O que faz um Enfermeiro Estomaterapeuta?

O enfermeiro estomaterapeuta é um profissional especializado, com formação específica para o cuidado de pacientes que apresentam estomias, feridas complexas e incontinências. Sua atuação é essencial para promover a reabilitação, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida das pessoas que necessitam de cuidados contínuos nessas áreas.

Formação e Especialização

Para atuar como estomaterapeuta, o enfermeiro precisa concluir a graduação em enfermagem e realizar uma especialização reconhecida pela Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST). A formação aborda conhecimentos teóricos e práticos, englobando anatomia, fisiologia, técnicas de curativos, escolha de dispositivos e abordagem humanizada ao paciente.

O Que É Estomaterapia? A Ciência do Cuidado Especializado

A Estomaterapia é uma especialidade da enfermagem que se dedica à assistência de pacientes com três principais tipos de condições:

  1. Estomas: Aberturas cirúrgicas que conectam um órgão oco (como intestino ou bexiga) à pele, permitindo a saída de fezes, urina ou gases.
  2. Feridas: Lesões de pele agudas ou crônicas, como úlceras de pressão, úlceras de perna e feridas cirúrgicas complexas.
  3. Incontinências: Perda involuntária de urina ou fezes.

O enfermeiro estomaterapeuta, portanto, é um especialista nessas três áreas. Ele não apenas cuida do problema em si, mas também capacita o paciente e sua família a conviver com a condição, buscando sempre a reabilitação, a autonomia e a qualidade de vida.

O Que Faz um Enfermeiro Estomaterapeuta na Prática?

A atuação do estomaterapeuta é abrangente e vai muito além de uma simples troca de curativo. Seu trabalho se estende por diferentes fases do tratamento do paciente.

No Cuidado com Estomas

A criação de um estoma é um procedimento que muda a vida de uma pessoa. O estomaterapeuta é o principal profissional que acompanha o paciente nessa jornada, atuando no pré, trans e pós-operatório:

  • Pré-operatório: Avaliar o paciente, orientar sobre o que esperar e, mais importante, marcar o local ideal para a cirurgia do estoma. Uma marcação precisa evita problemas futuros e facilita a adaptação do paciente.
  • Pós-operatório: Ensinar o paciente a cuidar do estoma e da pele ao redor, a escolher e usar os equipamentos coletores (bolsas de colostomia, ileostomia ou urostomia), a lidar com possíveis complicações e a retomar suas atividades diárias.
  • Acompanhamento a Longo Prazo: O estomaterapeuta continua sendo um ponto de referência para o paciente, oferecendo suporte, ajustando equipamentos e resolvendo problemas que possam surgir ao longo da vida.

No Cuidado com Feridas

A expertise do estomaterapeuta em feridas crônicas é um diferencial enorme. O trabalho envolve:

  • Avaliação da Ferida: Fazer uma avaliação completa, identificando o tipo, tamanho, profundidade, exsudato e tipo de tecido, para um diagnóstico preciso e um plano de tratamento adequado.
  • Escolha da Cobertura Ideal: Eleger o curativo mais adequado para cada tipo e estágio da ferida, o que otimiza a cicatrização e reduz o tempo de tratamento. Ele domina o uso de curativos avançados, como alginatos, hidrocolóides, hidrogéis e curativos com prata, entre outros.
  • Prevenção: Atuar na prevenção de úlceras por pressão e outras lesões de pele, educando a equipe de enfermagem sobre o reposicionamento do paciente, o uso de superfícies de alívio de pressão e a importância da hidratação da pele.

No Cuidado com Incontinências

A incontinência urinária e fecal é um problema que afeta a autoestima e a vida social do paciente. O estomaterapeuta trabalha para minimizar o impacto dessa condição:

  • Avaliação e Diagnóstico: Identificar o tipo e a causa da incontinência para traçar um plano de tratamento.
  • Estratégias de Manejo: Ensinar o paciente a usar produtos de proteção (fraldas, absorventes), cateteres urinários e coletores, e orientar sobre a reabilitação do assoalho pélvico.
  • Educação: Ajudar o paciente a lidar com os aspectos emocionais e sociais da incontinência, melhorando sua qualidade de vida.

Por que a Estomaterapia é uma Carreira de Destaque?

A Estomaterapia é uma área de grande impacto porque transforma a vida dos pacientes. O estomaterapeuta não apenas trata um problema físico, mas também devolve a dignidade, a autonomia e a capacidade de viver plenamente a pessoas que, muitas vezes, enfrentam estigmas e desafios enormes.

É uma especialidade que exige conhecimento técnico apurado, mas também uma grande dose de empatia, paciência e habilidade para se comunicar e educar.

Para um estudante de enfermagem, conhecer essa área é abrir a mente para um mundo de possibilidades, onde o cuidado se torna uma verdadeira arte de reabilitação e humanização.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). O que é estomaterapia. Disponível em: http://sobest.org.br/o-que-e-estomaterapia/.
  2. ERDMANN, A. L. et al. O papel do enfermeiro na prevenção e tratamento das úlceras de pressão. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 45, n. 4, p. 1007-1014, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt.
  3. COLOMÉ, J. S.; MARIN, S. M.; GOMES, G. C. Atuação do enfermeiro estomaterapeuta: um olhar para a prática profissional. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, supl. 6, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/XYZ. Acesso em: 10 ago. 2025.

Coberturas para cada Estágio/Fase das feridas

O cuidado com feridas é uma das áreas mais técnicas e sensíveis da enfermagem. Escolher a cobertura correta para cada tipo e estágio de ferida não é apenas uma decisão clínica, mas também um passo essencial para acelerar a cicatrização, reduzir a dor e evitar infecções. Cada fase da ferida requer um tipo diferente de manejo, e entender essa lógica faz toda a diferença na qualidade do cuidado.

Este artigo tem o objetivo de guiar o estudante de enfermagem na identificação dos estágios e fases das feridas e na escolha apropriada das coberturas, com explicações claras, exemplos práticos e orientações de cuidados.

Entendendo os estágios das feridas

Antes de falarmos sobre os curativos, é crucial lembrarmos os três principais estágios da cicatrização, pois é a partir deles que tomamos nossas decisões:

  • Fase Inflamatória: É o início do processo. A ferida está avermelhada, inchada, com dor e calor. Há a presença de exsudato (o líquido que a ferida produz). O objetivo aqui é controlar a inflamação, limpar e proteger.
  • Fase Proliferativa (ou de Granulação): A ferida começa a se reconstruir. Aparece o tecido de granulação, que é aquele tecido vermelho, brilhante e com aspecto granuloso, rico em vasos sanguíneos. O exsudato diminui, mas ainda está presente. O objetivo é manter um ambiente úmido e proteger o novo tecido.
  • Fase de Maturação (ou de Remodelação): O tecido de granulação se transforma em uma cicatriz. O objetivo é proteger a pele nova e garantir que a cicatriz se desenvolva da melhor forma possível.

Além dessas fases, as feridas por pressão (escaras) são classificadas em estágios, de I a IV, além de feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo.

Coberturas indicadas para cada fase ou estágio da ferida

Estágio I – Eritema não branqueável

  • Características: Pele íntegra, com vermelhidão persistente, geralmente sobre proeminência óssea.
  • Objetivo do tratamento: Proteger a pele e evitar evolução para ferida aberta.
  • Coberturas indicadas:
    • Filmes transparentes (como poliuretano)
    • Hidrocoloides finos

Essas coberturas atuam como barreiras protetoras e permitem visualização da pele sem remoção constante.

Estágio II – Perda parcial da derme

  • Características: Lesão superficial, pode ter aparência de abrasão, bolha ou úlcera rasa.
  • Objetivo do tratamento: Manter o ambiente úmido e proteger contra infecção.
  • Coberturas indicadas:
    • Hidrocolóides
    • Hidrogéis com gaze secundária
    • Espumas de poliuretano finas

Estas coberturas ajudam a manter a umidade ideal para cicatrização sem agredir o leito da ferida.

Estágio III – Perda total da pele (epiderme e derme) com exposição de tecido subcutâneo

  • Características: Ferida profunda, com possível presença de exsudato moderado a intenso e tecido de granulação.
  • Objetivo do tratamento: Controlar exsudato, favorecer granulação e proteger o tecido.
  • Coberturas indicadas:
    • Espumas absorventes (com ou sem prata)
    • Alginatos de cálcio
    • Hidrofibras
    • Carvão ativado com prata (em caso de odor e infecção)

O uso de coberturas com maior poder de absorção é fundamental para controlar o excesso de exsudato e evitar maceração da pele ao redor.

Estágio IV – Perda total com exposição de músculo, osso ou tendão

  • Características: Ferida extensa, profunda, com alto risco de infecção e presença frequente de necrose ou túnel.
  • Objetivo do tratamento: Desbridamento, controle da infecção, absorção do exsudato e estímulo à granulação.
  • Coberturas indicadas:
    • Alginatos
    • Hidrofibras com prata
    • Espumas espessas
    • Hidrogéis (em áreas necróticas secas)
    • Terapia por pressão negativa (quando indicada)

Nessa fase, o cuidado multidisciplinar é ainda mais importante, pois há risco real de complicações sistêmicas.

Feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo

  • Características: Cobertas por esfacelo ou necrose, impossibilitando a visualização do leito da ferida.
  • Objetivo do tratamento: Remover tecido desvitalizado e expor o leito para avaliação e cuidado adequado.
  • Coberturas indicadas:
    • Hidrogéis (desbridamento autolítico)
    • Carvão ativado com prata
    • Papaina (quando disponível, sob prescrição)
    • Desbridamento enzimático ou cirúrgico (quando indicado)

Essas lesões exigem avaliação contínua e, muitas vezes, intervenção médica direta.

Fase Inflamatória (ou Exsudativa)

Duração: Primeiros dias após a lesão (até 3 a 5 dias).
Características da ferida: Presença de exsudato (secreção), edema, dor, sinais de inflamação, possível infecção.

Objetivos do curativo:

  • Controlar o exsudato
  • Reduzir o risco de infecção
  • Manter o ambiente úmido adequado
  • Promover desbridamento autolítico, se necessário

Coberturas indicadas:

  • Espumas de poliuretano: absorvem o exsudato e protegem mecanicamente
  • Alginato de cálcio: excelente para feridas muito exsudativas
  • Carvão ativado com prata: quando há suspeita ou risco de infecção
  • Hidrogel: em feridas secas ou com crostas, para auxiliar na hidratação e desbridamento
  • Curativos com prata, PHMB ou iodo: com ação antimicrobiana

Fase Proliferativa

Duração: De 4 a 21 dias, dependendo do tipo de ferida.
Características da ferida: Formação de tecido de granulação, redução do exsudato, início da epitelização.

Objetivos do curativo:

  • Proteger o novo tecido
  • Manter ambiente úmido
  • Estimular a migração celular
  • Evitar trauma na troca de curativo

Coberturas indicadas:

  • Hidrocolóides: mantêm o meio úmido e são indicados para feridas com pouco exsudato
  • Espumas com baixa aderência: para absorver exsudato moderado e proteger o leito
  • Membranas de poliuretano transparentes (filmes): para feridas superficiais ou em epitelização
  • Curativos com colágeno: favorecem a proliferação celular
  • Hidrofibras: se ainda houver exsudato, ajudam a manter o equilíbrio da umidade

Fase de Remodelação (ou Maturação)

Duração: Pode durar semanas ou meses.
Características da ferida: Epitelização completa, redução da vascularização, cicatriz formada.

Objetivos do curativo:

  • Proteger o tecido novo
  • Prevenir traumas
  • Evitar hipertrofia ou quelóides

Coberturas indicadas:

  • Filmes de poliuretano: proteção e visualização sem remoção
  • Silicone em gel ou placas de silicone: para prevenção de cicatrizes hipertróficas
  • Curativos finos não aderentes: proteção mecânica até cicatrização total

Cuidados de enfermagem no manejo de coberturas

O enfermeiro ou técnico de enfermagem deve sempre observar aspectos importantes na escolha e no uso das coberturas:

  • Avaliação da Ferida: Antes de cada troca, avalie a ferida por completo (tamanho, profundidade, tipo de tecido, quantidade e tipo de exsudato, odor, sinais de infecção, estado da pele ao redor).
  • Limpeza Adequada: Limpar a ferida com soro fisiológico 0,9% é a regra de ouro, a não ser que haja outra prescrição.
  • Preparação da Pele Perilesional: Proteger a pele ao redor da ferida é tão importante quanto cuidar da ferida em si. Use cremes de barreira para evitar maceração.
  • Troca no Momento Certo: Não trocar o curativo mais do que o necessário. Trocas frequentes podem traumatizar o novo tecido.
  • Educação do Paciente: Explicar para o paciente e sua família o tipo de curativo que está sendo usado, por que ele foi escolhido e como ele funciona. Isso os tranquiliza e os torna parceiros no tratamento.
  • Registro Preciso: Documentar cada troca de curativo, descrevendo a ferida, o curativo usado e a resposta do paciente. Isso permite acompanhar a evolução e ajustar o plano de cuidados.

Além disso, o uso racional de coberturas evita desperdícios e reduz custos sem comprometer o cuidado.

Escolher a cobertura certa para cada estágio da ferida é um passo gigantesco para um tratamento eficaz. Com conhecimento, observação e um toque de humanidade, nós, profissionais de enfermagem, somos os verdadeiros catalisadores da cicatrização, trazendo alívio e bem-estar para os nossos pacientes.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de uso de coberturas para o tratamento de feridas. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em:
    https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_feridas.pdf
  2. SILVA, M. A.; SANTOS, L. C. Tratamento de Feridas: Guia Prático de Coberturas. São Paulo: Atheneu, 2019.
  3. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). Prática clínica em estomaterapia: feridas, estomias e incontinências. 2. ed. São Paulo: Manole, 2020.
  4. SOUZA, N. L.; LOPES, C. M. “Feridas: avaliação e escolha adequada da cobertura.” Revista de Enfermagem Atual, v. 88, n. 2, 2021.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf
  6. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar os capítulos sobre tratamento de feridas e coberturas).

    MONTOYA, V. M. G.; et al. As melhores evidências no cuidado de feridas. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 45, n. 4, p. 950-955, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt

Curativo Oclusivo x Curativo Compressivo: Entendendo as Diferenças

O cuidado com feridas faz parte da rotina da enfermagem e exige conhecimento técnico aliado a um olhar sensível. Entre os muitos tipos de curativos, dois se destacam pelo uso frequente e por atenderem a objetivos bastante distintos: o curativo oclusivo e o curativo compressivo.

Para o estudante de enfermagem, entender as diferenças entre esses dois tipos é essencial para aplicar um cuidado seguro e eficaz. Nesta publicação, vamos explicar com detalhes o que caracteriza cada curativo, suas indicações, objetivos e cuidados de enfermagem.

O Curativo, Nosso Grande Aliado: Mais Que Um Simples Band-Aid

Antes de detalhar cada tipo, é bom lembrar qual é o objetivo geral de qualquer curativo:

  • Proteger a ferida: Contra contaminação externa, atrito e traumas.
  • Absorver exsudato: Gerenciar o fluido que a ferida produz.
  • Manter um ambiente úmido: Essencial para a cicatrização (a não ser em casos específicos).
  • Promover o conforto: Reduzir a dor e proteger o local.

Curativo Oclusivo: O Escudo Protetor e o Ambiente Ideal

Imagine um curativo que sela a ferida, isolando-a completamente do ambiente externo. É isso que faz o curativo oclusivo. Ele é como um “escudo” ou uma “barreira” que mantém a umidade ideal para a cicatrização e protege contra a entrada de bactérias e outros microrganismos.

Como é Feito?

    • Utiliza materiais que não permitem a passagem de ar ou fluidos, criando um ambiente fechado.
    • Exemplos comuns incluem filmes transparentes semipermeáveis (aqueles que parecem um plástico fininho e grudam na pele, permitindo ver a ferida), hidrocoloides, hidrogéis e algumas espumas.
    • É sempre fixado firmemente na pele ao redor da ferida, garantindo que não haja “brechas” para a entrada de ar ou bactérias.

Para Que Serve? Quais Suas Indicações?

    • Manter a Umidade: A principal função é criar um ambiente úmido. Isso é super importante, pois a cicatrização ocorre de forma mais eficiente em meio úmido, facilitando a migração celular e a formação de novo tecido. Feridas secas cicatrizam mais lentamente.
    • Prevenção de Contaminação: Por isolar a ferida, impede que bactérias, sujeira ou outras partículas do ambiente entrem em contato com a lesão.
    • Autólise: Alguns materiais oclusivos (como os hidrocoloides) promovem o desbridamento autolítico, que é a remoção natural de tecido morto do corpo, amolecendo-o.
    • Proteção de Cateteres: É amplamente utilizado em sítios de inserção de cateteres venosos centrais (CVC), como o PICC ou o cateter de curta permanência, para protegê-los de infecções. Nesses casos, usa-se o filme transparente que permite a visualização do sítio.
    • Feridas Limpas: Geralmente indicado para feridas limpas, com pouca ou nenhuma infecção, e que apresentem pouca exsudação.

Cuidados de Enfermagem Essenciais:

    • Avaliação Diária da Ferida: Mesmo sob oclusão, é crucial observar a ferida diariamente através do curativo transparente ou, se o material for opaco, na troca do curativo. Fique atento a sinais de infecção (vermelhidão, inchaço, dor, calor, pus), odor fétido ou aumento da exsudação.
    • Integridade do Curativo: Checar se o curativo está bem aderido, sem descolamento nas bordas, que comprometeria a oclusão.
    • Troca no Tempo Certo: Seguir as recomendações do fabricante do material ou o protocolo da instituição para a frequência de troca.
    • Limpeza Rigorosa: Sempre realizar a limpeza da pele ao redor da ferida e do próprio curativo (se transparente) com técnica asséptica.

Curativo Compressivo: A Força Contra o Sangramento e o Edema

Agora, pense em um curativo que não só cobre, mas também aplica uma pressão firme sobre a ferida ou a área lesionada. Esse é o curativo compressivo. Sua principal função não é selar, mas sim comprimir.

Como é Feito?

    • Utiliza gazes, compressas ou ataduras elásticas aplicadas com firmeza sobre a área, exercendo pressão.
    • Pode ser aplicado sobre um curativo de base (oclusivo ou não) para reforçar a pressão.
    • A pressão deve ser firme, mas nunca a ponto de prejudicar a circulação.

Para Que Serve? Quais Suas Indicações?

    • Controle de Hemorragias: É a indicação mais imediata e vital. A pressão direta sobre um sangramento ajuda a estancá-lo, favorecendo a formação do coágulo.
    • Prevenção de Hematomas e Edemas: Após cirurgias (especialmente plásticas ou ortopédicas) ou lesões, a compressão ajuda a limitar o acúmulo de sangue (hematoma) ou líquido (edema/inchaço) na área.
    • Fixação de Enxertos: Em cirurgias de enxerto de pele, o curativo compressivo ajuda a manter o enxerto bem aderido ao leito receptor, promovendo sua “pegada”.
    • Imobilização: Em alguns casos, pode auxiliar na imobilização de uma área, especialmente após torções ou fraturas.
    • Redução de Espaço Morto: Após a retirada de drenos cirúrgicos, uma compressão leve pode ajudar a obliterar o espaço que existia, evitando acúmulo de líquidos.

Cuidados de Enfermagem Essenciais:

    • Avaliação Circulatória: Crucial! Após aplicar um curativo compressivo, avaliar imediatamente e com frequência a circulação distal ao curativo. Checar:
      • Pulsos: Estão presentes e fortes?
      • Coloração: A pele está rosada, não pálida ou cianótica (azulada)?
      • Temperatura: A pele está aquecida, não fria?
      • Sensibilidade: O paciente sente dor, formigamento ou dormência?
      • Edema: Há inchaço abaixo do curativo?
    • Alívio da Dor: Se o paciente referir dor intensa ou crescente após a aplicação, pode ser sinal de que o curativo está muito apertado.
    • Reapertar se Necessário: Em sangramentos ativos, pode ser necessário reapertar o curativo e, se a hemorragia persistir, comunicar o médico imediatamente.
    • Monitoramento da Ferida: Se o curativo compressivo for opaco, a ferida só será visualizada na troca, que deve ser feita no tempo adequado, ou antes, se houver sinais de complicação.

As Diferenças no “Olho do Cuidado”:

Característica Curativo Oclusivo Curativo Compressivo
Principal Objetivo Proteger e manter ambiente úmido para cicatrização Estancar sangramento, prevenir hematomas/edema
Como Age? Cria uma barreira selada, impede entrada de ar/bactérias Aplica pressão física sobre a área
Materiais Típicos Filmes transparentes, hidrocoloides, hidrogéis, espumas Gaze, compressas, ataduras elásticas, faixas de crepe
Principal Risco Infecção se a ferida já estiver contaminada ou se oclusão for quebrada Compromisso circulatório se muito apertado (síndrome compartimental)
Tipo de Ferida Limpas, com pouca exsudação, proteção de sítios Com sangramento, pós-cirúrgico, prevenção de inchaço

Cuidados de enfermagem na aplicação dos curativos

No curativo oclusivo

  • Avaliar sinais de infecção antes da aplicação.
  • Garantir que a pele esteja seca ao redor da ferida.
  • Evitar excesso de umidade que possa causar maceração.
  • Orientar o paciente a não retirar o curativo antes do tempo indicado.

No curativo compressivo

  • Avaliar pulso distal antes e depois da aplicação para verificar perfusão.
  • Observar sinais de comprometimento circulatório (palidez, frialdade, dormência).
  • Manter a pressão uniforme, sem pontos de estrangulamento.
  • Reposicionar o membro elevado, quando indicado, para auxiliar o retorno venoso.

A correta escolha do tipo de curativo depende da avaliação do enfermeiro, das características da ferida e das condições clínicas do paciente. O uso inadequado pode causar complicações e atrasar o processo de cicatrização.

Embora ambos sejam chamados genericamente de “curativos”, o oclusivo e o compressivo têm propósitos distintos e complementares. O sucesso na cicatrização de uma ferida depende, entre outros fatores, da correta escolha do tipo de curativo, da técnica adequada e da observação constante dos sinais clínicos.

Para o estudante e profissional de enfermagem, dominar esses conhecimentos é fundamental para oferecer um cuidado eficaz, seguro e centrado no paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. 
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre cuidado de feridas e pele).
  4. SILVA, A. L. F. et al. Cuidados com feridas: práticas baseadas em evidências. Revista de Enfermagem UFPE, v. 8, n. 3, p. 6132-6139, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem
  5. MEDEIROS, E. A. A. et al. Manual de curativos: prevenção, tratamento e cuidados. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2018.
  6. FERRARI, M. C. C. et al. Terapia compressiva no tratamento de úlceras venosas: uma revisão. Revista Brasileira de Enfermagem, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben