FAST HUGS BID: uma abordagem sistematizada para o cuidado diário do paciente crítico

Cuidar de um paciente crítico vai muito além de monitorar sinais vitais e administrar medicações. Na UTI, cada detalhe importa, e pequenas falhas podem gerar grandes impactos. Foi nesse contexto que surgiu o FAST HUGS, posteriormente ampliado para FAST HUGS BID, um checklist simples, porém extremamente poderoso, para garantir uma assistência integral, segura e contínua ao paciente internado em terapia intensiva.

Originalmente criado pelo intensivista Jean-Louis Vincent, esse mnemônico foi desenhado para garantir que nenhum cuidado essencial seja esquecido durante o plantão.

Para o estudante de enfermagem, o FAST HUGS BID funciona como uma bússola. Ele transforma a complexidade da UTI em uma lista mental estruturada que deve ser revisada pelo menos duas vezes ao dia (daí o “BID”, do latim bis in die). Vamos detalhar cada uma dessas letras, entendendo por que elas são fundamentais para a segurança do paciente crítico.

O que é o FAST HUGS BID?

O FAST HUGS BID é um método sistemático de avaliação diária do paciente crítico, utilizado principalmente em unidades de terapia intensiva. Ele funciona como um checklist que ajuda a equipe multiprofissional — especialmente a enfermagem — a não negligenciar cuidados essenciais.

A sigla representa aspectos fundamentais do cuidado, avaliados de forma rotineira, permitindo identificar precocemente falhas, riscos e oportunidades de intervenção.

A Primeira Parte: O FAST HUGS Original

O conceito inicial focava em aspectos metabólicos e preventivos que frequentemente passavam despercebidos na correria das emergências.

  • F de Feeding (Alimentação): O paciente crítico entra em um estado catabólico intenso. O enfermeiro deve verificar se a nutrição (enteral ou parenteral) está sendo administrada conforme o alvo calórico-proteico. É nossa função monitorar a tolerância à dieta, observar a presença de resíduo gástrico excessivo e garantir que o paciente não fique em jejum desnecessário, o que prejudica a cicatrização e a função imunológica.
  • A de Analgesia (Analgesia): A dor é o quinto sinal vital. Na UTI, muitos pacientes não conseguem falar, por isso usamos escalas como a CPOT para avaliar o sofrimento. É um erro comum sedar um paciente que, na verdade, sente dor. A regra de ouro é: trate a dor antes de aumentar a sedação. Um paciente sem dor colabora melhor com a ventilação e tem menos riscos de desenvolver delírio.
  • S de Sedation (Sedação): Aqui, o enfermeiro deve avaliar o nível de consciência através da Escala de RASS. O objetivo moderno é a “sedação leve”, onde o paciente fica calmo, mas pode ser despertado facilmente. Devemos evitar o excesso de sedação, que prolonga o tempo de ventilação mecânica e aumenta a fraqueza muscular adquirida na UTI.
  • T de Thromboembolic Prophylaxis (Prophylaxia Tromboembólica): Pacientes acamados têm um risco altíssimo de Trombose Venosa Profunda (TVP). A enfermagem deve garantir que a profilaxia medicamentosa (heparina) seja administrada e, tão importante quanto, que os métodos mecânicos, como as meias de compressão ou botas pneumáticas, estejam funcionando e bem posicionados.
  • H de Head of bed elevation (Elevação da Cabeceira): Manter a cabeceira entre 30° e 45° é a medida mais barata e eficaz para prevenir a Pneumonia Associada à Ventilação (PAV). Isso evita a microaspiração de secreções. Como enfermeiros, devemos vigiar esse posicionamento constantemente, especialmente após banhos ou mudanças de decúbito.
  • U de Ulcer Prophylaxis (Prophylaxia de Úlcera de Estresse): O estresse fisiológico da doença crítica aumenta a acidez gástrica, podendo causar sangramentos digestivos. O uso de protetores gástricos deve ser verificado, assim como a presença de sangue no conteúdo gástrico ou nas fezes.
  • G de Glycemic Control (Controle Glicêmico): A hiperglicemia de estresse é comum e aumenta a mortalidade e o risco de infecções. O enfermeiro gerencia os protocolos de insulina e realiza as glicemias capilares rigorosas, buscando manter os níveis geralmente entre 140 e 180 mg/dL, evitando tanto o excesso de açúcar quanto a hipoglicemia fatal.
  • S de Spontaneous Breathing Trial (Teste de Respiração Espontânea): Todos os dias, devemos nos perguntar: “Este paciente já pode respirar sozinho?”. A enfermagem colabora com a fisioterapia e a medicina no teste de despertar diário (desligar a sedação) e no teste de autonomia respiratória, visando a extubação o mais cedo possível.

O Complemento: O BID e a Vigilância Sistêmica

Com o tempo, percebeu-se que outros aspectos eram igualmente vitais para evitar complicações hospitalares, adicionando-se o sufixo BID.

  • B de Bowel habits (Hábito Intestinal): O intestino é muitas vezes o “órgão esquecido” da UTI. A constipação pode causar distensão abdominal e dificultar a ventilação. O enfermeiro deve registrar a frequência das evacuações e os ruídos hidroaéreos, sugerindo o uso de procinéticos ou laxantes quando necessário.
  • I de Indwelling catheters (Cateteres Invasivos): Cada cateter (venoso central, vesical de demora, arterial) é uma porta de entrada para bactérias. A pergunta diária da enfermagem deve ser: “Este cateter ainda é necessário?”. Retirar dispositivos invasivos assim que possível é a melhor forma de prevenir infecções da corrente sanguínea e do trato urinário.
  • D de Drug de-escalation (Descalonamento de Drogas): Refere-se à revisão das medicações. Estamos usando antibióticos que poderiam ser suspensos ou trocados por um de espectro menor? Alguma droga está causando efeitos colaterais desnecessários? Embora a decisão seja médica, o enfermeiro, que observa o paciente continuamente, é quem traz os dados para essa discussão.

Por que o FAST HUGS BID é tão importante na UTI?

O ambiente da UTI é complexo, dinâmico e exige tomadas de decisão rápidas. Em meio a tantos dispositivos, medicamentos e alterações clínicas, é fácil que cuidados básicos passem despercebidos.

O FAST HUGS BID ajuda a:

  • Reduzir eventos adversos;
  • Padronizar a assistência;
  • Melhorar a comunicação entre a equipe;
  • Aumentar a segurança do paciente;
  • Fortalecer o raciocínio clínico da enfermagem.

Ele transforma o cuidado fragmentado em um cuidado estruturado e intencional.

Cuidados de Enfermagem Integrados ao FAST HUGS BID

A implementação desse checklist não deve ser apenas burocrática. Na prática, o enfermeiro utiliza o momento da passagem de plantão e o exame físico da manhã para percorrer esses itens. O cuidado humanizado entra na personalização dessas letras: ao checar a analgesia, aproveitamos para oferecer suporte emocional; ao elevar a cabeceira, garantimos que o paciente tenha uma visão melhor do ambiente, reduzindo a desorientação.

A principal contribuição da enfermagem é a vigilância. Enquanto o médico prescreve as medidas, é o enfermeiro quem garante que a cabeceira permaneça elevada, que a insulina seja ajustada corretamente e que a sedação não passe do ponto necessário. Dominar esse mnemônico eleva o estudante de um nível operacional para um nível de pensamento crítico.

O FAST HUGS BID é uma ferramenta simples, mas extremamente eficaz, para garantir um cuidado completo ao paciente crítico. Para a enfermagem, ele representa organização, segurança e qualidade assistencial.

Incorporar essa abordagem à prática diária significa reduzir falhas, prevenir complicações e oferecer um cuidado mais humano, atento e responsável.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica. 2013. Disponível em: https://www.amib.org.br/
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  3. SMELTZER, Suzanne C.; BARE, Brenda G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/
  4. VINCENT, Jean-Louis. Give your patient a fast hug (at least) once a day. Critical Care Medicine, v. 33, n. 6, p. 1225-1229, 2005. Disponível em: https://journals.lww.com/ccmjournal/
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Segurança do paciente em unidades de terapia intensiva. Brasília, 2021. Disponível em:https://www.gov.br/saude

Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM)

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM) é uma das infecções hospitalares mais comuns nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e representa um grande desafio para os profissionais de saúde.

Quando falamos de pacientes críticos em ventilação mecânica, o risco de desenvolver essa complicação é significativo, e por isso é tão importante que o time de enfermagem compreenda bem os fatores envolvidos, formas de prevenção e os cuidados diretos com esses pacientes.

Nesta publicação, vamos explorar a PAVM de maneira didática, compreensível e com profundidade suficiente para que estudantes e profissionais da enfermagem possam aplicar esse conhecimento no cuidado diário com segurança e qualidade.

O que é PAVM?

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é definida como uma infecção pulmonar que ocorre após 48 horas da intubação orotraqueal e início da ventilação mecânica invasiva. É uma forma de pneumonia hospitalar, mas com características específicas, pois está diretamente relacionada ao uso do tubo orotraqueal e à presença do ventilador mecânico.

Quando o paciente é intubado, a barreira natural do trato respiratório é rompida, permitindo que microrganismos entrem com mais facilidade nos pulmões. Além disso, a própria manipulação do circuito do ventilador e a aspiração de vias aéreas podem contribuir para a colonização de bactérias nos pulmões.

Como a PAVM se desenvolve?

A PAVM geralmente é causada por bactérias gram-negativas, como Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae, além de gram-positivos como Staphylococcus aureus (inclusive a forma resistente à meticilina – MRSA).

Essas bactérias podem alcançar os pulmões por várias vias:

  • Aspiração de secreções da orofaringe contaminada
  • Formação de biofilme no tubo endotraqueal
  • Contaminação cruzada pelas mãos dos profissionais de saúde
  • Falhas na higienização dos circuitos respiratórios

O risco aumenta conforme o tempo de ventilação se prolonga, sendo um fator de mortalidade significativo entre pacientes críticos.

Sinais de Alerta: Como Desconfiar da PAVM?

Reconhecer a PAVM precocemente é vital. Fique atento a esses sinais no paciente intubado:

  • Febre: É um dos primeiros e mais comuns sinais de infecção.
  • Secreção Traqueal Purulenta: A secreção que vem do tubo fica mais amarelada, esverdeada, espessa e em maior quantidade.
  • Alteração na Ausculta Pulmonar: Presença de roncos, sibilos ou crepitações novas que não estavam lá antes.
  • Piora da Troca Gasosa: O paciente começa a precisar de mais oxigênio no ventilador (aumenta a FiO2) ou o ventilador precisa fazer mais esforço para ventilar (aumenta a pressão de pico).
  • Leucocitose: Aumento do número de glóbulos brancos no hemograma, indicando infecção.
  • Radiografia de Tórax: O raio-X do pulmão pode mostrar infiltrados novos ou progressão de infiltrados anteriores.

Tratamento

O tratamento da PAVM envolve o uso de antibióticos de amplo espectro, muitas vezes ajustados de acordo com a cultura e o antibiograma. O tempo de uso costuma variar entre 7 a 14 dias, dependendo do microrganismo causador e da resposta clínica do paciente.

Mas mais importante do que tratar é prevenir, e é aí que a enfermagem exerce um papel fundamental.

Cuidados de enfermagem na prevenção da PAVM

A prevenção da PAVM exige uma abordagem multiprofissional, mas a enfermagem está na linha de frente dessa missão. Vários protocolos e bundles (conjuntos de medidas baseadas em evidência) são aplicados em UTIs para reduzir a incidência da infecção. Entre os principais cuidados, destacam-se:

Elevação da Cabeceira do Leito: Manter a cabeceira elevada entre 30 a 45 graus (semi-Fowler). Isso reduz o risco de microaspiração de conteúdo gástrico ou secreções da orofaringe para os pulmões.

  • Cuidado de Enfermagem: Avaliar e registrar a elevação da cabeceira regularmente, lembrando de ajustar ao realizar alguns procedimentos (como o banho no le leito ou mudança de decúbito).

Higiene Oral Rigorosa: A boca do paciente intubado é um reservatório de bactérias. A higiene oral deve ser feita com antissépticos (como clorexidina 0,12%) a cada 6 ou 8 horas.

  • Cuidado de Enfermagem: Utilizar escovas macias, gazes e soluções antissépticas. Aspirar as secreções da boca antes e durante a higiene para evitar que desçam para os pulmões. Não esquecer da língua e das gengivas.

Aspiração de Secreções Subglóticas: Alguns tubos orotraqueais especiais possuem um lúmen acima do cuff que permite aspirar as secreções que se acumulam logo acima do balonete.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar se o TOT é um tubo com essa via de aspiração e realizar a aspiração conforme rotina da unidade ou necessidade.

Monitorização da Pressão do Cuff (Balonete): O cuff do TOT deve ser inflado com a pressão correta para evitar vazamentos e microaspirações. Uma pressão muito baixa permite a passagem de secreções, e uma pressão muito alta pode causar lesões na traqueia.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar a pressão do cuff regularmente (a cada 4 a 8 horas, ou conforme protocolo da unidade) com um cuffômetro, mantendo-a entre 20-30 cmH2O.

Avaliação Diária da Necessidade de Sedação e Extubação (Desmame): Quanto menos sedado e menos tempo no ventilador, menor o risco!

  • Cuidado de Enfermagem: Participar ativamente da discussão da equipe sobre a redução da sedação e os critérios para o desmame. Observar o nível de consciência do paciente e sua capacidade de tolerar a diminuição do suporte ventilatório. Realizar testes de respiração espontânea conforme protocolo e com o médico.

Mobilização Precoce e Fisioterapia Respiratória: Manter o paciente o mais ativo possível (mesmo no leito) e realizar fisioterapia respiratória para ajudar na mobilização de secreções e na expansão pulmonar.

  • Cuidado de Enfermagem: Auxiliar a fisioterapia, mudar o paciente de posição, incentivar exercícios passivos e ativos.

Higiene das Mãos: A regra de ouro da prevenção de infecções. Lavar as mãos com água e sabão ou álcool em gel antes e depois de qualquer contato com o paciente, o ventilador ou os equipamentos.

Cuidados com o Circuito Ventilatório: Trocar o circuito (tubos que conectam o paciente ao ventilador) apenas quando sujo ou danificado, e não rotineiramente. Isso evita a manipulação desnecessária e a contaminação.

Papel da enfermagem no manejo do paciente com PAVM

Além da prevenção, o profissional de enfermagem também tem papel importante no cuidado do paciente que já desenvolveu a PAVM. Monitorar os sinais vitais, observar alterações na secreção respiratória, auxiliar na administração correta dos antibióticos, garantir a posição adequada no leito e colaborar para o desmame da ventilação são tarefas fundamentais para o sucesso do tratamento.

A comunicação com a equipe médica e fisioterapêutica também é essencial, pois as decisões devem ser sempre compartilhadas com base na evolução clínica do paciente.

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é uma complicação grave, mas amplamente evitável com medidas simples e eficazes. Para os profissionais e estudantes de enfermagem, entender profundamente o processo de instalação da PAVM, os riscos envolvidos e as estratégias de cuidado pode fazer toda a diferença na vida dos pacientes internados em UTIs.

Estar atento aos protocolos, manter-se atualizado e aplicar o conhecimento técnico com sensibilidade são atitudes que elevam a qualidade da assistência e contribuem diretamente para a segurança do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. Brasília: ANVISA, 2017.
    Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude/view
  2. RUN-BUISSON, C. Pneumonia associada à ventilação mecânica: uma atualização sobre prevenção e tratamento. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 29, n. 4, p. 399–407, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbti/a/3hKbZYgSPwTqKdWrTjPpNcB/
  3. KLEVENS, R. M. et al. Estimativa da incidência de infecções relacionadas à assistência à saúde nos Estados Unidos. Infection Control and Hospital Epidemiology, v. 28, n. 6, p. 409–414, 2007.Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/infection-control-and-hospital-epidemiology/article/abs/estimating-healthcareassociated-infections/
  4. INSTITUTO BRASILEIRO PARA SEGURANÇA DO PACIENTE. Bundle para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV). 2022.
    Disponível em: https://segurancadopaciente.com.br/bundle-prevencao-pav/
  5. GARNICA, D. L.; LORENZI-FILHO, G.; AMANCIO, M. D. L. Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica: Fisiopatologia, Diagnóstico e Prevenção. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v. 37, n. 6, p. 778-789, nov./dez. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbp/a/yK8gC6mF4hX3jS2pQ7zW/?lang=pt.

Os Critérios de Admissão e Alta em uma UTI

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é um ambiente de alta complexidade, onde cada minuto conta e a vida do paciente está em jogo. Não é um lugar para qualquer um, e sua capacidade é limitada. Por isso, a decisão de quem entra e quem sai de uma UTI é estratégica e baseada em critérios bem definidos, que levam em conta a condição clínica do paciente, a necessidade de recursos e o prognóstico.

Para nós, profissionais e estudantes de enfermagem, entender esses critérios é fundamental para compreendermos o fluxo de trabalho e o raciocínio clínico que permeiam o ambiente intensivo.

Vamos desvendar essa porta de entrada e saída?

A UTI: Um Refúgio para Pacientes Críticos

A UTI é um setor hospitalar projetado para atender pacientes em estado grave ou com risco iminente de agravamento, que necessitam de monitorização intensiva e suporte de vida avançado. É um ambiente com equipamentos de ponta, equipe multiprofissional altamente especializada e uma proporção reduzida de pacientes por profissional, o que permite um cuidado mais individualizado e constante.

Critérios de Admissão na UTI: Quem Precisa Entrar?

A decisão de internar um paciente na UTI é complexa e exige uma avaliação criteriosa por parte da equipe médica, muitas vezes em conjunto com a equipe de enfermagem. O principal objetivo é salvar vidas, mas também é preciso otimizar os recursos disponíveis. Basicamente, os pacientes que são admitidos na UTI são aqueles que:

  1. Possuem Instabilidade Fisiológica Aguda e Grave: Ou seja, suas funções vitais (coração, pulmões, rins, cérebro) estão comprometidas e precisam de suporte imediato para sobreviver.
    • Exemplos:
      • Insuficiência Respiratória Aguda: O paciente não consegue respirar adequadamente por conta própria e precisa de ventilação mecânica (respirador). Pode ser por pneumonia grave, crise asmática refratária, edema agudo de pulmão.
      • Choque: O sistema circulatório está falhando em fornecer sangue e oxigênio suficientes para os órgãos. Pode ser choque séptico (por infecção grave), choque cardiogênico (coração não bombeia), choque hipovolêmico (perda de muito sangue ou líquidos).
      • Emergências Cardiológicas: Infarto agudo do miocárdio com complicações, arritmias graves com instabilidade, insuficiência cardíaca descompensada.
      • Emergências Neurológicas: AVC grave com risco de edema cerebral, trauma cranioencefálico com aumento da pressão intracraniana, coma de causas diversas.
      • Insuficiência Renal Aguda Grave: Requerendo diálise de urgência.
      • Instabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial muito baixa, frequência cardíaca muito alta ou muito baixa, que não respondem a tratamentos menos intensivos.
  2. Necessitam de Monitorização Intensiva Contínua: Mesmo que ainda não estejam em falência de órgãos, têm alto risco de desenvolver complicações graves.
    • Exemplos:
      • Pós-operatório de cirurgias de grande porte (cardíacas, neurológicas, transplantes) com risco de instabilidade.
      • Pacientes com sepse (infecção generalizada) em fase inicial, que necessitam de monitorização rigorosa para prevenir choque séptico.
      • Queimaduras extensas.
      • Intoxicações graves.
  3. Têm Potencial de Recuperação: A UTI não é para pacientes que não têm chance de melhora. Os recursos são destinados àqueles que, com o tratamento intensivo, têm boa perspectiva de recuperação ou estabilização. Pacientes em fase terminal, sem possibilidade de benefício do tratamento intensivo, geralmente não são admitidos, a menos que haja um objetivo muito claro de estabilização paliativa em concordância com a família.
  4. Recursos Necessários: A UTI possui equipamentos e equipe especializados que não estão disponíveis em outras unidades do hospital, como monitores multiparamétricos, ventiladores mecânicos, bombas de infusão, equipamentos para hemodiálise, e a presença constante de médicos intensivistas e enfermeiros especializados.

Critérios de Alta da UTI: Quando o Paciente Pode Sair?

A alta da UTI é um momento de transição importante e também é baseada em critérios rigorosos. Não basta o paciente estar “melhor”; ele precisa estar estável o suficiente para continuar o tratamento em uma unidade de menor complexidade, como a enfermaria ou a unidade de internação. Os principais critérios para a alta da UTI incluem:

  1. Estabilidade Clínica:
    • Estabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial e frequência cardíaca estáveis, sem necessidade de medicamentos vasopressores (para manter a pressão).
    • Estabilidade Respiratória: Capaz de manter a respiração por conta própria, sem ventilação mecânica (desmame do respirador realizado com sucesso) ou apenas com oxigenoterapia simples.
    • Estabilidade Neurológica: Nível de consciência adequado para o prognóstico, sem sinais de piora neurológica.
    • Função Renal e Hidroeletrolítica Estável: Rins funcionando adequadamente, sem necessidade de diálise de urgência, e eletrólitos equilibrados.
  2. Não Necessidade de Monitorização Invasiva Contínua: O paciente não precisa mais de cateteres arteriais para monitorização invasiva da pressão, ou de cateteres venosos centrais para administração de medicações complexas que exigem monitoramento intensivo.
  3. Ausência de Risco Iminente de Agravamento: O risco de o paciente piorar subitamente e precisar de retorno à UTI é baixo.
  4. Capacidade da Unidade de Destino de Oferecer o Cuidado Necessário: A enfermaria precisa ter as condições e a equipe para continuar o tratamento do paciente (administração de medicações, curativos, fisioterapia, etc.).
  5. Critérios Específicos para Patologias: Por exemplo, em pacientes com IAM, a alta da UTI pode ocorrer após 24-48 horas se não houver complicações. Em pacientes com choque séptico, após estabilização e controle do foco de infecção.

A Visão da Enfermagem: Nossa Essência no Processo

Nós, profissionais de enfermagem, estamos no centro desses processos de admissão e alta.

Na Admissão:

  • Recepção do Paciente: Receber o paciente e a família, acolhê-los, explicar o ambiente da UTI e os procedimentos iniciais.
  • Avaliação Inicial de Enfermagem: Realizar uma avaliação rápida e completa, coletando dados essenciais, verificando o estado neurológico, respiratório e circulatório.
  • Organização do Leito: Preparar o leito com os equipamentos necessários (monitor, bomba de infusão, ventilador, etc.).
  • Instalação de Dispositivos: Passar acesso venoso, instalar sondas, iniciar a monitorização.
  • Documentação: Registrar detalhadamente todas as informações da admissão.

Na Alta:

  • Preparo do Paciente e Família: Preparar o paciente para a transição, explicando para onde ele vai, quem o atenderá e quais serão os próximos passos do tratamento. Orientar a família sobre a nova rotina.
  • Organização da Transição: Checar a disponibilidade de leito na unidade de destino, garantir a transferência segura, incluindo o transporte e a entrega de toda a documentação e informações relevantes para a equipe que vai receber.
  • Desconexão de Equipamentos: Remover os equipamentos e dispositivos que não serão mais necessários na enfermaria.
  • Documentação Detalhada: Registrar o processo de alta, incluindo o motivo, a condição do paciente e as orientações dadas.

A UTI: Um Cuidado Dinâmico e Desafiador

Os critérios de admissão e alta refletem a dinamicidade da UTI. É um ambiente onde o paciente está em constante avaliação, e a equipe atua de forma integrada para otimizar cada etapa do tratamento. Para nós, profissionais de enfermagem, essa compreensão nos permite atuar com mais segurança, ética e eficácia, contribuindo para o sucesso do tratamento e a recuperação da saúde dos nossos pacientes mais críticos. A UTI é um lugar onde a ciência encontra a humanidade em sua forma mais intensa.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 7, de 24 de fevereiro de 2010. Dispõe sobre os requisitos mínimos para funcionamento de Unidades de Terapia Intensiva e dá outras providências. Brasília, DF: ANVISA, 2010. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2010/rdc0007_24_02_2010.pdf.
  2. OLIVEIRA, L. B. et al. Critérios de Admissão e Alta em Unidade de Terapia Intensiva: Uma Revisão Integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 68, n. 4, p. 748-755, jul./ago. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/qXwS3P9G6J8sQ6yH4hX7gK7/?lang=pt.