A avaliação do pulso arterial é uma das práticas clínicas mais antigas e fundamentais na enfermagem. Ela fornece dados essenciais sobre o sistema cardiovascular, como frequência cardíaca, ritmo, amplitude e regularidade. Observar o pulso é muito mais do que apenas “contar batimentos”: é entender o que está por trás de cada pulsação.
Nesta publicação, vamos explorar os diferentes tipos de pulso arterial, seus significados clínicos e a importância do olhar atento da enfermagem durante o exame físico.
O Que É o Pulso Arterial?
Pense no coração como uma bomba potente. A cada contração (sístole), ele ejeta sangue para a aorta e, em seguida, para as grandes artérias. Essa ejeção de sangue gera uma onda de pressão que se propaga rapidamente pelas paredes elásticas das artérias. É essa onda que nós percebemos como o pulso.
Ao avaliar o pulso, não estamos apenas contando as batidas. Estamos avaliando diversas características:
- Frequência: Quantas batidas por minuto.
- Ritmo: Se as batidas são regulares ou irregulares.
- Amplitude/Força: A intensidade da onda de pulso (forte, fraco).
- Tensão/Elasticidade: A rigidez da parede arterial.
- Simetria: Se o pulso é igual nos dois lados do corpo (ex: pulsos radiais).

Agora, vamos aos tipos de pulso que nos dão pistas diagnósticas valiosas:
Pulso Normal (Normosfígmico): O Equilíbrio Saudável
Este é o pulso que esperamos encontrar em uma pessoa saudável.
- Características:
- Frequência: Entre 60 e 100 batimentos por minuto (bpm) em repouso.
- Ritmo: Regular, com intervalos iguais entre as batidas.
- Amplitude: Moderada, fácil de palpar, nem muito forte nem muito fraca.
- Tensão: Moderada, a artéria é elástica e não oferece resistência excessiva.
- Simetria: Presente e igual em ambos os lados.
- Significado: Indica um bom funcionamento cardiovascular, com débito cardíaco adequado e artérias elásticas.
Bradicardia e Taquicardia: As Variações de Frequência
Estas não são exatamente “tipos” de pulso em termos de qualidade da onda, mas sim variações na sua frequência que são cruciais para a avaliação.
- Bradicardia:
- Características: Frequência de pulso inferior a 60 bpm.
- Significado: Pode ser normal em atletas bem condicionados ou durante o sono profundo. Pode ser causada por medicamentos (betabloqueadores), hipotireoidismo, doenças cardíacas (bloqueios atrioventriculares) ou outras condições.
- Taquicardia:
- Características: Frequência de pulso superior a 100 bpm.
- Significado: Pode ser uma resposta fisiológica ao exercício, estresse, ansiedade, febre, dor, desidratação. Pode ser patológica em arritmias, choque, anemia, hipertireoidismo.
Pulso Filiforme (ou Fino/Débil): O Quase Ausente
Este pulso é um sinal de alerta e exige atenção imediata.
- Características: Muito difícil de palpar, fraco, mal perceptível, como um “fio”. Geralmente é rápido (taquicárdico).
- Significado: Indica um débito cardíaco muito baixo, ou seja, o coração não está bombeando sangue suficiente para os tecidos. É um sinal clássico de choque (hipovolêmico, cardiogênico, séptico), desidratação grave, hemorragia intensa ou insuficiência cardíaca grave.
Pulso Forte ou Cheio (Magnus): O Batimento Robusto
É o oposto do pulso filiforme.
- Características: Amplitude aumentada, muito fácil de palpar e sentir, como uma onda “cheia”.
- Significado: Pode ser encontrado em situações de aumento do débito cardíaco (exercício, ansiedade, febre) ou em condições como hipertireoidismo, insuficiência aórtica (onde há regurgitação de sangue para o ventrículo, aumentando o volume de ejeção) ou hipertensão arterial sistêmica (especialmente com alta pressão de pulso).
Pulso Arrítmico: A Dança Desordenada
Aqui, a questão é o ritmo.
- Características: Os intervalos entre as batidas não são regulares. Podem ser irregularmente irregulares (sem padrão) ou regularmente irregulares (com um padrão repetitivo de irregularidade).
- Significado: Indica a presença de arritmias cardíacas, como fibrilação atrial (irregularmente irregular, muito comum), extrassístoles (batidas extras isoladas) ou bloqueios cardíacos. Cada tipo de arritmia tem um significado clínico diferente, e a identificação do pulso arrítmico é o primeiro passo para a investigação.
Pulso Alternante (Pulso de Broadbent): O Forte e Fraco
É um pulso com variações na sua amplitude, intercalando batimentos fortes com batimentos fracos, em um ritmo regular.
- Características: Batidas regulares, mas uma é forte e a próxima é fraca, e assim por diante.
- Significado: É um sinal de disfunção ventricular esquerda grave, ou seja, o lado esquerdo do coração está com dificuldade para bombear o sangue de forma consistente. Geralmente indica insuficiência cardíaca avançada.
Pulso Dicrótico: A Dupla Ondulação
Este pulso é caracterizado por duas ondas distintas em cada batimento cardíaco, sendo a segunda onda (dicrótica) mais fraca.
- Características: Ao palpar, parece que há duas “pancadas” para cada batida do coração.
- Significado: Geralmente indica condições com baixo débito cardíaco e alta resistência periférica, como febre tifoide grave ou choque cardiogênico ou hipovolêmico (embora seja menos comum de ser identificado clinicamente e mais por exames).
Pulso em Martelo d’Água (ou Pulso de Corrigan): O Impulso Súbito
Também conhecido como pulso colapsante.
- Características: Uma onda de pulso muito forte e rápida que sobe e desce abruptamente, como um jato d’água que atinge a mão e recua rapidamente. É mais fácil de sentir na artéria radial com o braço elevado.
- Significado: É um achado clássico de insuficiência aórtica grave, onde a válvula aórtica não fecha completamente, permitindo que o sangue volte para o coração após cada sístole. Também pode ser visto em hipertiroidismo, anemia grave, ou ducto arterioso patente.
Pulso Paradoxal: O Que Engana na Inspiração
Este é um tipo de pulso em que a amplitude diminui significativamente durante a inspiração profunda e aumenta na expiração. Paradoxal porque, fisiologicamente, a inspiração aumenta o retorno venoso e deveria manter ou aumentar a amplitude do pulso.
- Características: A diferença na pressão sistólica entre a expiração e a inspiração é superior a 10 mmHg. Isso pode ser difícil de sentir apenas palpando, mas pode ser detectado ao aferir a pressão arterial e observar a diminuição dos sons de Korotkoff durante a inspiração.
- Significado: É um sinal de condições que limitam a expansão do coração durante a inspiração. As causas mais comuns são: tamponamento cardíaco (acúmulo de líquido ao redor do coração que o comprime), pericardite constritiva e asma/DPOC grave (devido às grandes variações de pressão intratorácica).
Cuidados de Enfermagem
A avaliação do pulso não é um ato mecânico; é uma arte que exige prática e sensibilidade. Nossos cuidados envolvem:
- Técnica Adequada: Usar a polpa dos dedos (indicador, médio e anelar), não o polegar. Aplicar pressão suficiente para sentir o pulso, mas não ocluir a artéria.
- Locais de Palpação: Conhecer os diferentes locais (radial, carotídeo, femoral, pedioso, poplíteo, braquial) e saber qual é o mais adequado para cada situação. O pulso carotídeo é o mais indicado em situações de emergência, como na parada cardiorrespiratória.
- Avaliação Completa: Não apenas contar a frequência, mas avaliar o ritmo, a amplitude e a tensão. Sempre comparar os pulsos periféricos dos dois lados do corpo (simetria).
- Integração com Outros Dados: Correlacionar as características do pulso com outros sinais vitais (pressão arterial, frequência respiratória, saturação de oxigênio) e com o quadro clínico geral do paciente.
- Comunicação Efetiva: Registrar os achados de forma clara e comunicar imediatamente qualquer alteração significativa ao médico.
- Intervenção Rápida: Um pulso filiforme, por exemplo, exige intervenção imediata para investigar e tratar a causa do choque.
Dominar a avaliação do pulso arterial é uma das competências mais valiosas para profissional de enfermagem. É uma forma simples, não invasiva e rápida de obter informações cruciais sobre o estado cardiovascular do paciente, permitindo-nos agir com precisão e, muitas vezes, fazer a diferença entre a vida e a morte.
Referências:
- JARVIS, C. Bates Propedêutica de Enfermagem. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. (Consultar capítulo sobre Exame Físico do Sistema Cardiovascular).
- PORTO, C. C. Semiologia Médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. (Consultar capítulo sobre Exame do Sistema Cardiovascular).
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes Brasileiras de Cardiologia. (Disponível em publicações da SBC ou em seus periódicos, como os Arquivos Brasileiros de Cardiologia, para aprofundar em arritmias e insuficiência cardíaca). Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/.
- BARROS, A. L. B. L. Exame físico: avaliação diagnóstica de enfermagem no adulto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
- BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. S. Tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.
- MANUAL MERCK. Pulso arterial: avaliação clínica. Disponível em: https://www.msdmanuals.com
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br










