Coberturas para cada Estágio/Fase das feridas

O cuidado com feridas é uma das áreas mais técnicas e sensíveis da enfermagem. Escolher a cobertura correta para cada tipo e estágio de ferida não é apenas uma decisão clínica, mas também um passo essencial para acelerar a cicatrização, reduzir a dor e evitar infecções. Cada fase da ferida requer um tipo diferente de manejo, e entender essa lógica faz toda a diferença na qualidade do cuidado.

Este artigo tem o objetivo de guiar o estudante de enfermagem na identificação dos estágios e fases das feridas e na escolha apropriada das coberturas, com explicações claras, exemplos práticos e orientações de cuidados.

Entendendo os estágios das feridas

Antes de falarmos sobre os curativos, é crucial lembrarmos os três principais estágios da cicatrização, pois é a partir deles que tomamos nossas decisões:

  • Fase Inflamatória: É o início do processo. A ferida está avermelhada, inchada, com dor e calor. Há a presença de exsudato (o líquido que a ferida produz). O objetivo aqui é controlar a inflamação, limpar e proteger.
  • Fase Proliferativa (ou de Granulação): A ferida começa a se reconstruir. Aparece o tecido de granulação, que é aquele tecido vermelho, brilhante e com aspecto granuloso, rico em vasos sanguíneos. O exsudato diminui, mas ainda está presente. O objetivo é manter um ambiente úmido e proteger o novo tecido.
  • Fase de Maturação (ou de Remodelação): O tecido de granulação se transforma em uma cicatriz. O objetivo é proteger a pele nova e garantir que a cicatriz se desenvolva da melhor forma possível.

Além dessas fases, as feridas por pressão (escaras) são classificadas em estágios, de I a IV, além de feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo.

Coberturas indicadas para cada fase ou estágio da ferida

Estágio I – Eritema não branqueável

  • Características: Pele íntegra, com vermelhidão persistente, geralmente sobre proeminência óssea.
  • Objetivo do tratamento: Proteger a pele e evitar evolução para ferida aberta.
  • Coberturas indicadas:
    • Filmes transparentes (como poliuretano)
    • Hidrocoloides finos

Essas coberturas atuam como barreiras protetoras e permitem visualização da pele sem remoção constante.

Estágio II – Perda parcial da derme

  • Características: Lesão superficial, pode ter aparência de abrasão, bolha ou úlcera rasa.
  • Objetivo do tratamento: Manter o ambiente úmido e proteger contra infecção.
  • Coberturas indicadas:
    • Hidrocolóides
    • Hidrogéis com gaze secundária
    • Espumas de poliuretano finas

Estas coberturas ajudam a manter a umidade ideal para cicatrização sem agredir o leito da ferida.

Estágio III – Perda total da pele (epiderme e derme) com exposição de tecido subcutâneo

  • Características: Ferida profunda, com possível presença de exsudato moderado a intenso e tecido de granulação.
  • Objetivo do tratamento: Controlar exsudato, favorecer granulação e proteger o tecido.
  • Coberturas indicadas:
    • Espumas absorventes (com ou sem prata)
    • Alginatos de cálcio
    • Hidrofibras
    • Carvão ativado com prata (em caso de odor e infecção)

O uso de coberturas com maior poder de absorção é fundamental para controlar o excesso de exsudato e evitar maceração da pele ao redor.

Estágio IV – Perda total com exposição de músculo, osso ou tendão

  • Características: Ferida extensa, profunda, com alto risco de infecção e presença frequente de necrose ou túnel.
  • Objetivo do tratamento: Desbridamento, controle da infecção, absorção do exsudato e estímulo à granulação.
  • Coberturas indicadas:
    • Alginatos
    • Hidrofibras com prata
    • Espumas espessas
    • Hidrogéis (em áreas necróticas secas)
    • Terapia por pressão negativa (quando indicada)

Nessa fase, o cuidado multidisciplinar é ainda mais importante, pois há risco real de complicações sistêmicas.

Feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo

  • Características: Cobertas por esfacelo ou necrose, impossibilitando a visualização do leito da ferida.
  • Objetivo do tratamento: Remover tecido desvitalizado e expor o leito para avaliação e cuidado adequado.
  • Coberturas indicadas:
    • Hidrogéis (desbridamento autolítico)
    • Carvão ativado com prata
    • Papaina (quando disponível, sob prescrição)
    • Desbridamento enzimático ou cirúrgico (quando indicado)

Essas lesões exigem avaliação contínua e, muitas vezes, intervenção médica direta.

Fase Inflamatória (ou Exsudativa)

Duração: Primeiros dias após a lesão (até 3 a 5 dias).
Características da ferida: Presença de exsudato (secreção), edema, dor, sinais de inflamação, possível infecção.

Objetivos do curativo:

  • Controlar o exsudato
  • Reduzir o risco de infecção
  • Manter o ambiente úmido adequado
  • Promover desbridamento autolítico, se necessário

Coberturas indicadas:

  • Espumas de poliuretano: absorvem o exsudato e protegem mecanicamente
  • Alginato de cálcio: excelente para feridas muito exsudativas
  • Carvão ativado com prata: quando há suspeita ou risco de infecção
  • Hidrogel: em feridas secas ou com crostas, para auxiliar na hidratação e desbridamento
  • Curativos com prata, PHMB ou iodo: com ação antimicrobiana

Fase Proliferativa

Duração: De 4 a 21 dias, dependendo do tipo de ferida.
Características da ferida: Formação de tecido de granulação, redução do exsudato, início da epitelização.

Objetivos do curativo:

  • Proteger o novo tecido
  • Manter ambiente úmido
  • Estimular a migração celular
  • Evitar trauma na troca de curativo

Coberturas indicadas:

  • Hidrocolóides: mantêm o meio úmido e são indicados para feridas com pouco exsudato
  • Espumas com baixa aderência: para absorver exsudato moderado e proteger o leito
  • Membranas de poliuretano transparentes (filmes): para feridas superficiais ou em epitelização
  • Curativos com colágeno: favorecem a proliferação celular
  • Hidrofibras: se ainda houver exsudato, ajudam a manter o equilíbrio da umidade

Fase de Remodelação (ou Maturação)

Duração: Pode durar semanas ou meses.
Características da ferida: Epitelização completa, redução da vascularização, cicatriz formada.

Objetivos do curativo:

  • Proteger o tecido novo
  • Prevenir traumas
  • Evitar hipertrofia ou quelóides

Coberturas indicadas:

  • Filmes de poliuretano: proteção e visualização sem remoção
  • Silicone em gel ou placas de silicone: para prevenção de cicatrizes hipertróficas
  • Curativos finos não aderentes: proteção mecânica até cicatrização total

Cuidados de enfermagem no manejo de coberturas

O enfermeiro ou técnico de enfermagem deve sempre observar aspectos importantes na escolha e no uso das coberturas:

  • Avaliação da Ferida: Antes de cada troca, avalie a ferida por completo (tamanho, profundidade, tipo de tecido, quantidade e tipo de exsudato, odor, sinais de infecção, estado da pele ao redor).
  • Limpeza Adequada: Limpar a ferida com soro fisiológico 0,9% é a regra de ouro, a não ser que haja outra prescrição.
  • Preparação da Pele Perilesional: Proteger a pele ao redor da ferida é tão importante quanto cuidar da ferida em si. Use cremes de barreira para evitar maceração.
  • Troca no Momento Certo: Não trocar o curativo mais do que o necessário. Trocas frequentes podem traumatizar o novo tecido.
  • Educação do Paciente: Explicar para o paciente e sua família o tipo de curativo que está sendo usado, por que ele foi escolhido e como ele funciona. Isso os tranquiliza e os torna parceiros no tratamento.
  • Registro Preciso: Documentar cada troca de curativo, descrevendo a ferida, o curativo usado e a resposta do paciente. Isso permite acompanhar a evolução e ajustar o plano de cuidados.

Além disso, o uso racional de coberturas evita desperdícios e reduz custos sem comprometer o cuidado.

Escolher a cobertura certa para cada estágio da ferida é um passo gigantesco para um tratamento eficaz. Com conhecimento, observação e um toque de humanidade, nós, profissionais de enfermagem, somos os verdadeiros catalisadores da cicatrização, trazendo alívio e bem-estar para os nossos pacientes.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de uso de coberturas para o tratamento de feridas. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em:
    https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_feridas.pdf
  2. SILVA, M. A.; SANTOS, L. C. Tratamento de Feridas: Guia Prático de Coberturas. São Paulo: Atheneu, 2019.
  3. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). Prática clínica em estomaterapia: feridas, estomias e incontinências. 2. ed. São Paulo: Manole, 2020.
  4. SOUZA, N. L.; LOPES, C. M. “Feridas: avaliação e escolha adequada da cobertura.” Revista de Enfermagem Atual, v. 88, n. 2, 2021.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf
  6. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar os capítulos sobre tratamento de feridas e coberturas).

    MONTOYA, V. M. G.; et al. As melhores evidências no cuidado de feridas. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 45, n. 4, p. 950-955, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt

Curativo Oclusivo x Curativo Compressivo: Entendendo as Diferenças

O cuidado com feridas faz parte da rotina da enfermagem e exige conhecimento técnico aliado a um olhar sensível. Entre os muitos tipos de curativos, dois se destacam pelo uso frequente e por atenderem a objetivos bastante distintos: o curativo oclusivo e o curativo compressivo.

Para o estudante de enfermagem, entender as diferenças entre esses dois tipos é essencial para aplicar um cuidado seguro e eficaz. Nesta publicação, vamos explicar com detalhes o que caracteriza cada curativo, suas indicações, objetivos e cuidados de enfermagem.

O Curativo, Nosso Grande Aliado: Mais Que Um Simples Band-Aid

Antes de detalhar cada tipo, é bom lembrar qual é o objetivo geral de qualquer curativo:

  • Proteger a ferida: Contra contaminação externa, atrito e traumas.
  • Absorver exsudato: Gerenciar o fluido que a ferida produz.
  • Manter um ambiente úmido: Essencial para a cicatrização (a não ser em casos específicos).
  • Promover o conforto: Reduzir a dor e proteger o local.

Curativo Oclusivo: O Escudo Protetor e o Ambiente Ideal

Imagine um curativo que sela a ferida, isolando-a completamente do ambiente externo. É isso que faz o curativo oclusivo. Ele é como um “escudo” ou uma “barreira” que mantém a umidade ideal para a cicatrização e protege contra a entrada de bactérias e outros microrganismos.

Como é Feito?

    • Utiliza materiais que não permitem a passagem de ar ou fluidos, criando um ambiente fechado.
    • Exemplos comuns incluem filmes transparentes semipermeáveis (aqueles que parecem um plástico fininho e grudam na pele, permitindo ver a ferida), hidrocoloides, hidrogéis e algumas espumas.
    • É sempre fixado firmemente na pele ao redor da ferida, garantindo que não haja “brechas” para a entrada de ar ou bactérias.

Para Que Serve? Quais Suas Indicações?

    • Manter a Umidade: A principal função é criar um ambiente úmido. Isso é super importante, pois a cicatrização ocorre de forma mais eficiente em meio úmido, facilitando a migração celular e a formação de novo tecido. Feridas secas cicatrizam mais lentamente.
    • Prevenção de Contaminação: Por isolar a ferida, impede que bactérias, sujeira ou outras partículas do ambiente entrem em contato com a lesão.
    • Autólise: Alguns materiais oclusivos (como os hidrocoloides) promovem o desbridamento autolítico, que é a remoção natural de tecido morto do corpo, amolecendo-o.
    • Proteção de Cateteres: É amplamente utilizado em sítios de inserção de cateteres venosos centrais (CVC), como o PICC ou o cateter de curta permanência, para protegê-los de infecções. Nesses casos, usa-se o filme transparente que permite a visualização do sítio.
    • Feridas Limpas: Geralmente indicado para feridas limpas, com pouca ou nenhuma infecção, e que apresentem pouca exsudação.

Cuidados de Enfermagem Essenciais:

    • Avaliação Diária da Ferida: Mesmo sob oclusão, é crucial observar a ferida diariamente através do curativo transparente ou, se o material for opaco, na troca do curativo. Fique atento a sinais de infecção (vermelhidão, inchaço, dor, calor, pus), odor fétido ou aumento da exsudação.
    • Integridade do Curativo: Checar se o curativo está bem aderido, sem descolamento nas bordas, que comprometeria a oclusão.
    • Troca no Tempo Certo: Seguir as recomendações do fabricante do material ou o protocolo da instituição para a frequência de troca.
    • Limpeza Rigorosa: Sempre realizar a limpeza da pele ao redor da ferida e do próprio curativo (se transparente) com técnica asséptica.

Curativo Compressivo: A Força Contra o Sangramento e o Edema

Agora, pense em um curativo que não só cobre, mas também aplica uma pressão firme sobre a ferida ou a área lesionada. Esse é o curativo compressivo. Sua principal função não é selar, mas sim comprimir.

Como é Feito?

    • Utiliza gazes, compressas ou ataduras elásticas aplicadas com firmeza sobre a área, exercendo pressão.
    • Pode ser aplicado sobre um curativo de base (oclusivo ou não) para reforçar a pressão.
    • A pressão deve ser firme, mas nunca a ponto de prejudicar a circulação.

Para Que Serve? Quais Suas Indicações?

    • Controle de Hemorragias: É a indicação mais imediata e vital. A pressão direta sobre um sangramento ajuda a estancá-lo, favorecendo a formação do coágulo.
    • Prevenção de Hematomas e Edemas: Após cirurgias (especialmente plásticas ou ortopédicas) ou lesões, a compressão ajuda a limitar o acúmulo de sangue (hematoma) ou líquido (edema/inchaço) na área.
    • Fixação de Enxertos: Em cirurgias de enxerto de pele, o curativo compressivo ajuda a manter o enxerto bem aderido ao leito receptor, promovendo sua “pegada”.
    • Imobilização: Em alguns casos, pode auxiliar na imobilização de uma área, especialmente após torções ou fraturas.
    • Redução de Espaço Morto: Após a retirada de drenos cirúrgicos, uma compressão leve pode ajudar a obliterar o espaço que existia, evitando acúmulo de líquidos.

Cuidados de Enfermagem Essenciais:

    • Avaliação Circulatória: Crucial! Após aplicar um curativo compressivo, avaliar imediatamente e com frequência a circulação distal ao curativo. Checar:
      • Pulsos: Estão presentes e fortes?
      • Coloração: A pele está rosada, não pálida ou cianótica (azulada)?
      • Temperatura: A pele está aquecida, não fria?
      • Sensibilidade: O paciente sente dor, formigamento ou dormência?
      • Edema: Há inchaço abaixo do curativo?
    • Alívio da Dor: Se o paciente referir dor intensa ou crescente após a aplicação, pode ser sinal de que o curativo está muito apertado.
    • Reapertar se Necessário: Em sangramentos ativos, pode ser necessário reapertar o curativo e, se a hemorragia persistir, comunicar o médico imediatamente.
    • Monitoramento da Ferida: Se o curativo compressivo for opaco, a ferida só será visualizada na troca, que deve ser feita no tempo adequado, ou antes, se houver sinais de complicação.

As Diferenças no “Olho do Cuidado”:

Característica Curativo Oclusivo Curativo Compressivo
Principal Objetivo Proteger e manter ambiente úmido para cicatrização Estancar sangramento, prevenir hematomas/edema
Como Age? Cria uma barreira selada, impede entrada de ar/bactérias Aplica pressão física sobre a área
Materiais Típicos Filmes transparentes, hidrocoloides, hidrogéis, espumas Gaze, compressas, ataduras elásticas, faixas de crepe
Principal Risco Infecção se a ferida já estiver contaminada ou se oclusão for quebrada Compromisso circulatório se muito apertado (síndrome compartimental)
Tipo de Ferida Limpas, com pouca exsudação, proteção de sítios Com sangramento, pós-cirúrgico, prevenção de inchaço

Cuidados de enfermagem na aplicação dos curativos

No curativo oclusivo

  • Avaliar sinais de infecção antes da aplicação.
  • Garantir que a pele esteja seca ao redor da ferida.
  • Evitar excesso de umidade que possa causar maceração.
  • Orientar o paciente a não retirar o curativo antes do tempo indicado.

No curativo compressivo

  • Avaliar pulso distal antes e depois da aplicação para verificar perfusão.
  • Observar sinais de comprometimento circulatório (palidez, frialdade, dormência).
  • Manter a pressão uniforme, sem pontos de estrangulamento.
  • Reposicionar o membro elevado, quando indicado, para auxiliar o retorno venoso.

A correta escolha do tipo de curativo depende da avaliação do enfermeiro, das características da ferida e das condições clínicas do paciente. O uso inadequado pode causar complicações e atrasar o processo de cicatrização.

Embora ambos sejam chamados genericamente de “curativos”, o oclusivo e o compressivo têm propósitos distintos e complementares. O sucesso na cicatrização de uma ferida depende, entre outros fatores, da correta escolha do tipo de curativo, da técnica adequada e da observação constante dos sinais clínicos.

Para o estudante e profissional de enfermagem, dominar esses conhecimentos é fundamental para oferecer um cuidado eficaz, seguro e centrado no paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. 
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
  4. SILVA, A. L. F. et al. Cuidados com feridas: práticas baseadas em evidências. Revista de Enfermagem UFPE, v. 8, n. 3, p. 6132-6139, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem
  5. MEDEIROS, E. A. A. et al. Manual de curativos: prevenção, tratamento e cuidados. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2018.
  6. FERRARI, M. C. C. et al. Terapia compressiva no tratamento de úlceras venosas: uma revisão. Revista Brasileira de Enfermagem, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben

Técnicas de Curativos

Em um ambiente onde seja em uma Uti, enfermaria, ou na residência do cliente, é indispensável o bom conhecimento técnico para realizar os curativos, acompanhar as cicatrizações e controlar as possíveis infecções. Quem poderá  avaliar as feridas, e indicar o tipo de tratamento, é o enfermeiro, onde o mesmo realiza o exame físico e a anamnese. O técnico de enfermagem as executa, de forma correta, anota os aspectos e características da ferida, e acompanha juntamente com o enfermeiro a evolução da mesma.

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Exemplo de carrinho de curativo.

Um bom curativo começa com uma boa preparação do carro de curativos. Este deve ser completamente limpo. Deve-se verificar a validade de todo o material a ser utilizado. Quando houver suspeita sobre a esterilidade do material que deve ser estéril, este deve ser considerado não estéril e ser descartado. Deve verificar ainda se os pacotes estão bem lacrados e dobrados corretamente.

O próximo passo é um preparo adequado do paciente. Este deve ser avisado previamente que o curativo será trocado, sendo a troca um procedimento simples e que pode causar pequeno desconforto. Os curativos não devem ser trocados no horário das refeições. Se o paciente estiver numa enfermaria, deve-se usar cortinas para garantir a privacidade do paciente. Este deve ser informado da melhora da ferida. Esse métodos melhoram a colaboração do paciente durante a troca do curativo, que será mais rápida e eficiente.

A limpeza das mãos com água e sabão, que deve ser feita antes e depois de cada curativo. O instrumental a ser utilizado deve ser esterilizado; deve ser composto de pelo menos uma pinça anatômica (par de ferro), duas hemostáticas e um pacote de gaze; e toda a manipulação deve ser feita através de pinças e gazes, evitando o contato direto e consequentemente menor risco de infecção.

Material
Exemplo de bandeja de curativo.

Deve ser feita uma limpeza da pele adjacente à ferida, utilizando uma solução que contenha sabão, para desengordurar a área, o que removerá alguns patógenos e vai também melhorar a fixação do curativo à pele. A limpeza deve ser feita da área menos contaminada para a área mais contaminada, evitando-se movimentos de vai-e-vem.

Nas feridas cirúrgicas, a área mais contaminada é a pele localizada ao redor da ferida, enquanto que nas feridas infectadas a área mais contaminada é a do interior da ferida. Deve-se remover as crostas e os detritos com cuidado; lavar a ferida com soro fisiológico em jato, ou com PVPI aquoso (em feridas infectadas, quando houver sujidade e no local de inserção dos cateteres centrais); por fim fixar o curativo com atadura ou micropore.

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Em certos locais o micropore não deve ser utilizado, devido à motilidade (articulações), presença de pêlos (couro cabeludo) ou secreções. Nesses locais deve-se utilizar ataduras. Esta vede ser colocada de maneira que não afrouxe nem comprima em demasia. O enfaixamento dos membros deve iniciar-se da região dista para a proximal e não deve trazer nenhum tipo de desconforto ao paciente.

O micropore deve ser inicialmente colocado sobre o centro do curativo e, então, pressionando suavemente para baixo em ambas as direções. Com isso evita-se o tracionamento excessivo da pele e futuras lesões.

O micropore deve ser fixado sobre uma área limpa, isenta de pêlos, desengordurada e seca; deve-se pincelar a pele com tintura de benjoim antes de colocar o mesmo. As bordas devem ultrapassar a borda livre do curativo em 3 a 5 cm; a aderência do curativo à pele deve ser completa e sem dobras. Nas articulações o micropore deve ser colocado em ângulos retos, em direção ao movimento.

Durante a execução do curativo, as pinças devem estar com as pontas para baixo, prevenindo a contaminação; deve-se usar cada gaze uma só vez e evitar conversar durante o procedimento técnico. Os procedimentos para realização do curativo, devem ser estabelecidos de acordo com a função do curativo e o grau de contaminação do local.
Obedecendo as características acima descritas, existem os seguintes tipos de curativos padronizados:

Técnicas de Curativos

CURATIVO LIMPO

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  • Ferida limpa e fechada;
  • O curativo limpo e seco deve ser mantido oclusivo por 24 horas;
  • Após este período, a incisão pode ser exposta e lavada com água e sabão;
  • Utilizar PVPI tópico somente para ablação dos pontos.

CURATIVO COM DRENO

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  • O curativo do dreno deve ser realizado separado do da incisão e o primeiro a ser realizado será sempre o do local menos contaminado;
  • O curativo com drenos deve ser mantido limpo e seco. Isto significa que o número de trocas está diretamente relacionado com a quantidade de drenagem;
  • Se houver incisão limpa e fechada, o curativo deve ser mantido oclusivo por 24 horas e após este período poderá permanecer exposta e lavada com água e sabão;
  • Sistemas de drenagem aberta (p.e. penrose ou tubulares), devem ser mantidos ocluídos com bolsa estéril ou com gaze estéril por 72 horas. Após este período, a manutenção da bolsa estéril fica a critério médico.
  • Alfinetes não são indicados como meio de evitar mobilização dos drenos penrose, pois enferrujam facilmente e propiciam a colonização do local;
  • A mobilização do dreno fica a critério médico;
  • Os drenos de sistema aberto devem ser protegidos durante o banho.

CURATIVO CONTAMINADO

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Estas normas são para feridas infectadas e feridas abertas ou com perda de substância, com ou sem infecção. Por estarem abertas, estas lesões são altamente susceptíveis à contaminação exógena.

  • O curativo deve ser oclusivo e mantido limpo e seco;
  • O número de trocas do curativo está diretamente relacionado à quantidade de drenagem, devendo ser trocado sempre que úmido para evitar colonização;
  • O curativo deve ser protegido durante o banho;
  • A limpeza da ferida deve ser mecânica com solução fisiológica estéril;
  • A anti-sepsia deve ser realizada com PVP-I tópico;
  • As soluções anti-sépticas degermantes são contra-indicadas em feridas abertas, pois os tensoativos afetam a permeabilidade das membranas celulares, produzem hemólise e são absorvidos pelas proteínas, interferindo prejudicialmente no processo cicatricial;
  • Gaze vaselinada estéril é recomendada nos casos em que há necessidade de prevenir aderência nos tecidos;
  • Em feridas com drenagem purulenta deve ser coletada cultura semanal (swab), para monitorização microbiológica;

Tipos de Feridas

  • Agudas – São feridas traumáticas. Características de cicatrização:
    – O processo de cicatrização dura cerca de 06 dias.
                            Sangra ⇒ Coagula ⇒ Desidrata ⇒ Crosta.
  • Crônicas – São feridas de longa duração. Características de Cicatrização:
    – O processo de cicatrização é extenso.
    Migração Celular ⇒Limpeza da Lesão por Fagocitose ⇒ Granulação ⇒ Contração dos Bordos  ⇒Epitelização ⇒Remodelagem.

Finalidade

Tem como finalidade :

  • Aliviar a dor (Analisar a possibilidade de fazer analgesia prévia).
  • Evitar traumas (Aplicar e retirar as coberturas sem traumas, umedecendo a ferida sempre que necessário. Limpar a ferida com solução salina em jatos, utilizando seringa de 20Ml e agulha 40x 12)
  •  Evitar a Infecção (Utilizar técnica estéril e proteger as feridas abertas).
  • Manter a ferida com umidade natural (Após a limpeza da ferida, secar apenas os bordos da ferida).
  • Tratar as cavidades no caso de feridas crônicas (Ocupar o espaço morto com coberturas, favorecendo a cicatrização mais rápida).
  • Tratar as necroses no caso de feridas crônicas (Remover tecido necrótico para acelerar a cicatrização).

Tratamento para Feridas

Feridas Agudas:

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Feridas Crônicas:

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Materiais utilizados para tratamento de feridas

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O que observar e anotar sobre as Feridas:

  • Localização anatômica;
  • Aspecto dos Tecidos Adjacentes: Edema, Coloração, Pulso;
  • Em caso de dúvida, comparar com o membro não acometido pela ferida;
  • Medidas da Ferida – mensurar em sua extensão e profundidade em centímetros na admissão e semanalmente para observar a evolução do tratamento;
  • No caso de haver exposição óssea, prevenir osteomielite;
  • Aspecto e quantidade do exsudato: Seroso, purulento, Sanguinolento, misto;
  • Bordos da ferida: Contração, Maceração, Integridade;
  • Tecidos da ferida: Granulação, Esfacelo, Necrose.

Coleta de Material: A coleta de material, para avaliação de microorganismos nas feridas, deve ser feita com técnica asséptica, após a limpeza da ferida com soro fisiológico 0.9% e, preferencialmente, aspirar o exsudato (se houver coleções fechadas). Se não for possível, o swab só tem valor se colhido profundamente em tecido limpo (livre de esfacelo e necrose) para não dar falso resultado, ou seja, detectar apenas a colonização da ferida. O material colhido deve ser encaminhado ao laboratório o mais brevemente possível.

Placas de Hidrocolóides

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Os Hidrocolóides são curativos contendo agentes em formato gelatinoso, geralmente carboximetilcelulose sódica (NaCMC), pectina e gelatina. São normalmente embalados em placas de filme ou espuma de poliuretano, autoadesivas algumas e impermeáveis à água. De acordo com cada fabricante, a superfície de contato com a ferida pode apresentar variações. Estão disponíveis em placas mais finas ou mais espessas de diferentes formas. Pode ser encontrado também em formato de pasta, empregadas para preenchimento de cavidades.

Os Hidrocolóides atuam por interação com os exsudatos formando um composto úmido gelatinoso entre o curativo e o leito da úlcera; este composto propicia o desbridamento autolítico, otimizando assim a formação do tecido de granulação. Por outro lado, acredita-se que, proporcionando uma cobertura das terminações nervosas expostas no leito da ferida, os Hidrocolóides também auxiliam na diminuição da dor, muito embora os mecanismos que lhes conferem esse atributo ainda não estejam bem elucidados.

Em estado intacto os Hidrocolóides são impermeáveis aos vapores de água, mas com o processo de gelatinização no leito da ferida, o curativo se torna progressivamente mais permeável. A perda de água através do curativo aumenta sua capacidade de contribuir com a formação do exsudato. Por ocasião de sua retirada percebe-se a presença de componente líquido parecido com pus e a emissão de odor característico às vezes bastante intenso.

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Os Hidrocolóides diminuem os eventos infecciosos na medida em que oferecem certa barreira bacteriana. É preciso estar atento para a possibilidade de proliferação de anaeróbios em determinados pacientes.

Indicações principais:

  • Curativo primário ou secundário em feridas com exsudatomínimo ou leve.

Vantagens:

  • Propicia desbridamento autolítico;
  • Dificulta a invasão bacteriana;
  • Pode reduzir a dor;
  • Fácil de aplicar
  • É autoadesivo e de fácil modelagem ao local;
  • Capacidade de absorção de leve a moderada;
  • Pode ser utilizado sob terapia compressiva;
  • Reduz o trauma em áreas de pressão;
  • A troca pode ser feita de 03 a 07 dias (de acordo com as características da ferida).

Desvantagens:

  • Pode aderir fortemente à pele com possibilidade de trauma ao ser removido, razão pela qual sua remoção deve ser feita com os devidos cuidados. Atenção especial quando aplicado sobre pele friável;
  • Com o calor e a fricção amolece e perde o formato;
  • Pode provocar hipergranulação;
  • Não aplicável em feridas com espaços cavitários (exceto no formato pasta).

Obs.: Os hidrocolóides já são conhecidos e utilizados há mais de 20 anos e, apesar de raros, alguns podem provocar dermatite de contacto decorrente de substâncias usadas para conferir maior adesividade ao curativo.

Desaconselhável em:

  • Feridas com exsudato moderado ou abundante;
  • Feridas com franca infecção;
  • Pele do entorno da ferida: muito friável, com eczema ou muito macerada;
  • Feridas com exposição de músculos, tendões ou estruturas ósseas;
  • Alguns fabricantes desaconselham o uso em vasculite ativa;
  • Alguns autores recomendam EXTREMA CAUTELA em diabéticos, vasculite e feridas com componente isquêmico “devido risco aumentado de infecção por anaeróbios”.

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