
Vá direto ao ponto!
Na obstetrícia, o detalhe que mais importa durante a “sulfatação” não está apenas na dose do medicamento, mas no que acontece ao redor dela. Enquanto o sulfato de magnésio reduz o risco de convulsões, a equipe precisa acompanhar respiração, reflexos, diurese e pressão arterial, porque a mesma medicação que protege contra a eclâmpsia pode causar toxicidade quando não é monitorizada adequadamente.
O sulfato de magnésio é o anticonvulsivante de escolha para prevenção e tratamento da eclâmpsia e pode ser indicado em situações de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, conforme avaliação clínica e protocolo institucional. Ele não substitui o tratamento da hipertensão arterial grave. A Organização Mundial da Saúde destaca que o medicamento reduz substancialmente o risco de eclâmpsia.
O que significa “sulfatar”
“Sulfatar” é uma expressão usada na prática para indicar a administração de sulfato de magnésio à gestante ou puérpera com indicação obstétrica. O objetivo é anticonvulsivante: prevenir uma primeira convulsão em situações de risco ou evitar recorrência após um episódio de eclâmpsia.
Por isso, não é correto explicar a sulfatação como uma forma de “baixar a pressão”. A pressão arterial grave precisa ser tratada com anti-hipertensivos apropriados, enquanto o sulfato de magnésio atua principalmente na prevenção e controle das convulsões.
Esquemas mais utilizados
Os protocolos brasileiros apresentam principalmente dois esquemas: Pritchard, que combina administração intravenosa e intramuscular, e Zuspan, exclusivamente intravenoso.
No esquema de Pritchard, a dose de ataque é de 4 g IV lentamente, seguida de 10 g IM, sendo 5 g em cada nádega. A manutenção é de 5 g IM a cada 4 horas. No esquema de Zuspan, a dose de ataque é de 4 g IV lentamente, seguida de manutenção de 1 g/h em infusão intravenosa contínua, geralmente em bomba de infusão. A escolha deve seguir o protocolo do serviço e a apresentação disponível do medicamento.
Um ponto que costuma gerar erro na prática é olhar apenas para “8 mL” e esquecer a concentração. Uma ampola de sulfato de magnésio a 50% com 10 mL contém 5 g; portanto, a quantidade em mililitros depende diretamente da concentração disponível. A conferência deve ser feita antes da administração, e a diluição e velocidade precisam seguir a prescrição e o protocolo institucional.
Monitorização durante a sulfatação
A segurança depende de observar sinais clínicos antes e durante a manutenção. Entre os parâmetros mais importantes estão:
- frequência respiratória;
- reflexos patelares;
- débito urinário;
- nível de consciência;
- pressão arterial e demais sinais vitais.
A redução ou ausência do reflexo patelar, depressão respiratória e oligúria são sinais de alerta para toxicidade e exigem avaliação imediata da equipe. A eliminação do magnésio ocorre principalmente pelos rins, por isso a diurese é particularmente importante durante o tratamento.
Em um cenário de emergência obstétrica, não basta saber que a paciente está “sulfatando”. Antes de iniciar ou manter a infusão, é necessário conferir concentração, dose prescrita, acesso venoso, bomba quando indicada e condições clínicas para continuidade. Esse cuidado evita um erro muito comum: tratar a administração do medicamento como se fosse apenas mais uma infusão de rotina.
Gluconato de cálcio: deixe preparado
O gluconato de cálcio é utilizado como antagonista nos casos de toxicidade pelo sulfato de magnésio. Por isso, o material deve estar disponível conforme o protocolo do serviço, principalmente quando a paciente está recebendo manutenção intravenosa.
Se surgirem sinais compatíveis com toxicidade, a administração do magnésio deve ser interrompida e a equipe médica deve ser acionada imediatamente, com suporte das medidas de emergência previstas no protocolo. O gluconato de cálcio não deve ser confundido com um medicamento administrado rotineiramente junto ao sulfato de magnésio; ele fica disponível para uma eventual situação de intoxicação.
E se ocorrer uma convulsão?
Durante uma crise convulsiva, a prioridade é proteger a paciente, manter a via aérea e reduzir o risco de trauma. A gestante deve ser posicionada de forma segura, com atenção à oxigenação, acesso venoso e monitorização, enquanto o sulfato de magnésio é utilizado para tratamento da eclâmpsia conforme protocolo.
Não se deve colocar objetos ou medicamentos dentro da boca durante a convulsão. Depois da estabilização inicial, a equipe deve investigar complicações maternas e avaliar as condições fetais, além de conduzir a resolução obstétrica conforme o caso.
Na prática, é justamente nesse momento que a preparação anterior faz diferença: acesso venoso funcionando, sulfato de magnésio disponível, gluconato de cálcio acessível, material de oxigenoterapia e equipamentos de emergência próximos reduzem atrasos quando a situação muda rapidamente. Um POP obstétrico atualizado de 2025 também orienta manter materiais de suporte e reanimação disponíveis diante de crises convulsivas.
Cuidados de enfermagem
Durante a administração do sulfato de magnésio, a enfermagem deve conferir cuidadosamente a prescrição, concentração, via, diluição e velocidade de infusão; monitorar frequência respiratória, reflexos, diurese e sinais vitais; manter o acesso venoso em condições adequadas; observar alterações neurológicas e respiratórias; e garantir que o gluconato de cálcio esteja disponível conforme o protocolo institucional.
Também é importante registrar horário, dose, via, resposta da paciente e alterações observadas. Em caso de deterioração clínica, a comunicação rápida com a equipe é parte essencial da segurança.
Para guardar
Sulfato de magnésio previne e trata convulsões. Não é o medicamento usado para controlar diretamente a pressão arterial.
Na pré-eclâmpsia e na eclâmpsia, administrar corretamente é apenas uma parte do cuidado. A outra é reconhecer rapidamente os sinais de toxicidade e manter a paciente sob vigilância contínua.
Sulfato de Magnésio na Pré-Eclâmpsia
- Sulfato de magnésio previne e trata convulsões
- Pritchard e Zuspan são esquemas utilizados na prática
- Monitore respiração reflexos e diurese
- Mantenha gluconato de cálcio disponível conforme protocolo
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Pré-natal de baixo risco: situações de urgência – síndromes hipertensivas na gestação. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Acessar protocolo do Ministério da Saúde
- BRASIL. Ministério da Saúde. Gestação de alto risco: manual técnico. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Acessar manual do Ministério da Saúde
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Pre-eclampsia. Geneva: WHO, 2025. Acessar publicação da OMS
- HOSPITAL UNIVERSITÁRIO LAURO WANDERLEY. POP.UMUL.001 – Administração de sulfato de magnésio a 50% na pré-eclâmpsia, eclampsia e síndrome HELLP. João Pessoa: HULW/Ebserh, 2025. Acessar POP atualizado
Sulfatação na Eclâmpsia Como Fazer os Esquemas
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Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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