
Vá direto ao ponto!
O primeiro erro é perder a noção do tempo
Durante uma crise convulsiva, a equipe pode se concentrar tanto nos movimentos do paciente que acaba esquecendo uma informação fundamental: quanto tempo a crise está durando? Cronometrar desde o início ajuda a reconhecer rapidamente uma situação que exige intervenção imediata.
Na abordagem inicial, a prioridade é proteger o paciente contra traumas, manter a permeabilidade das vias aéreas, avaliar respiração e circulação e monitorizar os sinais vitais. Também é importante verificar a glicemia capilar, porque a hipoglicemia pode desencadear convulsões e precisa ser identificada rapidamente.
Imagine uma situação comum no atendimento: o paciente começa a apresentar movimentos tônico-clônicos, alguém tenta segurá-lo pelos braços e outra pessoa procura alguma coisa para colocar entre os dentes. É justamente nesse momento que a equipe precisa organizar a cena: afastar objetos, proteger a cabeça, não restringir os movimentos e não colocar nada na boca. A proteção adequada reduz o risco de lesões sem transformar a própria assistência em uma nova fonte de trauma.
O que fazer durante a convulsão
Durante a crise, não se deve tentar conter fisicamente os movimentos nem introduzir objetos, dedos, compressas ou dispositivos na boca do paciente. Também não é indicado oferecer água, alimentos ou medicamentos por via oral enquanto houver alteração da consciência.
Se for possível com segurança, deve-se proteger a cabeça, afastar objetos próximos e afrouxar roupas apertadas no pescoço. A equipe deve permanecer ao lado do paciente e observar características importantes da crise, como início, duração, padrão dos movimentos, presença de cianose, secreções, perda urinária ou fecal e resposta após o episódio.
Uma situação que merece atenção acontece quando a crise termina: o paciente pode permanecer sonolento, confuso ou com respiração alterada. É nessa fase que alguns profissionais podem interpretar a ausência dos movimentos como resolução completa do problema. A assistência continua sendo necessária, com avaliação das vias aéreas, respiração, saturação, sinais vitais e nível de consciência.
Depois da crise: o período pós-ictal
Após o término dos movimentos convulsivos, o paciente pode apresentar sonolência, confusão, agitação, cefaleia ou redução do tônus muscular. A equipe deve manter vigilância até que haja recuperação adequada da consciência e estabilidade clínica.
Quando o paciente estiver respirando espontaneamente e sem contraindicação, o posicionamento lateral pode ajudar a manter a via aérea protegida. Se houver secreções, a aspiração deve ser realizada quando indicada, sempre avaliando a necessidade real do procedimento.
Também é importante investigar o contexto: histórico de epilepsia, uso ou suspensão de anticonvulsivantes, febre, trauma, intoxicação, alterações metabólicas, gestação, diabetes e outras condições que possam estar relacionadas ao episódio.
Quando a crise vira uma emergência ainda maior
Uma convulsão que ultrapassa 5 minutos, ou crises repetidas sem recuperação da consciência entre elas, deve ser tratada como uma emergência. Nessa situação, não basta aguardar que o episódio termine espontaneamente. É necessário acionar o atendimento de emergência e seguir o protocolo institucional para controle da crise.
No ambiente hospitalar, a equipe deve preparar acesso venoso, monitorização, avaliação da glicemia e suporte ventilatório conforme necessidade. As medicações anticonvulsivantes, especialmente benzodiazepínicos como primeira linha no estado de mal convulsivo, devem ser administradas conforme prescrição, protocolo institucional e competência profissional.
No Brasil, o protocolo do SAMU também orienta avaliação primária, manutenção da permeabilidade das vias aéreas, monitorização, glicemia capilar e proteção contra traumas, além do registro das características da crise.
Cuidados de enfermagem
A assistência de enfermagem deve priorizar segurança e reconhecimento precoce da gravidade. Entre os principais cuidados estão:
- Cronometrar a crise desde o início.
- Proteger cabeça e corpo contra traumas.
- Não restringir os movimentos e não colocar objetos na boca.
- Avaliar vias aéreas, respiração, SpO₂ e sinais vitais.
- Verificar glicemia capilar.
- Manter monitorização conforme condição clínica.
- Observar e registrar características e duração da crise.
- Avaliar o período pós-ictal e o nível de consciência.
- Preparar acesso venoso e medicações quando indicados pelo protocolo.
- Comunicar imediatamente crise prolongada, recorrente ou associada à instabilidade clínica.
O registro também tem valor clínico: horário de início, duração, características dos movimentos, alterações respiratórias, intervenções realizadas, medicamentos administrados e resposta do paciente ajudam a equipe médica e de enfermagem a entender a evolução do episódio.
O que a enfermagem nunca deve fazer
Não segure o paciente à força. Não coloque colher, gaze, cânula, dedo ou qualquer outro objeto entre os dentes. Não tente interromper mecanicamente os movimentos e não ofereça líquidos ou medicamentos pela boca enquanto houver alteração da consciência.
A prioridade é proteger, observar, cronometrar, avaliar e agir conforme a gravidade e o protocolo. Essa sequência evita condutas impulsivas justamente no momento em que a equipe mais precisa trabalhar de forma organizada.
Assistência na Crise Convulsiva
- Cronometre a crise e proteja o paciente contra traumas
- Avalie vias aéreas respiração sinais vitais e glicemia
- Não contenha os movimentos nem coloque objetos na boca
- Reconheça crises prolongadas ou repetidas como emergência
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de Suporte Básico de Vida: BC16 – Crise convulsiva no adulto. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Ministério da Saúde – Protocolo de Suporte Básico de Vida
- BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. SAMU 192 – Ministério da Saúde
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. First Aid for Seizures. Atlanta: CDC, 2024. CDC – First Aid for Seizures
- AMERICAN COLLEGE OF EMERGENCY PHYSICIANS. Clinical Policy: Critical Issues in the Management of Adult Patients Presenting to the Emergency Department With Seizures. Annals of Emergency Medicine, 2024. ACEP – Clinical Policy on Seizures
O Peso da Responsabilidade: Quando o Erro de Enfermagem se Torna Fatal
Faltou algum tema ou procedimento?
Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


Você precisa fazer login para comentar.