Demência por Corpos de Lewy

A demência por corpos de Lewy (DCL) é uma condição neurodegenerativa progressiva que combina características da doença de Alzheimer e da doença de Parkinson. Ela é uma das principais causas de demência em idosos e representa um desafio diagnóstico por sua apresentação clínica variada e flutuante.

Compreender seus sintomas, causas e cuidados é essencial para oferecer assistência humanizada e eficaz, especialmente no contexto da enfermagem.

O que é a demência por corpos de Lewy?

A Demência por Corpos de Lewy é uma doença neurodegenerativa causada pelo acúmulo de proteínas anormais no cérebro, chamadas Corpos de Lewy.

  • O Mecanismo: Esses corpos são feitos principalmente de uma proteína chamada alfa-sinucleína. Quando essa proteína se agrupa e se deposita em certas áreas do cérebro, ela danifica as células nervosas.
  • As Áreas Afetadas: Os Corpos de Lewy se depositam em duas regiões principais:
    1. Córtex Cerebral: Afeta o pensamento, a memória e a percepção.
    2. Tronco Encefálico: Afeta a regulação do sono e o controle dos movimentos (o que causa o parkinsonismo).
  • A Conexão com o Parkinson: A DCL compartilha a mesma proteína (alfa-sinucleína) que causa a Doença de Parkinson. Muitos pacientes com DCL desenvolvem sintomas motores que são idênticos aos do Parkinson, e vice-versa, tornando o diagnóstico precoce um grande desafio.

Causas e fatores de risco

As causas exatas ainda não são totalmente compreendidas, mas a DCL está relacionada a processos degenerativos cerebrais semelhantes aos observados no Alzheimer e no Parkinson.

Entre os fatores de risco estão:

  • Idade avançada (acima de 60 anos);
  • História familiar de demência;
  • Presença de mutações genéticas específicas;
  • Sexo masculino (levemente mais prevalente).

Manifestações clínicas

O que diferencia a DCL do Alzheimer ou do Parkinson é a combinação de três grupos de sintomas que a enfermagem precisa monitorar de perto:

Flutuações Cognitivas

  • O que são: São variações significativas e imprevisíveis no nível de atenção, alerta e pensamento do paciente. Em um momento, o paciente pode estar lúcido e conversando; horas depois, ele pode estar totalmente confuso, sonolento e desorientado.
  • Cuidados de Enfermagem: Registrar e comunicar essas flutuações. Elas podem ser confundidas com delirium ou piora da doença, mas na DCL, são uma característica central.

Alucinações Visuais Recorrentes

  • O que são: O paciente vê coisas que não estão lá. Essas alucinações são tipicamente visuais, detalhadas e recorrentes (por exemplo, “ver” crianças, animais ou pessoas estranhas na sala).
  • Cuidados de Enfermagem: Nunca discutir ou confrontar o paciente sobre a alucinação, pois isso aumenta a ansiedade. Validar o sentimento do paciente (ex: “Entendo que você está assustado, mas aqui estamos seguros”) e tentar mudar o foco ou o ambiente.

Parkinsonismo

  • O que são: Sinais motores semelhantes à Doença de Parkinson: rigidez muscular, lentidão de movimentos (bradicinesia) e, por vezes, tremores.
  • Cuidados de Enfermagem: Aumentam o risco de quedas e a dificuldade na alimentação e higiene. O cuidado é focado na prevenção de quedas e na assistência durante as refeições.

Outros Sinais Cruciais

  • Distúrbio Comportamental do Sono REM (DBCSR): O paciente “encena” seus sonhos. Ele pode gritar, espernear ou se debater durante o sono, pois perde a paralisia muscular natural que ocorre durante a fase REM.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico e requer avaliação cuidadosa do histórico e dos sintomas. Exames complementares ajudam a descartar outras causas de demência.

Entre os exames mais utilizados estão:

  • Ressonância magnética (RM) para descartar lesões estruturais;
  • Tomografia por emissão de fóton único (SPECT) para avaliar a dopamina;
  • Exames neuropsicológicos para avaliar a cognição e a memória.

A confirmação definitiva só pode ser feita por estudo histopatológico após o óbito, mas os critérios clínicos são altamente sensíveis quando aplicados corretamente

Tratamento e manejo

Não existe cura para a DCL, mas há tratamentos que ajudam a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

  • Medicamentos inibidores da colinesterase (como a rivastigmina) podem auxiliar na cognição e no comportamento;
  • Levodopa pode ser usada para sintomas motores, embora a resposta nem sempre seja completa;
  • Cuidados com medicamentos antipsicóticos: devem ser evitados ou usados com cautela, pois podem agravar sintomas motores e causar reações adversas graves;
  • Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional são fundamentais para manter a funcionalidade.

Cuidados de Enfermagem

O tratamento da DCL é sintomático e exige um plano de cuidados que priorize a segurança e a estabilidade.

  1. Segurança e Prevenção de Quedas: Devido à bradicinesia, rigidez e às flutuações cognitivas, o risco de queda é muito alto.
    • Intervenção: Adaptar o ambiente, usar alarmes de cama e auxiliar o paciente durante a deambulação.
  2. Manejo de Medicações: Muitos pacientes são tratados com inibidores da colinesterase (usados no Alzheimer), que ajudam nas flutuações cognitivas.
    • Alerta: A DCL tem uma sensibilidade extrema a antipsicóticos convencionais. Muitos desses medicamentos podem piorar drasticamente os sintomas motores (parkinsonismo) e o estado mental do paciente. O enfermeiro deve estar atento a qualquer prescrição e reação adversa.
  3. Ambiente Calmo e Rotina: O paciente com DCL se beneficia de um ambiente calmo, com pouca estimulação e uma rotina diária previsível. Isso minimiza a confusão e a ansiedade.
  4. Comunicação Consistente: Usar frases curtas, claras e uma abordagem tranquila. O paciente pode esquecer rapidamente as instruções devido às flutuações.

Prognóstico e evolução

A DCL é uma doença progressiva, com evolução variável entre os indivíduos. Em média, o tempo de sobrevida após o diagnóstico é de 5 a 8 anos. A abordagem humanizada e o acompanhamento multiprofissional são fundamentais para preservar a dignidade e a qualidade de vida do paciente.

A demência por corpos de Lewy é uma condição complexa, que exige sensibilidade, conhecimento técnico e trabalho em equipe. O papel do enfermeiro é essencial, não apenas no manejo clínico, mas também no apoio emocional e educativo, garantindo um cuidado centrado no paciente e em sua família.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (ABN). Demência com Corpos de Lewy. Disponível em: https://www.abneuro.org.br/.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas: Doença de Alzheimer. (Muitas diretrizes de demência abordam a DCL em comparação). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/assuntos/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-pcdt/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-em-vigor/pcdt-doenca-de-alzheimer-versao-final.pdf
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Demência por Corpos de Lewy: diagnóstico e manejo. Brasília, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude. 
  4. ALZHEIMER’S ASSOCIATION. Lewy Body Dementia (LBD). 2024. Disponível em: https://www.alz.org/alzheimers-dementia/what-is-dementia/types-of-dementia/lewy-body-dementia. 
  5. NATIONAL INSTITUTE OF NEUROLOGICAL DISORDERS AND STROKE (NINDS). Lewy Body Dementia Fact Sheet. 2024. Disponível em: https://www.ninds.nih.gov.

Teste de Filkenstein

A Doença de De Quervain, também conhecida como tenossinovite estenosante dos tendões abdutor longo e extensor curto do polegar, é uma condição dolorosa que afeta o punho, especialmente na região lateral (próxima ao polegar). Essa inflamação atinge a bainha que envolve os tendões responsáveis por movimentar o polegar, dificultando atividades simples como segurar objetos, abrir potes ou até digitar.

Um dos métodos mais utilizados para identificar essa condição é o Teste de Finkelstein, um exame clínico rápido e eficaz que ajuda a diferenciar a dor causada pela Doença de De Quervain de outras patologias que também afetam o punho e o polegar.

O Que É a Doença de Quervain? 

A Doença de Quervain, ou tenossinovite estenosante do extensor curto do polegar e abdutor longo do polegar, é uma inflamação dos tendões e da bainha (a “capa” que envolve os tendões) que ficam no punho, do lado do polegar. Esses tendões são essenciais para o movimento do polegar e, quando inflamados, causam dor, inchaço e dificuldade de movimento.

  • Causas Comuns: A repetição de movimentos de pinça ou preensão, como levantar um bebê, digitar no celular com o polegar, ou atividades de jardinagem, pode sobrecarregar esses tendões e levar à inflamação.

O Teste de Finkelstein: O Diagnóstico Clínico na Prática

O Teste de Finkelstein é um procedimento simples e rápido, que provoca o alongamento dos tendões inflamados para verificar se há dor. Ele é considerado positivo se o paciente sentir uma dor aguda e súbita no punho, na base do polegar.

Como o Teste é Realizado?

    1. Peça ao paciente para fechar a mão, formando um punho, com o polegar para dentro. É importante que o polegar esteja totalmente flexionado e envolvido pelos outros dedos.
    2. Peça ao paciente para desviar o punho para o lado ulnar. Ou seja, inclinar a mão para o lado oposto ao polegar, como se estivesse tentando encostar o dedo mindinho no antebraço.
    3. Avalie a resposta:
      • Teste positivo: Se essa manobra causar uma dor aguda e intensa no punho, na região dos tendões do polegar.
      • Teste negativo: Se o paciente não sentir dor ou apenas um leve desconforto sem características de dor aguda.
  • Mecanismo da Dor: A manobra de desvio ulnar estica os tendões extensor curto do polegar e abdutor longo do polegar, que estão inflamados. O atrito desses tendões inchados contra a bainha apertada provoca a dor característica da Doença de Quervain.

Diagnóstico Diferencial: A Importância de um Olhar Completo

Embora o Teste de Finkelstein seja muito útil, é importante lembrar que ele é apenas uma ferramenta. A dor no punho pode ter outras causas, como a rizartrose (artrose na base do polegar) ou outras tendinites. Por isso, uma anamnese detalhada e um exame físico completo são essenciais para confirmar o diagnóstico. O médico também pode solicitar exames de imagem, como uma ultrassonografia, para visualizar a inflamação dos tendões.

Tratamento e Cuidados de Enfermagem

Após o diagnóstico, o nosso papel na enfermagem é crucial no suporte ao paciente. O tratamento para a Doença de Quervain visa reduzir a inflamação e a dor e, na maioria dos casos, não é cirúrgico.

Repouso e Imobilização:

    • Orientar o paciente: Explicar a importância de evitar os movimentos que causam a dor.
    • Uso de órtese: Orientar sobre o uso de uma órtese (tala) específica para o polegar e o punho, que ajuda a imobilizar a articulação e a diminuir a inflamação.

Manejo da Dor e Inflamação:

    • Compressas frias: Orientar a aplicação de compressas frias (gelo) na área afetada por 15-20 minutos, várias vezes ao dia, para diminuir o inchaço e a dor.
    • Medicamentos: Administrar e orientar sobre o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) orais ou tópicos.

Educação em Saúde e Prevenção:

    • Ergonomia: Ensinar o paciente sobre ergonomia no trabalho e no dia a dia. Por exemplo, a forma correta de segurar um bebê, de usar o celular, ou de segurar objetos.
    • Exercícios de Fisioterapia: Acompanhar o paciente em exercícios de alongamento e fortalecimento, que são essenciais para a recuperação e para prevenir a recorrência da doença.

Suporte em Procedimentos:

    • Infiltrações: Em casos mais persistentes, o médico pode optar por uma infiltração com corticoides. Nosso papel é de preparar o paciente, acalmá-lo, auxiliar no procedimento e orientar sobre os cuidados pós-procedimento.
    • Cirurgia: Se o tratamento conservador falhar, a cirurgia pode ser necessária. Nosso cuidado se estende ao pré e pós-operatório, com monitoramento da ferida, controle da dor e estímulo à reabilitação.

O Teste de Finkelstein é mais do que um nome na literatura médica; é uma ferramenta prática que nos ajuda a dar um nome à dor do paciente. Com nosso conhecimento, podemos não apenas diagnosticar, mas também oferecer o suporte e a educação necessários para que o paciente se recupere e retome suas atividades com mais conforto e segurança.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA DA MÃO (SBCM). Doença de Quervain. Disponível em: https://www.cirurgiadamao.org.br/doencas-da-mao/doenca-de-quervain/.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de Reabilitação da Mão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. (Consultar os capítulos sobre tendinopatias e reabilitação da mão). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_reabilitacao_mao.pdf.
  3. BICKLEY, L. S.; SZILAGYI, P. G.; HOFFMAN, R. M. Bates: Guia de Bolso para Exame Físico e História Clínica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (Consultar capítulo sobre exame físico do sistema musculoesquelético).

A Importância da Fisioterapia em Unidades de Terapia Intensiva (UTI)

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A fisioterapia aplicada na UTI tem uma visão geral do paciente, pois atua de maneira complexa no amplo gerenciamento do funcionamento do sistema respiratório e de todas as atividades correlacionadas com a otimização da função ventilatória. É fundamental que as vias aéreas estejam sem secreção e os músculos respiratórios funcionem adequadamente. A fisioterapia auxilia na manutenção das funções vitais de diversos sistemas corporais, pois atua na prevenção e/ou no tratamento das doenças cardiopulmonares, circulatórias e musculares, reduzindo assim a chance de possíveis complicações clínicas. Ela também atua na otimização (melhora) do suporte ventilatório, através da monitorização contínua dos gases que entram e saem dos pulmões e dos aparelhos que são utilizados para que os pacientes respirem melhor.

O fisioterapeuta também possui o objetivo de trabalhar a força dos músculos, diminuir a retração de tendões e evitar os vícios posturais que podem provocar contraturas e lesões por pressão.

Quais recursos o fisioterapeuta utiliza nas UTIs?

O fisioterapeuta utiliza técnicas, recursos e exercícios terapêuticos em diferentes fases do tratamento, sendo necessário para alcançar uma melhor efetividade a aplicação do conhecimento e das condições clínicas do paciente. Assim, um plano de tratamento condizente é organizado e aplicado de acordo com as necessidades atuais dos pacientes, como o posicionamento no leito, técnicas de facilitação da remoção de secreções pulmonares, técnicas de reexpansão pulmonar,técnicas de treinamento muscular, aplicação de métodos de ventilação não invasiva, exercícios respiratórios e músculo-esqueléticos.

Qual vantagem de ter o fisioterapeuta dentro da equipe multidisciplinar?

A presença do especialista em fisioterapia cardiorrespiratória é uma das recomendações básicas de todas as UTIs. O trabalho intensivo dos fisioterapeutas diminui o risco de complicações do quadro respiratório, reduz o sofrimento dos pacientes e permite a liberação mais rápida e segura das vagas dos leitos hospitalares. A atuação profissional também diminuiu os riscos de infecção hospitalar e das vias respiratórias, proporcionando uma economia nos recursos financeiros que seriam usados na compra de antibióticos e outros medicamentos de alto custo. Diante disso, a atuação do fisioterapeuta especialista nas UTIs implica em benefícios principalmente para os pacientes, mas também para o custo com a saúde num geral.