
Vá direto ao ponto!
- 1. O que é o curativo de espuma com ibuprofeno?
- 1.1. Por que colocar ibuprofeno em um curativo?
- 1.2. Como o ibuprofeno é liberado?
- 1.3. O curativo também absorve o exsudato
- 1.4. Para quais feridas pode ser indicado?
- 1.5. Ferida dolorosa não é diagnóstico
- 1.6. O que acontece quando o curativo entra em contato com a ferida?
- 1.7. O que dizem os estudos sobre a dor?
- 1.8. O curativo com ibuprofeno acelera a cicatrização?
- 1.9. Uma situação que quem trabalha com pacientes reconhece
- 1.10. Como realizar o curativo?
- 1.11. Quanto tempo o curativo pode permanecer?
- 1.12. E quando o exsudato é muito intenso?
- 1.13. O curativo pode ser usado com compressão?
- 1.14. Um detalhe que faz diferença durante a troca
- 1.15. Quais são os cuidados de Enfermagem?
- 1.15.1. Avaliar a dor
- 1.15.2. Avaliar o leito da ferida
- 1.15.3. Observar sinais de infecção
- 1.15.4. Avaliar alergias e contraindicações
- 1.15.5. Avaliar a pele perilesional
- 1.15.6. Escolher o tamanho adequado
- 1.15.7. Registrar a evolução
- 1.16. Quando o curativo de espuma com ibuprofeno não deve ser utilizado?
- 1.17. Atenção para o uso de outros anti-inflamatórios
- 1.18. Curativo com ibuprofeno é igual a pomada de ibuprofeno?
- 1.19. Curativo com ibuprofeno pode substituir analgésico sistêmico?
- 1.20. Uma troca de curativo não deve ser uma experiência traumática
- 1.21. O que o estudante de Enfermagem precisa memorizar?
Há uma situação que quem trabalha com feridas aprende rapidamente a reconhecer: o paciente começa a ficar tenso antes mesmo de o curativo ser retirado. Ele olha para o profissional, respira fundo e pergunta: “Vai doer muito para trocar?”
Essa pergunta parece simples, mas revela algo que muitas vezes fica em segundo plano durante o tratamento de feridas: a dor também faz parte da avaliação da lesão e precisa ser tratada. É justamente nesse cenário que surgiu uma tecnologia interessante dentro do cuidado de feridas: o curativo de espuma com liberação local de ibuprofeno.
Diferentemente de um curativo convencional, essa cobertura associa a capacidade de absorção de uma espuma de poliuretano à liberação contínua de uma baixa dose de ibuprofeno diretamente no leito da ferida, quando entra em contato com o exsudato. Um dos produtos mais conhecidos dessa categoria é o Biatain Ibu.
Mas existe um detalhe importante: não se trata simplesmente de “colocar ibuprofeno na ferida”. O mecanismo, as indicações, as contraindicações e a forma de utilização precisam ser compreendidos pelo profissional. E, principalmente, o curativo não substitui a avaliação da causa da ferida.
O que é o curativo de espuma com ibuprofeno?
O curativo de espuma com ibuprofeno é uma cobertura desenvolvida para feridas dolorosas e exsudativas. Na formulação do Biatain Ibu, por exemplo, o ibuprofeno está distribuído de maneira homogênea na matriz de uma espuma de poliuretano hidrofílica. A concentração informada pelo fabricante é de 0,5 mg/cm². Quando a espuma entra em contato com o exsudato da ferida, ocorre liberação local e sustentada do ibuprofeno durante o período de utilização.
Ao mesmo tempo, a espuma atua no gerenciamento do exsudato, absorvendo e retendo o líquido da ferida, isso significa que estamos diante de uma cobertura que reúne duas funções importantes: manejo do exsudato + ação analgésica local. É justamente essa associação que torna o produto diferente de uma espuma convencional.
Por que colocar ibuprofeno em um curativo?
Essa é provavelmente a primeira pergunta que um estudante de Enfermagem faria. Se o ibuprofeno já existe em comprimidos e outras apresentações, por que colocá-lo dentro de uma espuma? A resposta está na tentativa de atuar localmente sobre a dor da ferida.
Feridas exsudativas, especialmente algumas lesões crônicas, podem provocar dor persistente durante o intervalo entre os curativos e também dor aguda durante a limpeza e a troca da cobertura.
Os estudos realizados com espumas contendo ibuprofeno encontraram redução da intensidade da dor e maior relato de alívio quando comparadas a coberturas semelhantes sem ibuprofeno ou ao tratamento local habitual.
Em um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, envolvendo 120 pacientes com úlceras venosas dolorosas e exsudativas, 34% dos pacientes que utilizaram a espuma com ibuprofeno atingiram o critério de resposta clínica para alívio da dor, contra 19% no grupo comparador. Os parâmetros de cicatrização e eventos adversos foram semelhantes entre os grupos. Isso é interessante porque mostra uma coisa importante: o principal benefício estudado da tecnologia é o controle da dor, e não a promessa de que o ibuprofeno sozinho fará a ferida cicatrizar.
Como o ibuprofeno é liberado?
O mecanismo é relativamente simples de entender. A espuma contém o ibuprofeno distribuído em sua estrutura. Quando o curativo entra em contato com o exsudato, o medicamento é liberado no leito da ferida, e a liberação ocorre de forma sustentada durante o período de uso, e a quantidade liberada está relacionada ao contato com o exsudato.
Portanto, não estamos falando de um comprimido triturado, de uma pomada de ibuprofeno ou de um medicamento simplesmente aplicado sobre a ferida.
É uma tecnologia de cobertura medicamentosa, na qual o princípio ativo faz parte da própria espuma, e essa diferença é fundamental.
O curativo também absorve o exsudato
Não podemos olhar para o produto apenas como um “curativo para dor”, a espuma também possui uma função importante no controle do exsudato. A estrutura tridimensional da espuma permite absorção e retenção do exsudato, ajudando a manter um ambiente úmido adequado para a cicatrização e a reduzir o acúmulo de líquido na superfície da ferida.
O manejo inadequado do exsudato pode contribuir para maceração da pele ao redor da ferida, vazamentos e desconforto. Por isso, na avaliação de uma ferida, não basta perguntar: “Está doendo?”
Também precisamos observar:
- “Quanto está exsudando?”
- “Qual é o aspecto desse exsudato?”
- “A pele ao redor está íntegra?”
- “Existe maceração?”
- “Há sinais de infecção?”
- “Qual é a causa dessa ferida?”
A escolha da cobertura precisa responder ao conjunto dessas perguntas.
Para quais feridas pode ser indicado?
De acordo com as informações do fabricante, o Biatain Ibu é indicado para uma variedade de feridas dolorosas e exsudativas, incluindo algumas feridas agudas e crônicas. Entre os exemplos estão úlceras de perna, lesões por pressão, úlceras de pé diabético não infectadas, queimaduras de segundo grau, feridas pós-operatórias, áreas doadoras e abrasões cutâneas.
O ponto que merece destaque é: a ferida precisa ser avaliada antes da escolha da cobertura. Não é porque existe dor que qualquer ferida dolorosa deve receber uma espuma com ibuprofeno. A indicação depende de fatores como etiologia, quantidade de exsudato, condição do leito, pele perilesional, presença ou ausência de infecção, profundidade, objetivo terapêutico e características do paciente.
Ferida dolorosa não é diagnóstico
Esse é um conceito que considero especialmente importante para quem está começando a estudar tratamento de feridas, a dor é um sintoma. Uma ferida dolorosa pode estar relacionada a diferentes causas.
Uma úlcera venosa, por exemplo, precisa ser abordada dentro do contexto da doença venosa. Uma lesão por pressão exige avaliação da pressão, cisalhamento, mobilidade, nutrição e condições clínicas. Uma lesão no pé de uma pessoa com diabetes precisa levar em consideração neuropatia, perfusão, controle metabólico e risco de infecção.
Portanto, colocar uma cobertura que diminui a dor pode melhorar o conforto do paciente, mas não corrige a causa da ferida, e essa diferença separa o cuidado baseado em avaliação de uma simples troca de curativo.
O que acontece quando o curativo entra em contato com a ferida?
Podemos imaginar três processos acontecendo simultaneamente: Primeiro, a espuma entra em contato com o exsudato, depois, a estrutura da cobertura absorve e retém parte desse exsudato. Ao mesmo tempo, ocorre a liberação do ibuprofeno presente na matriz da espuma, proporcionando uma ação analgésica local.
O fabricante descreve ainda que a espuma pode se adaptar ao leito da ferida e manter sua capacidade de absorção mesmo quando utilizada em conjunto com terapia compressiva. É essa combinação que diferencia a cobertura de uma espuma simples.
O que dizem os estudos sobre a dor?
Existe evidência clínica de que esse tipo de cobertura pode reduzir a dor relacionada a feridas exsudativas.
Em um estudo multicêntrico randomizado envolvendo 853 pacientes, aqueles que utilizaram espuma com ibuprofeno apresentaram maior alívio da dor e redução da intensidade dolorosa durante os primeiros sete dias, quando comparados ao grupo submetido ao tratamento local habitual. O estudo também observou melhora em aspectos relacionados à qualidade de vida, enquanto a ocorrência de eventos adversos foi baixa nos dois grupos.
Outro estudo, realizado em 185 pacientes com feridas dolorosas e exsudativas, encontrou maior relato de alívio da dor e menor intensidade dolorosa após sete dias no grupo que utilizou a espuma com ibuprofeno.
Uma revisão sistemática sobre intervenções destinadas a reduzir a dor durante a troca de curativos também identificou estudos com Biatain-Ibu nos quais os pacientes apresentaram menos dor em comparação com os grupos controle.
Portanto, existe fundamento científico para considerar a cobertura como uma opção no manejo local da dor de determinadas feridas.
O curativo com ibuprofeno acelera a cicatrização?
Essa é uma pergunta que precisa de uma resposta cuidadosa. Não devemos apresentar o curativo como se o ibuprofeno fosse um agente cicatrizante por si só.
Os estudos clínicos mostram principalmente benefício relacionado ao controle da dor. Em um ensaio clínico de seis semanas com úlceras venosas, os parâmetros de cicatrização e eventos adversos foram comparáveis entre a espuma com ibuprofeno e a espuma controle.
O produto contribui para um ambiente de cicatrização úmida e para o controle do exsudato, mas a evolução da ferida depende de uma série de fatores:
- A etiologia precisa ser tratada.
- A perfusão precisa ser adequada.
- A infecção, quando presente, precisa ser reconhecida e tratada.
- O estado nutricional precisa ser considerado.
- As condições metabólicas precisam ser controladas.
- E a cobertura precisa ser escolhida de acordo com as necessidades daquela ferida.
Portanto, uma frase mais correta seria: o curativo de espuma com ibuprofeno pode contribuir para o controle da dor e para o manejo do exsudato, dentro de um plano abrangente de tratamento da ferida.
Uma situação que quem trabalha com pacientes reconhece
Em ambientes hospitalares, principalmente quando o paciente já passou por vários procedimentos, é possível perceber que a dor relacionada ao curativo começa a produzir ansiedade antes mesmo de a troca acontecer, o paciente pode antecipar a dor e fica contraído, aí evita olhar para a ferida, pergunta várias vezes quanto tempo vai demorar, e em uma situação assim, não basta simplesmente escolher uma cobertura que “não grude”.
A equipe precisa pensar no procedimento como um todo: explicar o que será feito, avaliar a dor antes da troca, realizar a limpeza de maneira cuidadosa, evitar manipulações desnecessárias e avaliar se a cobertura utilizada está realmente contribuindo para o conforto. É nesse contexto que uma espuma com liberação local de ibuprofeno pode ter valor clínico.
Não porque ela elimina a necessidade de técnica adequada, mas porque o controle da dor precisa fazer parte do planejamento do curativo.
Como realizar o curativo?
O procedimento deve seguir a indicação do produto, a prescrição ou protocolo institucional e a avaliação clínica da ferida. De maneira geral, o profissional começa pela avaliação da lesão e da pele ao redor.
Depois, realiza a higiene das mãos e utiliza os equipamentos de proteção indicados, o curativo anterior é removido cuidadosamente, observando a presença de dor, sangramento, alteração do exsudato, odor e condições do tecido. A ferida é então limpa conforme protocolo institucional e indicação da cobertura, e o tamanho adequado da espuma deve ser escolhido de acordo com a dimensão da ferida e as instruções específicas do produto.
No caso do Biatain Ibu, a cobertura deve entrar em contato com o leito da ferida para que ocorra a liberação do ibuprofeno. A cobertura deve ser posicionada de maneira adequada, evitando dobras e pressão desnecessária, quando necessário, utiliza-se uma cobertura secundária ou sistema de fixação compatível com o produto escolhido.
É importante lembrar que a técnica exata pode variar conforme a versão do produto, por isso a Instrução de Uso (IFU) vigente deve ser consultada antes da aplicação.
Quanto tempo o curativo pode permanecer?
O fabricante informa que determinadas versões do Biatain Ibu podem permanecer na ferida por até sete dias, dependendo da quantidade de exsudato e das condições da ferida. Mas isso não significa que todo paciente ficará sete dias com a mesma cobertura.
Essa é uma interpretação muito comum e equivocada, o intervalo da troca deve considerar a avaliação clínica, a saturação da cobertura, o volume de exsudato, a condição da pele ao redor, a presença de vazamento, a necessidade de inspeção da ferida e o protocolo utilizado.
Uma cobertura pode precisar ser trocada antes do período máximo indicado. “Até sete dias” não significa “deve ficar sete dias”.
E quando o exsudato é muito intenso?
A quantidade de exsudato é um dos fatores mais importantes na escolha de uma espuma: Uma cobertura saturada deixa de cumprir adequadamente sua função, além disso, o excesso de exsudato pode atingir a pele perilesional e provocar maceração.
Por isso, durante cada troca, o profissional deve observar a capacidade de absorção da cobertura utilizada e a condição da pele. O fabricante descreve o Biatain Ibu como adequado para feridas com exsudação de baixa a alta quantidade, dependendo da apresentação. Mesmo assim, a avaliação individual continua sendo indispensável.
O curativo pode ser usado com compressão?
Sim, essa é uma possibilidade descrita para o Biatain Ibu. O fabricante informa que o produto pode ser utilizado em conjunto com terapia compressiva, isso é particularmente relevante no cuidado de algumas úlceras venosas, nas quais a terapia compressiva pode fazer parte do tratamento da causa subjacente. Mas aqui existe outro ponto importante: a espuma com ibuprofeno não substitui a terapia compressiva quando a compressão está indicada.
Ela é a cobertura, a compressão atua em outro aspecto do tratamento.
Um detalhe que faz diferença durante a troca
Uma coisa que a experiência prática ensina é que o sucesso de um curativo não pode ser medido somente pela aparência da ferida. É muito fácil olhar para uma lesão e pensar: “Está com um aspecto melhor.”
Mas pergunte ao paciente:
- “Como está a dor?”
- “Consegue dormir?”
- “Consegue caminhar?”
- “A troca anterior foi muito dolorosa?”
- “Está tomando analgésico por causa da ferida?”
Essas respostas mudam a avaliação. Já acompanhei situações em que a preocupação da equipe estava muito concentrada no volume do exsudato e na aparência do leito, enquanto o paciente estava claramente sofrendo com a dor. Quando conseguimos controlar melhor a dor, o próprio cuidado fica mais fácil. O paciente relaxa, tolera melhor a manipulação e participa mais da assistência.
Esse é um ponto que nenhum curativo deve nos fazer esquecer: o objetivo final não é tratar uma fotografia da ferida; é cuidar da pessoa que está vivendo com aquela ferida.
Quais são os cuidados de Enfermagem?
A Enfermagem tem um papel fundamental antes, durante e depois da aplicação.
Avaliar a dor
A dor deve ser avaliada antes da troca, durante o procedimento e depois da aplicação da nova cobertura. Sempre que possível, utilize uma escala de dor adequada ao paciente e ao serviço.
Registrar a intensidade ajuda a comparar a resposta ao tratamento, não basta escrever “paciente com dor”. É muito mais útil documentar algo como: “Paciente refere dor 7/10 em região da lesão antes da troca, com piora durante a remoção da cobertura.”
Depois, avaliar novamente. Essa informação permite acompanhar a resposta de maneira objetiva.
Avaliar o leito da ferida
Observe tecido de granulação, esfacelo, necrose, sangramento, profundidade, aspecto do exsudato e alterações da pele ao redor. A avaliação deve ser sistemática.
Observar sinais de infecção
Febre, piora da dor, eritema progressivo, calor, edema, secreção purulenta, odor associado a outras alterações clínicas e deterioração da ferida precisam ser valorizados dentro do contexto clínico. Uma ferida clinicamente infectada não deve simplesmente receber uma cobertura de ibuprofeno como se o problema fosse apenas dor.
O tratamento da infecção precisa ser priorizado conforme avaliação e protocolo.
Avaliar alergias e contraindicações
Antes da utilização, deve-se verificar histórico de hipersensibilidade ao ibuprofeno, ácido acetilsalicílico ou outros anti-inflamatórios não esteroides, além das contraindicações específicas descritas na documentação do produto.
Avaliar a pele perilesional
A pele ao redor da ferida pode sofrer com excesso de umidade, adesivos, pressão ou contato prolongado com exsudato, isso precisa ser registrado e tratado.
Escolher o tamanho adequado
Uma cobertura muito pequena não controla adequadamente o exsudato, e uma cobertura excessivamente grande pode dificultar a aplicação e aumentar o consumo desnecessariamente. A escolha deve seguir a ferida e as orientações do fabricante.
Registrar a evolução
A anotação deve contemplar as características da ferida, exsudato, dor, cobertura utilizada, condições da pele perilesional e resposta observada. A documentação permite acompanhar a evolução e avaliar se o tratamento está funcionando.
Quando o curativo de espuma com ibuprofeno não deve ser utilizado?
Essa parte merece bastante atenção:
Segundo as informações do fabricante consultadas para o Biatain Ibu, não deve ser utilizado em pessoas com conhecida sensibilidade ao ibuprofeno ou aos componentes da cobertura, nem em pessoas com hipersensibilidade a ácido acetilsalicílico ou outros analgésicos relacionados, especialmente quando associada a histórico de asma, rinite ou urticária.
O fabricante também contraindica seu uso durante a gravidez e em crianças menores de 12 anos, salvo orientação médica para essa faixa etária.
Essas informações são específicas do produto e devem ser conferidas na Instrução de Uso vigente da apresentação disponível no serviço, porque diferentes produtos e mercados podem apresentar orientações próprias.
Também é fundamental não utilizar a cobertura como substituto para avaliação e tratamento de uma infecção clínica da ferida.
Atenção para o uso de outros anti-inflamatórios
O fato de a quantidade de ibuprofeno liberada localmente ser baixa não significa que o profissional possa ignorar a história medicamentosa do paciente. É importante saber se o paciente utiliza outros anti-inflamatórios, possui histórico de alergia a AINEs ou apresenta condições clínicas que precisam ser consideradas.
A cobertura é um dispositivo que libera um medicamento; portanto, não deve ser tratada como uma espuma completamente neutra do ponto de vista farmacológico. A avaliação deve considerar o paciente como um todo.
Curativo com ibuprofeno é igual a pomada de ibuprofeno?
Não, essa confusão pode acontecer principalmente entre estudantes. O ibuprofeno do curativo está incorporado à estrutura da espuma e é liberado quando entra em contato com o exsudato. Não significa que o profissional deva aplicar ibuprofeno tópico convencional diretamente no leito da ferida.
São produtos e tecnologias diferentes. Por isso, nunca se deve improvisar uma cobertura medicamentosa utilizando comprimidos triturados, pomadas ou outras apresentações de ibuprofeno.
Curativo com ibuprofeno pode substituir analgésico sistêmico?
Não devemos interpretar dessa forma! O objetivo da tecnologia é proporcionar alívio local da dor da ferida. Alguns estudos observaram que pacientes que utilizaram a espuma apresentaram menor necessidade de analgésicos orais durante o período estudado, mas isso não significa que o curativo substitua automaticamente a analgesia sistêmica quando ela está indicada.
A decisão sobre analgesia deve considerar intensidade da dor, causa, condição clínica e plano terapêutico do paciente.
Uma troca de curativo não deve ser uma experiência traumática
Existe uma mudança de mentalidade importante acontecendo no cuidado de feridas. Durante muito tempo, a dor durante a troca foi quase tratada como uma consequência inevitável, hoje, sabemos que ela pode e deve ser manejada.
A escolha de uma cobertura atraumática, a preparação adequada do paciente, a limpeza cuidadosa, a redução de manipulações desnecessárias, a escolha correta da cobertura e, em situações selecionadas, o uso de uma cobertura com ação analgésica local fazem parte de uma abordagem mais humanizada.
O curativo com ibuprofeno entra nesse contexto. Ele não é “o curativo que resolve a ferida”, é uma ferramenta que pode ajudar a resolver um dos problemas da ferida: a dor.
O que o estudante de Enfermagem precisa memorizar?
Se você está estudando para estágio, prova ou concurso, guarde esta lógica:
- Espuma com ibuprofeno: cobertura de espuma que associa absorção de exsudato à liberação local e sustentada de ibuprofeno.
- Principal objetivo: auxiliar no controle da dor relacionada à ferida.
- Indicação geral: feridas dolorosas e exsudativas, conforme avaliação e indicação do produto.
- Mecanismo: o ibuprofeno é liberado quando a espuma entra em contato com o exsudato.
- Exsudato: a espuma também atua na absorção e retenção do exsudato.
- Infecção: não deve ser utilizada como substituto do tratamento de uma ferida clinicamente infectada.
- Alergia: deve-se investigar hipersensibilidade ao ibuprofeno, AAS ou outros AINEs, conforme as contraindicações do produto.
- Troca: o período máximo informado pelo fabricante pode chegar a sete dias em determinadas apresentações, mas a frequência deve ser definida pela condição da ferida, exsudato e avaliação clínica.
O curativo de espuma com ibuprofeno representa uma alternativa interessante para o manejo de determinadas feridas dolorosas e exsudativas, seu diferencial está na combinação de uma espuma absorvente com a liberação local e sustentada de ibuprofeno.
As evidências clínicas disponíveis apontam principalmente para redução da dor, inclusive durante o período de uso e na troca do curativo. Mas é importante não transformar essa tecnologia em uma solução universal.
A ferida continua precisando ser avaliada, sua causa precisa ser investigada, e a infecção precisa ser reconhecida. A perfusão, nutrição, mobilidade, controle metabólico e demais fatores relacionados à cicatrização precisam ser considerados, e a dor precisa ser levada a sério.
Para a Enfermagem, talvez essa seja a principal lição: um bom curativo não é apenas aquele que controla o exsudato ou mantém o leito em condições adequadas; é aquele que faz parte de uma estratégia de cuidado capaz de tratar a ferida sem esquecer a pessoa que sente a dor.
Curativo de espuma com ibuprofeno: quando a cobertura também ajuda no controle da dor
- Combina espuma absorvente com liberação local e sustentada de ibuprofeno
- É indicado para determinadas feridas dolorosas e exsudativas, conforme avaliação clínica e instruções do produto
- As evidências apontam principalmente para redução da dor durante o uso e na troca do curativo
- Não substitui a avaliação da causa da ferida, o tratamento de infecções nem as demais medidas necessárias para a cicatrização
Referências:
- COLOPLAST. Biatain® Ibu Não Adesivo. São Paulo: Coloplast Brasil. Disponível em: Biatain Ibu Não Adesivo – Coloplast Brasil.
- COLOPLAST PROFESSIONAL. Biatain Ibu. São Paulo: Coloplast. Disponível em: Biatain Ibu – Coloplast Professional.
- FOGH, K. et al. Clinically relevant pain relief with an ibuprofen-releasing foam dressing: results from a randomized, controlled, double-blind clinical trial in exuding, painful venous leg ulcers. Wound Repair and Regeneration, v. 20, n. 6, p. 815-821, 2012. Disponível em: PubMed – estudo clínico sobre espuma com ibuprofeno.
- PALAO I DOMENECH, R. et al. Effect of an ibuprofen-releasing foam dressing on wound pain: a real-life RCT. Journal of Wound Care, v. 17, n. 8, p. 342, 344-348, 2008. Disponível em: PubMed – Effect of an ibuprofen-releasing foam dressing on wound pain.
- ROMANELLI, M. et al. Ibuprofen slow-release foam dressing reduces wound pain in painful exuding wounds: preliminary findings from an international real-life study. Journal of Dermatological Treatment, 2008. Disponível em: PubMed – Ibuprofen slow-release foam dressing.
- SIBBALD, R. G. et al. A pilot (real-life) randomised clinical evaluation of a pain-relieving foam dressing: ibuprofen-foam versus local best practice. International Wound Journal, 2007. Disponível em: PMC – estudo sobre espuma com ibuprofeno.
- NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE RESEARCH. Interventions to reduce pain at dressing change of chronic wounds: a mixed-methods systematic review. NCBI Bookshelf. Disponível em: NCBI Bookshelf – revisão sistemática sobre dor na troca de curativos.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes Nacionais para a Prevenção e Tratamento de Lesões por Pressão. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_nacionais_prevencao_tratamento_lesoes_pressao.pdf.
- WORLD UNION OF WOUND HEALING SOCIETIES (WUWHS). Position Document: Wound pain management. Toronto: WUWHS, 2020.












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