Cansaço aos Mínimos Esforços: o que pode causar esse sintoma e quando ele merece atenção?

Subir poucos degraus, tomar banho ou caminhar até outro cômodo e precisar parar para recuperar o fôlego não deveria ser automaticamente colocado na conta da “falta de condicionamento”. Quando o corpo começa a tolerar cada vez menos esforço, essa mudança merece ser investigada.

Quando o cansaço deixa de ser normal

Cansaço aos mínimos esforços pode aparecer como fadiga intensa, fraqueza, falta de ar ou uma combinação desses sintomas. Entre as possibilidades estão anemia, doenças cardíacas e pulmonares, alterações da tireoide, infecções, distúrbios metabólicos, descondicionamento físico, efeitos de medicamentos e problemas do sono, entre outras causas.

Na insuficiência cardíaca, por exemplo, fadiga, dispneia e intolerância ao exercício estão entre as manifestações mais importantes. A falta de ar pode aparecer inclusive aos mínimos esforços, especialmente quando existe piora do quadro.

Um detalhe da rotina que merece atenção

Em uma avaliação de enfermagem, é diferente ouvir “estou cansado” de ouvir “há duas semanas eu conseguia tomar banho sozinho e agora preciso sentar no meio do banho”. A segunda informação mostra uma mudança funcional concreta e ajuda a dimensionar a evolução do sintoma.

Na prática, perguntar o que o paciente conseguia fazer antes e o que consegue fazer agora pode revelar uma deterioração que não aparece apenas pela observação em repouso. A avaliação clínica da insuficiência cardíaca, por exemplo, considera justamente a limitação provocada pelas atividades habituais e a evolução da capacidade funcional.

Nem sempre o coração é o culpado

Anemia pode reduzir a capacidade de transporte de oxigênio e contribuir para fadiga e intolerância ao esforço. Doenças respiratórias também podem provocar falta de ar durante atividades que anteriormente eram bem toleradas. Alterações metabólicas, deficiência nutricional, distúrbios hormonais e condições pós-infecciosas também entram na investigação dependendo do contexto.

Por isso, não é adequado concluir que “cansaço aos mínimos esforços é insuficiência cardíaca” sem avaliação. O sintoma é inespecífico e precisa ser interpretado junto com história clínica, exame físico e, quando indicados, exames complementares.

Quando o sinal fica preocupante

Atenção especial deve ser dada quando o cansaço aparece de forma nova ou progressiva, principalmente se vier acompanhado de falta de ar, dor ou pressão no peito, palpitações, tontura, desmaio, palidez, sudorese, edema nas pernas ou queda importante da capacidade para realizar atividades habituais.

Falta de ar intensa, síncope, dor torácica ou piora rápida do estado geral exigem avaliação de urgência. Em pacientes com suspeita de insuficiência cardíaca aguda, a presença de dispneia aos mínimos esforços associada a sinais de hipoperfusão ou congestão pode indicar necessidade de atendimento emergencial.

Cuidados de enfermagem

Na avaliação de Enfermagem, é importante observar o início e a evolução do cansaço, investigar quais atividades desencadeiam o sintoma e verificar sinais vitais, frequência respiratória, saturação de oxigênio, frequência cardíaca e estado geral. Também devem ser observados edema, alterações da perfusão, padrão respiratório e tolerância à atividade.

Se o paciente apresentar piora durante a mobilização, a atividade deve ser interrompida e ele reavaliado. Em situações de suspeita de descompensação cardíaca, a equipe deve reconhecer rapidamente sinais como taquipneia, taquicardia, estertores, edema e alteração do nível de consciência, comunicando a equipe responsável.

Uma cena que o profissional de enfermagem conhece

Um paciente que chega dizendo “estou bem, só estou muito cansado” pode parecer estável enquanto permanece sentado. Quando tenta caminhar até o banheiro, porém, começa a respirar rapidamente, fica pálido e precisa parar. Essa mudança durante o esforço é uma informação clínica valiosa; observar o paciente apenas em repouso poderia esconder a limitação.

Em outra situação, o relato pode ser ainda mais sutil: “antes eu subia dois lances de escada sem parar, agora preciso descansar no primeiro”. Para quem trabalha na assistência, esse tipo de comparação entre a capacidade funcional anterior e a atual pode ser mais útil do que simplesmente perguntar se existe cansaço.

O corpo está avisando

Cansaço aos mínimos esforços não é um diagnóstico. É um sinal que pode ter causas simples, mas também pode indicar uma condição que precisa de investigação rápida.

Quando existe uma mudança persistente na capacidade de realizar atividades comuns, especialmente acompanhada de falta de ar ou outros sintomas cardiovasculares, respiratórios ou neurológicos, vale procurar avaliação profissional. O importante é não normalizar uma perda progressiva de capacidade funcional sem descobrir por quê.

Resumo para salvar

Cansaço aos mínimos esforços: quando investigar

  • Cansaço progressivo pode indicar alteração clínica e merece investigação
  • Insuficiência cardíaca pode causar fadiga, dispneia e intolerância ao esforço
  • A avaliação deve considerar a mudança da capacidade funcional do paciente
  • Dor no peito, desmaio ou falta de ar intensa exigem avaliação de urgência

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – definição. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Insuficiência Cardíaca.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – manejo inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Manejo inicial da insuficiência cardíaca.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Linha de Cuidado: Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto – avaliação inicial. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Avaliação inicial da insuficiência cardíaca.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Deficiência de tiamina (vitamina B1): sinais e sintomas. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: Ministério da Saúde – Deficiência de tiamina.
  5. NATIONAL HEALTH SERVICE. Heart failure. NHS. Disponível em: NHS – Heart failure

Síndrome de Realimentação: o que é, quem está em risco, sinais, prevenção e cuidados de enfermagem

Vá direto ao ponto!

A alimentação é uma das necessidades básicas do organismo e, em muitos pacientes hospitalizados, especialmente aqueles que passaram dias sem conseguir se alimentar adequadamente, iniciar ou retomar a terapia nutricional é uma etapa fundamental da recuperação.

Mas existe uma situação que todo profissional e estudante de enfermagem precisa conhecer: a Síndrome de Realimentação.

Pode parecer estranho pensar que alimentar um paciente desnutrido ou que passou muito tempo em jejum possa provocar uma complicação grave. Entretanto, em determinadas circunstâncias, a introdução rápida de calorias pode desencadear alterações metabólicas importantes, principalmente envolvendo fósforo, potássio, magnésio, glicose, tiamina e equilíbrio hídrico.

É justamente por isso que a realimentação de um paciente de alto risco não deve ser encarada simplesmente como “começar a dieta”. É um processo que exige avaliação, planejamento, acompanhamento laboratorial e observação clínica contínua.

Na prática hospitalar, esse cuidado ganha ainda mais importância em pacientes críticos, idosos frágeis, pessoas com desnutrição, pacientes que permaneceram muitos dias sem alimentação, indivíduos com doenças gastrointestinais, pacientes oncológicos e pessoas submetidas a longos períodos de jejum.

Este artigo foi elaborado com uma abordagem voltada para a realidade da enfermagem, procurando transformar um assunto bastante metabólico em algo que possa ser compreendido e aplicado durante a assistência.

O que é a Síndrome de Realimentação?

A Síndrome de Realimentação (SR) é uma complicação metabólica que pode ocorrer quando nutrientes, principalmente carboidratos e calorias, são reintroduzidos de maneira rápida após um período prolongado de baixa ou nenhuma ingestão alimentar.

O problema não está simplesmente no fato de o paciente voltar a comer. O grande risco está na mudança metabólica provocada pela reintrodução dos nutrientes em um organismo que estava adaptado ao jejum ou à desnutrição.

Durante um período prolongado sem alimentação, o organismo passa por uma adaptação metabólica. A disponibilidade de glicose diminui e o corpo passa a utilizar outras fontes de energia, como gordura e proteínas.

Quando a alimentação, principalmente rica em carboidratos, é reiniciada, ocorre aumento da glicose sanguínea e, consequentemente, aumento da secreção de insulina. A insulina favorece a entrada de glicose para dentro das células.

O problema é que, junto com a glicose, ocorre maior utilização intracelular de determinados eletrólitos e nutrientes, especialmente:

  • fósforo;
  • potássio;
  • magnésio;
  • tiamina.

Assim, os níveis séricos desses elementos podem cair rapidamente. A queda pode ser suficientemente importante para comprometer músculos, coração, sistema respiratório e sistema nervoso.

A definição de consenso da ASPEN considera a redução dos níveis séricos de fósforo, potássio e/ou magnésio após a reintrodução de calorias como elemento central da síndrome, classificando a gravidade conforme a magnitude da redução e a presença de disfunção orgânica.

Por que isso acontece?

Para compreender a Síndrome de Realimentação, é importante entender primeiro o que acontece durante o jejum:

O organismo durante o jejum prolongado

Quando uma pessoa fica muitas horas ou dias sem receber nutrientes suficientes, o organismo precisa encontrar outras fontes de energia. Inicialmente, utiliza o glicogênio armazenado. Com a continuidade do jejum, as reservas de glicogênio diminuem e o metabolismo passa progressivamente a utilizar mais gordura e corpos cetônicos como fonte energética.

Nesse período, ocorre também uma redução da secreção de insulina e uma maior predominância de hormônios contrarreguladores. O organismo entra, portanto, em uma espécie de “modo econômico”. O metabolismo se adapta à baixa disponibilidade de nutrientes, mas isso muda quando a alimentação é retomada.

O que acontece quando a alimentação é reiniciada?

Imagine um paciente que passou vários dias praticamente sem se alimentar. De repente, ele recebe uma quantidade significativa de carboidratos.

A glicose aumenta.

O pâncreas libera insulina.

A insulina estimula a entrada de glicose nas células e aumenta a utilização celular de determinados nutrientes. É nesse momento que podem surgir alterações importantes. O fósforo, por exemplo, é utilizado na produção de ATP, a principal moeda energética das células. Quando há intensa demanda metabólica, o fósforo pode ser rapidamente deslocado para dentro das células.

O mesmo princípio ocorre com potássio e magnésio, e o resultado pode ser uma queda significativa dos níveis séricos. E é aí que começa o problema.

Por que o fósforo é tão importante?

O fósforo é um dos principais eletrólitos envolvidos na Síndrome de Realimentação. Ele participa de processos fundamentais para o funcionamento celular, incluindo:

  • produção de ATP;
  • metabolismo energético;
  • funcionamento muscular;
  • transporte de oxigênio;
  • integridade celular;
  • funcionamento neurológico.

Quando ocorre hipofosfatemia importante, o organismo pode perder capacidade de produzir energia adequadamente. Isso pode provocar fraqueza muscular, alterações neurológicas, comprometimento respiratório e alterações cardiovasculares.

Em um paciente crítico, isso merece atenção especial. Imagine, por exemplo, um paciente que estava em ventilação mecânica e iniciou terapia nutricional após um período prolongado de baixa ingestão. Uma queda importante do fósforo pode contribuir para fraqueza da musculatura respiratória e dificultar o processo de retirada da ventilação mecânica.

Por isso, o fósforo não deve ser visto simplesmente como “mais um exame laboratorial”.

E o potássio?

O potássio possui papel essencial na atividade elétrica das células, principalmente das células musculares e cardíacas. Durante a realimentação, o aumento da insulina pode promover deslocamento do potássio para dentro das células.

O resultado pode ser hipocalemia. Dependendo da intensidade, podem surgir:

  • fraqueza muscular;
  • cansaço;
  • alterações do ritmo cardíaco;
  • alterações no eletrocardiograma;
  • arritmias;
  • em situações graves, parada cardíaca.

Em pacientes críticos, uma alteração de potássio pode ter consequências muito importantes, principalmente quando existem outras condições associadas, como uso de diuréticos, alterações renais ou uso de medicamentos que interferem na condução cardíaca.

E o magnésio?

O magnésio também pode sofrer redução durante a realimentação. Ele participa de inúmeras reações metabólicas e possui relação estreita com o funcionamento neuromuscular e cardiovascular.

A hipomagnesemia pode contribuir para:

  • tremores;
  • fraqueza;
  • alterações neuromusculares;
  • arritmias;
  • alterações eletrolíticas associadas;
  • dificuldade na correção da hipocalemia.

Um ponto importante para a enfermagem é perceber que os eletrólitos não devem ser analisados isoladamente. Um paciente pode apresentar alterações simultâneas de fósforo, potássio e magnésio.

A importância da tiamina

A tiamina (vitamina B1) merece atenção especial: Ela participa de reações fundamentais do metabolismo dos carboidratos e da produção de energia. Em pacientes que passaram por períodos prolongados de desnutrição ou baixa ingestão alimentar, suas reservas podem estar reduzidas.

Quando a alimentação é reiniciada, a demanda metabólica por tiamina aumenta, e se houver deficiência importante, podem surgir complicações neurológicas e cardiovasculares. Por isso, protocolos de prevenção da Síndrome de Realimentação recomendam atenção à suplementação de tiamina em pacientes de alto risco.

A NICE, por exemplo, recomenda a administração de tiamina antes e durante os primeiros dias da realimentação em pessoas classificadas como de alto risco. É importante destacar que a administração de tiamina deve seguir prescrição, protocolo institucional e avaliação da equipe responsável pelo tratamento.

Quem está em risco de desenvolver Síndrome de Realimentação?

Essa é uma das perguntas mais importantes para a enfermagem. Nem todo paciente que volta a se alimentar depois de um período de jejum desenvolverá a síndrome. O risco aumenta quando existem fatores relacionados à desnutrição, perda de peso, baixa ingestão alimentar ou alterações eletrolíticas.

Segundo os critérios utilizados pela NICE, são considerados fatores importantes de alto risco:

Um ou mais destes fatores

  • IMC menor que 16 kg/m²;
  • perda involuntária de peso superior a 15% nos últimos 3 a 6 meses;
  • pouca ou nenhuma ingestão alimentar por mais de 10 dias;
  • níveis baixos de potássio, fósforo ou magnésio antes do início da alimentação.

Ou dois ou mais destes fatores

  • IMC menor que 18,5 kg/m²;
  • perda involuntária de peso superior a 10% nos últimos 3 a 6 meses;
  • pouca ou nenhuma ingestão alimentar por mais de 5 dias;
  • histórico de uso abusivo de álcool ou utilização de determinados medicamentos, como insulina, quimioterapia, antiácidos ou diuréticos.

Esses critérios são extremamente úteis para a prática porque mostram que o risco não depende apenas do peso atual do paciente. Uma pessoa pode não parecer extremamente magra e, ainda assim, apresentar risco significativo.

Quais pacientes merecem atenção especial?

Na rotina hospitalar, é importante pensar em Síndrome de Realimentação diante de pacientes como:

  • Pacientes com desnutrição: principalmente quando existe perda importante de peso.
  • Pacientes em jejum prolongado: por exemplo, pessoas que passaram vários dias sem alimentação adequada.
  • Pacientes oncológicos: especialmente aqueles com baixa ingestão alimentar, perda de peso ou aumento do catabolismo.
  • Pacientes com doenças gastrointestinais: situações que provocam má absorção, vômitos, diarreia ou redução importante da ingestão.
  • Pacientes críticos: especialmente quando existe desnutrição ou período prolongado de baixa ingestão.
  • Pessoas com transtornos alimentares: devido ao risco de desnutrição e períodos prolongados de restrição alimentar.
  • Pessoas com histórico de consumo excessivo de álcool: devido à associação com desnutrição e deficiência de micronutrientes.
  • Pacientes que apresentaram perda de peso importante recentemente.

Portanto, uma pergunta simples durante a avaliação de enfermagem pode ser extremamente relevante:

“Quanto esse paciente estava conseguindo comer nos últimos dias?”

Essa informação pode ser tão importante quanto olhar o peso ou o IMC.

A Síndrome de Realimentação pode acontecer apenas com dieta enteral?

Não. Esse é um erro importante. A Síndrome de Realimentação pode ocorrer após a introdução de nutrientes por diferentes vias.

Ela pode estar associada à:

  • alimentação oral,
  • suplementação nutricional oral,
  • nutrição enteral e
  • nutrição parenteral.

Portanto, não devemos pensar que “como é dieta pela sonda, não tem risco” ou que “como está comendo pela boca, não tem risco”. O fator principal é a reintrodução de nutrientes em um organismo vulnerável, e não simplesmente a via utilizada.

Quais são os principais sinais e sintomas?

A Síndrome de Realimentação pode ser difícil de reconhecer inicialmente porque os sinais podem ser inespecíficos.

O paciente pode apresentar:

  • fraqueza;
  • fadiga;
  • edema;
  • alteração do estado mental;
  • confusão;
  • parestesias;
  • tremores;
  • dificuldade respiratória;
  • fraqueza muscular;
  • taquicardia;
  • alterações do ritmo cardíaco;
  • hipotensão;
  • convulsões em situações graves;
  • insuficiência cardíaca;
  • alterações respiratórias.

O quadro clínico depende da intensidade das alterações metabólicas e das condições prévias do paciente. Em muitos casos, os exames laboratoriais ajudam a identificar o problema antes que manifestações graves apareçam.

O edema pode ser um sinal de alerta?

Sim. Durante a realimentação pode ocorrer retenção de sódio e água, especialmente quando há aumento da insulina e alterações na administração de fluidos. O paciente pode apresentar:

  • edema periférico;
  • ganho rápido de peso;
  • congestão;
  • piora da função cardíaca;
  • alteração da pressão arterial;
  • sobrecarga hídrica.

Por isso, balanço hídrico e peso corporal podem fornecer informações importantes. Um ganho de peso muito rápido após o início da alimentação não significa necessariamente que o paciente esteja “ganhando massa”. Pode representar retenção de líquidos.

Quando a Síndrome de Realimentação costuma aparecer?

De acordo com o consenso da ASPEN, as alterações utilizadas para definir a síndrome são avaliadas dentro dos primeiros 5 dias após a reintrodução de calorias. Isso reforça uma ideia importante: o risco não termina no momento em que a dieta é iniciada.

Os primeiros dias exigem acompanhamento cuidadoso.

Como prevenir a Síndrome de Realimentação?

A prevenção começa antes da dieta. Esse é talvez o ponto mais importante para a enfermagem, antes de iniciar a terapia nutricional em um paciente potencialmente vulnerável, a equipe deve avaliar o risco nutricional e metabólico.

Não se trata de simplesmente perguntar:

“Qual dieta foi prescrita?”

É necessário entender:

  • Quem é esse paciente?
  • Há quanto tempo ele não come adequadamente?
  • Quanto peso perdeu?
  • Existe desnutrição?
  • Como estão fósforo, potássio e magnésio?
  • Há alterações renais ou cardíacas?
  • Ele possui fatores de risco para deficiência de tiamina?
  • Qual será a velocidade de introdução da dieta?

Esse raciocínio muda completamente a segurança da assistência.

A alimentação deve ser iniciada lentamente?

Em pacientes classificados como de alto risco, sim, a introdução deve ser cautelosa e individualizada. A NICE recomenda, para pessoas de alto risco, considerar início de até 10 kcal/kg/dia, com progressão gradual para atingir as necessidades completas em aproximadamente 4 a 7 dias. Em casos extremos, recomenda-se considerar valores ainda menores, como 5 kcal/kg/dia, com monitorização contínua do ritmo cardíaco.

Entretanto, é importante não transformar esse número em uma regra universal aplicada automaticamente a qualquer paciente.

A prescrição nutricional deve considerar o quadro clínico, o risco nutricional, os exames laboratoriais, a condição cardiovascular, renal, respiratória e gastrointestinal e os protocolos institucionais.

Em pacientes criticamente enfermos, a terapia nutricional deve ser planejada dentro do contexto geral do cuidado intensivo. A diretriz prática da ESPEN para pacientes de UTI reforça a importância de individualizar a terapia nutricional e evitar excesso de nutrientes durante a fase inicial da doença crítica.

Quais exames devem ser acompanhados?

Em pacientes sob risco, a equipe pode acompanhar, conforme avaliação clínica e protocolo:

  • Fósforo: fundamental para identificar hipofosfatemia.
  • Potássio: importante para avaliação do risco de alterações neuromusculares e cardíacas.
  • Magnésio: importante para função neuromuscular e cardiovascular.
  • Glicemia: a introdução de carboidratos pode provocar alterações glicêmicas importantes.

Além desses exames, outros parâmetros podem ser necessários conforme a condição clínica:

  • sódio;
  • cálcio;
  • função renal;
  • ureia;
  • creatinina;
  • avaliação ácido-base;
  • balanço hídrico;
  • sinais vitais;
  • peso;
  • avaliação cardiovascular.

A periodicidade da coleta deve ser determinada de acordo com o risco e o protocolo da instituição.

O que a enfermagem deve observar antes de iniciar a dieta?

Aqui está uma parte extremamente importante para quem está estudando ou trabalhando na assistência. Antes de administrar uma dieta, o profissional de enfermagem deve verificar se existe alguma informação relevante relacionada ao risco metabólico. Uma avaliação prática pode incluir:

  • Estado nutricional: observar peso, perda ponderal, aspecto geral, massa muscular e histórico alimentar.
  • Tempo de baixa ingestão: investigar há quantos dias o paciente está comendo pouco ou nada.
  • Exames laboratoriais: verificar especialmente fósforo, potássio e magnésio quando solicitados.
  • Prescrição: conferir via, tipo de dieta, volume, velocidade e horários.
  • Condição clínica: observar presença de insuficiência cardíaca, renal, alterações respiratórias ou outras condições que aumentem o risco de complicações.
  • Acesso para nutrição: confirmar se a via está adequada e liberada para utilização conforme protocolo institucional.
  • Balanço hídrico: acompanhar entradas e saídas.
  • Sinais clínicos: observar alterações cardiovasculares, respiratórias, neurológicas e musculares.

A enfermagem está em uma posição privilegiada porque permanece próxima do paciente durante a evolução do quadro. Uma alteração que parece pequena isoladamente pode se tornar extremamente importante quando observada em conjunto com os demais dados.

Cuidados de enfermagem na Síndrome de Realimentação

O cuidado de enfermagem começa com a identificação precoce do risco. Não é necessário esperar o paciente desenvolver uma complicação para agir.

Avaliar o risco nutricional

Verificar histórico de alimentação, perda de peso, IMC, doenças associadas e período de jejum ou baixa ingestão. A triagem nutricional deve ser realizada por profissionais capacitados e fazer parte da avaliação hospitalar. A NICE recomenda rastreamento de desnutrição e risco nutricional nos pacientes hospitalizados.

Conferir a prescrição nutricional

Antes de iniciar a dieta, conferir:

  • paciente correto;
  • dieta prescrita;
  • via;
  • volume;
  • velocidade de infusão;
  • horários;
  • restrições;
  • cuidados específicos.

Uma dieta corretamente prescrita também precisa ser corretamente administrada.

Acompanhar fósforo, potássio e magnésio

Sempre que esses exames estiverem prescritos, observar os resultados e comunicar alterações importantes à equipe responsável. Não cabe ao profissional de enfermagem simplesmente “olhar o número”. É necessário relacionar o resultado com o estado clínico do paciente.

Observar sinais cardiovasculares

Monitorar:

  • frequência cardíaca;
  • pressão arterial;
  • ritmo cardíaco quando indicado;
  • presença de palpitações;
  • sinais de congestão;
  • edema;
  • alterações do estado geral.

Em pacientes de alto risco ou com alterações importantes, a monitorização cardíaca pode ser necessária conforme avaliação clínica e protocolo.

Monitorar o padrão respiratório

Observar:

  • frequência respiratória;
  • saturação de oxigênio;
  • esforço respiratório;
  • fraqueza muscular;
  • necessidade crescente de oxigênio;
  • dificuldade de desmame ventilatório em pacientes críticos.

Uma deterioração respiratória inesperada após o início da nutrição merece investigação.

Controlar o balanço hídrico

Registrar rigorosamente:

entrada de líquidos + dieta + medicamentos + soluções

versus

diurese + drenos + perdas gastrointestinais + outras perdas mensuráveis.

O balanço hídrico é uma informação fundamental para identificar retenção ou perda excessiva de líquidos.

Observar edema e ganho de peso

Acompanhar edema periférico, aumento rápido de peso e outros sinais de retenção hídrica.

Administrar vitaminas e eletrólitos conforme prescrição

A reposição de fósforo, potássio, magnésio e tiamina deve seguir prescrição e protocolo institucional. A equipe de enfermagem deve conferir dose, via, diluição, velocidade de administração e compatibilidade quando aplicável.

Comunicar alterações precocemente

Esse é um dos cuidados mais importantes. A enfermagem deve comunicar alterações como:

  • queda importante de fósforo;
  • hipocalemia;
  • hipomagnesemia;
  • alteração do ritmo cardíaco;
  • dispneia;
  • edema progressivo;
  • alteração neurológica;
  • convulsões;
  • fraqueza intensa;
  • alteração significativa da glicemia;
  • alteração hemodinâmica.

A comunicação precoce pode evitar que uma alteração metabólica evolua para uma complicação grave.

O que fazer se houver suspeita de Síndrome de Realimentação?

A suspeita deve ser comunicada imediatamente à equipe responsável. A conduta não deve ser tomada de forma isolada pelo profissional de enfermagem. Dependendo da gravidade, a equipe médica e nutricional pode precisar:

  • interromper ou reduzir temporariamente a oferta calórica;
  • corrigir eletrólitos;
  • administrar tiamina;
  • ajustar a velocidade da terapia nutricional;
  • controlar glicemia;
  • avaliar estado cardiovascular;
  • intensificar monitorização;
  • investigar disfunções orgânicas.

O consenso da ASPEN propõe classificação da gravidade com base na redução de fósforo, potássio e/ou magnésio e na presença de disfunção orgânica associada. Portanto, uma queda laboratorial significativa após o início da alimentação não deve ser ignorada.

Síndrome de Realimentação não é apenas “fósforo baixo”

Esse é outro ponto que costuma gerar confusão. A hipofosfatemia é extremamente importante e frequentemente destacada, mas a Síndrome de Realimentação envolve um conjunto de alterações metabólicas. Podem ocorrer alterações de:

fósforo + potássio + magnésio + tiamina + glicose + líquidos.

Além disso, o paciente pode desenvolver manifestações cardiovasculares, respiratórias, neurológicas e musculares. Por isso, pensar somente:

“Síndrome de Realimentação = fósforo baixo” é uma simplificação excessiva. O correto é compreender a síndrome como uma resposta metabólica complexa à reintrodução de nutrientes em um organismo vulnerável.

Um exemplo prático para o estudante de enfermagem

Imagine um paciente internado que passou aproximadamente uma semana praticamente sem conseguir se alimentar. Ele perdeu peso, apresenta fraqueza e está com aspecto desnutrido. A equipe decide iniciar terapia nutricional.

Antes da dieta, o paciente apresenta exames laboratoriais que mostram alterações limítrofes de fósforo, potássio e magnésio. Nesse cenário, simplesmente iniciar a dieta na velocidade habitual pode não ser a melhor conduta.

O paciente precisa ser reconhecido como alguém potencialmente vulnerável à Síndrome de Realimentação. A equipe deverá avaliar o risco, definir uma estratégia nutricional progressiva, considerar suplementação de micronutrientes conforme indicação, acompanhar os eletrólitos e observar atentamente a evolução clínica.

Agora imagine que, dois dias depois, o paciente desenvolva:

  • fraqueza acentuada;
  • edema;
  • taquicardia;
  • piora respiratória;
  • queda importante do fósforo.

Esse conjunto de informações deve acender um alerta. Não é simplesmente “o paciente ficou mais fraco”. É necessário pensar:

O que mudou depois que a alimentação foi iniciada?

Esse raciocínio clínico é extremamente importante na enfermagem.

Um detalhe que pode passar despercebido: o paciente pode estar aparentemente melhor

Outro aspecto interessante é que o paciente pode demonstrar melhora da fome ou disposição para comer. Isso pode dar a falsa impressão de que “quanto mais alimentação, melhor”. Mas, em pacientes de alto risco, a velocidade da introdução dos nutrientes precisa ser cuidadosamente planejada.

A recuperação nutricional não deve ser confundida com alimentação rápida. Nutrir é tratar, mas nutrir com segurança também faz parte do tratamento.

Síndrome de Realimentação em pacientes de UTI

Na terapia intensiva, o assunto ganha ainda mais importância. O paciente crítico frequentemente apresenta uma combinação de fatores:

  • inflamação sistêmica;
  • hipermetabolismo;
  • catabolismo;
  • perda de massa muscular;
  • jejum;
  • procedimentos;
  • instabilidade hemodinâmica;
  • alterações renais;
  • alterações gastrointestinais;
  • uso de múltiplos medicamentos.

Além disso, alguns pacientes já chegam à UTI desnutridos. Por isso, a terapia nutricional precisa ser individualizada. A ESPEN recomenda atenção especial à terapia nutricional no paciente crítico e destaca a importância de evitar excesso de nutrientes na fase inicial da doença crítica.

Na prática, isso significa que iniciar dieta não é simplesmente conectar uma bolsa à sonda e programar uma bomba de infusão. Existe todo um processo de avaliação e acompanhamento.

Qual é o papel do técnico de enfermagem?

! Atenção na Prova Dentro das atribuições definidas pela legislação profissional, protocolos institucionais e supervisão do enfermeiro, o técnico de enfermagem participa diretamente da segurança da terapia nutricional.

Entre as atividades assistenciais estão:

  • conferir a prescrição;
  • observar a dieta prescrita;
  • administrar a terapia nutricional conforme orientação e protocolo;
  • controlar velocidade e volume quando em bomba de infusão;
  • realizar registros;
  • monitorar sinais e sintomas;
  • acompanhar balanço hídrico;
  • observar alterações clínicas;
  • comunicar intercorrências;
  • colaborar com a equipe multiprofissional.

Um dos grandes diferenciais da enfermagem é justamente a vigilância contínua. O laboratório pode mostrar que o fósforo caiu. Mas é a observação clínica que pode revelar que o paciente também está ficando mais fraco, edemaciado, dispneico ou apresentando alteração do ritmo cardíaco.

Essas informações precisam ser conectadas.

O papel do enfermeiro

! Atenção na Prova O enfermeiro possui papel fundamental na avaliação do paciente, planejamento da assistência, supervisão da equipe, identificação de riscos, acompanhamento da terapia nutricional e comunicação com a equipe multiprofissional, respeitando as competências profissionais e os protocolos institucionais.

A Síndrome de Realimentação é um excelente exemplo de situação em que o cuidado não pode ser fragmentado. Enfermagem, nutrição, medicina, farmácia e demais profissionais envolvidos precisam compartilhar informações. Uma alteração laboratorial comunicada rapidamente pode modificar a conduta nutricional antes que o paciente desenvolva uma complicação grave.

Erros que devem ser evitados

Um dos principais erros é pensar:

“O paciente está desnutrido, então precisa receber muita comida imediatamente.”

Não necessariamente. Outro erro é:

“Se o potássio está normal, não existe risco.”

Também não. O risco precisa ser avaliado de maneira global.

Outro equívoco:

“Só acontece com nutrição parenteral.”

Não. Pode ocorrer com alimentação oral, enteral ou parenteral. Também é perigoso pensar:

“Se o paciente comeu ontem, não há risco.”

O risco depende do contexto, do tempo e da intensidade da baixa ingestão, do estado nutricional e de outros fatores. E talvez o erro mais importante:

“É só um problema da nutrição.”

Não. A prevenção e o reconhecimento precoce dependem de toda a equipe.

Síndrome de Realimentação: o que mais cai em provas de enfermagem?

Para quem está estudando para provas, concursos e avaliações acadêmicas, alguns pontos merecem atenção especial. A associação mais importante é:

Realimentação → aumento da insulina → entrada de nutrientes para dentro das células → queda de fósforo, potássio e magnésio.

O fósforo é particularmente importante devido à sua participação no metabolismo energético e na produção de ATP. Outro ponto frequente é o risco em pacientes que passaram por período prolongado de baixa ingestão alimentar, principalmente quando associado a perda de peso e desnutrição.

Também é importante lembrar da tiamina, principalmente em pacientes com risco de deficiência. E, finalmente:  a prevenção é melhor do que esperar a complicação aparecer.

Síndrome de Realimentação em uma frase

Se fosse necessário resumir todo este artigo em uma única frase para um estudante de enfermagem, seria:

Cai em Concurso A Síndrome de Realimentação é uma complicação metabólica potencialmente grave que pode ocorrer quando nutrientes são reintroduzidos rapidamente em um paciente previamente desnutrido ou submetido a baixa ingestão prolongada, levando principalmente à redução de fósforo, potássio e magnésio e podendo causar alterações cardíacas, respiratórias, neurológicas e musculares.”

A Síndrome de Realimentação é um daqueles temas que parecem complexos quando apresentados apenas pelos seus mecanismos bioquímicos, mas que fazem muito sentido quando observamos o paciente como um todo. O ponto central não é ter medo de alimentar um paciente desnutrido.

É alimentá-lo de maneira segura.

O paciente que passou dias sem comer precisa ser visto como um organismo que passou por uma importante adaptação metabólica. A reintrodução dos nutrientes modifica rapidamente esse metabolismo e pode provocar deslocamentos de eletrólitos e aumento da demanda por vitaminas, especialmente tiamina.

Por isso, antes de iniciar ou aumentar uma terapia nutricional, é fundamental avaliar o risco. Depois que a alimentação começa, a vigilância continua. A enfermagem deve observar exames laboratoriais, sinais vitais, estado neurológico, força muscular, padrão respiratório, edema, balanço hídrico, peso e resposta geral à terapia nutricional.

Mais do que decorar que “Síndrome de Realimentação causa hipofosfatemia”, o estudante precisa aprender a reconhecer o paciente que está em risco. Esse é o verdadeiro raciocínio clínico.

Na assistência hospitalar, muitas complicações não começam com um grande evento. Às vezes, começam com uma pequena alteração laboratorial, uma fraqueza diferente do habitual, um edema que apareceu rapidamente ou uma mudança no padrão respiratório.

Reconhecer cedo é uma das formas mais importantes de cuidar com segurança.

Resumo para salvar

Síndrome de Realimentação: 4 pontos que a enfermagem precisa lembrar

  • A realimentação rápida após jejum ou desnutrição pode provocar alterações metabólicas graves
  • Fósforo, potássio e magnésio são eletrólitos fundamentais para o reconhecimento e acompanhamento do risco
  • A tiamina merece atenção especial antes e durante a realimentação de pacientes de alto risco
  • A enfermagem tem papel essencial na identificação do risco, monitorização clínica e laboratorial e comunicação precoce de alterações

Referências:

  1. AMERICAN SOCIETY FOR PARENTERAL AND ENTERAL NUTRITION. ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome. Nutrition in Clinical Practice, v. 35, n. 2, p. 178-195, 2020. DOI: 10.1002/ncp.10474. Disponível em: PubMed – ASPEN Consensus Recommendations for Refeeding Syndrome
  2. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Nutrition support for adults: oral nutrition support, enteral tube feeding and parenteral nutrition – CG32. London: NICE. Disponível em: NICE – Nutrition support for adults
  3. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Recommendations: Nutrition support for adults. London: NICE. Disponível em: NICE – Recommendations
  4. SINGER, Pierre et al. ESPEN practical and partially revised guideline: Clinical nutrition in the intensive care unit. Clinical Nutrition, v. 42, p. 1671-1689, 2023. DOI: 10.1016/j.clnu.2023.07.011. Disponível em: ESPEN – Guideline on Clinical Nutrition in the Intensive Care Unit
  5. EUROPEAN SOCIETY FOR CLINICAL NUTRITION AND METABOLISM – ESPEN. ESPEN Guidelines & Consensus Papers. Disponível em: ESPEN – Guidelines & Consensus Papers
  6.  BRASPEN. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. Braspen Journal, São Paulo, v. 34, supl. 1, p. 1-36, 2019. Disponível em: https://braspenjournal.org/article/doi/10.37111/braspenj.AE2019344001
  7.  DISTRETTI, A. et al. Consensus statements on refeeding syndrome. Nutrition & Dietetics, v. 82, n. 2, p. 128-142, 2025. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1747-0080.70003.
  8.  SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DO DISTRITO FEDERAL (SES-DF). Protocolo de Assistência Nutricional de Adultos em Terapia Intensiva. Brasília: SES-DF, 2023. Disponível em: https://www.saude.df.gov.br/documents/d/saude/protocolo-de-assistencia-nutricional-de-adultos-em-terapia-intensiva-pdf

Lesão por Dispositivo Médico: o que é, como identificar e quais são os cuidados de enfermagem

A assistência de enfermagem envolve o uso diário de inúmeros dispositivos médicos. Cateteres, sondas, máscaras de oxigênio, tubos, fixadores, talas, eletrodos, sensores e outros recursos são fundamentais para monitorar, tratar e manter a vida de muitos pacientes.

Mas existe um detalhe que não pode ser esquecido: um dispositivo criado para cuidar também pode causar uma lesão.

Quando determinado dispositivo permanece em contato com a pele ou com tecidos por tempo prolongado, especialmente quando exerce pressão, tração, fricção ou cisalhamento, pode provocar uma lesão relacionada a dispositivo médico. Essas lesões são particularmente importantes em pacientes críticos, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e pacientes submetidos a terapias que exigem dispositivos continuamente.

As lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos são reconhecidas como um tipo específico de lesão por pressão. A diretriz internacional de 2025 define essas lesões como aquelas que ocorrem sob ou próximas a dispositivos utilizados para fins diagnósticos ou terapêuticos, como dispositivos de oxigenoterapia, tubos, talas, órteses e eletrodos.

Por isso, compreender esse problema é fundamental para quem trabalha ou estuda enfermagem.

O que é uma Lesão por Dispositivo Médico?

A Lesão por Dispositivo Médico (LDM) ocorre quando um dispositivo utilizado no cuidado do paciente provoca dano à pele ou aos tecidos subjacentes.

Na prática, imagine uma máscara de ventilação não invasiva que permanece pressionando continuamente a região do nariz. Se essa pressão não for adequadamente avaliada e aliviada, pode surgir inicialmente uma área avermelhada e dolorosa. Com a continuidade da pressão, a lesão pode evoluir para perda da integridade da pele e atingir tecidos mais profundos.

O mesmo princípio pode acontecer com uma sonda, um cateter, um tubo endotraqueal, uma tala, um colar cervical ou até mesmo um sensor de monitorização.

Portanto, o dispositivo não precisa estar “apertado demais” para causar uma lesão. Pressão contínua, fricção, cisalhamento, umidade, posicionamento inadequado e tempo prolongado de contato podem contribuir para o problema.

A literatura internacional considera as lesões relacionadas a dispositivos médicos uma preocupação relevante de segurança do paciente. Uma revisão sistemática publicada em 2023 encontrou estimativas de prevalência de aproximadamente 10% e incidência de 12% para esse tipo de lesão nos estudos analisados.

Por que o dispositivo médico pode machucar a pele?

Para entender a LDM, é interessante pensar em uma situação bastante simples. Imagine colocar um objeto sobre a pele e mantê-lo pressionado durante várias horas. Inicialmente, talvez não aconteça nada perceptível. Entretanto, se a pressão permanecer continuamente sobre a mesma região, a circulação local pode ser prejudicada.

A pressão pode comprimir pequenos vasos sanguíneos. Com isso, ocorre redução do fornecimento de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Se essa situação persistir, o tecido pode sofrer hipóxia, isquemia e, posteriormente, necrose.

Quando acrescentamos outros fatores, como fricção, cisalhamento, umidade e fragilidade da pele, o risco aumenta ainda mais. É justamente por isso que um dispositivo corretamente instalado não significa necessariamente um dispositivo seguro durante todo o período de utilização.

O paciente muda de posição, apresenta edema, transpira, movimenta-se, perde ou ganha peso, desenvolve alterações circulatórias e pode apresentar mudanças na tolerância ao dispositivo. A enfermagem precisa acompanhar essas mudanças.

Quais dispositivos podem causar lesões?

Praticamente qualquer dispositivo que permaneça em contato prolongado com o organismo pode, dependendo das condições, contribuir para uma lesão. Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Dispositivos respiratórios

São frequentemente envolvidos porque precisam permanecer posicionados durante longos períodos.

Podemos citar:

  • máscaras de ventilação não invasiva;
  • máscaras de oxigênio;
  • cateter nasal;
  • tubo endotraqueal;
  • fixadores de tubo;
  • cânulas e dispositivos de suporte respiratório.

Máscaras de CPAP e BiPAP, por exemplo, podem exercer pressão principalmente sobre a região nasal, malar e facial. O problema pode ser ainda maior quando o paciente necessita utilizar o dispositivo continuamente.

Sondas e cateteres

Sondas e cateteres também podem provocar lesões quando existe pressão, tração ou fixação inadequada. Entre eles estão:

  • Sonda nasogástrica e nasoenteral: podem provocar lesões nas narinas, no septo nasal e em regiões próximas ao local de fixação.
  • Cateter vesical: pode causar lesões por tração ou pressão, principalmente quando existe fixação inadequada ou movimentação excessiva.
  • Cateteres vasculares: podem contribuir para lesões relacionadas à pressão, fixação, dispositivos de estabilização ou curativos, especialmente quando permanecem sobre regiões vulneráveis.

Dispositivos utilizados para monitorização

Alguns equipamentos utilizados rotineiramente para monitorização também merecem atenção. Eletrodos, sensores de oximetria, manguitos de pressão arterial, cabos, sensores e outros dispositivos podem permanecer em contato com a pele durante horas. No caso do oxímetro, por exemplo, a atenção não deve estar apenas no funcionamento do aparelho. É necessário observar a pele e alternar o local quando isso for possível e seguro.

O mesmo raciocínio vale para eletrodos de monitorização cardíaca.

Talas, órteses e imobilizadores

Talas, órteses, colares cervicais, fixadores e outros dispositivos utilizados para imobilização também podem provocar pressão localizada. Nesses casos, a própria finalidade do dispositivo exige algum grau de contato ou contenção. Isso não significa que a lesão seja inevitável. A equipe precisa verificar se o dispositivo está corretamente ajustado, se existe pressão excessiva e se há áreas de contato particularmente vulneráveis.

Onde essas lesões aparecem com maior frequência?

A localização depende diretamente do dispositivo utilizado. Uma máscara facial, por exemplo, pode provocar lesões em regiões como nariz, dorso nasal, bochechas e áreas próximas à fixação. Um cateter nasal pode provocar alterações nas narinas e atrás das orelhas, dependendo do modelo e da forma de fixação. Uma sonda pode causar lesões nas regiões em que entra em contato com a pele ou permanece fixada.

Já uma tala ou órtese pode provocar lesões sobre proeminências ósseas. Portanto, uma regra muito útil para a enfermagem é:

onde existe contato contínuo entre dispositivo e pele, existe necessidade de avaliação.

Quem apresenta maior risco?

Embora qualquer paciente possa desenvolver uma lesão relacionada a dispositivo, alguns apresentam risco maior. Entre os principais fatores estão a idade avançada, imobilidade, alterações da perfusão, edema, desnutrição, alterações da sensibilidade, alteração do nível de consciência, incontinência, umidade excessiva e presença de doenças crônicas.

Pacientes críticos merecem atenção especial. Um paciente sedado, intubado, com edema, instabilidade hemodinâmica e múltiplos dispositivos pode não conseguir comunicar dor ou desconforto e pode permanecer por longos períodos na mesma posição.

Por isso, a avaliação da pele não pode depender exclusivamente da queixa do paciente. Estudos brasileiros realizados em unidades de terapia intensiva identificaram como medidas importantes de prevenção a atenção à fixação, reposicionamento frequente, proteção e acolchoamento das áreas de contato, escolha de materiais flexíveis quando disponíveis, cuidado para que dispositivos não permaneçam sob o paciente e remoção precoce quando clinicamente possível.

Como identificar uma Lesão por Dispositivo Médico?

A avaliação deve começar antes mesmo de aparecer uma ferida. Um dos primeiros sinais pode ser uma alteração na coloração da pele. Pode aparecer uma área avermelhada, arroxeada ou com outra alteração de coloração exatamente no local onde o dispositivo exerce pressão.

Também podem surgir:

  • dor;
  • ardência;
  • aumento da sensibilidade;
  • edema;
  • endurecimento;
  • alteração da temperatura local;
  • bolhas;
  • erosões;
  • perda da integridade da pele;
  • áreas de necrose.

É importante observar que a ausência de uma ferida aberta não significa ausência de lesão. Uma alteração persistente na pele já merece atenção.

A lesão pode surgir mesmo com a pele aparentemente normal?

Sim. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação frequente é tão importante. A lesão pode começar em tecidos mais profundos e apresentar sinais externos discretos. Além disso, pacientes com alterações de perfusão ou sensibilidade podem apresentar manifestações diferentes. Por isso, não se deve avaliar apenas a existência de uma “ferida”.

É necessário observar a pele antes, durante e depois da utilização do dispositivo.

Qual é a diferença entre lesão por pressão comum e lesão relacionada a dispositivo?

A principal diferença está no fator causador e na localização. Uma lesão por pressão tradicional geralmente está relacionada à pressão ou cisalhamento sobre uma região corporal, frequentemente uma proeminência óssea. Na lesão relacionada a dispositivo médico, o dano está relacionado ao contato com um dispositivo utilizado para assistência diagnóstica ou terapêutica.

Por exemplo:

  • Pressão prolongada do corpo contra o colchão na região sacral: lesão por pressão convencional.
  • Pressão prolongada de uma máscara de ventilação sobre o dorso do nariz: lesão por pressão relacionada a dispositivo médico.

As duas situações possuem mecanismos semelhantes, mas a segunda está diretamente relacionada ao dispositivo.

O tempo de permanência influencia?

Sim, mas não existe um único número de horas que determine quando uma lesão obrigatoriamente aparecerá. Isso é importante porque às vezes existe a ideia de que “se o dispositivo ficar menos de determinado tempo, não haverá risco”. Não é tão simples. A intensidade da pressão, o formato do dispositivo, o material utilizado, o estado da pele, a perfusão, a umidade, a mobilidade do paciente e outros fatores influenciam o risco.

Um paciente vulnerável pode desenvolver dano em um período relativamente curto. Por isso, a prevenção não deve ser baseada apenas em relógio, mas principalmente em avaliação clínica contínua.

A importância da fixação correta

Fixar um dispositivo não significa simplesmente deixá-lo “bem preso”. A fixação precisa ser suficientemente segura para evitar deslocamentos, mas não deve gerar compressão desnecessária. Uma fixação excessivamente apertada pode aumentar a pressão sobre a pele.

Por outro lado, uma fixação frouxa pode provocar movimentação repetitiva, fricção e tração. A enfermagem precisa encontrar um equilíbrio entre segurança do dispositivo e proteção dos tecidos. Esse cuidado é particularmente importante com tubos, sondas, cateteres e dispositivos respiratórios.

O acolchoamento pode ajudar?

Sim, quando indicado e realizado corretamente. Materiais apropriados podem ajudar a distribuir a pressão e proteger áreas vulneráveis. Entretanto, colocar qualquer tipo de gaze, espuma ou material improvisado entre o dispositivo e a pele não é necessariamente uma boa prática. O material utilizado deve ser compatível com o dispositivo e com a finalidade da proteção.

Além disso, o acolchoamento não deve criar novos pontos de pressão. A revisão sistemática sobre prevenção de lesões relacionadas a dispositivos identificou intervenções como curativos, materiais de proteção, dispositivos específicos de fixação, reposicionamento, educação da equipe e remoção precoce quando possível.

Cuidados de enfermagem para prevenir a Lesão por Dispositivo Médico

A prevenção começa na avaliação do paciente: Antes de instalar um dispositivo, sempre que possível, observe a condição da pele no local onde ele ficará. Depois da instalação, verifique se existe pressão excessiva, dobras, tração ou posicionamento inadequado.

Durante a assistência, a equipe deve realizar avaliações periódicas e documentar alterações relevantes. Outro cuidado fundamental é evitar que tubos, cabos ou dispositivos permaneçam pressionados sob o corpo do paciente. Essa situação pode ser facilmente esquecida durante mudanças de decúbito.

O estudo realizado com profissionais de enfermagem em UTI destacou justamente a importância de verificar se dispositivos não permanecem sob o paciente e de realizar reposicionamento frequente.

A enfermagem deve retirar o dispositivo para avaliar a pele?

Nem sempre. Esse é um ponto muito importante. Alguns dispositivos são essenciais para manter a vida ou garantir um tratamento seguro. Retirá-los sem avaliação médica ou sem indicação pode trazer riscos. A pergunta correta não é simplesmente “posso retirar?”.

É:

“Esse dispositivo ainda é necessário? Existe uma alternativa segura? É possível reposicioná-lo? Posso aliviar a pressão sem comprometer sua função?”

Quando clinicamente possível, a remoção precoce de dispositivos desnecessários é uma das estratégias preventivas destacadas na literatura.

O que fazer quando a lesão já apareceu?

Primeiramente, a equipe deve reconhecer e registrar a alteração. É importante avaliar localização, tamanho, aspecto da pele, presença de dor, exsudato, edema e outros sinais relevantes. Em seguida, deve-se investigar o dispositivo responsável e verificar se ele continua sendo necessário. Quando for possível e seguro, deve-se aliviar ou eliminar a fonte de pressão.

A conduta específica para tratamento dependerá do tipo e da gravidade da lesão, das condições clínicas do paciente e do protocolo institucional. Lesões mais profundas, áreas de necrose, sinais de infecção ou evolução rápida exigem avaliação especializada.

O papel da documentação de enfermagem

A documentação é parte importante da segurança do paciente. Ao identificar uma alteração relacionada a um dispositivo, o profissional deve registrar adequadamente o achado conforme as normas institucionais. É importante documentar, por exemplo, a localização, características da pele, dispositivo envolvido, medidas adotadas e evolução.

Isso permite acompanhar a resposta às intervenções e melhora a comunicação entre os profissionais. Além disso, a documentação ajuda a identificar padrões. Se uma determinada unidade começa a apresentar repetidamente lesões associadas ao mesmo dispositivo, isso pode indicar necessidade de revisão da técnica, do material, da fixação ou do protocolo.

Um exemplo prático para entender

Imagine um paciente internado na UTI utilizando ventilação não invasiva. A máscara precisa permanecer posicionada corretamente para que a terapia funcione. Após algumas horas, a enfermeira observa uma área avermelhada no dorso do nariz.

O erro seria pensar:

“É só uma vermelhidão, depois passa.” O correto é investigar.

  • A máscara está apertada demais?
  • Existe necessidade de ajustar a fixação?
  • O tamanho da máscara é adequado?
  • Existe algum ponto de pressão concentrada?
  • É possível utilizar uma proteção apropriada?
  • A terapia pode ser interrompida ou o dispositivo pode ser alternado com segurança?
  • A pele precisa ser reavaliada posteriormente?

Esse exemplo demonstra uma característica essencial da enfermagem: não esperar a ferida aparecer para começar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico em pacientes críticos

O ambiente de terapia intensiva reúne muitos dos fatores que favorecem esse tipo de lesão. O paciente pode estar sedado, imobilizado, edemaciado, hemodinamicamente instável e conectado simultaneamente a diversos dispositivos. Além disso, alguns dispositivos precisam permanecer instalados continuamente.

Por isso, a prevenção precisa fazer parte da rotina da assistência. A equipe deve olhar para o paciente como um todo, e não apenas para cada equipamento individualmente.

Um tubo pode estar perfeitamente instalado, uma sonda pode estar corretamente fixada e um eletrodo pode estar funcionando adequadamente. Ainda assim, quando todos esses elementos são analisados em conjunto, pode existir uma grande quantidade de pontos de pressão sobre a pele.

A importância da avaliação durante o banho e a mudança de decúbito

O banho é uma excelente oportunidade para avaliação da pele. Quando o dispositivo puder ser temporariamente removido, reposicionado ou afastado com segurança, a equipe pode aproveitar esse momento para observar áreas que normalmente ficam escondidas. Durante a mudança de decúbito, também é importante verificar se cabos, tubos, sondas ou outros dispositivos ficaram presos ou posicionados sob o corpo.

Uma simples inspeção durante esses momentos pode evitar que uma pequena alteração evolua para uma lesão significativa.

Higiene da pele e controle da umidade

A pele excessivamente úmida pode ficar mais vulnerável ao dano. Suor, secreções, saliva, urina, fezes e outros líquidos podem permanecer em contato com a pele, principalmente em regiões cobertas por dispositivos. Por isso, a higiene adequada e o controle da umidade fazem parte da prevenção.

Quando houver indicação, produtos de proteção da barreira cutânea podem ser utilizados de acordo com o protocolo da instituição e as características do paciente. Entretanto, é importante evitar aplicar produtos de maneira indiscriminada sobre dispositivos, adesivos ou áreas nas quais possam prejudicar a fixação.

Cuidados de enfermagem: um resumo prático

Uma forma simples de lembrar a prevenção é pensar em cinco perguntas:

  • O dispositivo ainda é necessário?
  • Está bem posicionado?
  • Está exercendo pressão excessiva?
  • A pele abaixo ou ao redor está preservada?
  • É possível reposicionar, proteger ou substituir o dispositivo com segurança?

Essas perguntas podem transformar uma avaliação aparentemente simples em uma estratégia efetiva de prevenção.

O papel da educação da equipe

A prevenção da lesão relacionada a dispositivo médico não deve depender apenas de um profissional. Enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e demais profissionais envolvidos no cuidado precisam reconhecer os riscos.

A educação permanente é especialmente importante porque novos dispositivos e novas tecnologias são incorporados continuamente à assistência. Uma revisão sistemática identificou a educação da equipe, padronização da documentação, auditoria e desenvolvimento de protocolos entre as estratégias utilizadas para melhorar a prevenção.

Lesão por dispositivo médico também é uma questão de segurança do paciente

A prevenção dessas lesões está diretamente relacionada à qualidade da assistência. No Brasil, a Anvisa mantém orientações específicas relacionadas à prevenção de lesões por pressão e à segurança do paciente. A Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023 atualizou orientações sobre práticas de segurança para prevenção de lesão por pressão.

O Ministério da Saúde também mantém o protocolo nacional de prevenção de úlcera/lesão por pressão, cujo objetivo é promover medidas para evitar essas lesões e outros danos à pele. Portanto, prevenir uma lesão causada por um dispositivo não é apenas um cuidado dermatológico. É uma prática de segurança do paciente. A Lesão por Dispositivo Médico é um problema que pode passar despercebido porque o dispositivo está sendo utilizado justamente para tratar, monitorar ou proteger o paciente.

É importante lembrar que um dispositivo necessário não é automaticamente um dispositivo inofensivo. A enfermagem tem papel fundamental na prevenção porque permanece próxima do paciente e consegue identificar alterações precocemente.

Avaliar a pele, conferir a fixação, observar pontos de pressão, reposicionar quando possível, proteger áreas vulneráveis, controlar umidade, evitar tração e retirar dispositivos desnecessários são atitudes que podem fazer uma grande diferença.

Mais do que saber instalar um dispositivo, o profissional precisa aprender a olhar para o que acontece com a pele enquanto esse dispositivo permanece instalado.

Esse olhar preventivo é uma das características de uma assistência de enfermagem segura e de qualidade.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o programa nacional de segurança do paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
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  4. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023: práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/notas-tecnicas-vigentes/nota-tecnica-gvims-ggtes-anvisa-no-05-2023-praticas-de-seguranca-do-paciente-em-servicos-de-saude-prevencao-de-lesao-por-pressao/view

  5. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção de úlcera por pressão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/seguranca-do-paciente/publicacoes/protocolos-de-seguranca-do-paciente/protocolo-ulcera-por-pressao.pdf/view

  6. GALETTO, S. G. da S. et al. Prevenção de lesões por pressão relacionadas a dispositivos médicos em pacientes críticos: cuidados de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 2, e20200062, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/7Nvg3kfsfyNMqkMzvH8rh4D/?lang=pt

  7. LYU, C. et al. Interventions and strategies to prevent medical device-related pressure injury in adult patients: a systematic review. Journal of Clinical Nursing, v. 32, p. 6863-6878, 2023. DOI: 10.1111/jocn.16790. Disponível em: PubMed – Medical device-related pressure injury prevention

  8. NATIONAL PRESSURE INJURY ADVISORY PANEL; EUROPEAN PRESSURE ULCER ADVISORY PANEL; PAN PACIFIC PRESSURE INJURY ALLIANCE. Device-Related Pressure Injuries. In: HAESLER, E. (ed.). Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. 4. ed. 2025. Disponível em: International Guideline – Device-Related Pressure Injuries

  9. SANTOS, C. N. S. et al. Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos: prevenção e fatores de risco associados. Nursing Edição Brasileira, v. 24, n. 282, p. 6480-6486, 2021. DOI: 10.36489/nursing.2021v24i282p6480-6486. Disponível em: Nursing Edição Brasileira – Lesão por pressão relacionada a dispositivos médicos

  10. GEFEN, A. et al. An international consensus on device-related pressure ulcers: SECURE prevention. British Journal of Nursing, v. 29, n. 5, p. S36-S38, 2020. DOI: 10.12968/bjon.2020.29.5.S36. Disponível em: PubMed – SECURE prevention

O que é Termo de Consentimento Informado do Paciente?

Vá direto ao ponto!

O Termo de Consentimento Informado do Paciente é um documento que representa muito mais do que uma simples assinatura antes de um procedimento. Ele está relacionado diretamente ao direito do paciente de receber informações, compreender sua situação e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

Na prática, o consentimento informado materializa um dos princípios mais importantes da assistência em saúde: a autonomia do paciente.

Para quem está começando na Enfermagem, é comum surgir a dúvida: “Se o paciente assinou o termo, significa que o profissional está protegido de qualquer responsabilidade?” A resposta é não.

A assinatura, sozinha, não transforma um procedimento inadequado em procedimento correto, não autoriza negligência ou imprudência e não substitui uma comunicação adequada com o paciente.

O consentimento é, antes de tudo, um processo de informação e decisão, e o documento serve como registro desse processo.

No Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, o Cofen determina que o profissional respeite a autonomia da pessoa na tomada de decisão livre e esclarecida sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto e bem-estar. O mesmo Código estabelece a necessidade de consentimento prévio para a prática profissional, ressalvadas situações previstas na própria norma, como incapacidade decisória sem representante ou responsável legal e outras situações legalmente estabelecidas.

O que é o Termo de Consentimento Informado?

O Termo de Consentimento Informado, também encontrado como Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ou simplesmente consentimento informado, é um instrumento utilizado para registrar que o paciente recebeu informações adequadas sobre determinado procedimento, tratamento ou intervenção e teve oportunidade de decidir de maneira livre e esclarecida.

É importante diferenciar duas coisas:

Consentimento informado é o processo.

Termo de consentimento é o documento que registra esse processo.

Essa diferença é fundamental. Imagine que um paciente receba um formulário de várias páginas e simplesmente escute:

“Assine aqui.”

Ele pode ter assinado o documento, mas isso não significa necessariamente que tenha ocorrido um consentimento verdadeiramente informado.

Para que exista consentimento válido, o paciente precisa ter recebido informações compreensíveis e ter tido oportunidade de fazer perguntas e tomar sua decisão sem coerção.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, estabelece que a informação deve ser correta, suficiente, adequada e capaz de esclarecer as dúvidas do paciente, utilizando linguagem acessível e sem induzi-lo ao erro sobre natureza, características, riscos, consequências ou outros aspectos do procedimento.

Por que o consentimento informado é tão importante?

Imagine que uma pessoa precise realizar uma cirurgia.

Ela pode pensar que o procedimento é simples, mas desconhecer:

  • qual é exatamente o procedimento;
  • por que ele é necessário;
  • quais benefícios são esperados;
  • quais riscos podem ocorrer;
  • quais alternativas existem;
  • o que pode acontecer se não realizar o procedimento;
  • como será o período de recuperação.

Sem essas informações, a pessoa não consegue participar verdadeiramente da decisão. O consentimento informado procura justamente evitar que o paciente seja tratado como alguém que simplesmente “recebe ordens”. Ele reconhece que o paciente é sujeito ativo do próprio cuidado.

Isso está diretamente relacionado aos princípios de autonomia, dignidade, liberdade e respeito aos direitos humanos. O próprio Código de Ética da Enfermagem afirma que o profissional deve atuar respeitando a autonomia da pessoa e sua participação em decisões relacionadas à própria saúde.

Consentimento informado não é apenas uma burocracia

Um dos maiores erros é enxergar o termo apenas como um documento necessário para “liberar” uma cirurgia, exame ou procedimento. Na realidade, ele faz parte de uma relação de comunicação entre profissional e paciente. O documento deve ser consequência de uma conversa adequada. Por exemplo, imagine um paciente que receberá determinado procedimento invasivo.

Não basta entregar o papel. É necessário que ele tenha condições de compreender:

  • O que será feito?
  • Por que será feito?
  • Quais benefícios podem ser esperados?
  • Quais riscos existem?
  • Existem alternativas?
  • O que pode acontecer se ele não fizer?
  • Como será o cuidado depois?

Quando necessário, também devem ser explicados desconfortos, limitações, possibilidade de complicações e outras informações relevantes. A Recomendação CFM nº 1/2016 apresenta justamente elementos que devem compor o consentimento, incluindo justificativa, objetivos, descrição do procedimento, duração, possíveis desconfortos, benefícios, riscos, alternativas, consequências da não realização e cuidados posteriores.

Consentimento informado e autonomia do paciente

A autonomia significa, de maneira simplificada, o direito que uma pessoa capaz possui de participar das decisões sobre sua própria vida e saúde. Isso significa que o paciente não é obrigado a aceitar determinado tratamento simplesmente porque o profissional acredita que aquela seja a melhor opção.

Depois de receber informações adequadas, o paciente pode:

  • aceitar o procedimento;
  • recusar o procedimento;
  • fazer perguntas;
  • pedir esclarecimentos;
  • solicitar tempo para pensar, quando a situação permitir;
  • buscar uma segunda opinião.

O profissional deve respeitar a decisão dentro dos limites éticos e legais aplicáveis. Isso é particularmente importante porque uma decisão diferente daquela desejada pela equipe não significa necessariamente que o paciente “não sabe o que está fazendo”. A autonomia pressupõe justamente que pessoas capazes possam tomar decisões diferentes das que o profissional tomaria.

O paciente pode mudar de ideia depois de assinar?

Sim. Esse é um ponto muito importante. A assinatura do termo não significa que o paciente tenha perdido o direito de mudar sua decisão. O consentimento deve permanecer livre e voluntário.

Se, antes do procedimento, o paciente disser:

“Eu não quero mais fazer.” a equipe não deve simplesmente responder:

“Mas você já assinou.”

É necessário avaliar a situação, compreender o motivo da mudança, comunicar a equipe responsável e registrar adequadamente a decisão. A assinatura não transforma o consentimento em uma obrigação irrevogável.

O que deve constar em um Termo de Consentimento?

O conteúdo pode variar conforme o procedimento, instituição e legislação aplicável. Entretanto, de maneira geral, um termo adequado deve apresentar informações suficientes para que o paciente compreenda aquilo que está autorizando. Entre os elementos importantes estão:

Identificação

Deve haver identificação adequada do paciente e, quando aplicável, de seu representante legal. Também podem constar os profissionais envolvidos e informações de contato, conforme o modelo utilizado.

Descrição do procedimento

O paciente precisa saber o que será realizado. Evitar termos excessivamente técnicos é essencial. Em vez de simplesmente escrever:

“Realização de procedimento invasivo sob sedação.” é importante explicar, de forma compreensível, o que efetivamente acontecerá.

Finalidade

Deve ficar claro por que o procedimento está sendo proposto.

Benefícios esperados

O paciente deve saber quais resultados são esperados. É importante evitar promessas de resultados garantidos quando eles não podem ser assegurados.

Riscos e possíveis complicações

Os riscos relevantes devem ser apresentados de maneira compreensível. Não é necessário assustar o paciente, mas também não se deve esconder informações importantes.

Alternativas

Quando existirem alternativas razoáveis, elas devem ser apresentadas conforme a situação clínica.

Consequências da recusa

O paciente também precisa compreender o que pode acontecer caso decida não realizar o procedimento.

Cuidados posteriores

Quando aplicável, o documento deve informar cuidados necessários após o procedimento. A Recomendação CFM nº 1/2016 inclui esses elementos entre aqueles que devem constar no consentimento livre e esclarecido.

Linguagem simples é fundamental

Um termo de consentimento não deve ser escrito como se tivesse sido produzido exclusivamente para profissionais de saúde. Imagine entregar a um paciente:

“Consentimento para realização de procedimento com possibilidade de intercorrências hemodinâmicas, eventos tromboembólicos e complicações inerentes à abordagem invasiva.”

Para um profissional de saúde, a frase pode parecer relativamente compreensível, para muitos pacientes, não. Por isso, o ideal é explicar os termos técnicos.

Por exemplo:

  • Trombose: formação de um coágulo dentro de um vaso sanguíneo.
  • Hemorragia: sangramento que pode ser significativo dependendo da situação.
  • Sedação: uso de medicamentos para reduzir ansiedade, desconforto ou nível de consciência durante determinado procedimento.

A informação precisa ser adequada ao nível de compreensão do paciente.

Quem deve explicar o procedimento?

Essa é uma questão que merece bastante atenção. O profissional responsável pela realização ou indicação do procedimento deve cumprir as responsabilidades que lhe cabem na obtenção do consentimento, conforme o tipo de intervenção e as normas institucionais e profissionais.

A enfermagem também possui responsabilidades importantes. O profissional de Enfermagem deve garantir que sua atuação respeite a autonomia e o consentimento do paciente. O Código de Ética estabelece que a prática profissional deve ocorrer mediante consentimento prévio do paciente, representante ou responsável legal, ou decisão judicial, ressalvadas as situações previstas na própria norma.

Isso não significa, entretanto, que o técnico de enfermagem deva assumir a responsabilidade de explicar aspectos médicos de um procedimento para os quais não possui competência.

E se o paciente disser que não entendeu?

Esse é um momento em que a equipe precisa parar e esclarecer. Nunca é adequado pensar:

“Ele já assinou.”

Se o paciente demonstra dúvida, o consentimento precisa ser revisto e as informações novamente explicadas pelo profissional competente.

Um paciente que pergunta:

-“Mas existe risco de eu morrer?”; não deve receber simplesmente dizer:

– “Está tudo explicado no papel.”

Essa pergunta demonstra que existe uma preocupação que precisa ser acolhida e esclarecida.

Consentimento e capacidade de decisão

Nem toda pessoa possui capacidade para tomar decisões de saúde de forma autônoma em todas as situações. É necessário avaliar a capacidade de compreensão e decisão de acordo com o contexto.

Uma pessoa pode estar consciente e conversar normalmente, mas ainda assim apresentar alterações que comprometam sua capacidade de compreender determinada decisão. Por isso, estar acordado não é sinônimo de estar automaticamente apto a consentir sobre qualquer procedimento.

Quando o paciente não possui capacidade para decidir, a situação deve ser conduzida conforme a legislação, as normas profissionais e os protocolos institucionais, incluindo a participação de representante ou responsável legal quando aplicável.

Crianças e adolescentes

A situação envolvendo crianças e adolescentes exige atenção especial. Em determinadas circunstâncias, o consentimento é obtido do responsável legal, enquanto a criança ou adolescente pode participar do processo de decisão de acordo com sua capacidade de compreensão.

No contexto de pesquisa com seres humanos, por exemplo, a legislação brasileira diferencia consentimento do responsável e assentimento do participante menor ou legalmente incapaz, considerando sua capacidade de compreensão. A Lei nº 14.874/2024 estabelece regras específicas para pesquisas envolvendo seres humanos.

É importante não confundir automaticamente as regras de pesquisa científica com as regras aplicáveis à assistência clínica cotidiana: cada situação possui normas próprias.

E quando o paciente está inconsciente?

Em uma situação de emergência, o atendimento não pode simplesmente ser interrompido porque não foi possível obter uma assinatura. Existem situações em que o paciente está incapaz de manifestar sua vontade e não há representante disponível, enquanto a intervenção é necessária para preservar sua vida ou evitar dano grave.

Nessas circunstâncias, aplicam-se as exceções previstas na legislação, normas profissionais e protocolos institucionais. O próprio Código de Ética da Enfermagem prevê ressalvas ao consentimento prévio nos casos em que não haja capacidade de decisão e esteja ausente representante ou responsável legal, entre outras situações previstas.

Isso é diferente de simplesmente realizar um procedimento eletivo sem consentimento.

O consentimento informado protege o profissional?

Sim, o documento pode possuir importante valor documental, ético e jurídico. Mas existe uma diferença enorme entre documentar o consentimento e usar o termo como uma espécie de “blindagem” profissional. Imagine que um profissional cometa uma falha técnica durante um procedimento e depois tente justificar:

“Mas o paciente assinou o termo.” Isso não elimina automaticamente a responsabilidade pelo erro.

O consentimento significa que o paciente autorizou determinado procedimento depois de receber informações adequadas. Ele não autoriza o profissional a agir com negligência, imprudência ou imperícia.

O Código de Ética da Enfermagem estabelece responsabilidade profissional por faltas cometidas no exercício das atividades quando caracterizadas as condições previstas no próprio Código.

Portanto:

  • Consentimento não significa autorização para causar dano.
  • O termo também protege o paciente

Essa talvez seja uma das funções mais importantes do documento. O termo não deve ser encarado somente como proteção para o hospital ou para o profissional. Ele também protege o paciente porque documenta que determinadas informações deveriam ter sido apresentadas e que houve participação na decisão. Mais importante ainda: o próprio processo de consentimento ajuda o paciente a compreender melhor aquilo que acontecerá.

Consentimento informado e sigilo

O consentimento também se relaciona com privacidade e confidencialidade. Informações relacionadas à saúde do paciente são dados sensíveis e devem ser protegidas. O Código de Ética da Enfermagem determina o dever de manter sigilo sobre fatos conhecidos em razão da atividade profissional, ressalvadas as situações previstas em lei ou nas normas éticas.

Por isso, documentos de consentimento, prontuários e informações clínicas devem ser manejados de acordo com as normas de segurança e confidencialidade da instituição e da legislação aplicável.

Qual é o papel da Enfermagem?

A enfermagem está muito próxima do paciente durante todo o processo assistencial. Por isso, frequentemente é o profissional de enfermagem quem percebe primeiro que o paciente:

  • não entendeu o procedimento;
  • está inseguro;
  • apresenta dúvidas;
  • mudou de opinião;
  • está com medo;
  • não compreendeu os riscos;
  • acredita que está assinando outra coisa.

Nessas situações, a equipe de enfermagem deve acolher o paciente e comunicar o profissional responsável, evitando ultrapassar seus limites de competência. O Código de Ética também estabelece que o profissional de Enfermagem deve atuar de maneira autônoma e respeitar os direitos humanos, incluindo liberdade, dignidade, segurança pessoal e livre escolha.

Cuidados de enfermagem relacionados ao consentimento informado

Antes de um procedimento, a enfermagem pode contribuir para que o processo seja mais seguro verificando se o paciente está adequadamente identificado e se a documentação necessária está disponível, de acordo com o protocolo institucional. Também é importante observar se existe alguma situação que possa comprometer a compreensão ou a segurança do paciente.

Por exemplo, um paciente muito sedado, confuso ou com alteração importante do nível de consciência não deve ser tratado da mesma maneira que um paciente plenamente orientado.

Outro cuidado importante é não induzir a resposta do paciente.

Perguntar:

-“Você vai assinar, não é?”; é diferente de perguntar:

-“Você entendeu o procedimento e gostaria que eu chamasse o profissional responsável para esclarecer alguma dúvida?”

A segunda abordagem respeita muito mais a autonomia.

O que a enfermagem deve fazer se o paciente se recusar?

A recusa deve ser tratada com seriedade. O profissional não deve ameaçar, constranger ou ridicularizar o paciente. Uma abordagem adequada é compreender o motivo:

-“Você poderia me explicar o que está deixando você inseguro?”

Talvez o paciente tenha medo da dor. Talvez não tenha entendido o procedimento, talvez tenha recebido uma informação diferente de outro profissional ou talvez simplesmente não queira realizar o procedimento. Depois disso, a situação deve ser comunicada à equipe responsável e documentada conforme os protocolos institucionais.

O direito à autonomia não desaparece simplesmente porque a decisão do paciente é diferente daquela desejada pela equipe.

Termo de consentimento e prontuário

O termo normalmente integra a documentação assistencial e deve ser arquivado conforme as regras da instituição. A documentação precisa permitir identificar:

  • quem consentiu;
  • para qual procedimento;
  • quando;
  • em quais condições;
  • quem prestou as informações;
  • e quais documentos foram utilizados.

A Recomendação CFM nº 1/2016, por exemplo, prevê a existência de vias do termo, com uma destinada ao paciente e outra para arquivamento no prontuário médico. Os detalhes podem variar conforme o procedimento, instituição e regulamentação aplicável.

Consentimento informado não é o mesmo que autorização genérica

Essa diferença é muito importante. Um documento dizendo:

“Autorizo todos os procedimentos necessários.” é muito mais genérico do que um consentimento específico e esclarecido para determinada intervenção.

O paciente precisa saber o que está autorizando. Quanto mais relevante, invasivo ou complexo for o procedimento, maior é a importância de uma comunicação adequada e específica.

Consentimento para procedimentos de enfermagem

A relação entre consentimento e enfermagem não se limita a cirurgias. A assistência de enfermagem também envolve procedimentos que podem exigir consentimento conforme sua natureza, riscos, normas profissionais e protocolos institucionais.

Exemplos podem incluir determinados procedimentos invasivos, coleta de materiais, inserção de dispositivos, administração de determinados tratamentos ou participação em procedimentos específicos. O profissional precisa conhecer as normas institucionais e profissionais relacionadas à sua atividade.

O princípio geral permanece:

“o paciente não deve ser submetido a uma intervenção contra sua vontade, salvo as situações excepcionais previstas em lei e nas normas aplicáveis.”

Termo de consentimento e pesquisa científica

É importante fazer uma distinção. O consentimento para assistência à saúde não é exatamente a mesma coisa que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido utilizado em pesquisas com seres humanos. A pesquisa possui regras próprias.

A Lei nº 14.874/2024 dispõe sobre pesquisas com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, estabelecendo princípios e regras específicas para essa atividade.

Em pesquisas, o consentimento precisa abordar aspectos específicos relacionados à participação do indivíduo, riscos, benefícios, voluntariedade, proteção e demais exigências previstas nas normas aplicáveis.

Um exemplo prático para o estudante de enfermagem

Imagine que um paciente esteja internado e será submetido a um procedimento. Antes de encaminhá-lo, o técnico de enfermagem percebe que ele pergunta:

-“Mas o que exatamente vão fazer comigo?” Esse momento é um sinal de alerta.

A resposta não deve ser:

-“Está tudo no termo que você assinou.”

O profissional pode acolher a dúvida e verificar se o paciente recebeu as informações necessárias, acionando o enfermeiro e/ou profissional responsável pelo procedimento para esclarecimento. Isso é segurança do paciente.

O objetivo não é simplesmente conferir se existe uma assinatura no papel e sim verificar se o processo de cuidado está acontecendo de forma segura, ética e respeitosa.

Principais erros relacionados ao consentimento informado

Um dos erros mais comuns é transformar o termo em uma mera formalidade administrativa. Outro erro é entregar o documento sem explicar seu conteúdo. Também é inadequado utilizar linguagem excessivamente técnica, omitir riscos relevantes, pressionar o paciente para assinar ou tratar a assinatura como autorização para qualquer procedimento futuro.

Outro problema é não registrar adequadamente situações em que o paciente demonstra dúvida, recusa ou mudança de decisão. A enfermagem deve estar atenta a esses sinais.

O que o estudante de enfermagem precisa memorizar?

Se você estiver estudando para uma prova ou começando a trabalhar, pense em cinco palavras:

Informação.

O paciente precisa receber informações adequadas.

Compreensão.

Não basta entregar o documento; é necessário que a informação seja compreensível.

Liberdade.

A decisão não deve ser obtida por ameaça ou coerção.

Autonomia.

O paciente participa da decisão sobre seu próprio cuidado.

Registro.

O processo deve ser documentado adequadamente. Esses cinco pontos ajudam a entender a essência do consentimento informado.

Consentimento informado: não é apenas uma assinatura

O Termo de Consentimento Informado representa uma mudança importante na relação entre profissional e paciente. Durante muito tempo, o modelo de assistência foi fortemente baseado na ideia de que o profissional decidiria e o paciente simplesmente seguiria as orientações. Hoje, a assistência ética valoriza cada vez mais a autonomia, a informação e a participação do paciente.

Para a Enfermagem, isso significa compreender que cuidar não é apenas executar procedimentos. Cuidar também é informar, ouvir, respeitar, orientar, proteger e reconhecer o direito do paciente de participar das decisões sobre sua própria saúde. O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem é bastante claro ao estabelecer o respeito à autonomia da pessoa e ao consentimento prévio para a prática profissional, dentro das situações e exceções previstas.

Portanto, quando você encontrar um Termo de Consentimento Informado no ambiente hospitalar, não pense apenas:

“Preciso conferir se está assinado.”

Pense:

“O paciente sabe o que está acontecendo? Entendeu? Teve oportunidade de perguntar? Está decidindo livremente? E sua decisão está sendo respeitada?” Essa é a essência do consentimento informado.

Referências:

  1. BRASIL. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024. Dispõe sobre a pesquisa com seres humanos e institui o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Lei nº 14.874/2024 – Planalto
  2.  

    CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 564/2017. Aprova o novo Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Brasília, DF: Cofen, 2017. Resolução Cofen nº 564/2017

  3. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Recomendação CFM nº 1/2016. Dispõe sobre o processo de obtenção de consentimento livre e esclarecido para assistência médica. Brasília, DF: CFM, 2016. Recomendação CFM nº 1/2016
  4. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução Cofen nº 556/2017, alterada pelas Resoluções Cofen nº 700/2022 e nº 757/2024. Regulamenta a atividade do enfermeiro forense e apresenta modelo de Termo de Consentimento Informado no âmbito de suas disposições. Brasília, DF: Cofen. Resolução Cofen nº 556/2017 e alterações
  5. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Entra em vigor novo Código de Ética da Enfermagem brasileira. Brasília, DF: Cofen, 2018. Cofen – Novo Código de Ética da Enfermagem
  6. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.

Rotas nas Vias de Administração de Medicamentos: como o fármaco “escolhe” o caminho até o organismo?

Quando um paciente recebe um medicamento, seja um comprimido, uma injeção ou um adesivo na pele, existe toda uma ciência por trás da escolha da via de administração. Essa decisão não acontece por acaso. Ela é baseada nas características do medicamento, na condição clínica do paciente, na velocidade de ação desejada e até mesmo na capacidade do organismo em absorver aquele fármaco.

Uma dúvida bastante comum entre estudantes de enfermagem é: o medicamento “escolhe” sua rota?

Na verdade, quem escolhe a via de administração é o profissional prescritor, mas essa escolha é fortemente influenciada pelas propriedades físico-químicas do próprio fármaco. Em outras palavras, é como se cada medicamento tivesse um “caminho ideal” para chegar ao seu local de ação.

Nesta publicação você entenderá como funciona essa escolha, quais são as principais rotas de administração, suas vantagens, desvantagens e os cuidados de enfermagem em cada uma delas.

O que é uma via de administração?

A via de administração é o caminho utilizado para introduzir um medicamento no organismo.

Cada via possui características próprias que influenciam diretamente:

  • velocidade de absorção;
  • quantidade absorvida;
  • início da ação;
  • duração do efeito;
  • metabolismo do medicamento;
  • eliminação;
  • segurança do tratamento.

A escolha correta da via é tão importante quanto a escolha do próprio medicamento.

Afinal, o medicamento escolhe sua rota?

Essa é uma maneira bastante didática de compreender a farmacologia. Na prática, quem determina a via é o médico ou outro profissional habilitado na prescrição. Porém, essa decisão depende das características do medicamento.

É como imaginar uma encomenda: Uma carta pode ser enviada pelos Correios. Já uma carga extremamente pesada precisa ser transportada por caminhão e cada tipo de carga possui o transporte mais adequado.

Com os medicamentos acontece exatamente a mesma coisa:  Alguns são destruídos pelo ácido do estômago, outros praticamente não são absorvidos pelo intestino. Alguns precisam agir imediatamente e outros devem ser liberados lentamente ao longo do dia, tudo isso influencia a escolha da via.

Quais fatores determinam a escolha da rota?

Diversos fatores são avaliados.

Características do medicamento

Entre elas:

  • estabilidade química;
  • solubilidade;
  • tamanho molecular;
  • lipossolubilidade;
  • pH;
  • possibilidade de irritação dos tecidos;
  • metabolismo hepático.

Estado clínico do paciente

Também influencia bastante.

Exemplos:

  • paciente consciente;
  • paciente inconsciente;
  • presença de vômitos;
  • dificuldade para engolir;
  • intubação orotraqueal;
  • uso de sonda enteral;
  • choque;
  • má perfusão periférica.

Velocidade de ação desejada

Algumas situações exigem resposta imediata.

Exemplo:

Parada cardiorrespiratória.

Nesse caso, a via intravenosa é a mais indicada.

Já medicamentos para tratamento contínuo podem ser administrados por via oral.

Tempo de tratamento

Medicamentos utilizados durante meses ou anos geralmente utilizam vias mais confortáveis, como:

  • oral;
  • subcutânea;
  • transdérmica.

Local onde o medicamento deve agir

Alguns medicamentos atuam apenas em determinado órgão. Por exemplo:

  • Colírios atuam principalmente nos olhos.
  • Pomadas dermatológicas atuam na pele.
  • Sprays nasais atuam na mucosa nasal.

Assim evita-se maior exposição sistêmica.

Como o medicamento percorre o organismo?

Após ser administrado, ele passa por quatro etapas importantes conhecidas pela sigla LADME.

L — Liberação

O medicamento precisa ser liberado da sua forma farmacêutica.

Exemplo:

Um comprimido precisa se dissolver antes de ser absorvido.

A — Absorção

É a passagem do medicamento para a corrente sanguínea e essa etapa varia conforme a via utilizada.

D — Distribuição

Após entrar na circulação, o medicamento é distribuído para os tecidos. Alguns concentram-se no cérebro e outros no fígado, outros nos rins.

M — Metabolismo

Grande parte dos medicamentos sofre transformação química no fígado. Esse processo facilita sua eliminação.

E — Excreção

O medicamento é eliminado principalmente pelos:

  • rins;
  • fígado;
  • pulmões;
  • fezes;
  • suor.

Principais rotas das vias de administração

Embora existam dezenas de vias descritas, algumas são muito utilizadas na prática clínica.

Via oral (VO)

É a mais utilizada no mundo. O medicamento é ingerido pela boca.

Vantagens

É confortável, possui baixo custo, permite tratamento domiciliar, não é invasiva.

Desvantagens

Absorção mais lenta, pode sofrer influência dos alimentos, alguns medicamentos são destruídos pelo ácido gástrico, e não pode ser utilizada em pacientes inconscientes.

Via sublingual

O medicamento é colocado sob a língua. A absorção ocorre através dos vasos sanguíneos da mucosa oral.

Vantagens

Ação muito rápida, evita o metabolismo de primeira passagem pelo fígado.

Exemplo clássico:

Nitroglicerina.

Via bucal

Semelhante à sublingual. O medicamento permanece entre a gengiva e a bochecha e a absorção ocorre lentamente.

Via enteral por sonda

Muito utilizada em pacientes hospitalizados.

Pode ocorrer por:

Nem todos os medicamentos podem ser triturados. Comprimidos revestidos e de liberação prolongada geralmente não devem ser esmagados.

Via intravenosa (IV)

É considerada a via de ação mais rápida, o medicamento entra diretamente na circulação. Não existe fase de absorção.

Vantagens

Resposta imediata, controle preciso da dose, permite grandes volumes, ideal para emergências.

Desvantagens

Maior risco de infecção, necessidade de acesso venoso, maior risco de eventos adversos imediatos.

Via intramuscular (IM)

O medicamento é administrado no músculo, a absorção depende da vascularização muscular. É indicada para medicamentos que necessitam absorção relativamente rápida.

Via subcutânea (SC)

O medicamento é administrado no tecido adiposo, apresenta absorção mais lenta.

Exemplos:

Via intradérmica (ID)

O medicamento permanece na derme. Utilizada principalmente para:

Via tópica

Aplicada diretamente sobre pele ou mucosas.

Exemplos:

  • pomadas;
  • cremes;
  • loções;
  • géis.

Seu objetivo geralmente é ação local.

Via transdérmica

O medicamento atravessa lentamente a pele. Utiliza adesivos medicamentosos.

Exemplos:

  • nicotina;
  • fentanil;
  • nitroglicerina;
  • estrógenos.

A ação costuma durar muitas horas ou dias.

Via oftálmica

Administrada diretamente nos olhos.

Exemplos:

  • colírios;
  • pomadas oftálmicas.

Via otológica

Administrada no ouvido.

Indicada para:

  • infecções;
  • cerume;
  • inflamações.

Via nasal

Permite ação local ou sistêmica.

Exemplos:

  • descongestionantes;
  • corticosteroides;
  • naloxona intranasal.

Via inalatória

Muito utilizada em doenças respiratórias.

Exemplos:

O medicamento alcança diretamente os pulmões.

Via retal

Utilizada quando a via oral não é possível.

Exemplos:

  • vômitos;
  • convulsões;
  • pacientes inconscientes.

Via vaginal

Empregada principalmente para ação local.

Exemplos:

  • antifúngicos;
  • antibióticos;
  • hormônios.

Via epidural e intratecal

São utilizadas em situações específicas.

Exemplos:

  • anestesia;
  • analgesia;
  • quimioterapia.

Exigem técnica altamente especializada.

O metabolismo de primeira passagem

Esse é um conceito muito importante. Quando um medicamento é administrado por via oral, ele é absorvido pelo intestino e segue inicialmente para o fígado.

Nesse trajeto, parte do medicamento pode ser metabolizada antes mesmo de alcançar a circulação sistêmica. Esse fenômeno é chamado de efeito de primeira passagem hepática. Alguns medicamentos perdem grande parte da sua concentração por esse motivo. É justamente por isso que determinados fármacos são administrados por vias alternativas, como:

  • sublingual;
  • intravenosa;
  • transdérmica.

Biodisponibilidade: quanto do medicamento realmente chega ao sangue?

Nem todo medicamento administrado é totalmente absorvido. A biodisponibilidade representa a quantidade do fármaco que realmente alcança a circulação sistêmica. Na via intravenosa ela é praticamente de 100% e nas demais vias ela costuma ser menor.

Exemplos práticos

Imagine três pacientes com dor intensa:  O primeiro recebe um comprimido,  o segundo recebe uma injeção intramuscular. O terceiro recebe um medicamento intravenoso.

Embora seja o mesmo princípio ativo, a velocidade da melhora poderá ser completamente diferente. Isso ocorre porque cada via possui uma velocidade de absorção distinta.

Você sabia?

A insulina não pode ser administrada por via oral porque seria degradada pelas enzimas digestivas antes de ser absorvida. A nitroglicerina sublingual age em poucos minutos porque evita o metabolismo de primeira passagem no fígado.

Alguns adesivos transdérmicos conseguem liberar medicamento continuamente por até sete dias. A via intravenosa é a única que não possui etapa de absorção, pois o medicamento já é administrado diretamente na corrente sanguínea.

Nem todo medicamento disponível por via oral pode ser administrado por sonda. Formas farmacêuticas de liberação prolongada, revestidas ou gastro-resistentes podem perder sua eficácia ou causar eventos adversos se trituradas.

Cuidados de enfermagem

A administração segura de medicamentos começa antes da escolha da via e continua durante todo o processo assistencial. Entre os principais cuidados estão:

  • Confirmar a prescrição médica e verificar se a via prescrita corresponde à apresentação farmacêutica.
  • Realizar corretamente a identificação do paciente utilizando, no mínimo, dois identificadores.
  • Aplicar os princípios da administração segura de medicamentos (paciente, medicamento, dose, via, horário, registro e demais verificações institucionais).
  • Avaliar se o paciente apresenta condições para receber o medicamento pela via prescrita, como capacidade de deglutição, presença de náuseas, integridade da pele ou acesso venoso pérvio.
  • Conhecer as características farmacológicas do medicamento, incluindo tempo de ação, compatibilidade, diluição e possíveis efeitos adversos.
  • Nunca triturar comprimidos de liberação prolongada, revestidos entéricos ou cápsulas sem confirmação de que essa prática é permitida.
  • Na administração por sonda enteral, realizar lavagem da sonda antes e após cada medicamento, conforme protocolo institucional.
  • Observar possíveis reações adversas, alergias ou sinais de intolerância após a administração.
  • Registrar corretamente o procedimento no prontuário, incluindo a via utilizada, horário e intercorrências.
  • Manter-se atualizado sobre protocolos institucionais e recomendações de segurança do paciente.

A escolha da via de administração é resultado da integração entre as características do medicamento, as necessidades clínicas do paciente e o objetivo terapêutico. Embora seja comum dizer que o “fármaco escolhe sua rota”, essa é apenas uma forma didática de explicar que cada medicamento possui propriedades que o tornam mais adequado para determinadas vias de administração.

Para a enfermagem, compreender esses conceitos vai muito além da execução da técnica. Significa reconhecer por que determinado medicamento deve ser administrado por uma via específica, identificar situações que contraindicam essa administração e contribuir ativamente para a segurança do paciente. Quanto maior o conhecimento sobre farmacologia e vias de administração, maior será a qualidade da assistência prestada.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
  4. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília: ANVISA, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/protocolo-de-seguranca-na-prescricao-uso-e-administracao-de-medicamentos
  5. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  6. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  7. WHALEN, K. Farmacologia Ilustrada. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  8. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.

Adalimumabe: tudo o que você precisa saber sobre esse imunobiológico

O adalimumabe é um dos medicamentos imunobiológicos mais utilizados no mundo para o tratamento de doenças inflamatórias e autoimunes. Desde sua aprovação no início dos anos 2000, revolucionou o tratamento de enfermidades que antes apresentavam poucas opções terapêuticas, permitindo que milhares de pacientes alcançassem remissão da doença, redução da inflamação e melhora significativa na qualidade de vida.

Na prática clínica, o adalimumabe está presente em diversas especialidades médicas, como reumatologia, gastroenterologia, dermatologia, oftalmologia e pediatria. Para a enfermagem, conhecer seu mecanismo de ação, indicações, formas de administração, cuidados durante o armazenamento e possíveis efeitos adversos é fundamental para garantir uma assistência segura.

Aqui você conhecerá detalhadamente o que é o adalimumabe, como ele funciona, para quais doenças é indicado, quais são seus nomes comerciais, seus riscos, benefícios e os principais cuidados de enfermagem.

O que é o adalimumabe?

O adalimumabe é um anticorpo monoclonal humano recombinante, pertencente à classe dos medicamentos imunobiológicos. Sua principal função é bloquear uma proteína inflamatória denominada Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-α – Tumor Necrosis Factor alpha).

O TNF-α é uma citocina produzida pelo sistema imunológico e possui papel importante na defesa do organismo contra infecções. Entretanto, em pessoas com doenças autoimunes, essa proteína passa a ser produzida em excesso, provocando inflamação persistente e danos aos tecidos.

Ao bloquear o TNF-α, o adalimumabe reduz a resposta inflamatória exagerada, diminuindo sintomas como dor, edema, rigidez, diarreia, lesões cutâneas e destruição articular.

Como o adalimumabe age no organismo?

Para entender seu funcionamento, imagine que o TNF-α seja um “interruptor” que mantém a inflamação ligada continuamente. O adalimumabe atua como uma espécie de “chave” que se liga ao TNF-α antes que ele alcance seus receptores celulares.

Como consequência:

  • diminui a migração de células inflamatórias;
  • reduz a produção de outras citocinas;
  • controla a resposta autoimune;
  • diminui o dano aos tecidos;
  • favorece a cicatrização de áreas inflamadas.

Importante destacar que o medicamento não cura a doença autoimune, mas controla sua atividade enquanto está sendo utilizado.

O que é um imunobiológico?

Os imunobiológicos são medicamentos produzidos por técnicas de engenharia genética utilizando células vivas. Diferentemente dos medicamentos sintéticos tradicionais, eles são proteínas altamente complexas que atuam em alvos específicos do sistema imunológico.

Entre suas principais características estão:

  • elevada especificidade;
  • maior eficácia em doenças autoimunes moderadas e graves;
  • administração por via subcutânea ou intravenosa;
  • necessidade de refrigeração;
  • alto custo de produção.

Quais doenças podem ser tratadas com adalimumabe?

O adalimumabe possui diversas indicações aprovadas, embora elas possam variar conforme a legislação de cada país e a bula de cada produto. Entre as principais doenças estão:

Artrite reumatoide

Reduz:

  • dor;
  • rigidez matinal;
  • edema articular;
  • progressão das deformidades.

Artrite idiopática juvenil

Indicado em crianças com formas moderadas e graves da doença.

Artrite psoriásica

Controla tanto a inflamação articular quanto as lesões cutâneas da psoríase.

Espondilite anquilosante

Melhora:

  • dor lombar inflamatória;
  • rigidez;
  • mobilidade da coluna.

Espondiloartrite axial não radiográfica

Pode reduzir sintomas e retardar a progressão da doença em pacientes selecionados.

Psoríase em placas

É utilizado em casos moderados ou graves.

Promove redução das placas, descamação e prurido.

Hidradenite supurativa

É um dos tratamentos biológicos mais utilizados.

Reduz:

  • abscessos;
  • dor;
  • drenagem;
  • recorrências.

Doença de Crohn

É uma das principais indicações do medicamento.

Pode promover:

  • remissão clínica;
  • cicatrização da mucosa intestinal;
  • redução das fístulas;
  • diminuição da necessidade de cirurgias;
  • redução do uso prolongado de corticoides.

Retocolite ulcerativa

Auxilia no controle da inflamação intestinal e manutenção da remissão em pacientes elegíveis.

Uveíte não infecciosa

Diminui a inflamação ocular e reduz o risco de perda visual.

Quais são os nomes comerciais do adalimumabe?

Com o vencimento da patente do medicamento original, diversos biossimilares passaram a ser aprovados em vários países, incluindo o Brasil. Entre os principais nomes comerciais disponíveis estão:

Medicamento de referência

  • Humira® (AbbVie)

Biossimilares

Dependendo do país e da disponibilidade no mercado, podem ser encontrados:

  • Amgevita®
  • Hyrimoz®
  • Hadlima®
  • Yuflyma®
  • Idacio®
  • Imraldi®
  • Amsparity®
  • Hulio®
  • Abrilada®
  • Yusimry®
  • Cyltezo®
  • Simlandi®
  • Libmyris® (alguns mercados)
  • Exemptia® (alguns países)

No Brasil, a disponibilidade pode variar conforme aprovações da Anvisa, processos de incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), compras públicas e distribuição pelas operadoras de saúde. Novos biossimilares podem ser registrados ao longo do tempo.

O que é um biossimilar?

Um biossimilar não é um medicamento genérico. Ele é produzido para ser altamente semelhante ao medicamento biológico original.

Para ser aprovado, deve demonstrar:

  • eficácia equivalente;
  • segurança semelhante;
  • qualidade comparável;
  • atividade biológica equivalente.

Pequenas diferenças estruturais podem existir devido ao processo de fabricação, mas elas não devem comprometer o efeito clínico.

Como o adalimumabe é administrado?

O medicamento é administrado por injeção subcutânea.

As regiões mais utilizadas são:

  • abdômen (mantendo distância de aproximadamente 5 cm da cicatriz umbilical);
  • face anterior da coxa.

A escolha do local deve respeitar o rodízio das áreas de aplicação para reduzir irritação local.

Apresentações disponíveis

As apresentações podem variar conforme o fabricante. As mais comuns incluem:

  • seringa preenchida;
  • caneta autoinjetora (pen);
  • solução injetável pronta para uso.

As concentrações mais frequentes são:

  • 20 mg;
  • 40 mg;
  • 80 mg.

Em alguns mercados existem apresentações de alta concentração (como 100 mg/mL), desenvolvidas para reduzir o volume da injeção.

Qual é a frequência de administração?

A frequência depende da doença tratada e do protocolo adotado. Em muitas indicações utiliza-se:

  • aplicação a cada 14 dias.

Entretanto, algumas doenças exigem:

  • dose de ataque (indução);
  • aplicações semanais;
  • esquemas individualizados.

Na Doença de Crohn e na Retocolite Ulcerativa, por exemplo, é comum iniciar o tratamento com uma dose de indução mais elevada, seguida por doses de manutenção, conforme protocolo clínico e resposta do paciente.

Quanto tempo demora para fazer efeito?

Os primeiros resultados podem surgir entre 2 e 12 semanas. Entretanto, algumas doenças necessitam de vários meses para apresentar resposta completa.

O tratamento é para sempre?

Nem sempre.

A duração depende de diversos fatores:

  • doença de base;
  • resposta clínica;
  • exames laboratoriais;
  • atividade inflamatória;
  • orientação médica.

Em algumas doenças, como a Doença de Crohn, a interrupção do tratamento após alcançar remissão pode aumentar significativamente o risco de recaída. Por isso, muitos pacientes permanecem em uso prolongado, enquanto outros podem ter o esquema ajustado ou suspenso após avaliação criteriosa pelo especialista.

Quais exames devem ser realizados antes de iniciar o tratamento?

Antes da primeira dose, é essencial realizar uma investigação para reduzir o risco de complicações.

Os exames frequentemente solicitados incluem:

  • hemograma completo;
  • função hepática;
  • função renal;
  • sorologias para hepatites B e C;
  • teste para HIV, quando indicado;
  • pesquisa para tuberculose latente (PPD ou IGRA);
  • radiografia de tórax;
  • avaliação do calendário vacinal.

Dependendo do contexto clínico, o médico poderá solicitar outros exames.

Vacinas e adalimumabe

Pacientes em uso de adalimumabe podem receber diversas vacinas inativadas, conforme recomendação médica. Por outro lado, vacinas com microrganismos vivos atenuados geralmente devem ser evitadas durante o tratamento imunossupressor, salvo em situações específicas e após avaliação especializada.

Idealmente, o calendário vacinal deve ser atualizado antes do início da terapia.

Quais são os efeitos adversos?

Reações muito comuns

  • vermelhidão no local da aplicação;
  • dor;
  • prurido;
  • hematoma;
  • cefaleia;
  • infecções respiratórias leves.

Efeitos adversos importantes

  • tuberculose;
  • pneumonia;
  • herpes-zóster;
  • infecções oportunistas;
  • sepse;
  • alterações hepáticas;
  • insuficiência cardíaca (em pacientes predispostos);
  • desmielinização;
  • citopenias;
  • reações alérgicas.

Quando o medicamento deve ser suspenso temporariamente?

A decisão é sempre médica, mas geralmente pode ser necessária em situações como:

  • infecção grave;
  • febre persistente sem causa esclarecida;
  • sepse;
  • cirurgia de grande porte (em muitos casos, conforme protocolo da especialidade);
  • reações alérgicas importantes.

O paciente não deve interromper o tratamento por conta própria.

Como deve ser armazenado?

O armazenamento adequado é essencial para preservar a eficácia do medicamento.

Recomenda-se:

  • manter refrigerado entre 2 °C e 8 °C;
  • não congelar;
  • proteger da luz;
  • manter na embalagem original até o momento do uso.

Antes da aplicação, muitos fabricantes orientam retirar o medicamento da geladeira e aguardar cerca de 15 a 30 minutos para que atinja a temperatura ambiente, sem utilizar fontes externas de calor.

O adalimumabe pode aumentar o risco de câncer?

Essa é uma dúvida frequente. Os estudos disponíveis mostram que o risco absoluto é baixo, mas pacientes com doenças autoimunes já podem apresentar maior predisposição a algumas neoplasias independentemente do tratamento. Além disso, o uso de imunossupressores exige acompanhamento regular e avaliação individualizada dos riscos e benefícios.

A decisão de iniciar ou manter o adalimumabe deve sempre considerar o perfil clínico do paciente.

Curiosidades

O adalimumabe foi o primeiro anticorpo monoclonal totalmente humano aprovado para bloquear o TNF-α. Durante vários anos, o Humira® foi um dos medicamentos mais vendidos do mundo, tornando-se um marco na terapia biológica.

A chegada dos biossimilares ampliou o acesso ao tratamento em diversos países, reduzindo custos para sistemas públicos e privados de saúde. O medicamento não é considerado um quimioterápico, embora atue modulando o sistema imunológico.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem desempenha papel essencial na administração segura do adalimumabe e no acompanhamento dos pacientes em uso contínuo. Entre os principais cuidados estão:

  • Verificar a prescrição médica, a indicação clínica e a identificação correta do paciente antes da administração.
  • Confirmar se o medicamento foi armazenado adequadamente em refrigeração e se está dentro do prazo de validade.
  • Inspecionar visualmente a solução antes da aplicação, observando alterações de cor, partículas ou vazamentos na seringa ou caneta.
  • Orientar o paciente quanto à técnica correta de aplicação subcutânea, quando houver autoadministração domiciliar.
  • Realizar rodízio dos locais de aplicação para reduzir o risco de lipodistrofia, dor e irritação local.
  • Evitar aplicar em áreas com hematomas, cicatrizes, lesões, infecção ativa, psoríase intensa ou pele endurecida.
  • Observar o paciente quanto a possíveis reações locais ou sistêmicas após a administração.
  • Monitorar sinais e sintomas sugestivos de infecção, como febre, tosse persistente, perda de peso, sudorese noturna ou feridas de difícil cicatrização.
  • Orientar o paciente a comunicar imediatamente qualquer sinal de infecção antes da próxima dose.
  • Reforçar a importância da adesão ao tratamento e de não interromper o medicamento sem orientação médica.
  • Estimular a atualização do calendário vacinal antes do início da terapia, quando possível, e orientar sobre a necessidade de discutir qualquer vacinação durante o tratamento com a equipe de saúde.

O adalimumabe transformou o tratamento de diversas doenças inflamatórias crônicas ao proporcionar controle mais eficaz da resposta imunológica e melhorar significativamente a qualidade de vida de muitos pacientes. Seu uso exige acompanhamento cuidadoso, monitorização clínica e educação em saúde, especialmente devido ao aumento do risco de infecções e à necessidade de armazenamento e administração adequados.

Para a enfermagem, conhecer o mecanismo de ação, as indicações, os possíveis efeitos adversos e os cuidados relacionados ao medicamento é indispensável para oferecer uma assistência segura, promover a adesão ao tratamento e identificar precocemente possíveis complicações.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. FRESENIUS KABI BRASIL LTDA. Bula do profissional: IDACIO (adalimumabe). São Paulo, 2015. Disponível em: https://www.fresenius-kabi.com
  3. CONSULTA REMÉDIOS. Adalimumabe: bula, para que serve e como usar. 2020. Disponível em: https://consultaremedios.com.br/adalimumabe/bula
  4. ABBVIE. Humira® (adalimumabe): bula do profissional de saúde. Disponível em: https://www.abbvie.com
  5. EUROPEAN MEDICINES AGENCY (EMA). Adalimumab medicines. Disponível em: https://www.ema.europa.eu
  6. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Adalimumab Products. Disponível em: https://www.fda.gov
  7. KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 16. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  8. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  9. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
  10. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P. A.; HALL, A. M. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.
  11. SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Diretrizes para o tratamento de doenças reumáticas com imunobiológicos. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br
  12. ORGANIZAÇÃO BRASILEIRA DE DOENÇA DE CROHN E COLITE (GEDIIB). Diretrizes clínicas e materiais educativos. Disponível em: https://gediib.org.br

Síndrome de Abstinência de Sedativos e Hipnóticos

A Síndrome de Abstinência de Sedativos e Hipnóticos é uma condição potencialmente grave que ocorre quando uma pessoa interrompe abruptamente ou reduz rapidamente o uso de medicamentos depressores do sistema nervoso central após um período prolongado de utilização. Esses medicamentos são amplamente utilizados no tratamento da ansiedade, insônia, epilepsia, sedação em pacientes críticos e durante procedimentos médicos.

Embora muitos pacientes acreditem que apenas drogas ilícitas possam causar abstinência, diversos medicamentos prescritos rotineiramente também podem provocar dependência física quando utilizados por semanas ou meses. Entre eles destacam-se os benzodiazepínicos, barbitúricos e alguns hipnóticos não benzodiazepínicos.

Na prática hospitalar, especialmente em unidades de terapia intensiva (UTI), emergência e enfermarias, a equipe de enfermagem desempenha papel essencial na identificação precoce dos sinais de abstinência, contribuindo para reduzir complicações potencialmente fatais, como convulsões, delirium e insuficiência respiratória.

Hoje  você compreenderá de forma simples como ocorre essa síndrome, quais medicamentos estão envolvidos, seus principais sintomas, formas de tratamento e os cuidados de enfermagem indispensáveis.

O que é a síndrome de abstinência de sedativos e hipnóticos?

A síndrome de abstinência corresponde ao conjunto de sinais e sintomas que surgem quando um medicamento que vinha sendo utilizado continuamente é interrompido de forma abrupta ou reduzido muito rapidamente.

No caso dos sedativos e hipnóticos, o organismo acaba se adaptando à presença constante dessas substâncias. Quando elas deixam de estar disponíveis, ocorre uma hiperatividade do sistema nervoso central.

Em outras palavras, durante o uso prolongado desses medicamentos o cérebro “aprende” a funcionar com eles. Quando são retirados repentinamente, ocorre um verdadeiro “efeito rebote”, fazendo com que a atividade cerebral fique excessivamente estimulada.

Dependendo do medicamento utilizado, da dose e do tempo de uso, a abstinência pode variar desde sintomas leves até situações com risco de morte.

O que são sedativos e hipnóticos?

São medicamentos que diminuem a atividade do sistema nervoso central. Embora muitas pessoas utilizem esses termos como sinônimos, existe uma pequena diferença.

Sedativos diminuem a ansiedade, promovem relaxamento e reduzem a agitação, já os Hipnóticos têm como principal objetivo induzir ou manter o sono. Na prática, diversos medicamentos possuem ambos os efeitos.

Quais medicamentos podem causar essa síndrome?

Os principais grupos são:

Benzodiazepínicos

São os medicamentos mais frequentemente relacionados à síndrome de abstinência.

Entre eles estão:

  • Diazepam
  • Midazolam
  • Lorazepam
  • Clonazepam
  • Alprazolam
  • Bromazepam
  • Nitrazepam
  • Flunitrazepam
  • Oxazepam

Barbitúricos

Hoje são menos utilizados, porém apresentam elevado risco de dependência.

Exemplos:

  • Fenobarbital
  • Tiopental
  • Pentobarbital

Hipnóticos não benzodiazepínicos

Conhecidos popularmente como “medicamentos Z”.

Entre eles:

  • Zolpidem
  • Zopiclona
  • Eszopiclona
  • Zaleplona

Embora considerados mais seguros, também podem provocar abstinência após uso prolongado.

Outros medicamentos

Dependendo do tempo de utilização, também podem estar envolvidos:

  • Cloral hidratado
  • Meprobamato
  • Alguns anticonvulsivantes sedativos

Como esses medicamentos agem?

A maioria atua aumentando a ação do neurotransmissor GABA (ácido gama-aminobutírico). O GABA funciona como o principal “freio” do cérebro.

Quando os sedativos potencializam sua ação, ocorre:

  • relaxamento;
  • redução da ansiedade;
  • sonolência;
  • diminuição da atividade cerebral;
  • ação anticonvulsivante;
  • relaxamento muscular.

Após semanas ou meses de uso contínuo, o cérebro reduz sua sensibilidade ao GABA. Quando o medicamento é retirado, esse “freio” desaparece, fazendo com que o cérebro fique hiperestimulado.

Quem apresenta maior risco?

O risco aumenta quando existe:

  • uso diário por várias semanas;
  • doses elevadas;
  • idosos;
  • pacientes internados em UTI;
  • uso prolongado de sedação contínua;
  • associação de vários sedativos;
  • interrupção abrupta do medicamento;
  • histórico de dependência química.

Quando os sintomas aparecem?

O início depende da meia-vida do medicamento. Medicamentos de ação curta costumam produzir sintomas entre 6 e 24 horas após a suspensão. Já os de ação longa podem levar de 2 a 7 dias para iniciar a abstinência.

Quais são os sintomas?

Os sintomas variam bastante conforme o medicamento utilizado.

Sintomas leves

Podem incluir:

  • ansiedade;
  • irritabilidade;
  • inquietação;
  • tremores finos;
  • insônia;
  • sudorese;
  • cefaleia;
  • dificuldade de concentração;
  • náuseas;
  • palpitações.

Sintomas moderados

O paciente pode apresentar:

  • tremores intensos;
  • hipertensão arterial;
  • taquicardia;
  • febre baixa;
  • hipersensibilidade à luz;
  • hipersensibilidade ao som;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • dor abdominal;
  • fraqueza.

Sintomas graves

São considerados emergência médica.

Podem ocorrer:

  • convulsões;
  • delirium;
  • alucinações;
  • desorientação;
  • agitação psicomotora intensa;
  • psicose;
  • hipertermia;
  • rabdomiólise;
  • insuficiência respiratória;
  • coma.

Sem tratamento, alguns casos podem evoluir para óbito.

Como diferenciar abstinência de intoxicação?

Essa é uma dúvida bastante comum.

Intoxicação

O paciente geralmente apresenta:

  • sonolência;
  • fala lenta;
  • pupilas pouco reativas (dependendo do medicamento);
  • diminuição da frequência respiratória;
  • redução do nível de consciência.

Abstinência

O paciente apresenta justamente o oposto:

  • ansiedade intensa;
  • tremores;
  • hipertensão;
  • taquicardia;
  • agitação;
  • insônia;
  • hiperatividade do sistema nervoso.

Síndrome de abstinência na UTI

A síndrome é bastante frequente em pacientes críticos. Muitos permanecem sedados durante vários dias utilizando:

  • Midazolam;
  • Propofol (embora o mecanismo seja diferente, sua retirada também pode exigir atenção);
  • Dexmedetomidina;
  • Opioides associados.

Quando ocorre a redução rápida da sedação, podem surgir:

  • agitação;
  • hipertensão;
  • taquicardia;
  • dificuldade para desmame ventilatório;
  • delirium;
  • aumento do consumo de oxigênio.

Por isso, a retirada costuma ser feita de forma gradual e protocolada.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é predominantemente clínico.

O profissional considera:

  • histórico do uso do medicamento;
  • tempo de utilização;
  • momento da suspensão;
  • sintomas apresentados;
  • exclusão de outras causas.

Em pacientes críticos, escalas de sedação e delirium podem auxiliar na avaliação.

Como é realizado o tratamento?

O objetivo principal é controlar os sintomas e evitar complicações.

Na maioria dos casos, recomenda-se:

  • reintrodução do sedativo quando necessário;
  • redução gradual da dose (desmame);
  • monitorização contínua;
  • tratamento das complicações.

Nos benzodiazepínicos, frequentemente utiliza-se um fármaco de meia-vida mais longa, como o diazepam, para facilitar uma redução lenta e segura, conforme avaliação médica. Pacientes com convulsões ou delirium geralmente necessitam de internação.

Como prevenir a síndrome?

A prevenção é sempre a melhor estratégia.

Ela inclui:

  • evitar uso prolongado sem necessidade;
  • utilizar a menor dose eficaz;
  • revisar periodicamente a necessidade do medicamento;
  • realizar retirada gradual;
  • orientar adequadamente o paciente;
  • evitar suspensão abrupta.

Possíveis complicações

Quando não tratada adequadamente, a síndrome pode evoluir com:

  • estado de mal epiléptico;
  • trauma por quedas;
  • broncoaspiração;
  • insuficiência respiratória;
  • rabdomiólise;
  • distúrbios hidroeletrolíticos;
  • delirium prolongado;
  • morte.

Curiosidades

Os benzodiazepínicos estão entre os medicamentos psicotrópicos mais prescritos no mundo. O uso contínuo por poucas semanas já pode iniciar processos de tolerância e dependência em alguns indivíduos. Quanto menor a meia-vida do medicamento, mais rapidamente costuma surgir a abstinência.

Pacientes internados por longos períodos em UTI frequentemente necessitam de protocolos específicos para retirada gradual da sedação, reduzindo o risco da síndrome de abstinência e facilitando o desmame da ventilação mecânica.

Cuidados de enfermagem

A equipe de enfermagem possui papel fundamental na identificação precoce e no acompanhamento desses pacientes. Entre os principais cuidados estão:

  • Realizar monitorização frequente dos sinais vitais, observando taquicardia, hipertensão, febre e alterações respiratórias.
  • Avaliar continuamente o nível de consciência utilizando escalas padronizadas, como a Escala de Coma de Glasgow, quando aplicável, além de escalas de sedação e delirium em pacientes críticos.
  • Observar sinais precoces de abstinência, como ansiedade, tremores, sudorese, inquietação e insônia, comunicando imediatamente a equipe médica.
  • Manter ambiente calmo, silencioso e com pouca estimulação luminosa, principalmente em pacientes com agitação ou delirium.
  • Implementar medidas de prevenção de quedas e lesões, especialmente em pacientes desorientados ou com tremores intensos.
  • Administrar corretamente os medicamentos prescritos para o controle da abstinência, respeitando horários e monitorando possíveis efeitos adversos.
  • Monitorar o risco de convulsões e manter equipamentos de emergência disponíveis quando indicado.
  • Avaliar a hidratação, aceitação alimentar e balanço hídrico, principalmente em pacientes com náuseas, vômitos ou sudorese intensa.
  • Orientar paciente e familiares sobre a importância de nunca interromper benzodiazepínicos ou outros sedativos de forma abrupta sem acompanhamento médico.
  • Registrar cuidadosamente todas as alterações clínicas e a evolução dos sintomas durante o período de desmame.

A síndrome de abstinência de sedativos e hipnóticos é uma condição potencialmente grave, mas que pode ser amplamente prevenida quando o uso desses medicamentos é realizado de forma racional e sua suspensão ocorre de maneira gradual. O reconhecimento precoce dos sintomas é essencial para evitar complicações importantes, como convulsões, delirium e instabilidade hemodinâmica.

Na enfermagem, o monitoramento contínuo, a avaliação clínica criteriosa e a comunicação efetiva com a equipe multiprofissional são fundamentais para garantir a segurança do paciente durante o processo de retirada da sedação. Com conhecimento técnico e cuidados individualizados, é possível reduzir riscos, favorecer a recuperação e proporcionar uma assistência mais segura e humanizada.

Referências:

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). 5. ed. rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022. Disponível em: https://www.psychiatry.org
  2. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  3. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
  4. MILLER, R. D. et al. Miller’s Anesthesia. 10. ed. Philadelphia: Elsevier, 2024.
  5. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P. A.; HALL, A. M. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.
  6. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Clinical Practice Guidelines for Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU (PADIS Guidelines). Disponível em: https://www.sccm.org
  7. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on the management of substance withdrawal. Disponível em: https://www.who.int
  8. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas em saúde mental e dependência química. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  9. SMELTZER, Suzanne C. et al. Brunnér & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Disponível em: https://www.grupogen.com.br/

Desvendando o Hemograma: Um Guia Prático para o Estudante de Enfermagem

O hemograma completo é um dos exames laboratoriais mais solicitados na prática clínica. Seja em um atendimento de rotina, na emergência, durante uma internação hospitalar ou em uma unidade de terapia intensiva (UTI), esse exame fornece informações extremamente valiosas sobre o estado de saúde do paciente.

Apesar de parecer complexo à primeira vista, interpretar um hemograma não significa decorar dezenas de valores de referência. Na realidade, basta compreender a função de cada grupo de células do sangue e seguir uma sequência lógica de análise.

Para estudantes de enfermagem, essa organização facilita muito o aprendizado. Em vez de tentar memorizar tudo de uma vez, é possível interpretar o exame passo a passo, entendendo o que cada alteração pode indicar.

Aqui você aprenderá uma forma simples e didática de interpretar um hemograma completo, compreendendo o significado das hemácias, hemoglobina, hematócrito, índices hematimétricos, leucócitos, plaquetas e outras informações importantes que fazem parte desse exame.

O que é um hemograma completo?

O hemograma completo é um exame de sangue que avalia quantitativa e qualitativamente os principais elementos celulares do sangue.

Seu objetivo é identificar alterações relacionadas à produção das células sanguíneas, infecções, inflamações, alergias, distúrbios hematológicos, anemias, alterações da coagulação e diversas outras doenças.

Basicamente, o hemograma é dividido em três grandes partes:

  • Eritrograma (hemácias)
  • Leucograma (leucócitos)
  • Plaquetas

Se você aprender essas três etapas, conseguirá interpretar a maioria dos hemogramas.

Antes de começar: valores de referência podem variar

Uma das primeiras coisas que todo estudante deve saber é que os valores de referência não são exatamente iguais em todos os laboratórios.

Eles podem variar conforme:

  • idade;
  • sexo;
  • gravidez;
  • método utilizado pelo laboratório;
  • equipamentos empregados.

Por isso, sempre utilize os valores de referência fornecidos pelo laboratório responsável pelo exame. Mais importante do que decorar números é compreender o significado das alterações.

Primeira etapa: avaliando o eritrograma

O eritrograma avalia as células vermelhas do sangue. Essas células são responsáveis principalmente pelo transporte de oxigênio para todos os tecidos do organismo.

Os principais parâmetros são:

  • Hemácias (eritrócitos)
  • Hemoglobina (Hb)
  • Hematócrito (Ht)
  • VCM
  • HCM
  • CHCM
  • RDW

Hemácias (eritrócitos)

As hemácias são as células vermelhas do sangue. Sua principal função é transportar oxigênio por meio da hemoglobina.

Quando estão diminuídas, podem indicar:

  • anemia;
  • sangramento;
  • doenças da medula óssea;
  • deficiência nutricional.

Quando estão aumentadas:

  • desidratação;
  • tabagismo;
  • doenças pulmonares crônicas;
  • policitemia.

Hemoglobina (Hb)

A hemoglobina é a proteína presente dentro das hemácias responsável pelo transporte do oxigênio. Na prática clínica, é o principal parâmetro utilizado para avaliar anemia. Quanto menor a hemoglobina, maior tende a ser a gravidade da anemia.

Por outro lado, valores elevados podem ocorrer em situações como:

  • desidratação;
  • policitemia;
  • doenças pulmonares.

Hematócrito (Ht)

O hematócrito representa o percentual do sangue ocupado pelas hemácias. Uma maneira simples de entender: Imagine uma proveta contendo sangue.

Após centrifugação:

  • as hemácias ficam no fundo;
  • acima delas permanece o plasma.

O hematócrito corresponde justamente à proporção ocupada pelas hemácias, costuma acompanhar a hemoglobina.

Índices hematimétricos

Aqui está uma das partes que mais confundem os estudantes. Na verdade, basta lembrar que eles “descrevem” como são as hemácias.

VCM (Volume Corpuscular Médio)

Mostra o tamanho das hemácias. É utilizado principalmente para classificar as anemias. Quando está baixo: Hemácias pequenas (Anemia microcítica).

As principais causas são:

  • deficiência de ferro;
  • talassemias.

Quando está elevado: Hemácias grandes (Anemia macrocítica).

Pode ocorrer por:

  • deficiência de vitamina B12;
  • deficiência de ácido fólico;
  • alcoolismo;
  • doenças hepáticas.

Quando normal: Anemia normocítica.

Pode ocorrer em:

  • hemorragias;
  • doenças crônicas;
  • insuficiência renal.

HCM (Hemoglobina Corpuscular Média)

Indica a quantidade média de hemoglobina presente em cada hemácia. Quando reduzido: Hemácias mais “claras”. Chamamos isso de hipocromia. É muito comum na anemia ferropriva.

CHCM (Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média)

Avalia a concentração de hemoglobina dentro das hemácias. Na prática, costuma acompanhar o HCM.

RDW

O RDW mede a variação do tamanho das hemácias. Quanto maior o RDW, maior é a diferença entre o tamanho das células. É um parâmetro muito útil para diferenciar alguns tipos de anemia.

Como identificar rapidamente uma anemia?

Existe uma sequência bastante simples.

Primeiro:

Observe a hemoglobina.

Está baixa?

Provavelmente há anemia.

Depois observe:

VCM.

  • baixo → anemia microcítica
  • normal → anemia normocítica
  • alto → anemia macrocítica

Depois avalie:

HCM e CHCM.

Assim é possível saber se existe hipocromia.

Por último:

Observe o RDW.

Ele ajuda a confirmar algumas causas.

Segunda etapa: avaliando o leucograma

Agora vamos analisar as células de defesa.

Os leucócitos são responsáveis pela resposta imunológica.

São divididos em:

  • neutrófilos;
  • linfócitos;
  • monócitos;
  • eosinófilos;
  • basófilos.

Leucócitos totais

É o número total de células de defesa.

Quando elevados: Leucocitose.

Pode indicar:

  • infecção;
  • inflamação;
  • uso de corticoides;
  • leucemias;
  • estresse fisiológico.

Quando diminuídos: Leucopenia.

Pode ocorrer em:

  • infecções virais;
  • quimioterapia;
  • doenças autoimunes;
  • alterações da medula óssea.

Neutrófilos

São as primeiras células que combatem bactérias. Sempre que você pensar em infecção bacteriana, lembre-se dos neutrófilos.

Quando aumentam:

  • infecção bacteriana;
  • inflamação aguda;
  • trauma;
  • pós-operatório.

Desvio à esquerda

Esse é um dos termos mais conhecidos do hemograma. O desvio à esquerda significa aumento das formas jovens dos neutrófilos, principalmente bastonetes. Na prática, indica que a medula óssea está produzindo neutrófilos rapidamente para combater uma infecção ou inflamação importante.

Quanto maior o desvio à esquerda, maior costuma ser a resposta inflamatória.

Linfócitos

São os principais responsáveis pela defesa contra vírus. Também participam da produção de anticorpos.

Quando aumentam:

  • infecções virais;
  • mononucleose;
  • algumas leucemias.

Quando diminuem:

  • uso de corticoides;
  • imunossupressão;
  • HIV;
  • quimioterapia.

Monócitos

Funcionam como “faxineiros” do organismo. Removem restos celulares e auxiliam na resposta inflamatória.

Podem aumentar em:

  • infecções crônicas;
  • tuberculose;
  • recuperação de infecções.

Eosinófilos

São facilmente lembrados por duas situações: AlergiaParasitas.

Também podem aumentar em algumas doenças autoimunes.

Basófilos

São os leucócitos menos frequentes. Participam principalmente das reações alérgicas e da liberação de histamina.

Terceira etapa: avaliando as plaquetas

As plaquetas participam da coagulação sanguínea. Sua função é interromper sangramentos formando o tampão plaquetário.

Plaquetas baixas

Recebem o nome de trombocitopenia.

Podem ocorrer em:

  • dengue;
  • sepse;
  • leucemias;
  • quimioterapia;
  • doenças autoimunes;
  • cirrose.

Quanto menor a contagem, maior o risco de sangramento.

Plaquetas elevadas

Recebem o nome de trombocitose.

Podem ocorrer em:

  • inflamações;
  • deficiência de ferro;
  • pós-cirúrgico;
  • doenças mieloproliferativas.

Como interpretar um hemograma em apenas cinco passos?

Uma forma prática é seguir sempre a mesma ordem:

Primeiro: hemoglobina.

Existe anemia?

Segundo: VCM.

Qual o tipo da anemia?

Terceiro: leucócitos.

Existe infecção?

Quarto: diferencial dos leucócitos.

Quem aumentou?

Neutrófilos?

Linfócitos?

Eosinófilos?

Quinto: plaquetas.

Existe risco aumentado de sangramento ou trombose?

Seguindo essa sequência, a interpretação torna-se muito mais simples.

Exemplos práticos

Exemplo 1

  • Hemoglobina baixa.
  • VCM baixo.
  • HCM baixo.
  • Provável anemia ferropriva.

Exemplo 2

  • Leucócitos elevados.
  • Neutrófilos elevados.
  • Desvio à esquerda.
  • Provável infecção bacteriana.

Exemplo 3

  • Leucócitos normais.
  • Linfócitos elevados.
  • Provável infecção viral.

Exemplo 4

  • Plaquetas muito baixas.
  • Maior risco de sangramentos.
  • Necessidade de investigação imediata.

O hemograma sozinho fecha um diagnóstico?

Não. Esse é um dos erros mais comuns.

O hemograma fornece pistas importantes, mas sempre deve ser interpretado juntamente com:

  • história clínica;
  • exame físico;
  • sinais e sintomas;
  • outros exames laboratoriais;
  • exames de imagem, quando indicados.

Por exemplo, uma anemia pode ser causada por deficiência de ferro, vitamina B12, sangramento, insuficiência renal, doenças inflamatórias ou doenças da medula óssea. O hemograma sugere a direção da investigação, mas não determina sozinho a causa.

Cuidados de enfermagem relacionados ao hemograma

O profissional de enfermagem participa ativamente tanto da coleta quanto da interpretação clínica inicial dos resultados. Antes da coleta, confirme a identificação correta do paciente e do tubo de coleta, seguindo os protocolos de segurança. Oriente o paciente quanto ao exame, verificando se há necessidade de jejum ou outras recomendações específicas solicitadas pelo serviço.

Após a coleta, observe o local da punção para prevenir hematomas e registre qualquer intercorrência.

Ao receber o resultado, comunique prontamente à equipe médica valores críticos, como hemoglobina muito baixa, leucocitose ou leucopenia importantes e trombocitopenia grave. Esses achados podem indicar situações que exigem intervenção rápida.

Além disso, monitore sinais clínicos compatíveis com as alterações laboratoriais, como palidez, fadiga, dispneia, febre, sangramentos espontâneos, petéquias ou equimoses, correlacionando sempre o hemograma com o quadro clínico do paciente.

Curiosidades sobre o hemograma

O hemograma é um dos exames laboratoriais mais antigos e continua sendo um dos mais importantes da medicina. Os analisadores hematológicos modernos conseguem avaliar milhares de células por segundo, oferecendo resultados rápidos e precisos.

Em pacientes internados em UTI, o hemograma pode ser solicitado diariamente para acompanhar a evolução clínica. Uma pequena alteração isolada nem sempre indica doença. Por isso, os resultados devem ser interpretados por profissionais capacitados e sempre correlacionados com a avaliação clínica.

Interpretar um hemograma completo pode parecer difícil no início, mas torna-se muito mais simples quando seguimos uma sequência lógica. Primeiro analisamos o eritrograma para identificar possíveis anemias; depois o leucograma para avaliar infecções, inflamações e alterações do sistema imunológico; por fim, observamos as plaquetas para verificar o risco de sangramentos ou distúrbios da coagulação.

Para estudantes e profissionais de enfermagem, dominar essa interpretação básica é um diferencial importante, pois permite compreender melhor o estado clínico do paciente, reconhecer alterações relevantes e contribuir para uma assistência mais segura e baseada em evidências.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Interpretação de Exames Laboratoriais. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML). Recomendações para exames laboratoriais. Barueri: SBPC/ML. Disponível em: https://www.sbpc.org.br
  5. FAILACE, Renato; FERNANDES, Flávio. Hemograma: Manual de Interpretação. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
  6. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Fundamentos em Hematologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020.
  7. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  8. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA, HEMOTERAPIA E TERAPIA CELULAR (ABHH). Conteúdos científicos em hematologia. Disponível em: https://abhh.org.br

Doenças Valvulares

O coração funciona como uma bomba que impulsiona o sangue para todo o organismo. Para que esse processo ocorra de forma eficiente, o fluxo sanguíneo precisa seguir apenas uma direção. Essa função é desempenhada pelas quatro válvulas cardíacas, estruturas que se abrem e se fecham milhares de vezes por dia, garantindo que o sangue não retorne para a câmara de onde acabou de sair.

Quando uma dessas válvulas deixa de funcionar adequadamente, surge o que chamamos de doença valvar cardíaca ou valvopatia. Essas alterações podem dificultar a passagem do sangue, permitir seu refluxo ou provocar ambas as situações ao mesmo tempo, aumentando o trabalho do coração e favorecendo o desenvolvimento de insuficiência cardíaca, arritmias e outras complicações.

As doenças valvulares podem permanecer assintomáticas por muitos anos, sendo descobertas apenas durante um exame físico de rotina, quando o profissional identifica um sopro cardíaco. Entretanto, à medida que a doença progride, podem surgir sintomas importantes que comprometem significativamente a qualidade de vida.

Neste artigo você conhecerá as principais valvopatias, entenderá como elas se desenvolvem, quais são seus sintomas, formas de diagnóstico, tratamento e os cuidados de enfermagem fundamentais para esses pacientes.

O que são as válvulas cardíacas?

O coração possui quatro válvulas responsáveis por controlar o fluxo sanguíneo:

  • Valva mitral
  • Valva tricúspide
  • Valva aórtica
  • Valva pulmonar

Cada uma atua como uma “porta”, abrindo-se para permitir a passagem do sangue e fechando-se logo em seguida para impedir seu retorno.

Esse mecanismo acontece aproximadamente entre 60 e 100 vezes por minuto em um adulto saudável em repouso, podendo ultrapassar 100 mil ciclos por dia.

Como funcionam as válvulas?

Durante o ciclo cardíaco existem dois momentos principais:

Diástole

É o momento em que o coração relaxa e recebe sangue.

Sístole

É o momento em que o coração se contrai para bombear o sangue. As válvulas abrem e fecham de forma sincronizada para garantir que o sangue siga apenas um único sentido. Quando esse mecanismo falha, surgem as doenças valvulares.

O que é uma doença valvular?

Uma doença valvular ocorre quando uma ou mais válvulas cardíacas apresentam alterações estruturais ou funcionais que comprometem sua abertura, fechamento ou ambos.

Essas alterações podem ser congênitas (presentes desde o nascimento) ou adquiridas ao longo da vida.

Os dois principais tipos de alteração valvar

Independentemente da válvula acometida, praticamente todas as valvopatias pertencem a dois grandes grupos.

Estenose valvar

Na estenose, a válvula não consegue abrir completamente. Isso faz com que o sangue encontre dificuldade para atravessá-la, o coração precisa gerar uma pressão muito maior para vencer essa resistência. Com o passar do tempo ocorre sobrecarga da câmara cardíaca.

Uma forma simples de imaginar esse processo é pensar em uma porta parcialmente fechada: quanto menor a abertura, mais difícil será passar por ela.

Insuficiência (ou regurgitação) valvar

Nesse caso, a válvula não consegue fechar completamente e parte do sangue retorna para a câmara anterior. O coração precisa bombear um volume maior de sangue para compensar essa perda.

É semelhante a uma torneira que não fecha totalmente e permite o retorno constante da água.

Quais são as principais causas das doenças valvulares?

Diversas condições podem comprometer as válvulas cardíacas.

Entre as principais causas estão:

  • envelhecimento;
  • calcificação das válvulas;
  • febre reumática;
  • endocardite infecciosa;
  • doenças congênitas;
  • doenças degenerativas;
  • prolapso da valva mitral;
  • infarto do miocárdio;
  • doenças do tecido conjuntivo (como síndrome de Marfan);
  • radioterapia torácica;
  • doenças autoimunes.

Nos países desenvolvidos, a degeneração relacionada ao envelhecimento é atualmente a principal causa. Já em países em desenvolvimento, a febre reumática ainda representa importante causa de valvopatias.

Valva aórtica

A valva aórtica separa o ventrículo esquerdo da aorta, é uma das válvulas mais frequentemente acometidas.

Estenose aórtica

É uma das doenças valvulares mais comuns em idosos onde o estreitamento da válvula dificulta a saída do sangue do ventrículo esquerdo.

Principais causas

  • calcificação relacionada à idade;
  • válvula aórtica bicúspide congênita;
  • febre reumática.

Sintomas

Durante muitos anos o paciente pode não apresentar sintomas.

Quando eles aparecem, destacam-se:

  • falta de ar;
  • dor no peito (angina);
  • desmaios (síncope);
  • fadiga;
  • palpitações;
  • insuficiência cardíaca.

A tríade clássica da estenose aórtica grave é:

  • angina;
  • síncope;
  • dispneia.

Insuficiência aórtica

Na insuficiência aórtica, parte do sangue retorna da aorta para o ventrículo esquerdo durante a diástole.

Principais causas

  • hipertensão arterial;
  • dilatação da raiz da aorta;
  • síndrome de Marfan;
  • endocardite;
  • febre reumática.

Sintomas

  • cansaço;
  • falta de ar;
  • palpitações;
  • sensação dos batimentos fortes;
  • insuficiência cardíaca em fases avançadas.

Valva mitral

A valva mitral localiza-se entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo.

Estenose mitral

É classicamente associada à febre reumática. O estreitamento dificulta a passagem do sangue para o ventrículo esquerdo.

Sintomas

  • falta de ar;
  • tosse;
  • fadiga;
  • palpitações;
  • fibrilação atrial;
  • edema pulmonar.

Insuficiência mitral

É uma das valvopatias mais frequentes.

O sangue retorna para o átrio esquerdo durante a contração ventricular.

Causas

  • prolapso da valva mitral;
  • degeneração mixomatosa;
  • infarto;
  • ruptura de cordas tendíneas;
  • endocardite.

Sintomas

  • dispneia;
  • fadiga;
  • intolerância aos esforços;
  • palpitações;
  • insuficiência cardíaca.

Prolapso da valva mitral

O prolapso ocorre quando um ou ambos os folhetos da válvula projetam-se para dentro do átrio esquerdo durante a sístole sendo relativamente comum. Na maioria das pessoas apresenta evolução benigna. Alguns pacientes podem desenvolver insuficiência mitral significativa.

Valva tricúspide

A válvula tricúspide separa o átrio direito do ventrículo direito.

Insuficiência tricúspide

Frequentemente ocorre como consequência da hipertensão pulmonar ou da insuficiência cardíaca.

Sintomas

  • edema de membros inferiores;
  • aumento do fígado;
  • ascite;
  • ingurgitamento jugular.

Estenose tricúspide

É rara, mas quando ocorre, geralmente está associada à febre reumática.

Valva pulmonar

A válvula pulmonar controla a saída do sangue do ventrículo direito para a artéria pulmonar.

Estenose pulmonar

Na maioria das vezes é congênita. Casos leves podem permanecer sem sintomas durante muitos anos.

Insuficiência pulmonar

Pode ocorrer em pacientes com hipertensão pulmonar ou após cirurgias cardíacas.

Como surgem os sintomas?

Independentemente da válvula acometida, o coração precisa trabalhar mais. Inicialmente ele consegue compensar esse esforço.

Com o passar dos anos surgem:

  • hipertrofia cardíaca;
  • dilatação das câmaras;
  • insuficiência cardíaca;
  • arritmias.

É por isso que muitos pacientes permanecem sem sintomas por longo período.

Principais sinais e sintomas

As manifestações variam conforme a válvula acometida e a gravidade da doença.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • falta de ar aos esforços;
  • cansaço;
  • intolerância ao exercício;
  • dor torácica;
  • palpitações;
  • tontura;
  • desmaios;
  • edema em membros inferiores;
  • ganho de peso por retenção hídrica;
  • ortopneia;
  • dispneia paroxística noturna.

O sopro cardíaco

O sopro é um ruído produzido pela passagem turbulenta do sangue através das válvulas. Nem todo sopro significa doença, mas existem sopros fisiológicos. Entretanto, muitos sopros indicam alguma valvopatia e devem ser investigados.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação inclui:

  • história clínica;
  • exame físico;
  • ausculta cardíaca;
  • eletrocardiograma;
  • radiografia de tórax;
  • ecocardiograma transtorácico;
  • ecocardiograma transesofágico;
  • tomografia cardíaca;
  • ressonância cardíaca;
  • cateterismo cardíaco em casos selecionados.

O ecocardiograma é considerado o principal exame para diagnóstico e acompanhamento das doenças valvulares.

Como é o tratamento?

O tratamento depende da válvula acometida, da gravidade da doença, dos sintomas e da função cardíaca.

Pode incluir:

Tratamento clínico

Inclui medicamentos para controlar sintomas e complicações, como:

É importante destacar que, na maioria das valvopatias estruturais, os medicamentos aliviam sintomas, mas não corrigem o defeito da válvula.

Tratamento percutâneo

Algumas doenças podem ser tratadas por cateterismo. Os principais procedimentos incluem:

  • TAVI (Implante Transcateter de Valva Aórtica), indicado para casos selecionados de estenose aórtica;
  • valvoplastia mitral por balão, utilizada em pacientes selecionados com estenose mitral.

Essas técnicas reduzem a necessidade de cirurgia em muitos pacientes.

Cirurgia cardíaca

Quando a doença é grave, pode ser necessário:

  • plastia valvar (reparo da válvula);
  • troca por prótese biológica;
  • troca por prótese mecânica.

Próteses valvares

Próteses mecânicas

São fabricadas com materiais altamente resistentes, como carbono pirolítico e titânio.

Vantagens

  • longa durabilidade;
  • podem durar décadas.

Desvantagens

Necessitam anticoagulação permanente.

Próteses biológicas

São confeccionadas a partir de tecidos animais, geralmente:

  • pericárdio bovino;
  • válvulas porcinas.

Vantagens

Menor necessidade de anticoagulação prolongada (dependendo do caso).

Desvantagens

Durabilidade menor, geralmente entre 10 e 20 anos, variando conforme idade e fatores clínicos.

Possíveis complicações

Sem tratamento adequado, as valvopatias podem evoluir para:

  • insuficiência cardíaca;
  • fibrilação atrial;
  • acidente vascular cerebral (AVC);
  • endocardite infecciosa;
  • edema agudo de pulmão;
  • choque cardiogênico;
  • morte súbita em casos específicos.

Curiosidades

O coração humano realiza cerca de 100 mil batimentos por dia, e cada válvula abre e fecha aproximadamente a mesma quantidade de vezes. A estenose aórtica é atualmente a valvopatia mais comum em idosos, principalmente devido à calcificação progressiva da válvula. A febre reumática, embora menos frequente em países desenvolvidos, ainda é uma das principais causas de doença valvar em países de média e baixa renda.

O ecocardiograma Doppler revolucionou o diagnóstico das valvopatias, permitindo avaliar não apenas a anatomia das válvulas, mas também a direção e a velocidade do fluxo sanguíneo. O implante transcateter de valva aórtica (TAVI) tornou-se uma alternativa importante para pacientes com estenose aórtica grave que apresentam alto risco cirúrgico.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem desempenha papel fundamental no acompanhamento de pacientes com doenças valvulares cardíacas, tanto em ambiente ambulatorial quanto hospitalar. Entre os principais cuidados destacam-se:

  • Realizar avaliação clínica sistemática, observando presença de dispneia, fadiga, edema, palpitações e intolerância aos esforços.
  • Monitorar sinais vitais, frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e saturação de oxigênio.
  • Auscultar sons cardíacos quando habilitado e comunicar alterações como novos sopros ou mudanças no padrão habitual.
  • Observar sinais de insuficiência cardíaca, como edema periférico, ortopneia, dispneia paroxística noturna e ganho rápido de peso.
  • Monitorar balanço hídrico, especialmente em pacientes com retenção de líquidos.
  • Administrar medicamentos conforme prescrição, observando possíveis efeitos adversos e necessidade de monitorização laboratorial, especialmente em pacientes em uso de anticoagulantes.
  • Orientar sobre adesão ao tratamento, restrição de sódio quando indicada, prática de atividade física conforme orientação médica e controle dos fatores de risco cardiovascular.
  • Preparar e orientar pacientes submetidos a exames diagnósticos, procedimentos percutâneos ou cirurgias valvares.
  • Nos pacientes portadores de próteses mecânicas, reforçar a importância do uso contínuo da anticoagulação e do acompanhamento periódico do INR.
  • Estimular a procura imediata por atendimento em caso de dor torácica intensa, síncope, piora da dispneia, febre persistente (suspeita de endocardite) ou sinais de insuficiência cardíaca descompensada.

As doenças valvulares cardíacas representam um importante grupo de enfermidades cardiovasculares que podem permanecer silenciosas durante anos e, quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente, evoluir para complicações potencialmente graves. O conhecimento das diferentes valvopatias, seus mecanismos, manifestações clínicas e opções terapêuticas é essencial para estudantes e profissionais de enfermagem.

O enfermeiro e toda a equipe de enfermagem exercem papel decisivo na identificação precoce dos sintomas, no monitoramento clínico, na educação em saúde e no acompanhamento dos pacientes antes e após intervenções, contribuindo para uma assistência segura, baseada em evidências e centrada no paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes brasileiras de valvopatias. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Valvopatias. Rio de Janeiro: SBC, 2022. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br/
  4. OTTO, C. M.; NISHIMURA, R. A.; BONOW, R. O. Valvular Heart Disease: A Companion to Braunwald’s Heart Disease. 6. ed. Philadelphia: Elsevier, 2024.
  5. KASPER, D. L. et al. Medicina Interna de Harrison. 21. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.
  6. BRAUNWALD, E. Braunwald’s Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine. 12. ed. Philadelphia: Elsevier, 2022.
  7. AMERICAN COLLEGE OF CARDIOLOGY (ACC); AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). 2020 Guideline for the Management of Patients With Valvular Heart Disease. Disponível em: https://www.acc.org
  8. EUROPEAN SOCIETY OF CARDIOLOGY (ESC). 2021 ESC/EACTS Guidelines for the Management of Valvular Heart Disease. Disponível em: https://www.escardio.org

Tudo sobre as Hepatites Virais: Entenda, Identifique e Cuide

As hepatites virais são um importante problema de saúde pública mundial, especialmente por sua alta incidência, potencial de cronificação e complicações graves, como cirrose e câncer de fígado (carcinoma hepatocelular).

Para o estudante e o profissional de enfermagem, compreender os tipos, as formas de transmissão, diagnóstico e manejo é fundamental para garantir um cuidado seguro, humanizado e baseado em evidências.

O Que São e Como Agem? A Inflamação Silenciosa

Hepatite significa, literalmente, “inflamação do fígado” (hepar: fígado, ite: inflamação). No contexto viral, a inflamação é causada pela resposta imune do corpo à presença do vírus nas células hepáticas (hepatócitos).

  • Formas Agudas (Geralmente Autolimitadas): As hepatites A e E são, na maioria dos casos, agudas. O vírus é eliminado pelo corpo em semanas ou meses.
  • Formas Crônicas (Perigo Silencioso): As hepatites B, C e D podem se tornar crônicas. O vírus permanece ativo no fígado por anos ou décadas, causando inflamação contínua e silenciosa, que lentamente leva à fibrose, cirrose e, em estágios finais, ao carcinoma hepatocelular (câncer de fígado).

Essas infecções comprometem as células hepáticas, alterando funções essenciais do fígado, como metabolismo de nutrientes, síntese de proteínas e desintoxicação do organismo.

Tipos de Hepatites Virais

Hepatite A (HAV)

Causada pelo vírus da hepatite A (HAV), é uma doença aguda e autolimitada, sem evolução para cronicidade.

A transmissão ocorre por via fecal-oral, geralmente através de água ou alimentos contaminados.

  • Sintomas: febre, mal-estar, icterícia, urina escura, fezes esbranquiçadas e dor abdominal.
  • Prevenção: saneamento básico, higienização das mãos e vacinação (duas doses).

Hepatite B (HBV)

É uma das formas mais graves devido ao risco de cronificação. O vírus da hepatite B (HBV) pode ser transmitido por sangue, fluidos corporais, relações sexuais desprotegidas, uso de seringas compartilhadas e transmissão vertical (mãe para filho).

  • Evolução: pode ser aguda ou crônica, levando a complicações como cirrose e câncer hepático.
  • Prevenção: vacinação (três doses), uso de preservativos, materiais esterilizados e não compartilhamento de objetos pessoais cortantes.
  • Tratamento: antivirais, acompanhamento médico e monitoramento laboratorial.

Hepatite C (HCV)

Transmitida principalmente por contato com sangue contaminado, é uma das principais causas de doença hepática crônica no mundo.
Antes da triagem rigorosa em bancos de sangue, muitas pessoas foram infectadas através de transfusões.

  • Evolução: geralmente assintomática na fase inicial, mas pode progredir lentamente para cirrose e câncer.
  • Tratamento: atualmente, há cura em mais de 95% dos casos, graças aos antivirais de ação direta (DAAs), que possuem alta eficácia e poucos efeitos colaterais.
  • Prevenção: não existe vacina, portanto o foco é a prevenção da exposição ao sangue contaminado.

Hepatite D (HDV)

Causada pelo vírus delta, só ocorre em pessoas já infectadas pelo vírus da hepatite B, pois o HDV depende dele para se replicar. A coinfecção (HBV + HDV) tende a causar quadros mais graves e acelerar o dano hepático.

  • Prevenção: a vacinação contra hepatite B também protege contra a D.

Hepatite E (HEV)

Semelhante à hepatite A, é transmitida por via fecal-oral, geralmente através de água contaminada. Comum em regiões com saneamento precário, geralmente é autolimitada, mas pode ser grave em gestantes, com risco aumentado de insuficiência hepática.

  • Prevenção: saneamento básico, consumo de água potável e higiene alimentar.

Diagnóstico

O diagnóstico é feito por exames laboratoriais, que incluem:

  • Sorologia específica (detecção de antígenos e anticorpos);
  • Carga viral (quantificação do DNA/RNA do vírus);
  • Avaliação de enzimas hepáticas (TGO, TGP, bilirrubina).

A identificação precoce é essencial para o controle da transmissão e início do tratamento adequado.

Os Sinais de Alerta: O Que a Enfermagem Deve Observar

Na fase aguda (especialmente A e B), os sintomas incluem:

  • Icterícia: Coloração amarelada da pele e dos olhos.
  • Colúria: Urina escura (“cor de Coca-Cola”).
  • Acolia Fecal: Fezes claras.
  • Fadiga Extrema e Mal-estar.

Na fase crônica (B e C), a paciente é geralmente assintomática por anos, o que ressalta a importância do rastreio sorológico.

Cuidados de Enfermagem

O papel da enfermagem nas hepatites virais é amplo e inclui ações de educação, prevenção, assistência direta e vigilância epidemiológica.

Principais cuidados:

  • Orientar sobre importância da vacinação contra hepatites A e B;
  • Reforçar o uso de preservativos e não compartilhamento de objetos cortantes;
  • Garantir biossegurança e uso de EPI durante procedimentos com sangue;
  • Acompanhar sinais e sintomas de icterícia, fadiga e alterações digestivas;
  • Apoiar o paciente no tratamento medicamentoso e na adesão ao acompanhamento ambulatorial;
  • Notificar casos suspeitos e confirmados conforme protocolos de vigilância.

Prevenção e Vacinação

A vacinação é uma das estratégias mais eficazes de combate às hepatites virais.

  • Hepatite A: disponível no calendário vacinal infantil e para grupos de risco;
  • Hepatite B: obrigatória no Brasil desde 1998, oferecida gratuitamente pelo SUS a todas as idades;
  • Hepatite C: ainda sem vacina, reforçando a importância do rastreio e diagnóstico precoce.

Rastreio e Testagem

 Incentivar e realizar o rastreio sorológico para Hepatites B e C (Testes Rápidos) em grupos de risco (pessoas transfundidas antes de 1993, usuários de drogas injetáveis, profissionais de saúde).

Educação em Prevenção

Orientar sobre o uso de preservativos, a não-compartilhamento de seringas, escovas de dente, lâminas de barbear e a exigência de materiais esterilizados em estúdios de tatuagem e piercing.

Adesão ao Tratamento

Pacientes com Hepatite C têm tratamento com alta taxa de cura (mais de 95% em poucos meses). Na Hepatite B, o tratamento é para controlar a replicação viral. O enfermeiro deve orientar sobre o regime de medicamentos, os efeitos colaterais e a importância de não interromper o tratamento.

Cuidados em Hepatite Aguda

 Se o paciente estiver ictérico, nosso foco é no conforto, hidratação e orientação sobre repouso.

As hepatites virais continuam sendo um desafio global, mas o diagnóstico precoce, a prevenção e a vacinação têm reduzido significativamente a morbimortalidade.
O enfermeiro tem papel central nesse processo, atuando desde a educação em saúde até o monitoramento clínico de pacientes infectados.

Com conhecimento técnico e olhar humanizado, é possível transformar o cuidado e contribuir para o controle dessa importante condição de saúde pública.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico: Hepatites Virais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hepatites-virais
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA (SBH). Recomendações para o Diagnóstico e Tratamento das Hepatites Virais B e C. Disponível em: http://sbhepatologia.org.br/
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatites Virais. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude 
  4.  ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Hepatitis Report. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int
  5.  SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA. Hepatites Virais: diagnóstico, tratamento e prevenção. São Paulo, 2021. Disponível em: https://infectologia.org.br
  6.  FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Hepatites Virais: prevenção e controle. Rio de Janeiro, 2020. Disponível em: https://portal.fiocruz.br