
Vá direto ao ponto!
Durante anos, muitos profissionais aprenderam que tocar no êmbolo da seringa automaticamente contaminaria a medicação. A ciência mais recente pede um pouco mais de precisão nessa afirmação.
Um estudo brasileiro publicado em 2025 avaliou 160 seringas hipodérmicas descartáveis, utilizando testes microbiológicos, estruturais, de vazamento por gravidade e de pressão. Nas condições experimentais avaliadas, os pesquisadores não identificaram contaminação ou vazamento associado ao toque nas hastes do êmbolo e concluíram que as seringas testadas mantiveram segurança para o medicamento aspirado.
Isso não significa que o profissional esteja autorizado a tocar livremente em qualquer parte da seringa. Técnica asséptica continua sendo fundamental, principalmente porque diferentes modelos de seringa possuem estruturas diferentes e porque a contaminação depende de como, onde e quantas vezes o dispositivo é manipulado.
Então tocar no êmbolo contamina ou não?
A melhor resposta atualmente é: não é correto afirmar que um simples toque na haste do êmbolo, por si só, contamina automaticamente a medicação dentro de toda seringa descartável moderna.
Por outro lado, existem estudos experimentais demonstrando que contaminantes presentes no êmbolo, nas mãos ou no interior do cilindro podem alcançar o líquido em determinadas condições. Um estudo publicado na Scientific Reports mostrou que bactérias colocadas experimentalmente sobre o êmbolo, no cilindro ou nas luvas do operador conseguiram penetrar no líquido dentro da seringa durante movimentos repetidos de aspiração e injeção.
É justamente por isso que a orientação de evitar tocar nas partes estéreis da seringa continua fazendo sentido: a ausência de contaminação demonstrada em um modelo experimental específico não transforma o toque em uma prática recomendada.
O que acontece dentro da seringa?
A questão fica mais interessante quando observamos a estrutura do dispositivo. O êmbolo possui uma haste externa e uma parte de vedação que permanece em contato com o interior do cilindro. Dependendo do modelo, movimentos repetidos podem favorecer a passagem de contaminantes da região externa para áreas internas.
Estudos anteriores já demonstraram esse mecanismo. Em experimentos microbiológicos, o contato de microrganismos com o êmbolo foi capaz de produzir contaminação interna após movimentos repetidos, enquanto modificações no desenho da seringa reduziram esse fenômeno.
Portanto, não é apenas a pergunta “tocou ou não tocou?”. É preciso considerar qual parte foi tocada, como ocorreu o contato, se houve movimentação do êmbolo, se a seringa foi manipulada repetidamente e qual modelo de dispositivo estava sendo utilizado.
E quando falamos de medicamentos perigosos?
Aqui a discussão muda bastante. Em medicamentos perigosos, como determinados quimioterápicos, existe evidência de contaminação do êmbolo durante o preparo e risco ocupacional para os profissionais.
Uma pesquisa publicada em 2025 avaliou seringas utilizadas no preparo de seis medicamentos perigosos e encontrou contaminação nas paredes internas e nos êmbolos após o preparo. Por esse motivo, os pesquisadores evitaram o contato com a haste do êmbolo durante o estudo e utilizaram somente a parte externa destinada à manipulação.
Nesse cenário, a preocupação não é apenas contaminar a solução. O medicamento pode atingir o êmbolo e posteriormente ser transferido para as luvas, superfícies e outros materiais, aumentando a exposição ocupacional.
O que isso significa na prática?
Imagine uma situação comum durante o preparo: o profissional está aspirando uma medicação e toca rapidamente a haste do êmbolo para estabilizar a seringa. O novo estudo brasileiro não permite afirmar que aquela medicação ficou automaticamente contaminada. Seria exagero transformar um toque isolado em uma certeza microbiológica.
Porém, se durante o procedimento a mesma seringa for manipulada diversas vezes, houver contato com superfícies não estéreis ou o êmbolo for movimentado repetidamente depois desse contato, o cenário muda. Estudos experimentais mostram que a manipulação pode favorecer a passagem de contaminantes para o interior.
É uma diferença importante para quem está aprendendo: não precisamos ensinar um mito para ensinar uma técnica segura.
E se eu encostar sem querer?
Não é necessário afirmar automaticamente que a medicação está contaminada e deve ser descartada em qualquer situação. Primeiro é preciso avaliar onde ocorreu o contato, se a parte tocada participa do caminho estéril, se houve comprometimento da esterilidade e qual é o medicamento envolvido, além de seguir o protocolo institucional.
O mais seguro é evitar deliberadamente o contato com a haste do êmbolo e com outras partes críticas da seringa. Materiais de ensino de administração parenteral continuam recomendando manter estéreis a ponta, o conector e as partes relevantes do dispositivo, evitando tocar a extensão do êmbolo.
Cuidados de enfermagem
Na prática, mantenha a técnica asséptica durante todo o preparo, faça higiene das mãos, utilize seringa e agulha estéreis e de uso único e evite tocar desnecessariamente no êmbolo, ponta, conexão Luer e demais partes críticas.
Também não reutilize seringas entre pacientes e tenha atenção especial durante o preparo de medicamentos perigosos, seguindo rigorosamente os protocolos específicos de segurança ocupacional. Se houver dúvida real sobre a manutenção da esterilidade, não improvise: siga o protocolo da instituição e as orientações do serviço de farmácia ou responsável técnico.
Afinal, encostar no êmbolo contamina a medicação?
Não dá para afirmar que um simples toque na haste do êmbolo automaticamente contamina a medicação em uma seringa descartável moderna. A pesquisa brasileira de 2025 não encontrou essa contaminação nas condições estudadas.
Mas também não é correto concluir que tocar no êmbolo é uma prática segura e recomendável. Existem evidências experimentais de que contaminantes podem alcançar o interior da seringa em determinadas condições, principalmente com manipulação e movimentos repetidos. Por isso, a orientação mais segura continua sendo evitar tocar nas partes críticas e preservar a técnica asséptica.
A diferença é importante: uma recomendação de técnica asséptica não precisa ser sustentada por uma afirmação científica absoluta que os estudos não comprovam.
Encostar no Êmbolo Contamina a Medicação?
- Um toque no êmbolo não demonstrou contaminar automaticamente toda medicação em seringas modernas
- Estudos mostram que contaminantes podem alcançar o interior em determinadas condições
- Manipulação repetida pode aumentar o risco de contaminação
- A técnica asséptica e o cuidado com partes críticas da seringa continuam essenciais
Referências:
- SOUZA, Jorge Guimarães de; CANESE, Emiliano Joel Stigarribia. Avaliação técnica, microbiológica e estrutural de seringas hipodérmicas descartáveis durante aspiração de fármacos. Journal of Human Growth and Development, v. 35, n. 3, p. 412-418, 2025. Disponível em: Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano.
- YOSHIDA, et al. Pumping infusions with a syringe may cause contamination of the fluid in the syringe. Scientific Reports, 2021. Disponível em: Scientific Reports — Nature.
- SESSINK, Paul J. M.; TANS, Birgit; DEVOLDER, David. Contamination on inner walls of syringes used for compounding and administration of hazardous drugs. Journal of Oncology Pharmacy Practice, 2025. Disponível em: Journal of Oncology Pharmacy Practice.
- PERCEVAL, A. Consequence of syringe-plunger contamination. Medical Journal of Australia, v. 1, n. 10, p. 487-489, 1980. Disponível em: PubMed.
- BACCA, Lucas Faccin da Rosa; GOUVEA, Pollyana Bortholazzi. Contaminação por contato no êmbolo durante o preparo de soluções parenterais: estudo caso-controle. Anais do Seminário de Iniciação Científica da Universidade do Vale do Itajaí, v. 24, 2025. DOI: 10.14210/asic2421757. Disponível em: https://periodicos.univali.br/index.php/asic/article/view/21757
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Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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