
Vá direto ao ponto!
No choque séptico, esperar a pressão arterial “cair muito” pode significar perder um tempo precioso. O reconhecimento começa antes disso: infecção suspeita ou confirmada associada a sinais de hipoperfusão e disfunção orgânica, especialmente quando o paciente apresenta alteração do estado mental, respiração acelerada, extremidades mal perfundidas, oligúria ou deterioração clínica rápida. Choque séptico é uma forma grave de sepse, associada a alterações circulatórias e metabólicas importantes.
Os primeiros 5 minutos
A avaliação inicial precisa ser rápida e organizada. Observe o paciente como um todo: nível de consciência, frequência respiratória, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura, saturação, perfusão periférica, débito urinário e evolução dos sintomas. Uma frequência respiratória elevada, confusão mental ou pressão sistólica ≤100 mmHg são critérios utilizados no qSOFA, mas o qSOFA não deve ser usado isoladamente para descartar ou confirmar sepse.
O segundo passo é procurar hipoperfusão. Extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, pele moteada, alteração do sensório e redução da diurese podem indicar comprometimento da perfusão. O lactato também é importante na avaliação, embora deva ser interpretado dentro do contexto clínico, porque sua elevação não é exclusiva da sepse.
Em uma situação típica de pronto atendimento, um paciente com suspeita de pneumonia pode chegar consciente, porém taquipneico, com extremidades frias e pressão em queda. Mesmo antes do resultado dos exames, essa combinação deve chamar atenção para possível deterioração circulatória e acelerar a comunicação com a equipe e o protocolo institucional.
Quando pensar em choque séptico?
Pela definição de Sepsis-3, o choque séptico é identificado em um paciente com sepse que necessita de vasopressor para manter pressão arterial média ≥65 mmHg e apresenta lactato >2 mmol/L, apesar de adequada reposição volêmica e na ausência de hipovolemia como explicação. Esses critérios ajudam a definir o choque, mas a assistência não deve esperar que todos estejam presentes para reconhecer um paciente em deterioração.
Outro sinal importante é a resposta ao tratamento inicial. Se, mesmo após avaliação e reposição de volume quando indicada, o paciente permanece hipotenso ou com sinais de hipoperfusão, a possibilidade de choque séptico torna-se ainda mais preocupante. A avaliação deve ser contínua, porque o quadro pode mudar rapidamente.
O que fazer enquanto a equipe atua?
A enfermagem tem papel central no reconhecimento precoce. Deve monitorizar sinais vitais, garantir acesso venoso conforme protocolo, coletar exames e culturas quando solicitados, acompanhar lactato e diurese, administrar antimicrobianos e fluidos prescritos com segurança e observar continuamente a resposta clínica.
Nas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign, para adultos com possível choque séptico ou alta probabilidade de sepse, recomenda-se iniciar antimicrobianos imediatamente, idealmente dentro de uma hora do reconhecimento. Quando há necessidade de vasopressor, a noradrenalina é o agente de primeira escolha, com alvo inicial de PAM em torno de 65 mmHg.
Um detalhe que faz diferença na rotina é não atrasar o vasopressor apenas pela ausência momentânea de acesso venoso central: as diretrizes admitem seu início periférico por curto período, em veia adequada e com vigilância rigorosa, quando necessário para restaurar a pressão. Isso exige protocolo institucional, avaliação do acesso e acompanhamento do local de infusão.
Cuidados de enfermagem
A prioridade é reconhecer a deterioração e comunicar rapidamente. Reavalie pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, saturação, consciência, perfusão periférica e diurese; acompanhe tendências, e não apenas valores isolados.
Também é fundamental controlar rigorosamente entradas e saídas, observar resposta à reposição volêmica, conferir acessos e bombas de infusão, administrar antimicrobianos no tempo prescrito e vigiar sinais de extravasamento quando houver vasopressor periférico. A resposta clínica deve ser documentada e comunicada imediatamente diante de piora.
A regra prática
Para memorizar: suspeitou de infecção + paciente está piorando + há sinais de disfunção orgânica ou hipoperfusão = pense em sepse e aja rapidamente. Se existe hipotensão persistente, necessidade de vasopressor e lactato elevado após adequada reposição volêmica, o quadro preenche os critérios clínicos de choque séptico.
O ponto mais importante para a enfermagem é não esperar o paciente entrar em colapso hemodinâmico para agir. No choque séptico, reconhecer a trajetória de piora pode ser tão importante quanto reconhecer o número da pressão arterial.
Choque Séptico em 5 Minutos
- Suspeite diante de infecção associada à deterioração clínica
- Observe perfusão, consciência, respiração, pressão e diurese
- Lactato e necessidade de vasopressor ajudam a identificar choque séptico
- Reconhecimento e tratamento precoces são fundamentais
Referências:
- EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign Guidelines
- SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
- SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines
Faltou algum tema ou procedimento?
Conta pra gente qual assunto você quer ver esmiuçado e transformado em ilustração no próximo post!
Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.


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