O Terror dos Hospitais: Os Microrganismos Resistentes e seu tempo de sobrevida no ambiente

E aí, galera da enfermagem!

Hoje a gente vai mergulhar em um universo invisível, mas super importante para a nossa prática clínica: o mundo dos microrganismos resistentes e a incrível (e preocupante) capacidade que eles têm de sobreviver no ambiente hospitalar e em outros lugares.

Já pararam para pensar quanto tempo uma bactéria “superpoderosa” pode ficar esperando ali, quietinha, para encontrar um novo hospedeiro? Pois é, essa é uma questão crucial para entendermos a dinâmica das infecções e reforçarmos ainda mais nossos cuidados. Vamos nessa desvendar esse mistério?

Superpoderes Invisíveis: Entendendo a Resistência Microbiana

Antes de falarmos sobre o tempo de sobrevivência, é fundamental entender o que torna esses microrganismos tão “temidos”. A resistência antimicrobiana é a capacidade que bactérias, vírus, fungos e parasitas desenvolvem de não serem mortos ou inibidos pelos medicamentos (antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários) que foram criados para combatê-los.

Essa resistência surge principalmente devido ao uso excessivo e inadequado desses medicamentos, permitindo que os microrganismos sofram mutações genéticas que os tornam menos suscetíveis ou totalmente imunes aos seus efeitos.

O resultado? Infecções mais difíceis de tratar, prolongamento do tempo de internação, aumento dos custos de saúde e, em casos graves, maior risco de óbito para os pacientes.

E onde entra o tempo de sobrevivência nessa história? Simples: quanto mais tempo esses microrganismos resistentes conseguem permanecer viáveis no ambiente, maior a chance de eles entrarem em contato com um novo hospedeiro (muitas vezes, um paciente vulnerável em um ambiente de saúde) e causarem uma infecção.

Tempo de Espera dos Invasores: A Sobrevivência dos Microrganismos no Ambiente

A capacidade de um microrganismo sobreviver fora do corpo humano varia muito, dependendo de diversos fatores, como o tipo de microrganismo, as condições ambientais (temperatura, umidade, presença de matéria orgânica) e a superfície onde ele se encontra. Alguns “sobreviventes” notórios incluem:

  • Bactérias: Algumas bactérias resistentes podem ser verdadeiras “campeãs” de sobrevivência. O Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), por exemplo, pode persistir em superfícies secas por dias, semanas e até meses, especialmente em ambientes com matéria orgânica. Já o Clostridium difficile, conhecido por causar infecções intestinais graves, forma esporos que podem sobreviver por meses em superfícies e são resistentes a muitos desinfetantes comuns. Bactérias gram-negativas multirresistentes, como Acinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa, também podem sobreviver por longos períodos em superfícies úmidas e secas, além de serem encontradas em água e biofilmes.
  • Vírus: A sobrevivência de vírus fora do hospedeiro também varia. Alguns vírus respiratórios, como o influenza e o SARS-CoV-2, podem permanecer infecciosos em superfícies por horas ou até dias, dependendo das condições. Vírus mais resistentes, como o norovírus (causador de gastroenterites), podem sobreviver por semanas em superfícies e são difíceis de eliminar. O vírus da hepatite B (HBV) e o vírus da imunodeficiência humana (HIV) têm um tempo de sobrevivência menor fora do corpo, geralmente algumas horas a poucos dias.
  • Fungos: Alguns fungos patogênicos, como Candida albicans e Aspergillus spp., podem sobreviver por dias a semanas em superfícies e em ambientes úmidos. Os esporos de alguns fungos podem ser ainda mais resistentes e persistir por longos períodos.

É importante ressaltar que a viabilidade desses microrganismos não significa necessariamente que eles permaneçam altamente infecciosos por todo esse tempo. A carga microbiana e a capacidade de causar infecção tendem a diminuir com o tempo fora do hospedeiro.

No entanto, mesmo uma pequena quantidade de microrganismos resistentes pode ser suficiente para infectar um paciente vulnerável.

O Ambiente Fala: Onde Esses Microrganismos Gostam de “Esperar”

Os microrganismos resistentes podem ser encontrados em praticamente qualquer superfície no ambiente de saúde, mas alguns locais são mais propícios à sua persistência:

  • Superfícies de Alto Toque: Maçanetas, interruptores de luz, grades de leito, mesas de cabeceira, telefones, teclados de computador, bombas de infusão e equipamentos médicos compartilhados são frequentemente contaminados e podem abrigar microrganismos por longos períodos.
  • Dispositivos Médicos: Cateteres, ventiladores mecânicos, endoscópios e outros dispositivos médicos podem ser colonizados por biofilmes, comunidades de microrganismos aderidas a uma superfície e envoltas por uma matriz protetora, o que os torna mais resistentes à limpeza e desinfecção e serve como reservatório de infecção.
  • Água e Ambientes Úmidos: Pias, ralos, umidificadores e outros locais com umidade podem favorecer a proliferação de certas bactérias gram-negativas e fungos.
  • Roupas de Cama e Cortinas: Tecidos podem reter microrganismos e poeira, servindo como fonte de contaminação se não forem trocados e higienizados adequadamente.

Nosso Exército de Defesa: Os Cuidados de Enfermagem Contra a Sobrevivência dos Supermicróbios

Entender o tempo de sobrevivência e os locais onde os microrganismos resistentes podem se esconder reforça ainda mais a importância dos nossos cuidados diários:

  • Adesão Impecável à Higiene das Mãos: Lavar as mãos corretamente e nos momentos certos é a medida mais eficaz para interromper a cadeia de transmissão de microrganismos, incluindo os resistentes.
  • Limpeza e Desinfecção Rigorosas: Seguir os protocolos de limpeza e desinfecção de superfícies e equipamentos, utilizando os produtos adequados e nas concentrações corretas. Dar atenção especial às superfícies de alto toque.
  • Uso Adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPI): Utilizar luvas, aventais, máscaras e óculos de proteção conforme a indicação para evitar a contaminação das mãos e roupas e proteger o paciente.
  • Manejo Seguro de Resíduos: Descartar resíduos contaminados de forma adequada para evitar a disseminação de microrganismos.
  • Prevenção de Infecções Relacionadas a Dispositivos: Seguir os protocolos para inserção, manutenção e remoção de dispositivos invasivos, minimizando o tempo de permanência e manipulando-os com técnica asséptica.
  • Uso Prudente de Antimicrobianos: Administrar antibióticos apenas quando estritamente necessário, na dose e duração corretas, conforme a prescrição médica, e participar de programas de stewardship de antimicrobianos.
  • Educação do Paciente e Familiares: Orientar sobre a importância da higiene das mãos e outras medidas para prevenir a propagação de infecções.
  • Vigilância e Notificação: Estar atento à ocorrência de infecções e notificar a equipe de controle de infecção hospitalar.

Lembrem-se, a nossa atuação vigilante e a aplicação consistente das medidas de prevenção são a nossa principal arma contra a persistência e a disseminação dos microrganismos resistentes. Cada um de nós tem um papel crucial nessa batalha invisível pela segurança dos nossos pacientes.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Higienização das Mãos: Guia para Profissionais de Saúde. 2. ed. Brasília: ANVISA, 2009. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicos-de-saude/publicacoes/manual_higienizacao_maos_2ed.pdf.
  2. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). How Long Can Germs Live on Surfaces? 2020. Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/more-info/cleaning-disinfecting.html.
  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Antimicrobial Resistance. 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/antimicrobial-resistance

Acinetobacter

acinetobacter

O ambiente hospitalar é inevitavelmente um grande reservatório de patógenos virulentos e oportunistas, de modo que as infecções hospitalares podem ser adquiridas não apenas por pacientes, que apresentam maior susceptibilidade, mas também, embora menos freqüentemente, por visitantes e funcionários do próprio hospital.

A importância do Acinetobacter tem aumentado nos últimos anos devido à sua grande capacidade em adquirir mecanismos de resistência às diferentes classes de antibióticos e à sua grande aptidão em sobreviver e se adaptar a condições adversas. Todos estes fatores tornam-no responsável por uma morbilidade e mortalidade elevada, especialmente, nos doentes críticos.

O gênero Acinetobacter consiste num bacilo gram-negativo, ubiquitário, aeróbio estrito, não fermentador, pouco exigente, imóvel, catalase positiva e oxidase negativa. Estão descritas cerca de 31 espécies genômicas: Acinetobacter calcoaceticus, A. baumannii, A. haemolyticus, A. junii, A. johnsonii, A. lwoffii, A. radioresistens e outras espécies não denominadas, e todos podem causar infecção nos seres humanos. O Acinetobacter Baumannii é encontrado em 80% dos casos, segundo estudos.

Apesar da preferência das bactérias Gram – por ambientes úmidos, Acinetobacter sp pode sobreviver em locais secos, como chão, colchões, mesas, luvas, termômetros, fluxômetros, travesseiros e materiais de fórmica, como prontuários, por até 13 dias.

Acinetobacter baumannii pode ter alto grau de hidrofobicidade, com capacidade de aderir a plásticos, inclusive superfícies de cateteres, tubos endotraqueais e outros materiais desse tipo.

Acinetobacter sp também pode ser encontrado em fontes úmidas no ambiente hospitalar, tais como válvulas e circuitos de ventiladores mecânicos, umidificadores e leite humano proveniente de bancos de leite.

Variedade de Doenças promovida pelo Acineto

O Acinetobacter pode causar uma grande variedade de doenças como: pneumonia,sepse, infecções de pele e feridas infectadas, e os sintomas variam de acordo com o local da infecção, e podendo colonizar pacientes sadios e pacientes com traqueostomia e feridas abertas. Outras espécies do gênero Acinetobacter podem também estar envolvidos em infecções: A. johnsonii, A. lwiffii e A. radioresistens habitam a pele humana, são comensais na orofaringe e vagina. A. lwoffii está associado à meningite; A. ursingii a infecções na corrente sanguínea de pacientes hospitalizados; A. junii, embora raramente, causa infecção ocular e bacteriemia, particularmente em pacientes pediátricos; A. schindleri já foi isolado de várias amostras humanas como secreção vaginal, cervical, garganta, nariz, ouvido, conjuntiva e urina, mas a maioria sem significado clínico.

Pacientes de Alto risco: Os mais prejudicados

– Pacientes com alterações no sistema imunológico;
– Pacientes com enfermidades pulmonares crônicas e diabéticos;
– Paciente  hospitalizados sob situações críticas, em ventilação mecânica;
– Pacientes que apresentam feridas abertas e que possuem dispositivos invasivos;

Métodos de Prevenção

Como o Acinetobacter vive na pele e pode sobreviver vários dias , devemos tomar devidos cuidados com a higienização das mãos para evitar a proliferação destas bactérias,  cuidados nos procedimentos invasivos como a utilização correta dos materiais assépticos e estéreis, evitando a contaminação em campos estéreis, e principalmente com isolamento de contato adequado, e cuidados na manipulação e higienização com todos os materiais usados pelo paciente, assim, a fim de evitar a disseminar a contaminação cruzada.