Brasília, 03 de abril de 2026 – Em um esforço contínuo para qualificar a assistência materno-infantil no Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde anunciou a abertura de 310 vagas para o curso de especialização em Enfermagem Neonatal. A iniciativa faz parte da Estratégia Qualyneo e visa reduzir a mortalidade neonatal e qualificar […]
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Fototerapia e os cuidados de enfermagem

A fototerapia é um recurso terapêutico amplamente utilizado na área da saúde, especialmente na neonatologia e na dermatologia. Trata-se do uso controlado da luz para fins terapêuticos, capaz de promover benefícios clínicos importantes quando aplicada de forma correta e segura.
Na prática da enfermagem, a fototerapia exige conhecimento técnico, atenção contínua e cuidados específicos para evitar complicações. Compreender seus princípios, indicações e formas de aplicação é fundamental para garantir a eficácia do tratamento e a segurança do paciente.
O que é fototerapia?
A fototerapia é uma modalidade de tratamento que utiliza luz artificial com comprimento de onda específico para provocar reações químicas e biológicas no organismo. Essa luz pode ser emitida por lâmpadas fluorescentes, halógenas ou por dispositivos de LED.
O uso mais conhecido da fototerapia ocorre no tratamento da icterícia neonatal, mas também é aplicada em doenças dermatológicas, alterações metabólicas e algumas condições inflamatórias da pele.
O princípio básico da fototerapia é a capacidade da luz de modificar determinadas substâncias presentes no organismo, tornando-as mais fáceis de serem eliminadas.
A Fisiologia por Trás do Brilho Azul
Para entender a fototerapia, precisamos primeiro compreender o que ela combate. A bilirrubina é um subproduto da quebra dos glóbulos vermelhos. No recém-nascido, o fígado ainda é imaturo e muitas vezes não consegue processar essa bilirrubina (chamada de indireta ou não conjugada) de forma rápida o suficiente.
Como a bilirrubina indireta é lipossolúvel, ela tem afinidade por tecidos gordurosos e pelo sistema nervoso central, o que a torna perigosa.
O papel da luz azul, especificamente no comprimento de onda entre 425 nm e 475 nm, é realizar uma transformação química na pele do bebê. Através de processos chamados fotoisomerização e isomerização estrutural, a luz altera a estrutura molecular da bilirrubina indireta, transformando-a em lumirrubina. A grande mágica aqui é que a lumirrubina é hidrossolúvel, ou seja, ela pode ser excretada pela bile e pela urina sem precisar passar pelo processamento do fígado. É uma via alternativa de eliminação que a medicina utiliza para contornar a imaturidade hepática do neonato.
Indicações e Critérios para Início do Tratamento
Nem todo bebê com icterícia precisa de fototerapia. A decisão médica baseia-se em tabelas que cruzam o nível de bilirrubina sérica com a idade gestacional e o tempo de vida em horas. Recém-nascidos prematuros, por exemplo, têm limiares muito mais baixos para iniciar o tratamento do que bebês a termo.
A icterícia pode ser fisiológica, surgindo após as primeiras 24 a 36 horas de vida, ou patológica, que é aquela que aparece precocemente ou atinge níveis alarmantes rapidamente, muitas vezes por incompatibilidade sanguínea entre mãe e filho (como o sistema ABO ou Rh). A enfermagem desempenha um papel crucial na detecção precoce, observando a progressão cefalocaudal da icterícia através das Zonas de Kramer, onde a cor amarela começa na face e desce para o tronco e membros à medida que os níveis sanguíneos aumentam.
Outros usos da fototerapia
Além da neonatologia, a fototerapia é utilizada em diversas áreas da saúde. Na dermatologia, é indicada no tratamento de doenças como psoríase, vitiligo, dermatite atópica e algumas formas de acne.
Em pacientes adultos, também pode ser utilizada para tratamento de hiperbilirrubinemia, prurido associado a doenças hepáticas e algumas condições inflamatórias cutâneas.
Existem diferentes tipos de fototerapia, como a ultravioleta A (UVA), ultravioleta B (UVB) e luz azul, cada uma com indicação específica conforme a patologia.
Fototerapia no câncer e lesões pré-cancerosas
A fototerapia pode ser utilizada na forma de Terapia Fotodinâmica (TFD), que é diferente da fototerapia convencional da icterícia neonatal.
Na Terapia Fotodinâmica, aplica-se uma substância fotossensibilizante no paciente e, em seguida, expõe-se a área a um tipo específico de luz. Essa combinação produz radicais livres que destroem seletivamente as células doentes.
Ela é indicada principalmente para:
- No tratamento de lesões pré-cancerosas da pele, como a queratose actínica, que pode evoluir para carcinoma espinocelular.
- No tratamento de câncer de pele não melanoma, especialmente o carcinoma basocelular superficial.
- Em alguns tumores superficiais, como câncer de esôfago inicial, pulmão em estágio inicial (lesões endobrônquicas), bexiga e cavidade oral.
Como tratamento paliativo, para redução de massa tumoral e alívio de sintomas como sangramentos e obstruções.
A grande vantagem é que a terapia fotodinâmica atua de forma localizada, preservando tecidos saudáveis ao redor.
Fototerapia no câncer de pele
Na dermatologia oncológica, a fototerapia é amplamente utilizada no manejo de:
- Queratose actínica
- Doença de Bowen (carcinoma in situ)
- Carcinoma basocelular superficial
- Lesões cutâneas pré-malignas
Além disso, pode ser utilizada para tratar efeitos colaterais de quimioterapia e radioterapia, como mucosite oral, utilizando laser de baixa intensidade (fotobiomodulação).
Fototerapia nos distúrbios do humor
A fototerapia também é utilizada em psiquiatria e saúde mental, principalmente no tratamento da depressão sazonal, conhecida como Transtorno Afetivo Sazonal (TAS).
Essa condição ocorre devido à menor exposição à luz solar, principalmente no inverno, alterando a produção de melatonina e serotonina.
A exposição controlada à luz branca intensa ajuda a:
- Regular o ritmo circadiano
- Reduzir sintomas depressivos
- Melhorar disposição e energia
- Diminuir sonolência diurna
Também vem sendo estudada como terapia complementar em:
- Depressão maior
- Transtorno bipolar (com cautela)
- Ansiedade
- Síndrome da fadiga crônica
Fototerapia nos distúrbios do sono
A luz é um dos principais reguladores do relógio biológico (ritmo circadiano). A fototerapia é indicada em pacientes com:
- Insônia
- Síndrome do atraso da fase do sono
- Trabalhadores de turno noturno
- Jet lag
- Distúrbios do sono em idosos
- Distúrbios do sono em pacientes com demência
Ela atua ajustando a produção de melatonina, melhorando:
- Qualidade do sono
- Tempo para adormecer
- Regularidade do ciclo vigília-sono
- Estado de alerta durante o dia
Outras indicações clínicas da fototerapia
Além das áreas citadas, a fototerapia também é usada em:
- Vitiligo
- Psoríase
- Dermatite atópica
- Acne inflamatória
- Prurido associado à insuficiência renal crônica
- Icterícia do adulto
- Mucosite oral em pacientes oncológicos
- Feridas crônicas (laser de baixa intensidade)
- Reabilitação muscular e dor crônica
Tipos de equipamentos utilizados
Os equipamentos de fototerapia variam conforme o tipo de luz emitida e a finalidade terapêutica. Na neonatologia, são utilizados aparelhos com lâmpadas fluorescentes ou LED que emitem luz azul-esverdeada.
Há também mantas de fibra óptica, conhecidas como biliblanket, que permitem maior mobilidade do recém-nascido e contato com a mãe durante o tratamento.
Na dermatologia, os equipamentos podem emitir radiação UV controlada, sempre sob prescrição médica e monitoramento rigoroso.
Indicações clínicas da fototerapia
A principal indicação é a icterícia neonatal com níveis de bilirrubina acima dos valores considerados seguros para a idade e peso do recém-nascido. Outras indicações incluem doenças dermatológicas inflamatórias, distúrbios pigmentares da pele e algumas condições associadas à insuficiência hepática.
A decisão de iniciar a fototerapia deve sempre ser baseada em critérios clínicos e laboratoriais, conforme protocolos estabelecidos.
Riscos e efeitos adversos
Embora seja um tratamento seguro, a fototerapia não é isenta de riscos. Os efeitos adversos mais comuns incluem desidratação, aumento da temperatura corporal, irritação cutânea, diarreia e alterações no padrão de sono.
A exposição inadequada pode causar queimaduras leves, lesões oculares e aumento do risco de instabilidade térmica no recém-nascido.
Por isso, o monitoramento constante é indispensável durante todo o período de uso da fototerapia.
Cuidados de enfermagem na fototerapia
A enfermagem possui papel central na condução segura da fototerapia. Antes de iniciar o procedimento, é essencial verificar a prescrição médica, identificar corretamente o paciente e avaliar as condições clínicas.
No recém-nascido, deve-se manter o paciente despido, exceto pela fralda, para maximizar a área de exposição da pele à luz. Os olhos devem ser protegidos com óculos apropriados para evitar lesões na retina.
A equipe deve posicionar corretamente o equipamento, respeitando a distância recomendada entre a fonte de luz e o paciente, conforme orientação do fabricante.
Durante o tratamento, é necessário monitorar sinais vitais, temperatura corporal, hidratação, aspecto da pele e comportamento do paciente. O balanço hídrico deve ser rigorosamente controlado, pois a fototerapia aumenta a perda de líquidos.
A mudança de decúbito deve ser realizada periodicamente para garantir exposição uniforme da pele à luz. A higiene da pele deve ser mantida, evitando o uso de cremes ou óleos que possam interferir na absorção da luz.
É importante observar sinais de complicações, como hipertermia, lesões cutâneas, irritabilidade excessiva ou alterações nos exames laboratoriais.
Orientações à família
A enfermagem também tem papel educativo junto aos familiares, explicando o motivo da fototerapia, sua importância e os cuidados necessários durante o tratamento.
Muitos pais demonstram ansiedade ao ver o recém-nascido sob luz artificial, com olhos protegidos. Esclarecer que o procedimento é seguro e temporário ajuda a reduzir o medo e aumenta a adesão ao tratamento.
O estímulo ao aleitamento materno deve ser mantido sempre que possível, com interrupções breves da fototerapia para alimentação e cuidados básicos.
Importância da monitorização laboratorial
Durante o uso da fototerapia, os níveis de bilirrubina devem ser monitorados periodicamente para avaliar a eficácia do tratamento. A suspensão da fototerapia ocorre quando os valores retornam a níveis seguros para a idade do paciente.
A enfermagem deve estar atenta aos horários das coletas laboratoriais e ao registro adequado das informações no prontuário.
A fototerapia é um recurso terapêutico eficaz, seguro e amplamente utilizado na prática clínica, especialmente na assistência ao recém-nascido com icterícia. Seu sucesso depende diretamente da correta indicação, do uso adequado dos equipamentos e da atuação vigilante da equipe de enfermagem.
O conhecimento técnico, aliado à observação contínua e à humanização do cuidado, garante que o tratamento seja realizado de forma segura, prevenindo complicações e promovendo a recuperação do paciente.
Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender os fundamentos da fototerapia é essencial para uma prática clínica responsável e baseada em evidências científicas.
Referências:
- AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Clinical Practice Guideline Revision: Management of Hyperbilirubinemia in the Newborn Infant 35 or More Weeks of Gestation. Pediatrics, v. 150, n. 3, 2022. Disponível em: https://publications.aap.org/pediatrics.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Icterícia no recém-nascido com idade gestacional > 35 semanas. Departamento de Neonatologia, 2021. Disponível em: https://www.sbp.com.br/.
- TAMEZ, Eloísa A.; SILVA, Maria Jones P. Enfermagem na UTI Neonatal: Assistência ao Recém-Nascido de Alto Risco. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_saude_recem_nascido_profissionais.pdf
- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Segurança no uso de equipamentos médicos. Brasília: ANVISA, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/tecnovigilancia
- KRAMER, L. I. Advancement of dermal icterus in the jaundiced newborn. American Journal of Diseases of Children, v. 118, p. 454–458, 1969. Disponível em: https://jamanetwork.com
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Diretrizes para o manejo da icterícia neonatal. São Paulo: SBP, 2021. Disponível em: https://www.sbp.com.br
- RANG, H. P. et al. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on neonatal jaundice and phototherapy. Geneva: WHO, 2022. Disponível em:
https://www.who.int
Escala de Avaliação Comportamental Neonatal de Brazelton

A chegada de um bebê é um momento único, mas também é um período que exige atenção especial à saúde e ao desenvolvimento. Para compreender melhor como o recém-nascido se adapta ao mundo fora do útero, a Escala de Avaliação Comportamental Neonatal de Brazelton (NBAS – Neonatal Behavioral Assessment Scale) é uma ferramenta essencial.
Desenvolvida pelo pediatra americano T. Berry Brazelton na década de 1970, essa escala vai muito além de um simples exame físico: ela permite avaliar a forma como o bebê interage, responde a estímulos e regula suas funções fisiológicas e comportamentais.
O que é a Escala de Brazelton?
A Escala de Brazelton é um instrumento padronizado que analisa o comportamento de recém-nascidos, geralmente entre o 1º e o 28º dia de vida. Seu objetivo é observar e entender como o bebê responde a estímulos externos e como regula suas funções internas, auxiliando profissionais de saúde e pais na compreensão das necessidades e capacidades do neonato.
Diferente de exames puramente clínicos, a NBAS considera aspectos como vigília, sono, respostas motoras, atenção e autorregulação, oferecendo um panorama completo do desenvolvimento inicial.
Estrutura da Escala
A Escala de Brazelton avalia 28 itens comportamentais e 18 itens relacionados a reflexos, mas, para fins de compreensão prática, esses aspectos podem ser divididos em sete áreas principais:
Habitação (Habituation)
Avalia a capacidade do recém-nascido de se adaptar a estímulos repetidos, como luzes fortes ou sons altos. Um bebê com boa capacidade de habitação consegue “ignorar” estímulos não importantes, poupando energia.
Orientação (Orientation)
Analisa como o bebê reage e direciona a atenção a estímulos visuais e auditivos, como a voz dos pais ou um objeto em movimento.
Motor
Verifica o tônus muscular e a qualidade dos movimentos, observando força, coordenação e postura.
Variedade de estados
Identifica os diferentes estados de consciência do bebê, como sono profundo, sono leve, sonolência, alerta e choro.
Regulação do estado
Observa como o recém-nascido mantém ou muda seu estado de alerta, principalmente quando exposto a estímulos.
Controle autonômico
Relaciona-se à estabilidade de funções involuntárias, como respiração, cor da pele e tremores.
Reflexos primitivos
Inclui reflexos como sucção, preensão palmar e o reflexo de Moro, que indicam integridade neurológica.
Estados comportamentais segundo Brazelton
Além da avaliação das áreas, a NBAS descreve seis estados comportamentais que ajudam na interpretação das respostas do bebê:
- Sono profundo: sem movimentos corporais, respiração regular.
- Sono leve: alguns movimentos corporais, respiração irregular, olhos fechados.
- Sonolento: olhos semiabertos ou fechando lentamente.
- Alerta tranquilo: olhos abertos, pouca movimentação, atento ao ambiente.
- Alerta ativo: olhos abertos, movimentos corporais mais intensos.
- Choro: som vocal alto, expressa desconforto ou necessidade.
Importância para a enfermagem
Para o profissional de enfermagem, especialmente em unidades neonatais ou de alojamento conjunto, a Escala de Brazelton é uma ferramenta que:
- Auxilia na identificação precoce de alterações no comportamento ou no desenvolvimento neurológico.
- Permite orientar os pais sobre como interagir melhor com o bebê.
- Ajuda na individualização do cuidado, respeitando o ritmo e as necessidades do neonato.
Cuidados de enfermagem relacionados à aplicação da Escala
- Ambiente calmo: realizar a avaliação em local silencioso e com iluminação suave para evitar sobrecarga de estímulos.
- Observação minuciosa: anotar respostas sutis do bebê, como expressões faciais e mudanças no padrão respiratório.
- Manuseio adequado: garantir conforto, posicionamento seguro e evitar manipulações excessivas.
- Interação com a família: explicar os resultados de forma simples, destacando pontos positivos e áreas que precisam de atenção.
- Registro completo: documentar todas as observações no prontuário, pois podem ser úteis para acompanhamento clínico.
A Escala de Avaliação Comportamental Neonatal de Brazelton é uma ponte entre ciência e sensibilidade. Ela permite que profissionais de saúde não apenas detectem problemas precocemente, mas também compreendam e valorizem as competências inatas do recém-nascido.
Para o estudante de enfermagem, conhecer essa escala é um passo importante para oferecer um cuidado mais humano e centrado no bebê e na família.
Referências:
- BRAZELTON, T. Berry; NUGENT, J. Kevin. The Neonatal Behavioral Assessment Scale. 4. ed. London: Mac Keith Press, 2011. Disponível em: https://www.mackeith.co.uk/shop/the-neonatal-behavioural-assessment-scale-4th-edition/.
- CARVALHO, Ana Cláudia de Souza; LOPES, Maria Helena Barbosa; FIGUEIREDO, Maria do Carmo. A aplicação da Escala de Brazelton na avaliação de recém-nascidos. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 66, n. 2, p. 287–292, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034-71672013000200019.

