Nomenclatura Internacional dos cateteres venosos centrais: atualização da ABENTI 01/2026

A forma como nomeamos os dispositivos em saúde não é apenas uma questão teórica — ela impacta diretamente a segurança do paciente, a comunicação entre equipes e a qualidade da assistência. Pensando nisso, a Nota Técnica 01/2026 da ABENTI (Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva) trouxe uma atualização importante: a padronização internacional da nomenclatura dos cateteres venosos centrais (CVC).

Essa mudança acompanha tendências globais, especialmente propostas por redes internacionais como a Global Vascular Access Network, e busca eliminar ambiguidades no uso de termos como “CVC”, “PICC” ou “cateter central” usados de forma genérica.

Neste artigo, você vai entender de forma clara e aprofundada essa nova padronização, incluindo termos como PICC, CICC, FICC, PORT, cateteres tunelizados (com cuff) e não tunelizados (sem cuff), além dos impactos práticos para a enfermagem.

Por que houve mudança na nomenclatura?

Durante muito tempo, a prática clínica utilizou termos de forma inconsistente. Um mesmo dispositivo podia ser chamado de diferentes formas, dependendo da instituição ou do profissional.

Isso gerava problemas como:

  • falhas de comunicação entre equipes;
  • erros na prescrição e administração de terapias;
  • dificuldade na padronização de protocolos;
  • aumento do risco de eventos adversos.

A ABENTI propõe uma mudança baseada em um princípio simples: nomear o cateter de forma descritiva, técnica e padronizada internacionalmente.

O conceito central: CVAD (Central Venous Access Device)

A base da nova nomenclatura é o termo:

CVAD (Central Venous Access Device) — Dispositivo de Acesso Venoso Central

Esse termo passa a englobar todos os dispositivos cuja ponta esteja posicionada na circulação central (veia cava ou átrio direito).

A partir dele, os cateteres são classificados conforme:

  • local de inserção;
  • trajeto;
  • presença de túnel ou cuff;
  • tipo de implantação.

Classificação atual dos cateteres venosos centrais

PICC (Peripherally Inserted Central Catheter)

O PICC continua sendo um dos dispositivos mais utilizados na prática.

Ele é definido como:

  • inserido por veia periférica (geralmente braço)
  • com ponta em posição central
  • indicado para terapias prolongadas

É amplamente utilizado para antibioticoterapia, nutrição parenteral e quimioterapia, com boa segurança e menor taxa de complicações em relação a outros acessos.

Na nova nomenclatura, o PICC é um tipo específico de CVAD.

CICC (Centrally Inserted Central Catheter)

O CICC corresponde ao que tradicionalmente era chamado de “CVC clássico”.

Características:

  • inserção direta em veias centrais (jugular, subclávia ou femoral)
  • geralmente de uso mais agudo
  • comum em pacientes críticos

A mudança aqui é importante: o termo “CVC” genérico deve ser evitado — o correto passa a ser CICC, especificando o tipo de inserção.

FICC (Femoral Inserted Central Catheter)

O FICC é um subtipo específico de CICC.

Características:

  • inserção pela veia femoral
  • muito utilizado em situações emergenciais
  • maior risco de infecção e trombose em comparação a outros acessos

A padronização permite diferenciar claramente esse acesso dos demais, o que antes nem sempre acontecia.

Cateteres tunelizados (com cuff)

Esses cateteres possuem um trajeto subcutâneo antes de entrar na circulação venosa.

O cuff (manguito) é um componente importante:

  • atua como barreira contra infecção
  • promove fixação do cateter
  • reduz risco de deslocamento

São indicados para terapias prolongadas, como:

  • hemodiálise
  • quimioterapia
  • nutrição parenteral de longa duração

Cateteres não tunelizados (sem cuff)

São os mais utilizados em ambiente hospitalar agudo.

Características:

  • inserção direta na veia
  • sem túnel subcutâneo
  • maior risco de infecção com uso prolongado

São frequentemente utilizados em UTIs e emergências.

PORT (dispositivo totalmente implantável)

Os PORTs, também conhecidos como port-a-cath, são dispositivos implantáveis.

Características:

  • totalmente sob a pele
  • acesso por punção com agulha específica
  • menor risco de infecção externa
  • maior conforto para o paciente

São amplamente utilizados em pacientes oncológicos.

O que muda na prática com a nova nomenclatura

A principal mudança não está no dispositivo em si, mas na forma de comunicar.

Agora, ao invés de dizer:

“Paciente com CVC”

O correto será algo como:

“Paciente com CICC não tunelizado, duplo lúmen, em jugular direita”

Essa especificidade melhora:

  • segurança na administração de medicamentos;
  • organização da terapia infusional;
  • comunicação entre equipes;
  • rastreabilidade do cuidado.

Relação com segurança do paciente

A padronização da nomenclatura está diretamente ligada à segurança assistencial.

A Nota Técnica reforça que erros relacionados a cateteres frequentemente envolvem:

  • uso inadequado de lúmens;
  • incompatibilidade medicamentosa;
  • falhas na manutenção;
  • infecções relacionadas ao dispositivo.

Além disso, a oclusão de cateteres como CICC e FICC pode ocorrer por trombose, refluxo sanguíneo ou precipitação de medicamentos, exigindo boas práticas de manejo.

Cuidados de enfermagem diante da nova padronização

A enfermagem tem papel central na aplicação dessa mudança.

Registro correto e completo

É essencial documentar:

  • tipo de cateter (PICC, CICC, FICC, etc.);
  • presença de cuff;
  • número de lúmens;
  • local de inserção.

Isso garante continuidade do cuidado e segurança.

Vigilância do Curativo e Sítio de Inserção

Em cateteres não tunelizados, o uso de coberturas transparentes é o padrão ouro, pois permite a inspeção visual diária sem a necessidade de manipular o dispositivo. No caso dos tunelizados (com cuff), após a cicatrização do túnel, o curativo pode ser dispensado em alguns protocolos, mas a palpação do trajeto subcutâneo deve ser feita em busca de sinais de logradouro (dor, calor ou secreção).

Manutenção da Patência: Flush e Lock

Independente de ser um PICC, CICC ou FICC, a lavagem do lúmen deve ser feita com soro fisiológico 0,9% utilizando a técnica de pressão positiva (pulsátil). O volume deve ser generoso (mínimo de 10ml ou duas vezes o priming do cateter) para evitar o acúmulo de fibrina e a obstrução do lúmen. Em cateteres PORT, após o uso, o “lock” (selo) deve ser realizado conforme o protocolo institucional para garantir que o sangue não retorne para dentro da agulha.

O Conceito de Scrub the Hub

A infecção é a maior inimiga dos cateteres centrais. A nova diretriz reforça a necessidade da desinfecção ativa dos conectores valvulados (hubs). O enfermeiro deve realizar a fricção vigorosa com álcool 70% por pelo menos 15 segundos antes de qualquer infusão ou coleta de sangue. Esse gesto simples é capaz de reduzir drasticamente as taxas de Infecção Primária de Corrente Sanguínea (IPCS).

Comunicação efetiva

Durante passagem de plantão e discussão clínica, deve-se utilizar a terminologia padronizada.

Isso reduz erros e melhora o trabalho em equipe.

Manejo adequado dos lúmens

Cada lúmen deve ter uma finalidade definida, respeitando:

  • compatibilidade de soluções;
  • protocolos institucionais;
  • risco de infecção.

Prevenção de infecção

A identificação correta do tipo de cateter orienta:

  • técnica de curativo;
  • frequência de troca;
  • cuidados na manipulação.

Educação permanente

A equipe de enfermagem também atua como multiplicadora do conhecimento, ajudando a implementar a nova linguagem na prática clínica.

A mudança na nomenclatura dos cateteres venosos centrais proposta pela ABENTI em 2026 representa um avanço importante na prática da terapia intensiva.

Mais do que uma atualização terminológica, trata-se de uma estratégia de:

  • padronização da comunicação;
  • melhoria da segurança do paciente;
  • qualificação da assistência.

Para a enfermagem, compreender e aplicar essa nova nomenclatura é essencial, pois o cuidado com o acesso venoso central está diretamente ligado à prática diária.

Referências:

  1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA (ABENTI). NT-ABENTI-0126: Padronização da nomenclatura internacional de dispositivos de acesso vascular. São Paulo: ABENTI, 2026. Disponível em: https://abenti.org.br/wp-content/uploads/2026/03/NT-ABENTI-0126.pdf
  2. INFUSION NURSES SOCIETY (INS). Infusion Therapy Standards of Practice. 9. ed. Journal of Infusion Nursing, 2024. Disponível em: https://www.ins1.org
  3. PITTS, S. J. et al. Global vascular access terminology: A consensus for clinical practice. World Congress on Vascular Access (WoCoVA), 2025. Disponível em: https://www.wocova.com
  4. TAMEZ, Eloísa A.; SILVA, Maria Jones P. Enfermagem na Terapia Intensiva: Prática Baseada em Evidências. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2025.
  5. ASSOCIAÇÃO DE MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA (AMIB). Nota Técnica ABENTI-AMIB 01/2026. 2026. Disponível em: https://amib.org.br/nota-tecnica-01-2026-abenti-amib/ 
  6. DI SANTO, M. K. et al. Cateteres venosos centrais de inserção periférica. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5915858/