Farmacocinética e Farmacodinâmica

Para que um medicamento funcione adequadamente, ele precisa ser absorvido, distribuído, metabolizado e eliminado pelo organismo, além de interagir com seus alvos biológicos.

Esses dois grandes pilares da farmacologia — farmacocinética (o que o corpo faz com o fármaco) e farmacodinâmica (o que o fármaco faz no corpo) — são essenciais para estudantes e profissionais da saúde.

Neste artigo, vamos explorar esses conceitos de forma clara e aplicada, facilitando o entendimento para estudantes de enfermagem.

Farmacocinética: A Jornada do Medicamento no Organismo

A farmacocinética estuda os processos que determinam como o corpo lida com um fármaco, desde sua administração até sua eliminação. Ela pode ser resumida em quatro etapas principais, conhecidas como ADME:

Absorção

É o processo pelo qual o fármaco passa do local de administração para a corrente sanguínea. Fatores que influenciam:

  • Via de administração (oral, intravenosa, subcutânea, etc.).
  • Forma farmacêutica (comprimido, cápsula, solução).
  • pH do meio e solubilidade do fármaco.

Exemplo: A aspirina (ácido acetilsalicílico) é melhor absorvida no estômago (pH ácido), enquanto alguns antibióticos precisam do intestino (pH mais alcalino).

Distribuição

Refere-se à maneira como o fármaco se espalha pelos tecidos e fluidos corporais. Aspectos importantes:

  • Ligação a proteínas plasmáticas (albumina).
  • Barreras naturais (ex.: barreira hematoencefálica, placenta).
  • Perfusão sanguínea (órgãos bem vascularizados recebem o fármaco mais rápido).

Exemplo: A warfarina (anticoagulante) tem alta ligação proteica, o que significa que apenas uma pequena fração está ativa no sangue.

Metabolismo (Biotransformação)

Ocorre principalmente no fígado, onde enzimas (como as do sistema citocromo P450) transformam o fármaco em metabólitos mais fáceis de eliminar.

  • Fase I (oxidação, redução, hidrólise).
  • Fase II (conjugação, tornando o fármaco mais hidrossolúvel).

Exemplo: O paracetamol é metabolizado no fígado, mas em doses altas pode sobrecarregar as enzimas e causar toxicidade hepática.

Eliminação (Excreção)

A forma como o fármaco é removido do corpo, principalmente pelos rins (urina), mas também pelo fígado (bile), pulmões e suor.

  • Clearance renal: Capacidade dos rins de filtrar o fármaco.
  • Meia-vida (t½): Tempo que leva para a concentração do fármaco cair pela metade.

Exemplo: A digoxina (usada em arritmias) tem meia-vida longa (~36h), exigindo ajuste de dose em idosos ou pacientes com insuficiência renal.

Farmacodinâmica: Como o Fármaco Age no Corpo

Enquanto a farmacocinética estuda como o fármaco chega ao seu alvo, a farmacodinâmica analisa o que ele faz quando chega lá. Isso inclui:

Mecanismos de Ação

  • Interação com receptores (ex.: opioides atuam em receptores do SNC).
  • Bloqueio enzimático (ex.: inibidores da ECA para hipertensão).
  • Efeitos físicos ou químicos (ex.: antiácidos neutralizam o pH gástrico).

Relação Dose-Resposta

  • Dose terapêutica: Quantidade necessária para o efeito desejado.
  • Dose tóxica: Nível em que aparecem efeitos adversos graves.
  • Janela terapêutica: Diferença entre dose eficaz e tóxica (ex.: lítio tem janela estreita).

Conceitos Importantes

  • Potência: Quantidade de fármaco necessária para produzir um efeito (ex.: fentanil é mais potente que morfina).
  • Eficácia: Capacidade máxima de um fármaco produzir um efeito (ex.: morfina tem maior eficácia analgésica que paracetamol).

Aplicação Prática na Enfermagem

Entender farmacocinética e farmacodinâmica ajuda a:

  • Prever interações medicamentosas (ex.: antiácidos reduzem absorção de tetraciclinas).
  • Ajustar horários de administração (ex.: antibióticos com meia-vida curta precisam de doses mais frequentes).
  • Monitorar efeitos adversos (ex.: digoxina em idosos exige controle rigoroso).

Farmacocinética e farmacodinâmica são a base para entender como os medicamentos funcionam, desde sua absorção até seus efeitos no organismo. Dominar esses conceitos permite uma prática clínica mais segura e eficaz, especialmente na administração e monitoramento de fármacos.

Referências:

  1. RANG, H. P.; DALE, M. M. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. Disponível em: https://www.elsevier.com.
  2. GOODMAN, L. S.; GILMAN, A. As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2018.
  3. BRASIL. ANVISA. Bulário Eletrônico. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br.
  4. KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.

A Terlipressina e a Hipertensão Portal (HP)

Terlipressina

A Hipertensão Portal (HP) tem como principal etiologia a doença hepática crônica, é o desenvolvimento da hipertensão portal , responsável pelas conseqüências, complicações clínicas e o prognóstico reservado da hepatopatia crônica. Na fisiopatologia da hipertensão portal observa-se a liberação de substâncias vasoativas com vasodilatação esplâncnica e conseqüentemente um aumento do fluxo sanguíneo para o Sistema portal.

A Terlipressina é um análogo sintético da vasopressina que age na diminuição da pressão sanguínea portal devido a vasoconstrição no território esplâncnico. Portanto a Terlipressina é indicada no tratamento das complicações resultantes da Hipertensão Portal presentes na forma mais severa da doença como:

  • Controle do sangramento por ruptura de varizes esofágicas.
  • Na Síndrome hepatorrenal, a terlipressina causa vasoconstrição na circulação esplâncnica, aumenta o fluxo sanguíneo renal e a taxa de filtração glomerular.

Alguns Fatos:

• A hemorragia digestiva alta é responsável por 1 a 2% das internações hospitalares de urgência no Brasil.
• A mortalidade por HDA gira em torno de 10%. No entanto, pacientes com comorbidades tendem a apresentar níveis mais altos de mortalidade.
• Pacientes com IC complicada podem apresentar até 28,4% de mortalidade.
• Pacientes com sangramento por varizes esofágicas geralmente apresentam perdas sanguíneas de maior amplitude.

O que são Varizes Esofágicas?

As varizes esofágicas são vasos colaterais portossistêmicos, que se formam, preferencialmente na submucosa do esôfago inferior, embora possam ocorrer em qualquer parte do tubo digestivo.

A freqüência das varizes esofágicas varia entre 30% e 70% dos pacientes cirróticos, e 9–36% dos pacientes apresentam varizes conhecidas como de “alto risco”. No momento do diagnóstico de cirrose, aproximadamente 30% dos pacientes cirróticos apresentam varizes esofágicas, alcançando 90% após uns 10 anos.

A presença de varizes gastroesofágicas (VEG) está correlacionada com a gravidade da doença hepática.   Cerca de 40% dos pacientes classificados como Child–Pugh A e 85% dos Child–Pugh C apresentam varizes. No entanto alguns pacientes podem apresentar varizes e hemorragia nas primeiras etapas da doença, apesar da ausência de cirrose.

Por esta razão, recomenda-se o rastreamento de VEG com exame endoscópico em todos os pacientes com diagnóstico de cirrose hepática. Os com Child A e sem varizes à endoscopia inicial devem fazer exame de controle a cada dois ou três anos; já nos Child B e C, controle endoscópico deve ser anual.

Os fatores de risco para sangramento de varizes incluem: disfunção hepática, ingestão contínua de álcool, varizes de grosso calibre e presença de sinais vermelhos nas varizes.

Fatores preditivos de sangramento

  • Localização das varizes: varizes esofágicas sangram com maior freqüência que as gástricas, porém quando ocorre sangramento por ruptura de varizes gástricas é de maior gravidade
  • Tamanho das varizes: quanto maior o calibre, maior o risco de sangramento
  • Aparência das varizes: tortuosas, presença de sinais vermelhos
  • Pressão intravaricosa: quando > 15,2 mmHg é um valor preditivo independente da primeira hemorragia
  • Fatores clínicos do paciente

Critérios clínicos de alto risco

  • Idade maior que 60 anos
  • Choque, instabilidade hemodinâmica, hipotensão postural
  • Comorbidades associadas (cardiorrespiratória, renal, hepática e coagulopatia)
  • Uso de medicações: anticoagulantes e AINES
  • Hematêmese volumosa
  • Enterorragia volumosa
  • Melena persistente
  • Hemorragia digestiva em pacientes internados
  • Ressangramento em pacientes já tratados endoscopicamente

O Acetato de Terlipressina: Qual é a sua função?

A Terlipressina (ou nome comercial Glyspressin) é um análogo de ação prolongada da vasopressina, associado à menor frequência de efeitos colaterais cardiovasculares por atuação preferencial nos receptores V1. Seu uso se associa à redução significante das pressões portal e intra varicosa e do fluxo da veia ázigos, com efeito prolongado por aproximadamente quatro horas. Em contraste com a vasopressina, terlipressina podem ser administrados como injeções intermitentes, em vez de infusão intravenosa contínua e tem um perfil de reações adversas mais seguro.

Após a administração por via intravenosa, a terlipressina é transformada por ação de enzimas no agente ativo lisina-vasopressina. O metabolismo da terlipressina resulta em uma liberação gradual da vasopressina, que por sua vez determina a diminuição do diâmetro (vasoconstrição) dos vasos sanguíneos que irrigam os órgãos abdominais (esplâncnicos), provocando aumento da resistência ao fluxo sanguíneo intestinal e reduzindo a pressão na veia porta (veia que drena o sangue do sistema digestivo), e por fim, diminui a hipertensão portal e induz vasoconstrição no território esplâncnico, levando à contração dos músculos esofágicos e à compressão das varizes esofágicas.

A terlipressina é muito utilizada no tratamento da hemorragia digestiva alta varicosa (HDAV) e na síndrome hepatorrenal (SHR) do tipo 1, pois mostrou-se eficaz na redução da mortalidade e melhora da função renal.

Cuidado com as Interações Medicamentosas!

Tenha cautela no uso de terlipressina associado a medicações que ocasionem bradicardia (propofol, fentanil) pois este efeito pode se tornar mais frequente e exigir suspensão da medicação. O uso concomitante de propofol e terlipressina deve ser evitado pelo risco de bradiarritmias. Na bula do glypressin (terlipressina) diz: “Interações medicamentosas: O tratamento concomitante com medicamentos que são conhecidos por reduzirem o batimento cardíaco (indutores de bradicardia) como por exemplo propofol e sufentanil poderão causar bradicardia severa.”

As Associações possíveis com a Terlipressina

A associação com Albumina (1 g/kg no primeiro dia seguido por 40 g/dia) proporciona resposta mais adequada ao tratamento de urgência da síndrome hepatorrenal SHR.

Quais são as Contra-indicações para o uso da Terlipressina?

  • Antecedentes de isquemia miocárdica, cerebral ou mesentérica, vasculite, ou arritmia cardíaca, devem ser considerados como contra-indicação ao tratamento com Terlipressina. Quando houver apenas suspeita, sem confirmação de isquemia, o paciente deve ter avaliação criteriosa dos riscos e benefícios do tratamento antes da sua indicação;
  • Uso de outras drogas vasoativas (Octreotide, Vasopressina, Noradrenalina, Dopamina) não deve ser permitido concomitantemente com a Terlipressina;
  • Pacientes com sinais de insuficiência cardíaca congestiva não devem ser tratados pelo risco de congestão pulmonar com o uso de altas doses de Albumina;
  • Gestação;
  • Choque séptico;
  • Hipersensibilidade à terlipressina ou a qualquer outro excipiente da fórmula;

Tendo em precauções com:

  • Hipertensão , Aterosclerose, Arritmias cardíacas.

Os Cuidados de Enfermagem com pacientes em uso de Terlipressina

Na Hemorragia varicosa o controle de Hb/Ht, bem como dados abaixo relatados para a A síndrome hepatorrenal (SHR).

Observação e Monitorização:

  • Pressão Arterial Sistêmica;
  • Balanço hídrico e débito urinário;
  • Potássio e sódio séricos;
  • Creatinina e bilirrubina séricos.

 

Reavaliação após 3 dias: Se houve melhora de pelo menos 30% nos níveis de creatinina, manter a dose até que caia abaixo de 1,5 mg/dl, por até mais 3 dias (à critério médico somente).

Se não houve melhora, aumentar freqüência para 1mg EV de 4/4 horas por mais 3 dias (à critério médico somente).

Reavaliação após 6 dias: Se houve melhora de pelo menos 30% nos níveis de creatinina, manter a dose até que caia abaixo de 1,5 mg/dl, por até mais 3 dias (à critério médico somente).

Se não houver qualquer melhora dos níveis de creatinina, o caso será reavaliado e será considerada a possibilidade de parar o tratamento por falha ou a tentativa de elevação da dose de Terlipressina para 2 mg de 6/6 horas à critério da equipe, com nova avaliação após o 9º dia, e até no máximo por 12 dias.

OBS.: a Terlipressina deverá ter sua dose reduzida ou ser suspensa em casos de efeitos adversos graves como arritmias ou isquemia cardíaca, mesentérica ou de pele.

Qual é o tempo de tratamento com a Terlipressina?

Na Hemorragia Digestiva: 5 dias;

Na Síndrome Hepatorrenal: no máximo 12 dias.

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