A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um ambiente de alta complexidade, onde cada minuto conta e a vida do paciente está em jogo. Não é um lugar para qualquer um, e sua capacidade é limitada. Por isso, a decisão de quem entra e quem sai de uma UTI é estratégica e baseada em critérios bem definidos, que levam em conta a condição clínica do paciente, a necessidade de recursos e o prognóstico.
Para nós, profissionais e estudantes de enfermagem, entender esses critérios é fundamental para compreendermos o fluxo de trabalho e o raciocínio clínico que permeiam o ambiente intensivo.
Vamos desvendar essa porta de entrada e saída?
A UTI: Um Refúgio para Pacientes Críticos
A UTI é um setor hospitalar projetado para atender pacientes em estado grave ou com risco iminente de agravamento, que necessitam de monitorização intensiva e suporte de vida avançado. É um ambiente com equipamentos de ponta, equipe multiprofissional altamente especializada e uma proporção reduzida de pacientes por profissional, o que permite um cuidado mais individualizado e constante.
Critérios de Admissão na UTI: Quem Precisa Entrar?
A decisão de internar um paciente na UTI é complexa e exige uma avaliação criteriosa por parte da equipe médica, muitas vezes em conjunto com a equipe de enfermagem. O principal objetivo é salvar vidas, mas também é preciso otimizar os recursos disponíveis. Basicamente, os pacientes que são admitidos na UTI são aqueles que:
- Possuem Instabilidade Fisiológica Aguda e Grave: Ou seja, suas funções vitais (coração, pulmões, rins, cérebro) estão comprometidas e precisam de suporte imediato para sobreviver.
- Exemplos:
- Insuficiência Respiratória Aguda: O paciente não consegue respirar adequadamente por conta própria e precisa de ventilação mecânica (respirador). Pode ser por pneumonia grave, crise asmática refratária, edema agudo de pulmão.
- Choque: O sistema circulatório está falhando em fornecer sangue e oxigênio suficientes para os órgãos. Pode ser choque séptico (por infecção grave), choque cardiogênico (coração não bombeia), choque hipovolêmico (perda de muito sangue ou líquidos).
- Emergências Cardiológicas: Infarto agudo do miocárdio com complicações, arritmias graves com instabilidade, insuficiência cardíaca descompensada.
- Emergências Neurológicas: AVC grave com risco de edema cerebral, trauma cranioencefálico com aumento da pressão intracraniana, coma de causas diversas.
- Insuficiência Renal Aguda Grave: Requerendo diálise de urgência.
- Instabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial muito baixa, frequência cardíaca muito alta ou muito baixa, que não respondem a tratamentos menos intensivos.
- Exemplos:
- Necessitam de Monitorização Intensiva Contínua: Mesmo que ainda não estejam em falência de órgãos, têm alto risco de desenvolver complicações graves.
- Exemplos:
- Pós-operatório de cirurgias de grande porte (cardíacas, neurológicas, transplantes) com risco de instabilidade.
- Pacientes com sepse (infecção generalizada) em fase inicial, que necessitam de monitorização rigorosa para prevenir choque séptico.
- Queimaduras extensas.
- Intoxicações graves.
- Exemplos:
- Têm Potencial de Recuperação: A UTI não é para pacientes que não têm chance de melhora. Os recursos são destinados àqueles que, com o tratamento intensivo, têm boa perspectiva de recuperação ou estabilização. Pacientes em fase terminal, sem possibilidade de benefício do tratamento intensivo, geralmente não são admitidos, a menos que haja um objetivo muito claro de estabilização paliativa em concordância com a família.
- Recursos Necessários: A UTI possui equipamentos e equipe especializados que não estão disponíveis em outras unidades do hospital, como monitores multiparamétricos, ventiladores mecânicos, bombas de infusão, equipamentos para hemodiálise, e a presença constante de médicos intensivistas e enfermeiros especializados.
Critérios de Alta da UTI: Quando o Paciente Pode Sair?
A alta da UTI é um momento de transição importante e também é baseada em critérios rigorosos. Não basta o paciente estar “melhor”; ele precisa estar estável o suficiente para continuar o tratamento em uma unidade de menor complexidade, como a enfermaria ou a unidade de internação. Os principais critérios para a alta da UTI incluem:
- Estabilidade Clínica:
- Estabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial e frequência cardíaca estáveis, sem necessidade de medicamentos vasopressores (para manter a pressão).
- Estabilidade Respiratória: Capaz de manter a respiração por conta própria, sem ventilação mecânica (desmame do respirador realizado com sucesso) ou apenas com oxigenoterapia simples.
- Estabilidade Neurológica: Nível de consciência adequado para o prognóstico, sem sinais de piora neurológica.
- Função Renal e Hidroeletrolítica Estável: Rins funcionando adequadamente, sem necessidade de diálise de urgência, e eletrólitos equilibrados.
- Não Necessidade de Monitorização Invasiva Contínua: O paciente não precisa mais de cateteres arteriais para monitorização invasiva da pressão, ou de cateteres venosos centrais para administração de medicações complexas que exigem monitoramento intensivo.
- Ausência de Risco Iminente de Agravamento: O risco de o paciente piorar subitamente e precisar de retorno à UTI é baixo.
- Capacidade da Unidade de Destino de Oferecer o Cuidado Necessário: A enfermaria precisa ter as condições e a equipe para continuar o tratamento do paciente (administração de medicações, curativos, fisioterapia, etc.).
- Critérios Específicos para Patologias: Por exemplo, em pacientes com IAM, a alta da UTI pode ocorrer após 24-48 horas se não houver complicações. Em pacientes com choque séptico, após estabilização e controle do foco de infecção.
A Visão da Enfermagem: Nossa Essência no Processo
Nós, profissionais de enfermagem, estamos no centro desses processos de admissão e alta.
Na Admissão:
- Recepção do Paciente: Receber o paciente e a família, acolhê-los, explicar o ambiente da UTI e os procedimentos iniciais.
- Avaliação Inicial de Enfermagem: Realizar uma avaliação rápida e completa, coletando dados essenciais, verificando o estado neurológico, respiratório e circulatório.
- Organização do Leito: Preparar o leito com os equipamentos necessários (monitor, bomba de infusão, ventilador, etc.).
- Instalação de Dispositivos: Passar acesso venoso, instalar sondas, iniciar a monitorização.
- Documentação: Registrar detalhadamente todas as informações da admissão.
Na Alta:
- Preparo do Paciente e Família: Preparar o paciente para a transição, explicando para onde ele vai, quem o atenderá e quais serão os próximos passos do tratamento. Orientar a família sobre a nova rotina.
- Organização da Transição: Checar a disponibilidade de leito na unidade de destino, garantir a transferência segura, incluindo o transporte e a entrega de toda a documentação e informações relevantes para a equipe que vai receber.
- Desconexão de Equipamentos: Remover os equipamentos e dispositivos que não serão mais necessários na enfermaria.
- Documentação Detalhada: Registrar o processo de alta, incluindo o motivo, a condição do paciente e as orientações dadas.
A UTI: Um Cuidado Dinâmico e Desafiador
Os critérios de admissão e alta refletem a dinamicidade da UTI. É um ambiente onde o paciente está em constante avaliação, e a equipe atua de forma integrada para otimizar cada etapa do tratamento. Para nós, profissionais de enfermagem, essa compreensão nos permite atuar com mais segurança, ética e eficácia, contribuindo para o sucesso do tratamento e a recuperação da saúde dos nossos pacientes mais críticos. A UTI é um lugar onde a ciência encontra a humanidade em sua forma mais intensa.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 7, de 24 de fevereiro de 2010. Dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva e dá outras providências. Brasília, DF: ANVISA, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2010/rdc0007_24_02_2010.pdf.
- OLIVEIRA, L. B. et al. Critérios de Admissão e Alta em Unidade de Terapia Intensiva: Uma Revisão Integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 68, n. 4, p. 748-755, jul./ago. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/qXwS3P9G6J8sQ6yH4hX7gK7/?lang=pt.









