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Uma veia aparente no pescoço pode parecer apenas um detalhe do exame físico, mas a turgência jugular pode revelar algo muito maior: aumento da pressão venosa central e congestão sistêmica. Por isso, observar o pescoço continua sendo uma etapa útil da avaliação cardiovascular, especialmente em pacientes com suspeita ou diagnóstico de insuficiência cardíaca.
O que é turgência ou estase jugular?
Turgência jugular, também chamada de distensão ou estase jugular, é a visualização aumentada da coluna venosa jugular no pescoço. Ela geralmente reflete elevação da pressão atrial direita, permitindo uma estimativa clínica da pressão venosa central.
O achado está relacionado principalmente à congestão venosa sistêmica e pode aparecer em insuficiência cardíaca direita ou biventricular, sobrecarga de volume, hipertensão pulmonar, doença da valva tricúspide e algumas doenças do pericárdio.
Como avaliar no exame físico
O paciente deve permanecer confortavelmente em decúbito, com o tronco elevado e o pescoço relaxado. A elevação pode ser ajustada, frequentemente entre 30° e 60°, até que a pulsação da jugular interna fique mais fácil de observar. O examinador deve procurar preferencialmente a jugular interna direita, que apresenta relação anatômica direta com o átrio direito.
Uma iluminação lateral suave pode ajudar a identificar a coluna venosa. A estimativa da pressão é feita observando a altura da pulsação acima do ângulo esternal; tradicionalmente, acrescentam-se cerca de 5 cm para estimar a distância até o átrio direito.
A jugular interna é particularmente útil porque sua pulsação transmite as variações de pressão do átrio direito. A veia jugular externa também pode estar distendida, mas sua aparência é mais influenciada por fatores locais e anatômicos, portanto não deve ser automaticamente interpretada como uma medida da pressão venosa central.
O que a turgência jugular pode indicar?
O achado ganha importância quando aparece junto a outros sinais de congestão, como edema periférico, hepatomegalia, ascite, ganho de peso por retenção de líquido ou dispneia. Na insuficiência cardíaca, a avaliação da congestão orienta decisões clínicas e também possui valor prognóstico.
Entre as situações que podem elevar a pressão venosa jugular estão:
- Insuficiência cardíaca direita ou biventricular: o aumento das pressões de enchimento pode se transmitir para o sistema venoso.
- Sobrecarga de volume: excesso de líquido pode elevar a pressão venosa central.
- Hipertensão pulmonar e cor pulmonale: a sobrecarga do ventrículo direito pode aumentar a pressão atrial direita.
- Doença da valva tricúspide: alterações importantes da valva podem modificar as ondas do pulso venoso e elevar a pressão jugular.
- Tamponamento e doenças constritivas do pericárdio: podem dificultar o enchimento cardíaco e produzir elevação da pressão venosa.
- Embolia pulmonar importante: especialmente quando há repercussão sobre o ventrículo direito.
Isso explica uma situação bastante comum na prática: um paciente com insuficiência cardíaca que começa a apresentar edema de membros inferiores, aumento do peso e jugulares mais evidentes pode estar desenvolvendo congestão progressiva. A observação isolada da jugular não fecha o diagnóstico, mas, quando acompanha os demais achados, fornece uma informação clínica valiosa.
E quando a jugular aumenta na inspiração?
Normalmente, a pressão venosa jugular tende a diminuir durante a inspiração. Quando ocorre elevação ou ausência da queda esperada, pode aparecer o chamado sinal de Kussmaul, associado a situações como disfunção importante do ventrículo direito, pericardite constritiva, algumas doenças restritivas, infarto de ventrículo direito e embolia pulmonar grave.
Esse achado precisa ser interpretado dentro do quadro clínico. Não basta observar uma veia proeminente e concluir imediatamente que existe insuficiência cardíaca; posição do paciente, anatomia, respiração e condições intratorácicas interferem na avaliação.
Um detalhe que muda a interpretação
Na rotina hospitalar, é fácil encontrar um paciente com jugulares aparentes por estar deitado ou com o tronco inadequadamente posicionado. Por isso, antes de registrar “turgência jugular”, vale ajustar a cabeceira, relaxar o pescoço e observar se existe realmente uma coluna venosa pulsátil elevada.
Em outro cenário, imagine um paciente internado por descompensação cardíaca que, durante a avaliação, apresenta jugulares distendidas a 45°, edema bilateral e piora da dispneia. Nesse contexto, o achado deixa de ser apenas uma alteração visual e passa a reforçar a hipótese de congestão sistêmica, devendo ser comunicado e acompanhado junto aos demais parâmetros clínicos.
Cuidados de enfermagem
Durante a avaliação, a enfermagem pode observar e registrar a presença de distensão jugular, posição da cabeceira, edema periférico, padrão respiratório, saturação, pressão arterial, frequência cardíaca, peso e balanço hídrico, conforme o contexto clínico e o protocolo institucional.
A evolução também importa. Uma jugular que se torna progressivamente mais evidente acompanhada de aumento do edema, ganho de peso e piora da dispneia merece atenção e comunicação à equipe. Em pacientes com insuficiência cardíaca, o acompanhamento dos sinais de congestão ajuda a reconhecer deterioração clínica e resposta ao tratamento.
Turgência jugular não é diagnóstico isolado
O principal ponto para memorizar é simples: a turgência jugular é um sinal de possível elevação da pressão venosa direita, não uma doença específica.
Sua interpretação fica muito mais confiável quando associada à história clínica e a outros sinais de congestão. Mesmo com o avanço do ecocardiograma e de outros métodos diagnósticos, o exame da jugular continua sendo uma ferramenta rápida, acessível e repetível à beira-leito.
Turgência Jugular: Como Reconhecer
- Indica possível elevação da pressão venosa e da pressão atrial direita
- A avaliação deve considerar posição e visualização da jugular interna
- É um importante sinal de congestão na insuficiência cardíaca
- Deve ser interpretada junto aos demais achados clínicos
Referências:
- GOPAL, Shwetha; TIVAKARAN, Vijai S. Jugular Venous Distention. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing, 2026. Disponível em: NCBI Bookshelf – Jugular Venous Distention.
- HEIDENREICH, Paul A. et al. 2022 AHA/ACC/HFSA Guideline for the Management of Heart Failure. Circulation, v. 145, p. e895-e1032, 2022. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001063. Disponível em: Circulation – Heart Failure Guideline.
- SENTHELAL, Saranyan; MAINGI, Manish. Physiology, Jugular Venous Pulsation. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: NCBI Bookshelf – Jugular Venous Pulsation.
- ALMEIDA JUNIOR, Gustavo Luiz et al. Avaliação hemodinâmica na insuficiência cardíaca: papel do exame físico e dos métodos não invasivos. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 98, n. 1, p. e15-e21, 2012. DOI: 10.1590/S0066-782X2012000100020. Disponível em: SciELO – Avaliação hemodinâmica na insuficiência cardíaca.
Os 4 Pilares do Tratamento para Insuficiência Cardíaca
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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