
Vá direto ao ponto!
Nem todo edema ao redor do cateter significa a mesma coisa. O primeiro ponto para diferenciar infiltração de extravasamento é descobrir o que estava sendo infundido e para onde essa solução foi. Na infiltração, uma solução não vesicante sai do vaso e alcança o tecido ao redor; no extravasamento, ocorre a saída de uma solução vesicante, capaz de provocar lesão tecidual que pode variar de irritação até necrose.
Infiltração: o líquido foi para o tecido
Na infiltração, podem aparecer edema, palidez, pele fria, desconforto e redução ou interrupção do fluxo. O edema costuma acompanhar o trajeto ou a região próxima ao cateter, e o local pode ficar com aspecto diferente do membro contralateral. A avaliação frequente do sítio do cateter é fundamental para reconhecer essas alterações precocemente.
Um cenário muito comum é o paciente avisar que o braço começou a “inchar” durante a infusão. Ao retirar a cobertura para observar o acesso, você encontra edema ao redor do sítio e percebe que o líquido não está mais entrando adequadamente. Nesse momento, insistir na infusão para “ver se o acesso volta” pode aumentar o volume que está chegando ao tecido.
Extravasamento: aqui o risco muda
No extravasamento, a preocupação é maior porque a solução envolvida possui potencial de causar dano ao tecido. A gravidade depende da substância, concentração, volume extravasado, local e tempo de exposição. Alguns medicamentos podem provocar bolhas, ulceração, necrose e comprometimento funcional. Por isso, reconhecer precocemente o extravasamento é parte essencial da segurança durante a terapia intravenosa.
Um detalhe que merece atenção na prática é que nem todo extravasamento acontece com quimioterápicos. A literatura atual destaca que medicamentos não antineoplásicos também podem apresentar risco de lesão quando extravasados. Por isso, saber qual medicamento está sendo administrado é tão importante quanto observar o aspecto do acesso.
Como diferenciar rapidamente
A forma mais simples de raciocinar é:
Infiltração → solução não vesicante → edema e desconforto, geralmente sem destruição tecidual importante. Extravasamento → solução vesicante → risco de lesão tecidual, podendo evoluir para bolhas, ulceração ou necrose.
Em ambos os casos, podem existir dor, edema, alteração da temperatura e mudança no funcionamento do acesso. Portanto, o aspecto do braço sozinho não é suficiente para definir o problema; é necessário considerar a solução ou medicamento administrado.
O que fazer diante da suspeita
Ao identificar suspeita de infiltração ou extravasamento, a infusão deve ser interrompida e o local avaliado. No extravasamento, existe uma diferença importante: não se deve simplesmente retirar o cateter antes de verificar o protocolo específico da substância, porque alguns protocolos recomendam manter o acesso temporariamente para aspiração do medicamento residual e, quando indicado, administração de um antídoto. A conduta varia conforme o agente envolvido.
Por isso, diante de um possível extravasamento, é importante identificar imediatamente qual medicamento estava sendo administrado, concentração, volume estimado, horário e características do local, além de seguir o protocolo institucional para compressas, antídotos, avaliação e acompanhamento.
Cuidados de enfermagem
A prevenção começa pela escolha adequada do acesso, avaliação do sítio antes e durante a infusão e valorização das queixas do paciente, especialmente dor, ardência, pressão ou desconforto. Em pacientes sedados, com alteração cognitiva ou em terapia intensiva, a observação direta ganha ainda mais importância porque o paciente pode não conseguir comunicar os primeiros sinais.
Na prática, vale incorporar uma pergunta simples durante a infusão: “Está sentindo ardência, dor ou pressão nesse local?” Essa informação, somada à inspeção e palpação conforme permitido, pode fazer a equipe perceber uma complicação antes que o edema se torne evidente.
Também devem ser registrados o aspecto do local, sintomas relatados, medicamento ou solução envolvida, medidas adotadas, evolução e comunicação à equipe responsável. No extravasamento, a documentação detalhada é especialmente importante devido ao potencial de lesão tecidual.
Infiltração ou Extravasamento: Saiba Diferenciar
- Infiltração envolve solução não vesicante fora do vaso
- Extravasamento envolve solução vesicante e pode causar lesão tecidual
- Observe edema dor temperatura e funcionamento do acesso
- No extravasamento identifique a substância e siga o protocolo específico
Referências:
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Cartilha para avaliação de modos de falhas de bombas de infusão. Brasília, DF: Anvisa. Anvisa – Cartilha sobre bombas de infusão
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Caderno 4: prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde e assistência segura. Brasília, DF: Anvisa, 2024. Anvisa – Segurança do paciente e cateter periférico
- GORSKI, Lisa A. et al. Development of an Evidence-Based List of Non-Antineoplastic Vesicants: 2024 Update. Journal of Infusion Nursing, v. 47, n. 5, 2024. DOI: 10.1097/NAN.0000000000000568. PubMed – Non-Antineoplastic Vesicants
- BARTON, Andrew. Extravasation and infiltration: under-recognised complications of intravenous therapy. British Journal of Nursing, v. 33, n. 7, 2024. DOI: 10.12968/bjon.2024.33.7.S18. PubMed – Extravasation and infiltration
- THOMPSON, Judy et al. Standards of care for peripheral intravenous catheters: evidence-based expert consensus. British Journal of Nursing, v. 33, n. 21, 2024. DOI: 10.12968/bjon.2024.0422. PubMed – Standards of care for peripheral IV catheters
Rotas nas Vias de Administração de Medicamentos: como o fármaco "escolhe" o caminho até o organismo?
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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