Tudo sobre a coleta de sangue à vácuo

A coleta de sangue é um procedimento fundamental na rotina hospitalar e ambulatorial, sendo crucial para diagnósticos, monitoramento de doenças e avaliação de tratamentos. Entre os métodos mais utilizados está a coleta de sangue à vácuo, considerada segura, rápida e eficaz.

Mas como ela funciona na prática? Quais cuidados devem ser tomados? E como o profissional de enfermagem deve se preparar?

Neste artigo, vamos explorar todos os aspectos da coleta de sangue à vácuo, de forma clara, natural e didática, especialmente para quem está começando na enfermagem.

O Que É o Sistema a Vácuo? 

O sistema de coleta de sangue a vácuo é um conjunto fechado e estéril que permite coletar múltiplas amostras de sangue de uma única punção venosa. A “mágica” acontece por causa da pressão negativa (vácuo) dentro dos tubos de coleta.

Ele é composto por três elementos principais que trabalham em harmonia:

  1. Agulha de Múltiplas Coletas (ou Agulha de Punção): É uma agulha com duas pontas. Uma ponta (a mais longa e visível) é usada para puncionar a veia do paciente. A outra ponta (mais curta e protegida por uma capa de borracha) é inserida no tubo de coleta.
  2. Holder (Adaptador ou Suporte): É um cilindro de plástico que serve como um “cabo” para a agulha de punção e onde o tubo a vácuo é encaixado. Ele permite que a agulha perfure a tampa do tubo sem que o sangue vaze para fora.
  3. Tubos a Vácuo (Vacuolizadores): São os tubos de coleta de sangue, feitos de plástico ou vidro, que contêm uma quantidade predeterminada de vácuo em seu interior. Essa pressão negativa é o que “puxa” o sangue para dentro do tubo automaticamente quando a agulha o perfura. Muitos desses tubos já vêm com aditivos específicos (anticoagulantes, géis separadores) para os diferentes tipos de exames.

Por Que o Sistema a Vácuo É o Padrão Ouro? As Vantagens Inegáveis

Se você já coletou sangue com seringa e agulha convencionais, sabe que é possível. Mas o sistema a vácuo oferece uma série de benefícios que o tornam a escolha preferencial:

  • Segurança para o Profissional: O sistema é fechado. Isso significa que há menor exposição ao sangue, reduzindo o risco de acidentes com perfurocortantes (como o reencape da agulha) e contaminação. As agulhas de segurança (que se retraem ou possuem um protetor após o uso) aumentam ainda mais essa segurança.
  • Segurança para o Paciente:
    • Menos Punções: Como a agulha de múltipla coleta permite acoplar vários tubos, geralmente é necessária apenas uma única punção venosa para coletar todas as amostras necessárias. Isso significa menos dor e trauma para o paciente.
    • Qualidade da Amostra: O vácuo dos tubos é calibrado para puxar a quantidade exata de sangue necessária, evitando excesso ou falta de volume. Além disso, a velocidade de entrada do sangue é controlada, minimizando a hemólise (quebra das células sanguíneas), o que comprometeria o resultado do exame.
  • Padronização e Eficiência: Os tubos já vêm com os aditivos corretos e na proporção certa, eliminando a necessidade de transferir sangue para outros recipientes e misturar manualmente, o que pode gerar erros. O processo é mais rápido e organizado.
  • Controle de Infecção: Por ser um sistema fechado e de uso único, diminui drasticamente o risco de contaminação das amostras e de infecções cruzadas.

O Passo a Passo da Coleta a Vácuo

Para que a coleta a vácuo seja um sucesso, cada etapa é importante:

Preparação de Material:

    • Luvas de procedimento.
    • Agulha de múltipla coleta (calibre adequado para a veia e o exame).
    • Holder.
    • Garrote (torniquete).
    • Antisséptico (álcool 70% ou clorexidina alcoólica 0,5%).
    • Algodão seco.
    • Esparadrapo/micropore.
    • Tubos a vácuo (na ordem correta de coleta, que geralmente segue a padronização do laboratório para evitar contaminação por aditivos).
    • Caixa de descarte de perfurocortantes (descarpack).
    • Bandeja limpa.

Preparação do Paciente:

    • Identificação: Confirmar a identificação do paciente (nome completo, data de nascimento) e os exames solicitados. ESSENCIAL!
    • Orientação: Explicar o procedimento, tranquilizar o paciente, e questionar sobre alergias, histórico de desmaios ou problemas de coagulação.
    • Posicionamento: Deixar o paciente confortável, com o braço estendido e apoiado.

Seleção do Local de Punção:

    • Geralmente as veias da fossa cubital (dobra do cotovelo) são as preferenciais (cefálica, basílica, mediana cubital).
    • Avaliar veias calibrosas, visíveis e palpáveis, sem sinais de inflamação ou esclerose.
    • Palpação: Usar luvas para palpar a veia.

Colocação do Garrote:

    • Aplicar o garrote 5 a 10 cm acima do local de punção.
    • Pedir para o paciente fechar e abrir a mão algumas vezes, e mantê-la fechada.
    • Tempo: O garrote não deve ficar por mais de 1 minuto, para evitar hemoconcentração e alteração dos resultados.

Antissepsia:

    • Realizar a desinfecção da pele com álcool 70% ou clorexidina alcoólica 0,5%, em movimentos únicos e amplos do centro para a periferia.
    • Aguardar a secagem completa do antisséptico para evitar hemólise e dor.

Punção Venosa:

    • Com a pele esticada e firme, introduzir a agulha com o bisel para cima, em um ângulo de 15 a 30 graus, no sentido do fluxo venoso.
    • Quando a agulha estiver dentro da veia, você sentirá uma pequena “perda de resistência”.

Conexão dos Tubos:

    • Com a agulha estabilizada na veia, encaixe o primeiro tubo no holder e empurre-o até que a agulha perfure a tampa. O sangue começará a fluir automaticamente devido ao vácuo.
    • Deixar o tubo encher completamente.
    • Remoção do Garrote: Assim que o sangue começar a fluir para o primeiro tubo, ou antes de preencher o último tubo (dependendo do protocolo do laboratório), solte o garrote.
    • Inversão dos Tubos: Remover o tubo do holder e inverter (virar suavemente para cima e para baixo) o número de vezes recomendado pelo fabricante para garantir a mistura adequada do sangue com o aditivo.
    • Encaixar os tubos seguintes na ordem correta, invertendo-os também.

Ordem de coleta dos tubos

A ordem correta de coleta evita contaminações entre os aditivos dos tubos. Um exemplo padrão é:

  1. Tubo para hemocultura (quando solicitado)
  2. Tubo com citrato de sódio (coagulação – tampa azul)
  3. Tubo sem aditivo ou com ativador de coágulo (bioquímica – tampa vermelha ou amarela)
  4. Tubo com heparina (gases ou bioquímica – tampa verde)
  5. Tubo com EDTA (hematologia – tampa roxa)
  6. Tubo com fluoreto (glicose – tampa cinza)

Remoção da Agulha:

    • Após coletar todas as amostras, remover o último tubo.
    • Colocar um algodão seco sobre o local da punção (sem pressionar a agulha!).
    • Remover a agulha com um movimento rápido e firme.
    • Ativar o dispositivo de segurança da agulha imediatamente.

Compressão e Curativo:

    • Orientar o paciente a comprimir o local da punção com o algodão seco por 2 a 5 minutos (ou mais se ele for anticoagulado).
    • Verificar se não há sangramento ou hematoma.
    • Fazer um pequeno curativo compressivo.

Descarte e Organização:

    • Descartar a agulha no descarpack imediatamente.
    • Descartar luvas e demais materiais no lixo hospitalar.
    • Organizar os tubos na bandeja para encaminhamento ao laboratório.

Cuidados de Enfermagem

Nosso papel vai muito além de seguir um protocolo. A coleta de sangue é um momento de ansiedade para muitos pacientes, e nossa postura faz toda a diferença:

  • Comunicação Clara e Empática: Explicar o que será feito, tranquilizar o paciente, responder às suas perguntas. Se for uma criança, envolver os pais e usar uma linguagem lúdica.
  • Observação Constante: Atentar para a reação do paciente (palidez, sudorese, tontura – sinais de lipotimia/desmaio).
  • Manejo da Dor: Realizar a punção de forma rápida e precisa. Se o paciente relatar muita dor, reavaliar a técnica.
  • Prevenção de Complicações:
    • Hematomas: Orientar sobre a compressão adequada e evitar múltiplas punções.
    • Lipotimia/Desmaio: Se o paciente referir tontura, deitá-lo, elevar as pernas e monitorar.
    • Dor Pós-Coleta: Explicar que uma leve dor ou sensibilidade é normal, mas que dor intensa ou inchaço devem ser comunicados.
  • Qualidade da Amostra: Garantir que os tubos sejam preenchidos até o volume indicado e que a inversão seja feita corretamente para evitar amostras coaguladas ou hemolisadas.
  • Registro: Documentar o procedimento, o local da punção, as intercorrências e as orientações fornecidas.

A coleta de sangue a vácuo é uma técnica rotineira, mas que exige maestria e responsabilidade. Ao dominá-la, garantimos não apenas a qualidade dos exames, mas também a segurança e o conforto do nosso paciente, que é sempre a nossa maior prioridade.

Referências:

  1. CLSI. Clinical and Laboratory Standards Institute. Collection of Diagnostic Venous Blood Specimens. 8th ed. Wayne, PA: CLSI, 2017. (Documento M29-A5). (Referência internacional padrão-ouro para coleta de sangue).
  2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Manual de Biossegurança. Brasília, DF: ANVISA. (Buscar por guias e manuais de biossegurança atualizados no site da ANVISA, que abordarão as práticas seguras para coleta de sangue). Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/manuais-e-guias/manual_biosseguranca.pdf.
  3. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre coleta de sangue e segurança do paciente/profissional).

Medicamentos Nefrotóxicos

Os rins desempenham papel essencial na filtração do sangue, eliminação de toxinas e equilíbrio de eletrólitos e líquidos no corpo. No entanto, eles são órgãos altamente vulneráveis a lesões, especialmente causadas por alguns medicamentos. Esses fármacos, conhecidos como nefrotóxicos, podem comprometer a função renal, provocar insuficiência renal aguda ou crônica e gerar complicações graves se não forem utilizados com cautela.

Para o estudante e o profissional de enfermagem, é fundamental compreender quais são os principais medicamentos nefrotóxicos, como eles afetam os rins e quais cuidados devem ser observados durante seu uso.

O Que São Medicamentos Nefrotóxicos?

Medicamentos nefrotóxicos são aqueles capazes de provocar algum tipo de dano ao rim, seja reduzindo o fluxo sanguíneo renal, provocando inflamação ou levando à destruição de células renais. Esse efeito pode ser temporário ou permanente, dependendo da dose, do tempo de uso e das condições de saúde do paciente.

Principais Grupos de Medicamentos Nefrotóxicos

Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs)

Os AINEs, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, são amplamente utilizados para controle da dor e inflamações. Seu uso prolongado ou em doses elevadas pode reduzir o fluxo sanguíneo renal, aumentando o risco de insuficiência renal, especialmente em idosos e pacientes com doenças crônicas.

Antibióticos

Alguns antibióticos, como aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina), vancomicina e anfotericina B, são conhecidos pelo risco de toxicidade renal. Eles podem provocar necrose tubular aguda e perda progressiva da função renal quando não monitorados adequadamente.

Quimioterápicos

Medicamentos utilizados no tratamento do câncer, como cisplatina e ifosfamida, também apresentam potencial nefrotóxico. Eles podem causar lesões diretas nos túbulos renais, além de favorecer distúrbios eletrolíticos importantes.

Contrastes Radiológicos

Os contrastes iodados, usados em exames de imagem como tomografias e angiografias, podem causar nefropatia induzida por contraste, caracterizada por um declínio agudo da função renal horas ou dias após o procedimento. Pacientes diabéticos e com insuficiência renal prévia estão em maior risco.

Imunossupressores

Medicamentos como ciclosporina e tacrolimo, utilizados em transplantes e doenças autoimunes, podem comprometer a circulação renal e provocar hipertensão arterial, além de lesão progressiva do parênquima renal.

Outros Medicamentos

A lista é longa, mas outros exemplos incluem os antifúngicos (como a anfotericina B), antivirais (como a tenofovir, usados para tratar o HIV), inibidores da bomba de prótons (como o omeprazol, em uso prolongado), e até o lítio, usado em psiquiatria.

Fatores de Risco para Nefrotoxicidade

  • Idade avançada
  • Doença renal pré-existente
  • Diabetes mellitus
  • Hipertensão arterial
  • Uso simultâneo de múltiplos medicamentos nefrotóxicos
  • Desidratação

Cuidados de Enfermagem

O nosso papel é fundamental para proteger os rins dos pacientes. Não podemos simplesmente evitar o uso dessas medicações, mas podemos mitigar os riscos.

  1. Avaliação Inicial: Antes da administração, é crucial verificar o histórico do paciente. Perguntar sobre doenças renais pré-existentes, diabetes, hipertensão e idade. Avaliar os exames laboratoriais, como a creatinina e a ureia, que indicam a função renal.
  2. Monitoramento Contínuo: Durante o tratamento, monitorar a função renal é uma prioridade. Verificar a creatinina e a ureia em exames de rotina, e estar atento a sinais clínicos de lesão renal, como a diminuição do débito urinário, edema (inchaço), e alterações na pressão arterial.
  3. Hidratação: A hidratação adequada é a melhor forma de proteger os rins. Incentivar a ingestão de líquidos (oralmente ou, se necessário, por via intravenosa), especialmente antes e após o uso de contrastes radiológicos ou medicamentos altamente nefrotóxicos.
  4. Administração e Doses: Administrar os medicamentos na dose e frequência corretas, sem atrasos ou adiantamentos que possam alterar a concentração sérica. A administração de aminoglicosídeos, por exemplo, deve ser espaçada para permitir a eliminação e diminuir o risco de toxicidade.
  5. Educação ao Paciente: Educar o paciente sobre a importância da hidratação, a necessidade de relatar qualquer alteração na urina (cor, odor, frequência) e evitar o uso de automedicação, especialmente com AINEs.
  6. Comunicação com a Equipe: Relatar imediatamente ao médico qualquer alteração na função renal ou sinais clínicos de lesão. Essa comunicação é vital para que a medicação possa ser ajustada ou suspensa a tempo.

O conhecimento sobre medicamentos nefrotóxicos é indispensável para garantir a segurança do paciente. Embora esses fármacos sejam muitas vezes necessários, seu uso deve ser criterioso, acompanhado por monitoramento contínuo e pela atuação vigilante da equipe de enfermagem. Reconhecer precocemente os sinais de nefrotoxicidade pode evitar complicações graves e preservar a função renal.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia prático para o tratamento de nefropatias por medicamentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_pratico_tratamento_nefropatias_medicamentos.pdf
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA (SBN). Doença Renal Crônica. Disponível em: https://www.sbn.org.br/leigos/doenca-renal-cronica/. 2025. (O site da SBN é uma excelente fonte de informação para pacientes e profissionais).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar os capítulos sobre sistema urinário e administração de medicamentos).
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes clínicas para o cuidado ao paciente com doença renal crônica no Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_clinicas_cuidado_paciente_renal.pdf.
  5. KELLUM, J. A.; LAMEIRE, N. Diagnosis, evaluation, and management of acute kidney injury: a KDIGO summary. Critical Care, v. 17, n. 1, p. 1-15, 2013. Disponível em: https://ccforum.biomedcentral.com/articles/10.1186/cc11454. 
  6. PERAZELLA, M. A. Pharmacology behind common drug nephrotoxicities. Clinical Journal of the American Society of Nephrology, v. 13, n. 12, p. 1897-1908, 2018. Disponível em: https://journals.lww.com/cjasn.

Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM)

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAVM) é uma das infecções hospitalares mais comuns nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e representa um grande desafio para os profissionais de saúde.

Quando falamos de pacientes críticos em ventilação mecânica, o risco de desenvolver essa complicação é significativo, e por isso é tão importante que o time de enfermagem compreenda bem os fatores envolvidos, formas de prevenção e os cuidados diretos com esses pacientes.

Nesta publicação, vamos explorar a PAVM de maneira didática, compreensível e com profundidade suficiente para que estudantes e profissionais da enfermagem possam aplicar esse conhecimento no cuidado diário com segurança e qualidade.

O que é PAVM?

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é definida como uma infecção pulmonar que ocorre após 48 horas da intubação orotraqueal e início da ventilação mecânica invasiva. É uma forma de pneumonia hospitalar, mas com características específicas, pois está diretamente relacionada ao uso do tubo orotraqueal e à presença do ventilador mecânico.

Quando o paciente é intubado, a barreira natural do trato respiratório é rompida, permitindo que microrganismos entrem com mais facilidade nos pulmões. Além disso, a própria manipulação do circuito do ventilador e a aspiração de vias aéreas podem contribuir para a colonização de bactérias nos pulmões.

Como a PAVM se desenvolve?

A PAVM geralmente é causada por bactérias gram-negativas, como Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae, além de gram-positivos como Staphylococcus aureus (inclusive a forma resistente à meticilina – MRSA).

Essas bactérias podem alcançar os pulmões por várias vias:

  • Aspiração de secreções da orofaringe contaminada
  • Formação de biofilme no tubo endotraqueal
  • Contaminação cruzada pelas mãos dos profissionais de saúde
  • Falhas na higienização dos circuitos respiratórios

O risco aumenta conforme o tempo de ventilação se prolonga, sendo um fator de mortalidade significativo entre pacientes críticos.

Sinais de Alerta: Como Desconfiar da PAVM?

Reconhecer a PAVM precocemente é vital. Fique atento a esses sinais no paciente intubado:

  • Febre: É um dos primeiros e mais comuns sinais de infecção.
  • Secreção Traqueal Purulenta: A secreção que vem do tubo fica mais amarelada, esverdeada, espessa e em maior quantidade.
  • Alteração na Ausculta Pulmonar: Presença de roncos, sibilos ou crepitações novas que não estavam lá antes.
  • Piora da Troca Gasosa: O paciente começa a precisar de mais oxigênio no ventilador (aumenta a FiO2) ou o ventilador precisa fazer mais esforço para ventilar (aumenta a pressão de pico).
  • Leucocitose: Aumento do número de glóbulos brancos no hemograma, indicando infecção.
  • Radiografia de Tórax: O raio-X do pulmão pode mostrar infiltrados novos ou progressão de infiltrados anteriores.

Tratamento

O tratamento da PAVM envolve o uso de antibióticos de amplo espectro, muitas vezes ajustados de acordo com a cultura e o antibiograma. O tempo de uso costuma variar entre 7 a 14 dias, dependendo do microrganismo causador e da resposta clínica do paciente.

Mas mais importante do que tratar é prevenir, e é aí que a enfermagem exerce um papel fundamental.

Cuidados de enfermagem na prevenção da PAVM

A prevenção da PAVM exige uma abordagem multiprofissional, mas a enfermagem está na linha de frente dessa missão. Vários protocolos e bundles (conjuntos de medidas baseadas em evidência) são aplicados em UTIs para reduzir a incidência da infecção. Entre os principais cuidados, destacam-se:

Elevação da Cabeceira do Leito: Manter a cabeceira elevada entre 30 a 45 graus (semi-Fowler). Isso reduz o risco de microaspiração de conteúdo gástrico ou secreções da orofaringe para os pulmões.

  • Cuidado de Enfermagem: Avaliar e registrar a elevação da cabeceira regularmente, lembrando de ajustar ao realizar alguns procedimentos (como o banho no le leito ou mudança de decúbito).

Higiene Oral Rigorosa: A boca do paciente intubado é um reservatório de bactérias. A higiene oral deve ser feita com antissépticos (como clorexidina 0,12%) a cada 6 ou 8 horas.

  • Cuidado de Enfermagem: Utilizar escovas macias, gazes e soluções antissépticas. Aspirar as secreções da boca antes e durante a higiene para evitar que desçam para os pulmões. Não esquecer da língua e das gengivas.

Aspiração de Secreções Subglóticas: Alguns tubos orotraqueais especiais possuem um lúmen acima do cuff que permite aspirar as secreções que se acumulam logo acima do balonete.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar se o TOT é um tubo com essa via de aspiração e realizar a aspiração conforme rotina da unidade ou necessidade.

Monitorização da Pressão do Cuff (Balonete): O cuff do TOT deve ser inflado com a pressão correta para evitar vazamentos e microaspirações. Uma pressão muito baixa permite a passagem de secreções, e uma pressão muito alta pode causar lesões na traqueia.

  • Cuidado de Enfermagem: Verificar a pressão do cuff regularmente (a cada 4 a 8 horas, ou conforme protocolo da unidade) com um cuffômetro, mantendo-a entre 20-30 cmH2O.

Avaliação Diária da Necessidade de Sedação e Extubação (Desmame): Quanto menos sedado e menos tempo no ventilador, menor o risco!

  • Cuidado de Enfermagem: Participar ativamente da discussão da equipe sobre a redução da sedação e os critérios para o desmame. Observar o nível de consciência do paciente e sua capacidade de tolerar a diminuição do suporte ventilatório. Realizar testes de respiração espontânea conforme protocolo e com o médico.

Mobilização Precoce e Fisioterapia Respiratória: Manter o paciente o mais ativo possível (mesmo no leito) e realizar fisioterapia respiratória para ajudar na mobilização de secreções e na expansão pulmonar.

  • Cuidado de Enfermagem: Auxiliar a fisioterapia, mudar o paciente de posição, incentivar exercícios passivos e ativos.

Higiene das Mãos: A regra de ouro da prevenção de infecções. Lavar as mãos com água e sabão ou álcool em gel antes e depois de qualquer contato com o paciente, o ventilador ou os equipamentos.

Cuidados com o Circuito Ventilatório: Trocar o circuito (tubos que conectam o paciente ao ventilador) apenas quando sujo ou danificado, e não rotineiramente. Isso evita a manipulação desnecessária e a contaminação.

Papel da enfermagem no manejo do paciente com PAVM

Além da prevenção, o profissional de enfermagem também tem papel importante no cuidado do paciente que já desenvolveu a PAVM. Monitorar os sinais vitais, observar alterações na secreção respiratória, auxiliar na administração correta dos antibióticos, garantir a posição adequada no leito e colaborar para o desmame da ventilação são tarefas fundamentais para o sucesso do tratamento.

A comunicação com a equipe médica e fisioterapêutica também é essencial, pois as decisões devem ser sempre compartilhadas com base na evolução clínica do paciente.

A Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica é uma complicação grave, mas amplamente evitável com medidas simples e eficazes. Para os profissionais e estudantes de enfermagem, entender profundamente o processo de instalação da PAVM, os riscos envolvidos e as estratégias de cuidado pode fazer toda a diferença na vida dos pacientes internados em UTIs.

Estar atento aos protocolos, manter-se atualizado e aplicar o conhecimento técnico com sensibilidade são atitudes que elevam a qualidade da assistência e contribuem diretamente para a segurança do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. Brasília: ANVISA, 2017.
    Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/medidas-de-prevencao-de-infeccao-relacionada-a-assistencia-a-saude/view
  2. RUN-BUISSON, C. Pneumonia associada à ventilação mecânica: uma atualização sobre prevenção e tratamento. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 29, n. 4, p. 399–407, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbti/a/3hKbZYgSPwTqKdWrTjPpNcB/
  3. KLEVENS, R. M. et al. Estimativa da incidência de infecções relacionadas à assistência à saúde nos Estados Unidos. Infection Control and Hospital Epidemiology, v. 28, n. 6, p. 409–414, 2007.Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/infection-control-and-hospital-epidemiology/article/abs/estimating-healthcareassociated-infections/
  4. INSTITUTO BRASILEIRO PARA SEGURANÇA DO PACIENTE. Bundle para prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV). 2022.
    Disponível em: https://segurancadopaciente.com.br/bundle-prevencao-pav/
  5. GARNICA, D. L.; LORENZI-FILHO, G.; AMANCIO, M. D. L. Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica: Fisiopatologia, Diagnóstico e Prevenção. Jornal Brasileiro de Pneumologia, São Paulo, v. 37, n. 6, p. 778-789, nov./dez. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbp/a/yK8gC6mF4hX3jS2pQ7zW/?lang=pt.

Teste de Filkenstein

A Doença de De Quervain, também conhecida como tenossinovite estenosante dos tendões abdutor longo e extensor curto do polegar, é uma condição dolorosa que afeta o punho, especialmente na região lateral (próxima ao polegar). Essa inflamação atinge a bainha que envolve os tendões responsáveis por movimentar o polegar, dificultando atividades simples como segurar objetos, abrir potes ou até digitar.

Um dos métodos mais utilizados para identificar essa condição é o Teste de Finkelstein, um exame clínico rápido e eficaz que ajuda a diferenciar a dor causada pela Doença de De Quervain de outras patologias que também afetam o punho e o polegar.

O Que É a Doença de Quervain? 

A Doença de Quervain, ou tenossinovite estenosante do extensor curto do polegar e abdutor longo do polegar, é uma inflamação dos tendões e da bainha (a “capa” que envolve os tendões) que ficam no punho, do lado do polegar. Esses tendões são essenciais para o movimento do polegar e, quando inflamados, causam dor, inchaço e dificuldade de movimento.

  • Causas Comuns: A repetição de movimentos de pinça ou preensão, como levantar um bebê, digitar no celular com o polegar, ou atividades de jardinagem, pode sobrecarregar esses tendões e levar à inflamação.

O Teste de Finkelstein: O Diagnóstico Clínico na Prática

O Teste de Finkelstein é um procedimento simples e rápido, que provoca o alongamento dos tendões inflamados para verificar se há dor. Ele é considerado positivo se o paciente sentir uma dor aguda e súbita no punho, na base do polegar.

Como o Teste é Realizado?

    1. Peça ao paciente para fechar a mão, formando um punho, com o polegar para dentro. É importante que o polegar esteja totalmente flexionado e envolvido pelos outros dedos.
    2. Peça ao paciente para desviar o punho para o lado ulnar. Ou seja, inclinar a mão para o lado oposto ao polegar, como se estivesse tentando encostar o dedo mindinho no antebraço.
    3. Avalie a resposta:
      • Teste positivo: Se essa manobra causar uma dor aguda e intensa no punho, na região dos tendões do polegar.
      • Teste negativo: Se o paciente não sentir dor ou apenas um leve desconforto sem características de dor aguda.
  • Mecanismo da Dor: A manobra de desvio ulnar estica os tendões extensor curto do polegar e abdutor longo do polegar, que estão inflamados. O atrito desses tendões inchados contra a bainha apertada provoca a dor característica da Doença de Quervain.

Diagnóstico Diferencial: A Importância de um Olhar Completo

Embora o Teste de Finkelstein seja muito útil, é importante lembrar que ele é apenas uma ferramenta. A dor no punho pode ter outras causas, como a rizartrose (artrose na base do polegar) ou outras tendinites. Por isso, uma anamnese detalhada e um exame físico completo são essenciais para confirmar o diagnóstico. O médico também pode solicitar exames de imagem, como uma ultrassonografia, para visualizar a inflamação dos tendões.

Tratamento e Cuidados de Enfermagem

Após o diagnóstico, o nosso papel na enfermagem é crucial no suporte ao paciente. O tratamento para a Doença de Quervain visa reduzir a inflamação e a dor e, na maioria dos casos, não é cirúrgico.

Repouso e Imobilização:

    • Orientar o paciente: Explicar a importância de evitar os movimentos que causam a dor.
    • Uso de órtese: Orientar sobre o uso de uma órtese (tala) específica para o polegar e o punho, que ajuda a imobilizar a articulação e a diminuir a inflamação.

Manejo da Dor e Inflamação:

    • Compressas frias: Orientar a aplicação de compressas frias (gelo) na área afetada por 15-20 minutos, várias vezes ao dia, para diminuir o inchaço e a dor.
    • Medicamentos: Administrar e orientar sobre o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) orais ou tópicos.

Educação em Saúde e Prevenção:

    • Ergonomia: Ensinar o paciente sobre ergonomia no trabalho e no dia a dia. Por exemplo, a forma correta de segurar um bebê, de usar o celular, ou de segurar objetos.
    • Exercícios de Fisioterapia: Acompanhar o paciente em exercícios de alongamento e fortalecimento, que são essenciais para a recuperação e para prevenir a recorrência da doença.

Suporte em Procedimentos:

    • Infiltrações: Em casos mais persistentes, o médico pode optar por uma infiltração com corticoides. Nosso papel é de preparar o paciente, acalmá-lo, auxiliar no procedimento e orientar sobre os cuidados pós-procedimento.
    • Cirurgia: Se o tratamento conservador falhar, a cirurgia pode ser necessária. Nosso cuidado se estende ao pré e pós-operatório, com monitoramento da ferida, controle da dor e estímulo à reabilitação.

O Teste de Finkelstein é mais do que um nome na literatura médica; é uma ferramenta prática que nos ajuda a dar um nome à dor do paciente. Com nosso conhecimento, podemos não apenas diagnosticar, mas também oferecer o suporte e a educação necessários para que o paciente se recupere e retome suas atividades com mais conforto e segurança.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA DA MÃO (SBCM). Doença de Quervain. Disponível em: https://www.cirurgiadamao.org.br/doencas-da-mao/doenca-de-quervain/.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual de Reabilitação da Mão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. (Consultar os capítulos sobre tendinopatias e reabilitação da mão). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_reabilitacao_mao.pdf.
  3. BICKLEY, L. S.; SZILAGYI, P. G.; HOFFMAN, R. M. Bates: Guia de Bolso para Exame Físico e História Clínica. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. (Consultar capítulo sobre exame físico do sistema musculoesquelético).

Dietas Hospitalares: Entendendo Cada Tipo e Seu Papel na Recuperação do Paciente

A alimentação é uma parte fundamental do tratamento de qualquer paciente. No ambiente hospitalar, a dieta não é apenas uma forma de nutrição, mas uma ferramenta terapêutica poderosa, que pode auxiliar na recuperação, no controle de doenças e na preparação para procedimentos.

Para nós, estudantes e profissionais de enfermagem, entender os diferentes tipos de dietas é crucial. É na nossa rotina que checamos a bandeja, servimos as refeições e orientamos o paciente sobre a importância de se alimentar corretamente.

As dietas hospitalares são classificadas para atender às necessidades específicas de cada paciente, considerando seu estado de saúde e suas restrições.

Vamos desvendar os principais tipos e entender o papel de cada um no processo de cura?

O Básico das Dietas Hospitalares

Antes de aprofundarmos nos tipos, é importante saber que a classificação das dietas hospitalares é uma padronização para facilitar a comunicação entre a equipe de saúde. Elas levam em conta a consistência dos alimentos, a quantidade de fibras, gorduras e outros nutrientes, e são prescritas pelo médico e elaboradas pelo nutricionista.

Dieta Hídrica: A Primeira Etapa da Alimentação

A dieta hídrica é a mais restrita de todas. Ela é composta apenas por líquidos transparentes, sem resíduos.

  • O que inclui: Água, água de coco, chás claros (sem leite), gelatina sem corante, sucos de frutas coados e caldos coados.
  • Para que serve: É usada para manter a hidratação e fornecer eletrólitos, mas com o mínimo de esforço digestivo.
  • Indicações Comuns:
    • Período de curto prazo após grandes cirurgias (especialmente no trato gastrointestinal).
    • Preparação para exames de imagem (como colonoscopia).
    • Em pacientes com quadros de diarreia ou vômitos agudos.
  • Cuidados de Enfermagem: Monitorar a tolerância do paciente, a quantidade de líquidos ingeridos, os sinais de desidratação e o balanço hídrico.

Dieta Líquida: Um Passo Adiante

A dieta líquida é uma evolução da dieta hídrica, permitindo uma gama maior de líquidos, mas ainda com pouca fibra e resíduos.

  • O que inclui: Tudo da dieta hídrica, mais sucos de frutas integrais (não coados), vitaminas de frutas (sem leite), sopas cremosas (passadas no liquidificador), caldos de carne e vegetais, sorvetes e pudins.
  • Para que serve: Aumentar a ingestão calórica e proteica em comparação com a dieta hídrica, enquanto mantém a digestão facilitada.
  • Indicações Comuns:
    • Pós-operatório de cirurgias mais simples.
    • Pacientes com dificuldade de mastigação ou deglutição.
    • Transição entre a dieta hídrica e a pastosa.
  • Cuidados de Enfermagem: Avaliar a deglutição, a aceitação da dieta e a presença de náuseas ou vômitos após as refeições.

Dieta Pastosa: A Consistência que Ajuda

A dieta pastosa já inclui alimentos sólidos, mas com uma consistência modificada para facilitar a mastigação e a deglutição.

  • O que inclui: Sopas cremosas com pedaços macios, purês (de batata, abóbora), papas de legumes, frutas amassadas, carnes moídas ou desfiadas, ovos mexidos.
  • Para que serve: Fornecer uma nutrição mais completa para pacientes com dificuldades orais, gástricas ou esofágicas.
  • Indicações Comuns:
    • Pacientes com problemas neurológicos que afetam a deglutição (disfagia).
    • Pós-operatório de cirurgias na boca, esôfago ou estômago.
    • Idosos com dificuldades de mastigação.
  • Cuidados de Enfermagem: Certificar-se de que a consistência está correta, observar sinais de engasgo, estimular o paciente a comer devagar e com tranquilidade.

Dieta Branda: A Transição para a Normalidade

A dieta branda é um intermediário entre a pastosa e a dieta livre. Os alimentos são sólidos, mas preparados de forma a serem de fácil digestão.

  • O que inclui: Carnes cozidas e macias, arroz, macarrão, legumes cozidos (sem casca), pães, biscoitos simples. Evita-se frituras, condimentos fortes, alimentos ricos em gordura e fibras duras.
  • Para que serve: Oferecer uma dieta completa e equilibrada para pacientes em recuperação, sem sobrecarregar o sistema digestivo.
  • Indicações Comuns:
    • Pós-operatório de cirurgias abdominais mais complexas.
    • Pacientes com úlceras gástricas, gastrites ou outras inflamações do trato gastrointestinal.
  • Cuidados de Enfermagem: Avaliar a tolerância do paciente a novos alimentos e a presença de desconforto abdominal. Orientar sobre a importância de mastigar bem os alimentos.

Dieta Leve: Pouca Gordura e Fibra

A dieta leve é muito similar à dieta branda, mas com um foco maior na redução de gorduras e no controle das fibras, buscando uma digestão ainda mais fácil.

  • O que inclui: Alimentos cozidos, grelhados ou assados. Carnes magras, legumes sem casca e sementes. Evita-se alimentos crus, frituras e temperos fortes.
  • Para que serve: Manter a nutrição completa, evitando sintomas gastrointestinais como gases, inchaço e desconforto.
  • Indicações Comuns:
    • Pacientes em fase final de recuperação de cirurgias ou doenças gastrointestinais.
    • Condições como a síndrome do intestino irritável.
  • Cuidados de Enfermagem: Acompanhar a aceitação do paciente e sua evolução. Incentivar o paciente a relatar qualquer desconforto.

Dieta Livre (ou Normal): De Volta ao Cotidiano

A dieta livre é, como o nome sugere, a dieta normal do paciente. Ela não possui restrições de consistência, preparo ou tipo de alimento, a menos que haja alguma necessidade terapêutica específica.

  • Para que serve: Nutrir o paciente de forma completa e satisfatória, preparando-o para o retorno à vida normal.
  • Indicações Comuns: Pacientes que não possuem restrições nutricionais e estão em condições estáveis de saúde.
  • Cuidados de Enfermagem: Continuar a monitorar a aceitação da dieta, mas o foco passa a ser a educação nutricional para a alta hospitalar.

Outros Tipos de Dietas Comuns

Além das dietas de consistência, existem outras classificações importantes:

  • Dieta Hipossódica: Restrita em sal e sódio, indicada para pacientes com hipertensão arterial, doenças renais ou retenção de líquidos.
  • Dieta para Diabetes (Controle de Carboidratos): Controla a quantidade e o tipo de carboidratos, essencial para pacientes com diabetes mellitus.
  • Dieta Hiperproteica/Hipercalórica: Indicada para pacientes com desnutrição, queimaduras, ou em recuperação de grandes cirurgias, para promover a cicatrização e o ganho de massa muscular.
  • Dieta Parenteral: A nutrição é administrada diretamente na veia, sem passar pelo trato gastrointestinal. Usada em pacientes que não conseguem se alimentar por via oral ou enteral.
  • Dieta Enteral: Nutrição administrada por meio de sondas (nasogástrica, nasoenteral, gastrostomia), quando o paciente não consegue se alimentar pela boca, mas seu intestino funciona.

Cuidados de Enfermagem

Nosso papel na enfermagem vai muito além de apenas “entregar a bandeja”. Somos a ponte entre a dieta prescrita e a necessidade do paciente:

  1. Verificação da Prescrição: Conferir se a dieta entregue corresponde à prescrição médica.
  2. Preparação do Paciente e do Ambiente: Posicionar o paciente de forma confortável, lavar suas mãos, e garantir que o ambiente seja tranquilo para a refeição.
  3. Avaliação da Aceitação: Observar se o paciente está conseguindo se alimentar, se ele tolera a dieta, e se há recusa alimentar.
  4. Apoio e Estímulo: Incentivar o paciente a comer, oferecer ajuda, se necessário, e orientar sobre a importância da alimentação no tratamento.
  5. Monitoramento: Registrar o volume e o tipo de alimentos ingeridos, o balanço hídrico, a ocorrência de náuseas, vômitos ou distensão abdominal.
  6. Comunicação: Relatar qualquer intercorrência à equipe médica e ao nutricionista para que a dieta possa ser ajustada.

Com nosso conhecimento e atenção, a dieta hospitalar se torna um elemento de cuidado completo, garantindo que o paciente receba o suporte nutricional necessário para sua plena recuperação.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Manual de Terapia Nutricional. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_terapia_nutricional.pdf.
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRIÇÃO PARENTERAL E ENTERAL (BRASPEN). Diretrizes Braspen de Terapia Nutricional. Disponível em: http://braspen.com.br/diretrizes/.
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulos sobre nutrição e cuidados de enfermagem).
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de dietas hospitalares. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_dietas_hospitalares.pdf.
  5. PHILIPPI, S. T. Nutrição e técnica dietética. 4. ed. Barueri: Manole, 2019. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520458726
  6. CUPPARI, L. Nutrição clínica no adulto. 3. ed. Barueri: Manole, 2019. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520458634

Curativo Oclusivo x Curativo Compressivo: Entendendo as Diferenças

O cuidado com feridas faz parte da rotina da enfermagem e exige conhecimento técnico aliado a um olhar sensível. Entre os muitos tipos de curativos, dois se destacam pelo uso frequente e por atenderem a objetivos bastante distintos: o curativo oclusivo e o curativo compressivo.

Para o estudante de enfermagem, entender as diferenças entre esses dois tipos é essencial para aplicar um cuidado seguro e eficaz. Nesta publicação, vamos explicar com detalhes o que caracteriza cada curativo, suas indicações, objetivos e cuidados de enfermagem.

O Curativo, Nosso Grande Aliado: Mais Que Um Simples Band-Aid

Antes de detalhar cada tipo, é bom lembrar qual é o objetivo geral de qualquer curativo:

  • Proteger a ferida: Contra contaminação externa, atrito e traumas.
  • Absorver exsudato: Gerenciar o fluido que a ferida produz.
  • Manter um ambiente úmido: Essencial para a cicatrização (a não ser em casos específicos).
  • Promover o conforto: Reduzir a dor e proteger o local.

Curativo Oclusivo: O Escudo Protetor e o Ambiente Ideal

Imagine um curativo que sela a ferida, isolando-a completamente do ambiente externo. É isso que faz o curativo oclusivo. Ele é como um “escudo” ou uma “barreira” que mantém a umidade ideal para a cicatrização e protege contra a entrada de bactérias e outros microrganismos.

Como é Feito?

    • Utiliza materiais que não permitem a passagem de ar ou fluidos, criando um ambiente fechado.
    • Exemplos comuns incluem filmes transparentes semipermeáveis (aqueles que parecem um plástico fininho e grudam na pele, permitindo ver a ferida), hidrocoloides, hidrogéis e algumas espumas.
    • É sempre fixado firmemente na pele ao redor da ferida, garantindo que não haja “brechas” para a entrada de ar ou bactérias.

Para Que Serve? Quais Suas Indicações?

    • Manter a Umidade: A principal função é criar um ambiente úmido. Isso é super importante, pois a cicatrização ocorre de forma mais eficiente em meio úmido, facilitando a migração celular e a formação de novo tecido. Feridas secas cicatrizam mais lentamente.
    • Prevenção de Contaminação: Por isolar a ferida, impede que bactérias, sujeira ou outras partículas do ambiente entrem em contato com a lesão.
    • Autólise: Alguns materiais oclusivos (como os hidrocoloides) promovem o desbridamento autolítico, que é a remoção natural de tecido morto do corpo, amolecendo-o.
    • Proteção de Cateteres: É amplamente utilizado em sítios de inserção de cateteres venosos centrais (CVC), como o PICC ou o cateter de curta permanência, para protegê-los de infecções. Nesses casos, usa-se o filme transparente que permite a visualização do sítio.
    • Feridas Limpas: Geralmente indicado para feridas limpas, com pouca ou nenhuma infecção, e que apresentem pouca exsudação.

Cuidados de Enfermagem Essenciais:

    • Avaliação Diária da Ferida: Mesmo sob oclusão, é crucial observar a ferida diariamente através do curativo transparente ou, se o material for opaco, na troca do curativo. Fique atento a sinais de infecção (vermelhidão, inchaço, dor, calor, pus), odor fétido ou aumento da exsudação.
    • Integridade do Curativo: Checar se o curativo está bem aderido, sem descolamento nas bordas, que comprometeria a oclusão.
    • Troca no Tempo Certo: Seguir as recomendações do fabricante do material ou o protocolo da instituição para a frequência de troca.
    • Limpeza Rigorosa: Sempre realizar a limpeza da pele ao redor da ferida e do próprio curativo (se transparente) com técnica asséptica.

Curativo Compressivo: A Força Contra o Sangramento e o Edema

Agora, pense em um curativo que não só cobre, mas também aplica uma pressão firme sobre a ferida ou a área lesionada. Esse é o curativo compressivo. Sua principal função não é selar, mas sim comprimir.

Como é Feito?

    • Utiliza gazes, compressas ou ataduras elásticas aplicadas com firmeza sobre a área, exercendo pressão.
    • Pode ser aplicado sobre um curativo de base (oclusivo ou não) para reforçar a pressão.
    • A pressão deve ser firme, mas nunca a ponto de prejudicar a circulação.

Para Que Serve? Quais Suas Indicações?

    • Controle de Hemorragias: É a indicação mais imediata e vital. A pressão direta sobre um sangramento ajuda a estancá-lo, favorecendo a formação do coágulo.
    • Prevenção de Hematomas e Edemas: Após cirurgias (especialmente plásticas ou ortopédicas) ou lesões, a compressão ajuda a limitar o acúmulo de sangue (hematoma) ou líquido (edema/inchaço) na área.
    • Fixação de Enxertos: Em cirurgias de enxerto de pele, o curativo compressivo ajuda a manter o enxerto bem aderido ao leito receptor, promovendo sua “pegada”.
    • Imobilização: Em alguns casos, pode auxiliar na imobilização de uma área, especialmente após torções ou fraturas.
    • Redução de Espaço Morto: Após a retirada de drenos cirúrgicos, uma compressão leve pode ajudar a obliterar o espaço que existia, evitando acúmulo de líquidos.

Cuidados de Enfermagem Essenciais:

    • Avaliação Circulatória: Crucial! Após aplicar um curativo compressivo, avaliar imediatamente e com frequência a circulação distal ao curativo. Checar:
      • Pulsos: Estão presentes e fortes?
      • Coloração: A pele está rosada, não pálida ou cianótica (azulada)?
      • Temperatura: A pele está aquecida, não fria?
      • Sensibilidade: O paciente sente dor, formigamento ou dormência?
      • Edema: Há inchaço abaixo do curativo?
    • Alívio da Dor: Se o paciente referir dor intensa ou crescente após a aplicação, pode ser sinal de que o curativo está muito apertado.
    • Reapertar se Necessário: Em sangramentos ativos, pode ser necessário reapertar o curativo e, se a hemorragia persistir, comunicar o médico imediatamente.
    • Monitoramento da Ferida: Se o curativo compressivo for opaco, a ferida só será visualizada na troca, que deve ser feita no tempo adequado, ou antes, se houver sinais de complicação.

As Diferenças no “Olho do Cuidado”:

Característica Curativo Oclusivo Curativo Compressivo
Principal Objetivo Proteger e manter ambiente úmido para cicatrização Estancar sangramento, prevenir hematomas/edema
Como Age? Cria uma barreira selada, impede entrada de ar/bactérias Aplica pressão física sobre a área
Materiais Típicos Filmes transparentes, hidrocoloides, hidrogéis, espumas Gaze, compressas, ataduras elásticas, faixas de crepe
Principal Risco Infecção se a ferida já estiver contaminada ou se oclusão for quebrada Compromisso circulatório se muito apertado (síndrome compartimental)
Tipo de Ferida Limpas, com pouca exsudação, proteção de sítios Com sangramento, pós-cirúrgico, prevenção de inchaço

Cuidados de enfermagem na aplicação dos curativos

No curativo oclusivo

  • Avaliar sinais de infecção antes da aplicação.
  • Garantir que a pele esteja seca ao redor da ferida.
  • Evitar excesso de umidade que possa causar maceração.
  • Orientar o paciente a não retirar o curativo antes do tempo indicado.

No curativo compressivo

  • Avaliar pulso distal antes e depois da aplicação para verificar perfusão.
  • Observar sinais de comprometimento circulatório (palidez, frialdade, dormência).
  • Manter a pressão uniforme, sem pontos de estrangulamento.
  • Reposicionar o membro elevado, quando indicado, para auxiliar o retorno venoso.

A correta escolha do tipo de curativo depende da avaliação do enfermeiro, das características da ferida e das condições clínicas do paciente. O uso inadequado pode causar complicações e atrasar o processo de cicatrização.

Embora ambos sejam chamados genericamente de “curativos”, o oclusivo e o compressivo têm propósitos distintos e complementares. O sucesso na cicatrização de uma ferida depende, entre outros fatores, da correta escolha do tipo de curativo, da técnica adequada e da observação constante dos sinais clínicos.

Para o estudante e profissional de enfermagem, dominar esses conhecimentos é fundamental para oferecer um cuidado eficaz, seguro e centrado no paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. 
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
  4. SILVA, A. L. F. et al. Cuidados com feridas: práticas baseadas em evidências. Revista de Enfermagem UFPE, v. 8, n. 3, p. 6132-6139, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem
  5. MEDEIROS, E. A. A. et al. Manual de curativos: prevenção, tratamento e cuidados. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2018.
  6. FERRARI, M. C. C. et al. Terapia compressiva no tratamento de úlceras venosas: uma revisão. Revista Brasileira de Enfermagem, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben

Retirada de Pontos pela Enfermagem

A retirada de pontos, também chamada de remoção de sutura, é um procedimento simples, mas que requer técnica, atenção e responsabilidade por parte da equipe de enfermagem. Após a realização de uma sutura, seja por procedimento cirúrgico ou por fechamento de feridas traumáticas, chega o momento de avaliar a cicatrização e decidir pelo momento ideal de retirada desses fios.

Nesta publicação, vamos explicar de forma clara como esse procedimento é realizado, quando ele deve ser feito, os principais cuidados de enfermagem e as orientações ao paciente.

Por que os pontos são usados?

A sutura é uma técnica que visa unir bordas de uma ferida ou incisão cirúrgica, facilitando a cicatrização por aproximação dos tecidos. O uso de fios de sutura (não absorvíveis) ou grampos permite estabilizar a pele e estruturas mais profundas durante o processo inflamatório e regenerativo.

Quando a ferida já passou pelas fases iniciais da cicatrização e a epiderme está reconstituída, os pontos se tornam desnecessários e sua permanência pode aumentar o risco de infecção ou provocar marcas mais evidentes na pele.

Quando os pontos devem ser retirados?

A decisão de quando remover os pontos não é arbitrária. Depende de vários fatores:

  • Local da Ferida: Áreas com mais movimento (como joelhos e cotovelos) ou mais tensão (como as costas) geralmente precisam de mais tempo para cicatrização e, consequentemente, os pontos ficam por mais tempo.
  • Tipo de Ferida: Incisões cirúrgicas limpas cicatrizam mais rápido do que feridas com bordas irregulares ou mais profundas.
  • Idade e Saúde do Paciente: Pessoas mais jovens e saudáveis tendem a cicatrizar mais rapidamente. Pacientes com diabetes, desnutrição, imunidade baixa ou que usam certos medicamentos (como corticoides) podem ter uma cicatrização mais lenta e os pontos podem precisar ficar por mais tempo.
  • Tensão na Ferida: Se a ferida está sob muita tensão, os pontos podem ficar por mais tempo para evitar que ela se abra.
  • Material do Ponto: Alguns pontos são absorvíveis (caem sozinhos ou são absorvidos pelo corpo), outros são não absorvíveis (precisam ser retirados). Estamos falando aqui dos pontos não absorvíveis.

Em geral, os pontos podem ser retirados entre 7 a 15 dias após a sua colocação. Feridas no rosto, por exemplo, podem ter os pontos retirados em 5 a 7 dias para evitar cicatrizes. Já em áreas de maior movimento, como o joelho, pode-se esperar 14 dias ou mais. A equipe médica sempre deixará uma prescrição ou orientação sobre o tempo ideal.

Quem pode retirar os pontos?

De acordo com a legislação brasileira, o enfermeiro pode realizar a remoção de pontos desde que seja respaldado por prescrição médica ou protocolo institucional, além de possuir conhecimento técnico sobre o procedimento.

Técnicos e auxiliares de enfermagem também podem ser responsáveis pela execução do procedimento, sob supervisão do enfermeiro, desde que o protocolo da instituição permita e a conduta esteja prescrita.

Etapas do procedimento: como retirar os pontos corretamente

A retirada de pontos deve ser feita com técnica asséptica, material esterilizado e muita atenção para evitar complicações, como abertura da ferida ou dor ao paciente.

Passo a passo geral:

  1. Higienização das mãos e paramentação com luvas de procedimento.
  2. Avaliação da ferida: verificar se há sinais de infecção, deiscência (abertura da sutura), vermelhidão ou dor.
  3. Reunião do material necessário, como:
    • Pinça anatômica estéril
    • Tesoura de ponta curva ou removedor de sutura
    • Gaze estéril
    • Antisséptico (geralmente clorexidina aquosa ou PVPI)
  4. Antissepsia do local da ferida com gaze embebida em antisséptico.
  5. Retirada do ponto, cortando o fio próximo à pele e puxando cuidadosamente a outra extremidade com a pinça. Isso evita arrastar a parte externa do fio por dentro da ferida.
  6. Contagem e registro do número de pontos removidos.
  7. Curativo, se necessário, com gaze estéril e micropore.
  8. Orientações ao paciente sobre sinais de alerta e cuidados domiciliares.

Cuidados de enfermagem antes, durante e após a retirada dos pontos

O procedimento em si é rápido, mas o cuidado da enfermagem vai muito além da técnica. É preciso uma avaliação contínua do processo de cicatrização e orientação ao paciente.

Antes da remoção:

  • Verificar a prescrição médica e o prazo adequado
  • Explicar o procedimento ao paciente, promovendo segurança
  • Avaliar se o local apresenta sinais de infecção (pus, dor, rubor, calor)

Durante a remoção:

  • Utilizar técnica asséptica rigorosa
  • Manter o conforto do paciente durante o procedimento
  • Ter atenção para não causar trauma à pele ou sangramentos

Após a remoção:

  • Observar se os bordos permanecem unidos
  • Registrar o procedimento no prontuário
  • Orientar o paciente sobre cuidados com o local da sutura, como:
    • Evitar exposição ao sol por algumas semanas
    • Manter a região limpa e seca
    • Observar sinais de abertura da ferida ou infecção

Quando não remover os pontos?

Existem situações em que a retirada dos pontos deve ser adiada, como:

  • Presença de infecção local
  • Bordos da ferida não aproximados
  • Secreção purulenta ou sangramento persistente
  • Dor intensa à palpação
  • Febre sem causa aparente

Nesses casos, a equipe deve reavaliar com o médico e registrar no prontuário os motivos da não realização do procedimento.

A remoção de pontos, apesar de ser considerada um procedimento simples, envolve responsabilidade, conhecimento técnico e atenção aos detalhes. O profissional de enfermagem tem um papel essencial, tanto na avaliação da ferida quanto no cuidado com o paciente antes, durante e após o procedimento.

Para o estudante de enfermagem, aprender a realizar esse procedimento com segurança é mais do que dominar uma técnica — é compreender o processo de cicatrização, respeitar o tempo do corpo e garantir um cuidado humanizado.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf. Acesso em: 17 jun. 2025.
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre cuidado com feridas e suturas).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
  4. BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução nº 564/2017. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Disponível em:
    https://www.portalcofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html
  5. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.

Antieméticos: Grupos, Medicamentos e Cuidados de Enfermagem

Sentir náuseas e vomitar é algo desconfortável para qualquer pessoa, sobretudo para pacientes em tratamentos como quimioterapia, pós-operatório ou gravidez. É aí que entram os antieméticos — medicamentos com ação específica para prevenir e tratar esses sintomas. No entanto, cada grupo atua de forma distinta e exige atenção da equipe de enfermagem na escolha, administração e monitoramento.

Nesta publicação, explico de forma natural e prática os principais grupos de antieméticos, os medicamentos dentro deles e os cuidados necessários para usá-los de forma segura e eficaz.

Por Que Sentimos Náuseas e Vômitos? O Sistema de Alerta do Corpo

Antes de falar dos medicamentos, é importante saber que náuseas e vômitos não são doenças em si, mas sim sintomas. Eles são um mecanismo de defesa do nosso corpo, uma forma de expulsar substâncias que ele considera prejudiciais ou de sinalizar que algo não está bem.

O centro de vômito, localizado no cérebro, é ativado por diversas vias:

  • Estímulos do trato gastrointestinal: Irritação no estômago ou intestino.
  • Zona quimiorreceptora de gatilho (ZQG): Uma área no cérebro sensível a substâncias tóxicas no sangue (como quimioterápicos).
  • Sistema vestibular: Envolvido no equilíbrio, responsável pelo enjoo de movimento.
  • Córtex cerebral: Estímulos como dor, estresse, ansiedade, ou até mesmo cheiros e visões desagradáveis.

Os antieméticos atuam bloqueando esses diferentes sinais, impedindo que cheguem ao centro de vômito e causem o mal-estar.

Anticolinérgicos (Antimuscarínicos)

Os anticolinérgicos, também chamados antimuscarínicos, agem bloqueando os receptores de acetilcolina no sistema nervoso central e periférico, sendo eficazes em náuseas associadas a distúrbios vestibulares, como tontura e enjoos de movimento.

O exemplo mais conhecido é a escopolamina, usada em adesivo transdérmico para prevenir náuseas por movimento. Entre os efeitos adversos, são comuns boca seca, visão turva, retenção urinária e constipação.

Cuidados de enfermagem: observar sinais de retenção urinária, orientação para não expor a adolescentes/desconforto ocular e registrar a aplicação correta do adesivo.

Anti-histamínicos

Esses medicamentos bloqueiam receptores H1, reduzindo náuseas causadas por estimulação vestibular (como enjoo de movimento ou labirintite). Entre eles estão a prometazina, a dimenidrinato e a hidroxizina .

São eficazes, mas causam sedação, tontura e efeitos anticolinérgicos.

Cuidados de enfermagem: monitorar nível de consciência, orientar sobre evitar atividades que exijam atenção (como dirigir) e planejar administração à noite.

Antagonistas dos receptores de dopamina (principalmente D₂)

Atuam na zona gatilho quimiorreceptora, sendo úteis em vômitos por opióides, anestesia ou quimioterapia. Os principais são a metoclopramida, domperidona, clorpromazina e droperidol. Esses fármacos podem causar sintomas extrapiramidais e prolongar o intervalo QT.

Cuidados de enfermagem: monitorar sinais extrapiramidais (tremores, rigidez), avaliar ECG se houver risco, observar episódios de sonolência e avisar médicas sobre efeitos adversos.

Antagonistas dos receptores de serotonina (5‑HT₃)

São os fármacos mais usados atualmente para vômitos pós-quimioterapia ou pós-operatório. Entre eles destacam-se a ondansetrona, granisetrona, dolasetrona, tropisetrona e palonosetrona.

Esses medicamentos bloqueiam receptores 5‑HT₃ no sistema nervoso central e nas terminações vagais intestinais, reduzindo efetivamente a náusea. Têm efeitos adversos como cefaleia, constipação e prolongamento do QT.

Cuidados de enfermagem: verificar histórico cardíaco, monitorar frequência cardíaca, registrar resposta ao medicamento e ajustar doses conforme prescrição.

Antagonistas dos receptores de neurocinina‑1 (NK₁)

Principais representantes: aprepitanto, fosaprepitanto, casopitanto, rolapitant. Esses bloqueiam os receptores da substância P, sendo eficazes em vômitos tardios relacionados à quimioterapia.

Cuidados de enfermagem: acompanhar possíveis efeitos gastrointestinais (fadiga, diarreia), interações medicamentosas via CYP3A4 (com corticosteroides, por exemplo), e registrar o perfil hepático.

Canabidiol e canabinóides (como nabilona)

Os canabinoides atuam em receptores CB1 e modulam também os receptores 5‑HT₃, reduzindo náuseas. A nabilona, um canabinoide sintético, é aprovada pela FDA para náuseas induzidas por quimioterapia. Já o canabidiol (CBD) tem efeito antiemético e pode ser prescrito no Brasil sob controle especial .

Cuidados de enfermagem: monitorar efeitos como tontura, aumento de apetite, hipotensão ortostática, interações com outros medicamentos e orientar sobre possíveis efeitos psicoativos (mais prevalente com THC).

Outras classes mencionadas em prática

Embora não tenham sido foco principal, vale mencionar: benzodiazepínicos (lorazepam, diazepam) usados para náuseas emocionais, e glucocorticoides (dexametasona), frequentemente combinados com antagonistas 5‑HT₃ e NK₁ para tratar vômitos induzidos por quimioterapia.

Cuidados de Enfermagem

Nós, profissionais de enfermagem, temos um papel crucial no manejo das náuseas e vômitos:

  • Avaliação Abrangente: Não basta saber que o paciente está com náuseas. Precisamos investigar a causa, a intensidade, o que piora e o que melhora.
  • Administração Segura: Conhecer o medicamento, a dose correta, a via, o tempo de infusão e os principais efeitos colaterais.
  • Monitoramento da Eficácia: Observar se o medicamento fez efeito e se o paciente está mais confortável.
  • Manejo de Efeitos Colaterais: Estar atento aos efeitos adversos e saber como agir.
  • Conforto e Medidas Não Farmacológicas: Além do medicamento, oferecer conforto: ambiente calmo, ventilação, compressas frias, alimentos leves (se permitido), e apoio emocional.
  • Educação ao Paciente: Explicar sobre os medicamentos, seus efeitos esperados e os efeitos colaterais que deve relatar.

Os antieméticos não são soluções universais; cada grupo atua em receptores específicos e demanda cuidado dedicado na escolha e uso. Para o estudante de enfermagem, valorizar a farmacologia, aplicar técnicas seguras e observar sinais de complicações torna o cuidado mais eficiente e centrado no paciente.

Referências:

  1. GOODMAN & GILMAN. As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 13. ed. Rio de Janeiro: McGraw Hill Brasil, 2018. (Consultar capítulos sobre fármacos que atuam no sistema nervoso autônomo, agentes procinéticos e antieméticos).
  2. KATZUNG, B. G.; TREVOR, A. J. Farmacologia Básica e Clínica. 14. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. (Consultar capítulo sobre fármacos que atuam no sistema nervoso central e antieméticos).
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ONCOLOGIA CLÍNICA (SBOC). Guia de Recomendações SBOC: Manejo de Náuseas e Vômitos Induzidos por Quimioterapia (NVIQ). Disponível em publicações da SBOC (geralmente atualizadas periodicamente).
  4. LECTURIO. Antieméticos: classes e ação em diferentes receptores. 2022. Disponível em: https://www.lecturio.com/es/concepts/antiemeticos/
  5. NCBI. Cannabinoid Antiemetic Therapy. StatPearls, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK535430/
  6. MEDICINE.CANCER.GOV. Cannabis y canabinoides – náuseas e vômitos. 2025. Disponível em: https://www.cancer.gov/espanol/cancer/tratamiento/mca/pro/cannabis‑pdq/
  7. WIKIPEDIA. Nabilona. 2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nabilona

Medicamentos Mais Utilizados no Centro Cirúrgico

O ambiente do centro cirúrgico é altamente técnico e exige dos profissionais de enfermagem não só agilidade, mas também um conhecimento sólido sobre os medicamentos utilizados durante os procedimentos. Cada fase da cirurgia – da indução anestésica à recuperação – demanda o uso criterioso de fármacos com ações específicas, que precisam ser administrados com precisão e segurança.

Este artigo vai detalhar os principais medicamentos usados no centro cirúrgico, explicando sua função, modo de uso e cuidados de enfermagem necessários. O objetivo é tornar esse conhecimento mais acessível e prático para os estudantes de enfermagem que desejam atuar nessa área ou simplesmente entender melhor a dinâmica da farmacologia cirúrgica.

Etapas da cirurgia e os medicamentos correspondentes

Durante um procedimento cirúrgico, diferentes classes de medicamentos são utilizadas. De maneira geral, eles se distribuem entre pré-anestésicos, anestésicos gerais e locais, bloqueadores neuromusculares, analgésicos, sedativos, antieméticos e antibióticos.

Anestésicos Intravenosos: Para Induzir o Sono Rápido

Esses medicamentos são a “chave” para iniciar a anestesia, fazendo com que o paciente durma rapidamente.

  • Propofol: É o queridinho dos anestesistas por sua ação rápida e despertar suave. É um líquido branco, leitoso (por isso chamado de “leite da amnésia”).
    • Cuidados de Enfermagem: Administrar em veia de bom calibre (pode causar dor na injeção). Monitorar de perto a pressão arterial (pode causar hipotensão) e a frequência respiratória (pode causar depressão respiratória). Verificar se há alergia a soja/ovo (pode conter emulsificante).
  • Etomidato: Usado quando o paciente tem instabilidade hemodinâmica (pressão muito baixa), pois causa pouca alteração cardiovascular.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar de perto os sinais vitais, especialmente em pacientes cardíacos. Pode causar náuseas e vômitos.
  • Midazolam: É um benzodiazepínico, usado principalmente para sedação, ansiólise (diminuir a ansiedade) e indução anestésica em doses mais altas. Causa amnésia, o que é ótimo para o paciente não lembrar do procedimento.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar depressão respiratória. Pode potencializar o efeito de outros depressores do SNC.

Anestésicos Inalatórios: Para Manter o Sono Cirúrgico

Após a indução com os medicamentos intravenosos, a anestesia é geralmente mantida com gases inalatórios, que o paciente respira através de um aparelho de anestesia.

  • Sevoflurano, Isoflurano, Desflurano: São os mais comuns. Mantêm o paciente dormindo e relaxado durante toda a cirurgia.
    • Cuidados de Enfermagem: O enfermeiro circulante e o instrumentador não administram esses medicamentos diretamente, mas são responsáveis por monitorar o paciente (através dos monitores) e o funcionamento do aparelho de anestesia, auxiliando o anestesista. Observar a presença de hipertermia maligna (uma reação rara e grave).

Relaxantes Musculares (Bloqueadores Neuromusculares): Para Deixar os Músculos “Flácidos”

Esses medicamentos paralisam temporariamente os músculos do corpo, incluindo os respiratórios. Isso é essencial para facilitar a intubação e para que o cirurgião possa trabalhar sem os músculos do paciente contraindo.

  • Rocurônio, Atracúrio, Cisatracúrio, Succinilcolina: Cada um tem um tempo de ação diferente. A Succinilcolina tem uma ação muito rápida e curta, usada para intubação de emergência.
    • Cuidados de Enfermagem: É crucial monitorar a ventilação do paciente, pois ele não consegue respirar sozinho sob o efeito desses medicamentos. O paciente deve estar sempre sedado antes de receber um relaxante muscular, pois ele estará paralisado, mas consciente se não sedado! Observar a recuperação do paciente no final da cirurgia (se consegue movimentar-se e respirar sozinho antes de ser extubado).

Reversão do Bloqueio Neuromuscular: Para o Músculo Voltar a Ativar

Ao final da cirurgia, o anestesista pode usar medicamentos para reverter o efeito dos relaxantes musculares, ajudando o paciente a recuperar a força muscular mais rapidamente.

  • Sugamadex, Neostigmina + Atropina/Glicopirrolato: O Sugamadex é mais moderno e específico para Rocurônio e Vecurônio.
    • Cuidados de Enfermagem: Observar a recuperação da força muscular do paciente (elevação da cabeça, força de preensão). Monitorar a frequência cardíaca (a Neostigmina pode causar bradicardia).

Analgésicos: Para Controlar a Dor Antes, Durante e Depois

A dor é uma preocupação constante. Os analgésicos são usados em diferentes momentos.

  • Opioides (Narcóticos): Potentes para dor intensa.
    • Fentanil, Remifentanil, Sufentanil, Morfina: Usados durante a cirurgia para controle da dor e no pós-operatório.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar de perto a depressão respiratória (principal efeito adverso grave). Observar sedação excessiva, náuseas, vômitos e constipação. Atentar para a dose e o intervalo.
  • AINEs (Anti-inflamatórios Não Esteroides): Diclofenaco, Cetoprofeno, Tenoxicam. Usados para dor leve a moderada e inflamação, geralmente no final da cirurgia ou no pós-operatório.
    • Cuidados de Enfermagem: Observar risco de sangramento, efeitos gastrointestinais e renais.
  • Paracetamol (Acetaminofeno): Analgésico e antipirético, usado para dor leve a moderada.
    • Cuidados de Enfermagem: Observar doses máximas para evitar toxicidade hepática.

Anestésicos Locais: Para Bloquear a Dor em Áreas Específicas

Usados para anestesia regional (ex: raquianestesia, peridural) ou para infiltrar o local da incisão.

  • Bupivacaína, Lidocaína, Ropivacaína: Bloqueiam os nervos, impedindo a transmissão da dor.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar sinais de toxicidade (tontura, zumbido no ouvido, convulsões, cardiotoxicidade). Observar bloqueio motor e sensitivo. Se usados em raqui/peridural, monitorar a pressão arterial (podem causar hipotensão) e a frequência cardíaca.

Anti-eméticos: Para Evitar Náuseas e Vômitos

Náuseas e vômitos pós-operatórios são comuns e muito incômodos.

  • Ondansetrona, Dexametasona, Bromoprida: Usados para prevenir ou tratar esses sintomas.
    • Cuidados de Enfermagem: Administrar antes que as náuseas fiquem intensas. Observar sonolência.

Vasopressores e Inotrópicos: Para Manter a Pressão e a Força do Coração

Em algumas cirurgias, pode haver queda da pressão arterial ou necessidade de suporte ao coração.

  • Noradrenalina, Dopamina, Dobutamina: Usados para elevar a pressão ou aumentar a força de contração do coração.
    • Cuidados de Enfermagem: São medicamentos de alta vigilância. Administrar via acesso venoso central (preferencialmente). Monitorar rigorosamente a pressão arterial (de preferência invasiva), frequência cardíaca e débito urinário. Têm alto risco de efeitos colaterais.

Antibióticos: Para Prevenir Infecções

Administrados antes do início da cirurgia para prevenir infecções do sítio cirúrgico.

  • Cefazolina, Cefoxitina, Gentamicina, Vancomicina: A escolha depende do tipo de cirurgia e do perfil de risco do paciente.
    • Cuidados de Enfermagem: Administrar no tempo correto antes da incisão (geralmente até 60 minutos antes). Observar reações alérgicas.

Considerações sobre a prática da enfermagem no centro cirúrgico

O papel da enfermagem no centro cirúrgico vai além da administração dos medicamentos. É preciso entender o que cada fármaco faz, seus efeitos colaterais, interações e riscos. O profissional deve estar capacitado para:

  • Confirmar as medicações com a equipe médica e anestésica.
  • Conhecer os tempos corretos de administração.
  • Observar e relatar sinais de reações adversas.
  • Garantir a segurança do paciente durante todo o processo cirúrgico.

A comunicação com a equipe, a atenção ao detalhe e a preparação adequada fazem toda a diferença para o sucesso da cirurgia e a recuperação do paciente.

Referências:

  1. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLANN, B. C. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
    https://www.mhmedical.com/book.aspx?bookID=3057
  2. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
    https://www.elsevier.com.br/farmacologia-8-edicao-9788535285153.html
  3. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boas práticas em anestesia – Guia de segurança do paciente. Brasília: ANVISA, 2017.
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/publicacoes/anestesia.pdf
  4. BARASH, P. G.; CULLEN, B. F.; STOELTING, R. K.; CAUDA, E. V.; LANDELL, B. F. Anestesia Clínica de Stoelting e Miller. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021. (Consultar capítulos sobre farmacologia anestésica).
  5. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020. (Consultar capítulos específicos sobre anestésicos, analgésicos, relaxantes musculares).
  6. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre farmacologia no centro cirúrgico).

O que faz a Enfemeira? A Verdade nua e crua

Ah, a enfermagem! Para muitos, a imagem de uma enfermeira remete àquela figura calma, sorridente, que cuida dos doentes com carinho. E sim, somos isso também! Mas a verdade é que a rotina de uma enfermeira vai muito, muito além do que os filmes e novelas mostram.

Se você está pensando em seguir essa carreira, seja por idealismo ou por vocação, prepare-se para mergulhar nas verdades nuas e cruas de uma profissão que exige mente brilhante, coração forte e um estômago resistente.

Não é Só “Cuidar”: É Liderar, Decidir, Ensinar e Salvar Vidas

Enquanto o técnico de enfermagem é o “braço direito” da assistência direta ao paciente, a enfermeira (o enfermeiro, na verdade, pois homens também exercem a profissão com maestria) é a cabeça pensante, a líder, a estrategista e a grande responsável pela organização e qualidade do cuidado. Somos nós que gerenciamos equipes, tomamos decisões clínicas complexas, planejamos o cuidado, educamos e, claro, também colocamos a mão na massa quando a situação exige.

O Dia a Dia no Hospital (e Fora Dele): Uma Orquestra Complexa

A rotina de uma enfermeira é um turbilhão de atividades, que exigem raciocínio rápido, resiliência e, acima de tudo, organização. Não importa se você está em um hospital, na atenção básica, em uma empresa ou na pesquisa, as responsabilidades são múltiplas.

A Líder da Equipe: Orquestrando o Cuidado

Uma das maiores responsabilidades da enfermeira é a liderança da equipe de enfermagem. Isso significa que somos responsáveis por:

  • Dimensionamento de Pessoal: Saber quantos técnicos e auxiliares são necessários para cada plantão, de acordo com a complexidade dos pacientes e o setor.
  • Distribuição de Tarefas: Delegar funções e responsabilidades para cada membro da equipe, garantindo que todas as demandas de cuidado sejam atendidas.
  • Supervisão e Orientação: Monitorar o trabalho dos técnicos e auxiliares, orientando, corrigindo e garantindo que os protocolos e a segurança do paciente sejam seguidos.
    • A verdade nua e crua: Liderar pessoas não é fácil. Você vai lidar com diferentes personalidades, níveis de experiência e, por vezes, com a resistência. É preciso ser firme, justo e empático, mesmo quando o estresse é alto. Você será o para-choque de muitos problemas e a solução para outros.
  • Gerenciamento de Conflitos: Mediar desentendimentos e garantir um ambiente de trabalho harmonioso e produtivo.

O Raciocínio Clínico em Ação: O Diagnóstico de Enfermagem

Aqui reside uma das maiores diferenças entre o técnico e a enfermeira: a capacidade de realizar o Processo de Enfermagem. Isso inclui:

  • Avaliação Abrangente: Coletar dados detalhados do paciente (histórico, exame físico, exames laboratoriais, queixas), não apenas sinais vitais. É uma investigação completa para entender a condição do paciente.
  • Diagnóstico de Enfermagem: Com base na avaliação, identificar os problemas reais e potenciais do paciente do ponto de vista da enfermagem (ex: “Risco de infecção”, “Déficit no autocuidado”, “Dor aguda”).
  • Planejamento do Cuidado: Criar um plano individualizado de intervenções de enfermagem para cada diagnóstico, definindo metas e resultados esperados.
  • Implementação: Colocar o plano em prática, seja delegando tarefas à equipe ou realizando procedimentos de alta complexidade.
  • Avaliação: Monitorar a resposta do paciente às intervenções e ajustar o plano conforme necessário.
    • A verdade nua e crua: Sua mente nunca para. Você está constantemente analisando, conectando informações, prevendo riscos e tomando decisões. Um erro de raciocínio pode levar a um plano de cuidado ineficaz ou, pior, prejudicial.

Os Procedimentos Complexos e a Tomada de Decisão: Quando a Mão na Massa é da Enfermeira

Existem procedimentos que, por lei e complexidade, são privativos do enfermeiro:

  • Passagem de Sonda Vesical de Demora e Alívio (em homens): Em mulheres, o técnico pode realizar, mas a supervisão e o planejamento são da enfermeira.
  • Passagem de Sonda Nasogástrica/Nasoenteral: Instalação e manejo de sondas para alimentação ou descompressão gástrica.
  • Punção de Acesso Venoso Central: Instalação de cateteres venosos centrais (ex: PICC – Cateter Central de Inserção Periférica), um procedimento altamente técnico e delicado.
  • Administração de Medicamentos de Alta Vigilância: Quimioterápicos, hemoderivados, entre outros, que exigem conhecimento aprofundado sobre dose, diluição, velocidade de infusão e monitoramento de reações.
  • Primeiro Atendimento em Emergências: No pronto-socorro ou em situações de urgência, a enfermeira muitas vezes é a primeira a avaliar e estabilizar o paciente, iniciando os protocolos de atendimento.
  • Educação em Saúde Avançada: Orientar pacientes e familiares sobre doenças complexas, manejo de medicamentos em casa, cuidados com estomas, curativos avançados, etc.
    • A verdade nua e crua: Você vai lidar com a vida e a morte em suas mãos. A pressão é imensa, o estresse é alto, e a responsabilidade é sua. Não há espaço para hesitação ou falta de preparo.

A Burocracia Necessária: Documentação e Registros

  • Anotações e Evoluções de Enfermagem: Documentar cada passo do processo de enfermagem, as intercorrências, as respostas do paciente e as condutas tomadas.
    • A verdade nua e crua: A papelada é interminável. A documentação precisa ser impecável, clara e objetiva. Um registro mal feito pode ser a diferença entre a defesa e a acusação em um processo judicial.
  • Checagem de Prescrição Médica: Análise crítica da prescrição médica, identificando possíveis erros, interações ou contraindicações e comunicando ao médico.
  1. A Advocacia do Paciente: Sua Voz

A enfermeira é a voz do paciente quando ele não pode falar por si.

  • Defesa dos Direitos: Garantir que o paciente receba o cuidado digno, ético e seguro, respeitando suas escolhas e valores.
  • Comunicação Interprofissional: Ser a ponte entre o paciente, a família e a equipe multiprofissional (médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos), garantindo que as informações fluam e o cuidado seja integrado.
    • A verdade nua e crua: Você vai se deparar com dilemas éticos, com situações onde precisa defender o paciente mesmo que isso gere atritos com outros profissionais ou com a instituição. É preciso coragem.

O Perfil de Uma Enfermeira: Força Além do Imaginado

Ser enfermeira é para quem tem:

  • Inteligência Emocional: Para lidar com o sofrimento, a dor, a morte, a pressão e as emoções dos pacientes, familiares e colegas.
  • Liderança: Capacidade de guiar e inspirar uma equipe.
  • Raciocínio Lógico e Crítico: Para analisar situações complexas e tomar decisões rápidas e assertivas.
  • Resiliência e Adaptabilidade: O ambiente de saúde é dinâmico e exige adaptação constante a novas situações e tecnologias.
  • Comunicação Assertiva: Para interagir com clareza com todos os envolvidos no processo de cuidado.
  • Curiosidade e Busca por Conhecimento: A enfermagem é uma profissão em constante evolução; é preciso estudar sempre.
  • Forte Senso Ético: A vida humana está em jogo.

O Legado da Enfermagem: A Essência do Cuidado Humano

Não se engane: a enfermagem é uma profissão exaustiva, com desafios enormes, salários que muitas vezes não condizem com a responsabilidade e, em muitos momentos, o reconhecimento não chega. Mas, se você é chamado para essa missão, se a ideia de ser a pessoa que está ali, na linha de frente, fazendo a diferença na vida de alguém nos momentos mais vulneráveis, te move, então você está no caminho certo.

Ser enfermeira é carregar a responsabilidade de vidas nas mãos, mas também é ter o privilégio de tocar corações, aliviar sofrimentos e ser parte fundamental na jornada de recuperação de milhares de pessoas. É uma profissão de ciência, arte e, acima de tudo, humanidade. E essa é a verdade mais crua e bela da nossa profissão.

Referências:

  1. BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem e dá outras providências. Brasília, DF: COFEN, 1986. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/lei-no-7-49886-de-25-de-junho-de-1986_4161.html.
  2. NORTH AMERICAN NURSING DIAGNOSIS ASSOCIATION (NANDA). NANDA International: Diagnósticos de Enfermagem. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021. (Base para o processo de enfermagem).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulos sobre as funções e responsabilidades da enfermeira e o processo de enfermagem).
  4. SILVA, D. G.; PADOVANI, L. O cotidiano do enfermeiro: um olhar para as demandas e desafios. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 69, n. 4, p. 773-779, jul./ago. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/qXwS3P9G6J8sQ6yH4hX7gK7/?lang=pt