativamente da discussão da equipe sobre a redução da sedação e os critérios para o desmame. Observar o nível de consciência do paciente e sua capacidade de tolerar a diminuição do suporte ventilatório. Realizar testes de respiração espontânea conforme protocolo e com o médico.

Mobilização Precoce e Fisioterapia Respiratória: Manter o paciente o mais ativo possível (mesmo no leito) e realizar fisioterapia respiratória para ajudar na mobilização de secreções e na expansão pulmonar.

  • Cuidado de Enfermagem: Auxiliar a fisioterapia, mudar o paciente de posição, incentivar exercícios passivos e ativos.

Higiene das Mãos: A regra de ouro da prevenção de infecções. Lavar as mãos com água e sabão ou álcool em gel antes e depois de qualquer contato com o paciente, o ventilador ou os equipamentos.

Cuidados com o Circuito Ventilatório: Trocar o circuito (tubos que conectam o paciente ao ventilador) apenas quando sujo ou danificado, e não rotineiramente. Isso evita a manipulação desnecessária e a contaminação.

Papel da enfermagem no manejo do paciente com PAVM

Além da prevenção, o profissional de enfermagem também tem papel importante no cuidado do paciente que já desenvolveu a PAVM. Monitorar os sinais vitais, observar alterações na secreção respiratória, auxiliar na administração correta dos antibióticos, garantir a posição adequada no leito e colaborar para o desmame da ventilação são tarefas fundamentais para o sucesso do tratamento.

A comunicação com a equipe médica e fisioterapêutica também é essencial, pois as decisões devem ser sempre compartilhadas com base na evolução clínica do paciente.

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é uma complicação grave, mas amplamente evitável com medidas simples e eficazes. Para os profissionais e estudantes de enfermagem, entender profundamente o processo de instalação da PAVM, os riscos envolvidos e as estratégias de cuidado pode fazer toda a diferença na vida dos pacientes internados em UTIs.

Estar atento aos protocolos, manter-se atualizado e aplicar o conhecimento técnico com sensibilidade são atitudes que elevam a qualidade da assistência e contribuem diretamente para a segurança do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. Brasília: ANVISA, 2017.
    Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude/view
  2. RUN-BUISSON, C. Pneumonia associada à ventilação mecânica: uma atualização sobre prevenção e tratamento. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 29, n. 4, p. 399–407, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbti/a/3hKbZYgSPwTqKdWrTjPpNcB/
  3. KLEVENS, R. M. et al. Estimativa da incidência de infecções relacionadas à assistência à saúde nos Estados Unidos. Infection Control and Hospital Epidemiology, v. 28, n. 6, p. 409–414, 2007.Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/infection-control-and-hospital-epidemiology/article/abs/estimating-healthcareassociated-infections/
  4. INSTITUTO BRASILEIRO PARA SEGURANÇA DO PACIENTE. Bundle para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV). 2022.
    Disponível em: https://segurancadopaciente.com.br/bundle-prevencao-pav/
  5. GARNICA, D. L.; LORENZI-FILHO, G.; AMANCIO, M. D. L. Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica: Fisiopatologia, Diagnóstico e Prevenção. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v. 37, n. 6, p. 778-789, nov./dez. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbp/a/yK8gC6mF4hX3jS2pQ7zW/?lang=pt.

Medicamentos Expectorantes

A tosse com catarro, aquela tosse “produtiva” que insiste em nos acompanhar durante gripes, resfriados ou outras condições respiratórias, é um mecanismo de defesa do nosso corpo para eliminar o excesso de muco das vias aéreas.

No entanto, quando o muco está muito espesso ou em grande quantidade, ele pode ser difícil de ser expelido, causando desconforto e até dificuldade para respirar. É aí que entram os medicamentos expectorantes, nossos aliados para tornar essa eliminação mais fácil.

Para nós, profissionais de enfermagem e estudantes de enfermagem, entender como esses medicamentos agem e quais são suas diferenças é fundamental para orientar corretamente os pacientes. Vamos conhecer as classes de expectorantes e seus exemplos?

A Tosse Produtiva: Aliada ou Inimiga?

A tosse é um reflexo protetor. Quando ela vem acompanhada de catarro (muco, secreção), significa que o corpo está tentando expelir algo que está irritando as vias aéreas. O problema surge quando esse catarro é muito espesso e “grudento”, dificultando sua movimentação e eliminação. É nesse cenário que os expectorantes entram em ação, auxiliando o corpo a cumprir sua tarefa.

As Classes de Expectorantes: Dois Caminhos para o Mesmo Objetivo

Basicamente, podemos dividir os medicamentos expectorantes em duas grandes categorias, com mecanismos de ação um pouco diferentes, mas que visam o mesmo objetivo: facilitar a eliminação do muco.

Expectorantes Reflexos (ou Secretolíticos/Estimulantes da Secreção)

Esses medicamentos agem irritando levemente a mucosa gástrica (do estômago), o que estimula reflexamente as glândulas brônquicas a produzirem uma secreção mais fluida e em maior quantidade. Essa secreção mais líquida ajuda a diluir o muco espesso, tornando-o mais fácil de ser expectorado (jogado para fora pela tosse).

  • Como agem: Estimulam a produção de muco mais líquido, “lubrificando” as vias aéreas e facilitando a eliminação do catarro.
  • Exemplos Comuns:
    • Guaifenesina: É um dos expectorantes mais conhecidos e utilizados, presente em diversos xaropes e formulações para tosse. É considerado um expectorante de primeira linha por sua eficácia em fluidificar as secreções.
    • Iodeto de Potássio: Embora menos comum hoje em dia como expectorante puro, age de forma semelhante.
    • Balsâmicos (derivados de plantas): Alguns componentes de plantas, como o Bálsamo de Tolu, também podem ter uma ação expectorante reflexa.
  • Atenção de Enfermagem: Orientar o paciente sobre a importância da hidratação adequada, pois a ingestão de líquidos (especialmente água) potencializa a ação desses medicamentos, ajudando a fluidificar as secreções. Recomendar que evitem antitussígenos (medicamentos que inibem a tosse) se a tosse for produtiva, pois o objetivo é justamente expelir o catarro.

Mucolíticos: Quebrando as Ligações do Muco

Os mucolíticos são um pouco mais diretos em sua ação. Eles agem quebrando as ligações químicas (pontes dissulfeto) que tornam o muco espesso e viscoso. Ao quebrar essas ligações, eles diminuem a viscosidade do catarro, transformando-o em algo mais líquido e fácil de ser tossido.

  • Como agem: Quebram a estrutura do muco, tornando-o menos viscoso e mais fácil de ser eliminado.
  • Exemplos Comuns:
    • Acetilcisteína: Muito utilizada para fluidificar secreções respiratórias, inclusive em casos de bronquite crônica e fibrose cística. Também é um antídoto para intoxicação por paracetamol. Pode ser administrada via oral, inalatória ou, em casos específicos, endovenosa.
    • Carbocisteína: Semelhante à acetilcisteína, também atua quebrando a estrutura do muco.
    • Bromexina: Atua estimulando a produção de muco menos viscoso e aumentando o transporte mucociliar (o movimento dos cílios nas vias aéreas que ajuda a “empurrar” o muco para fora).
    • Ambroxol: É um metabólito ativo da bromexina, com ação semelhante, também estimulando a produção de surfactante pulmonar (uma substância que ajuda a manter os alvéolos abertos).
  • Atenção de Enfermagem: Da mesma forma que os expectorantes reflexos, a hidratação é fundamental para potencializar a ação dos mucolíticos. Orientar sobre o modo de uso (se for sachê para diluir, como preparar), possíveis efeitos gastrointestinais (náuseas, desconforto) e a importância de não usar antitussígenos junto, se o objetivo for a eliminação do catarro.

O Papel da Enfermagem: Orientação e Alívio do Conforto

Nós, profissionais de enfermagem, temos um papel crucial na orientação e no cuidado de pacientes que utilizam expectorantes. Nossas ações vão além da simples administração do medicamento:

  • Avaliação da Tosse: Avaliar o tipo de tosse (produtiva ou seca), a quantidade e característica do escarro (cor, consistência, odor). Isso ajuda a identificar a necessidade do expectorante e a monitorar a eficácia do tratamento.
  • Orientação sobre a Hidratação: Reforçar a importância de beber bastante água para fluidificar as secreções. Para pacientes com restrição hídrica, essa orientação deve ser dada com cautela e sob supervisão médica.
  • Ensino da Técnica de Tosse: Orientar o paciente sobre a forma mais eficaz de tossir para expelir as secreções, se necessário.
  • Monitoramento de Efeitos Adversos: Ficar atento a possíveis efeitos colaterais dos medicamentos, como náuseas, vômitos, desconforto gastrointestinal ou, no caso da acetilcisteína inalatória, broncoespasmo (contração dos brônquios).
  • Evitar Associações Inadequadas: Orientar o paciente a não usar expectorantes e antitussígenos (que inibem a tosse) ao mesmo tempo, a menos que haja uma indicação médica muito específica, pois isso pode levar ao acúmulo de secreção nos pulmões.
  • Promoção do Conforto: Realizar higiene oral após a expectoração, oferecer lenços de papel e descartar o escarro de forma adequada.
  • Educação sobre a Causa da Tosse: Sempre que possível, orientar o paciente sobre a provável causa da tosse (resfriado, gripe, bronquite) e quando procurar o médico novamente (febre persistente, falta de ar, catarro com sangue, piora do quadro).

Os expectorantes são aliados importantes no alívio da tosse produtiva, mas seu uso deve ser consciente e acompanhado da orientação de um profissional de saúde. Para nós, entender as nuances de cada classe e saber como orientar nossos pacientes faz toda a diferença para um cuidado eficaz e centrado nas suas necessidades.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Guia de Consulta Rápida: Medicamentos que Atuam no Trato Respiratório. Brasília, DF: ANVISA, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/medicamentos/guias-e-manuais/guia-medicamentos-trato-respiratorio.pdf.
  2. KATZUNG, B. G.; MASTERS, S. B.; TREVOR, A. J. Farmacologia Básica e Clínica. 15. ed. Porto Alegre: AMGH, 2021. (Consultar capítulo sobre fármacos que atuam no sistema respiratório).
  3. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020. (Consultar capítulo sobre sistema respiratório).
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT). Recomendações da SBPT para o Manejo da Tosse. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v. 46, n. 4, ago. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbp/a/t37RzV8Yw4M9n4K8H2hX3jS/?lang=pt.

O que faz um Enfermeiro Estomaterapeuta?

O enfermeiro estomaterapeuta é um profissional especializado, com formação específica para o cuidado de pacientes que apresentam estomias, feridas complexas e incontinências. Sua atuação é essencial para promover a reabilitação, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida das pessoas que necessitam de cuidados contínuos nessas áreas.

Formação e Especialização

Para atuar como estomaterapeuta, o enfermeiro precisa concluir a graduação em enfermagem e realizar uma especialização reconhecida pela Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST). A formação aborda conhecimentos teóricos e práticos, englobando anatomia, fisiologia, técnicas de curativos, escolha de dispositivos e abordagem humanizada ao paciente.

O Que É Estomaterapia? A Ciência do Cuidado Especializado

A Estomaterapia é uma especialidade da enfermagem que se dedica à assistência de pacientes com três principais tipos de condições:

  1. Estomas: Aberturas cirúrgicas que conectam um órgão oco (como intestino ou bexiga) à pele, permitindo a saída de fezes, urina ou gases.
  2. Feridas: Lesões de pele agudas ou crônicas, como úlceras de pressão, úlceras de perna e feridas cirúrgicas complexas.
  3. Incontinências: Perda involuntária de urina ou fezes.

O enfermeiro estomaterapeuta, portanto, é um especialista nessas três áreas. Ele não apenas cuida do problema em si, mas também capacita o paciente e sua família a conviver com a condição, buscando sempre a reabilitação, a autonomia e a qualidade de vida.

O Que Faz um Enfermeiro Estomaterapeuta na Prática?

A atuação do estomaterapeuta é abrangente e vai muito além de uma simples troca de curativo. Seu trabalho se estende por diferentes fases do tratamento do paciente.

No Cuidado com Estomas

A criação de um estoma é um procedimento que muda a vida de uma pessoa. O estomaterapeuta é o principal profissional que acompanha o paciente nessa jornada, atuando no pré, trans e pós-operatório:

  • Pré-operatório: Avaliar o paciente, orientar sobre o que esperar e, mais importante, marcar o local ideal para a cirurgia do estoma. Uma marcação precisa evita problemas futuros e facilita a adaptação do paciente.
  • Pós-operatório: Ensinar o paciente a cuidar do estoma e da pele ao redor, a escolher e usar os equipamentos coletores (bolsas de colostomia, ileostomia ou urostomia), a lidar com possíveis complicações e a retomar suas atividades diárias.
  • Acompanhamento a Longo Prazo: O estomaterapeuta continua sendo um ponto de referência para o paciente, oferecendo suporte, ajustando equipamentos e resolvendo problemas que possam surgir ao longo da vida.

No Cuidado com Feridas

A expertise do estomaterapeuta em feridas crônicas é um diferencial enorme. O trabalho envolve:

  • Avaliação da Ferida: Fazer uma avaliação completa, identificando o tipo, tamanho, profundidade, exsudato e tipo de tecido, para um diagnóstico preciso e um plano de tratamento adequado.
  • Escolha da Cobertura Ideal: Eleger o curativo mais adequado para cada tipo e estágio da ferida, o que otimiza a cicatrização e reduz o tempo de tratamento. Ele domina o uso de curativos avançados, como alginatos, hidrocolóides, hidrogéis e curativos com prata, entre outros.
  • Prevenção: Atuar na prevenção de úlceras por pressão e outras lesões de pele, educando a equipe de enfermagem sobre o reposicionamento do paciente, o uso de superfícies de alívio de pressão e a importância da hidratação da pele.

No Cuidado com Incontinências

A incontinência urinária e fecal é um problema que afeta a autoestima e a vida social do paciente. O estomaterapeuta trabalha para minimizar o impacto dessa condição:

  • Avaliação e Diagnóstico: Identificar o tipo e a causa da incontinência para traçar um plano de tratamento.
  • Estratégias de Manejo: Ensinar o paciente a usar produtos de proteção (fraldas, absorventes), cateteres urinários e coletores, e orientar sobre a reabilitação do assoalho pélvico.
  • Educação: Ajudar o paciente a lidar com os aspectos emocionais e sociais da incontinência, melhorando sua qualidade de vida.

Por que a Estomaterapia é uma Carreira de Destaque?

A Estomaterapia é uma área de grande impacto porque transforma a vida dos pacientes. O estomaterapeuta não apenas trata um problema físico, mas também devolve a dignidade, a autonomia e a capacidade de viver plenamente a pessoas que, muitas vezes, enfrentam estigmas e desafios enormes.

É uma especialidade que exige conhecimento técnico apurado, mas também uma grande dose de empatia, paciência e habilidade para se comunicar e educar.

Para um estudante de enfermagem, conhecer essa área é abrir a mente para um mundo de possibilidades, onde o cuidado se torna uma verdadeira arte de reabilitação e humanização.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). O que é estomaterapia. Disponível em: http://sobest.org.br/o-que-e-estomaterapia/.
  2. ERDMANN, A. L. et al. O papel do enfermeiro na prevenção e tratamento das úlceras de pressão. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 45, n. 4, p. 1007-1014, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt.
  3. COLOMÉ, J. S.; MARIN, S. M.; GOMES, G. C. Atuação do enfermeiro estomaterapeuta: um olhar para a prática profissional. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, supl. 6, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/XYZ. Acesso em: 10 ago. 2025.