Como Interpretar o qSOFA na Enfermagem

O erro mais comum com o qSOFA é transformá-lo em um “teste para dizer se o paciente tem sepse”. Ele não foi criado para isso. O escore serve para identificar, rapidamente, pacientes com suspeita de infecção que apresentam sinais associados a maior risco de desfecho ruim e que precisam de avaliação clínica mais aprofundada.

Os 3 critérios do qSOFA

O qSOFA possui apenas três critérios, cada um valendo 1 ponto:

  • Frequência respiratória ≥ 22 irpm: 1 ponto.
  • Pressão arterial sistólica ≤ 100 mmHg: 1 ponto.
  • Alteração do estado mental: 1 ponto.

Assim, o resultado varia de 0 a 3 pontos. Na definição original, 2 pontos ou mais em um paciente com suspeita de infecção indicam maior risco de evolução desfavorável e devem levar a uma investigação rápida de disfunção orgânica e intensificação da monitorização.

Como interpretar na prática

Um paciente com suspeita de infecção e qSOFA 0 ou 1 não está automaticamente fora de risco. Da mesma forma, um qSOFA ≥2 não confirma sepse. O resultado precisa ser interpretado junto com a história, exame físico, sinais vitais, perfusão, diurese, exames laboratoriais e evolução clínica.

Essa distinção é fundamental porque as diretrizes atuais da Surviving Sepsis Campaign recomendam não utilizar o qSOFA isoladamente como ferramenta de triagem para sepse. Em pacientes adultos agudamente enfermos no hospital, NEWS/NEWS2, MEWS ou SIRS são preferidos ao qSOFA como ferramenta única de rastreamento.

Imagine, por exemplo, um paciente com pneumonia que apresenta FR de 25 irpm, pressão sistólica de 105 mmHg e está orientado. O qSOFA é 1 ponto. Isso não significa “sem sepse”; significa que ele não atingiu o ponto de corte de 2 critérios do qSOFA. A equipe ainda precisa acompanhar a tendência dos sinais vitais e procurar sinais de deterioração.

Alteração mental merece atenção

No qSOFA, alteração do estado mental corresponde à alteração do nível de consciência, tradicionalmente operacionalizada como Glasgow Coma Scale <15 na formulação original. Uma mudança recente em relação ao comportamento habitual do paciente deve ser valorizada, principalmente quando aparece junto a sinais de infecção e instabilidade fisiológica.

Na rotina de enfermagem, uma situação bastante concreta seria encontrar um paciente que estava conversando normalmente pela manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, FR de 28 irpm e pressão sistólica de 92 mmHg. Nesse cenário, o qSOFA chega a 3 pontos, mas o mais importante não é apenas registrar “qSOFA 3”: é reconhecer a deterioração e comunicar imediatamente a equipe para investigação e tratamento de possível sepse.

qSOFA não substitui avaliação clínica

O escore não considera temperatura, frequência cardíaca, saturação, diurese, lactato ou contagem de leucócitos. Por isso, um paciente pode estar gravemente doente mesmo com qSOFA baixo. A própria definição Sepsis-3 estabeleceu que sepse corresponde à disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada à infecção, e não simplesmente a uma pontuação de qSOFA.

Em outra situação prática, um paciente com infecção pode manter pressão sistólica de 118 mmHg e estar orientado, mas apresentar FR progressivamente elevada, queda da diurese, extremidades frias e piora do estado geral. O qSOFA pode não atingir 2 pontos, porém a trajetória clínica já é preocupante e não deve ser ignorada.

Cuidados de enfermagem

A enfermagem deve realizar e registrar corretamente frequência respiratória, pressão arterial e nível de consciência, além de acompanhar saturação, frequência cardíaca, temperatura, perfusão, diurese e evolução clínica. Se houver suspeita de sepse, a comunicação deve ser rápida e seguir o protocolo institucional.

Também é importante repetir a avaliação quando houver mudança no estado do paciente. As diretrizes atuais reforçam que sepse e choque séptico são emergências médicas e que o tratamento e a ressuscitação devem começar imediatamente quando indicados.

Para guardar de vez

qSOFA = FR ≥22 + PAS ≤100 + alteração mental.

Cada critério vale 1 ponto, totalizando de 0 a 3. qSOFA ≥2 chama atenção para maior risco, mas não diagnostica sepse e não deve ser usado sozinho para triagem. Para a enfermagem, o valor maior está em perceber a combinação dos sinais e, principalmente, a piora do paciente ao longo do tempo.

Resumo para salvar

Escore qSOFA

  • FR ≥22, PAS ≤100 e alteração mental valem 1 ponto cada
  • O escore varia de 0 a 3 pontos
  • qSOFA ≥2 indica maior risco, mas não confirma sepse
  • Não utilize qSOFA isoladamente para triagem de sepse

Referências:

  1. SINGER, Mervyn et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA, v. 315, n. 8, p. 801–810, 2016. JAMA — Sepsis-3
  2. EVANS, Laura et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021. SCCM — Surviving Sepsis Campaign
  3. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE. Surviving Sepsis Campaign Adult Guidelines. SCCM. SCCM — Adult Guidelines

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
✓ 16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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