Noripurum EV e IM: Diferenças, Indicações e Cuidados de Enfermagem

A deficiência de ferro é uma das condições clínicas mais comuns em todo o mundo e está diretamente relacionada à anemia ferropriva. Quando a reposição por via oral não é suficiente ou não é tolerada pelo paciente, o uso do ferro parenteral se torna uma alternativa eficaz. Entre os medicamentos mais utilizados no Brasil está o Noripurum®, disponível nas apresentações endovenosa (EV) e intramuscular (IM).

Apesar de possuírem o mesmo princípio ativo, essas duas formas de administração apresentam diferenças importantes quanto às indicações, riscos e cuidados de enfermagem. Entender essas diferenças é fundamental para garantir segurança ao paciente e evitar eventos adversos.

O que é o Noripurum?

O Noripurum é um medicamento à base de hidróxido de ferro III associado à sacarose (ou complexo férrico), indicado para o tratamento da deficiência de ferro quando a via oral é ineficaz ou contraindicada.

Ele é utilizado principalmente em pacientes com:

  • anemia ferropriva grave;
  • doenças inflamatórias intestinais;
  • insuficiência renal crônica;
  • sangramentos crônicos;
  • intolerância ao ferro oral;
  • necessidade de reposição rápida de ferro.

O ferro administrado por via parenteral é rapidamente incorporado à hemoglobina e aos estoques corporais, como ferritina e hemossiderina.

Indicações: Quando o Ferro Precisa Ser Injetável?

A indicação clássica para o uso do Noripurum parenteral ocorre quando a via oral falha. Isso pode acontecer em pacientes com doenças inflamatórias intestinais (como Doença de Crohn ou Colite Ulcerativa), pacientes que passaram por cirurgias bariátricas e perderam a capacidade de absorção, ou em casos de anemia grave onde a reposição precisa ser mais rápida do que o trato digestório consegue processar.

Também vemos muito o seu uso em pacientes renais crônicos que fazem hemodiálise, pois eles perdem ferro constantemente no processo e necessitam de uma reposição direta na corrente sanguínea. O cálculo da dose total necessária geralmente segue a Fórmula de Ganzoni, que leva em conta o peso do paciente e o déficit de hemoglobina:

Necessidade total de ferro [mg] = peso [kg] x (Hb alvo – Hb atual)  [g/dL] x 2,4

Diferenças entre Noripurum Endovenoso (EV) e Intramuscular (IM)

Noripurum Endovenoso (EV): Diluição e Vigilância

A apresentação EV é, hoje, a mais utilizada em ambiente hospitalar e ambulatorial. A grande vantagem é a possibilidade de administrar doses maiores de uma só vez, mas isso exige um rigor técnico absoluto. O Noripurum EV nunca deve ser administrado em bôlus direto (push).

A prática padrão exige a diluição exclusivamente em Soro Fisiológico 0,9. A estabilidade do medicamento é sensível, por isso não se utiliza Soro Glicosado. A velocidade de infusão é o fator crítico aqui: os primeiros 25 mg de ferro (cerca de 25 mL da solução preparada) devem ser infundidos lentamente como uma “dose teste”. O enfermeiro deve permanecer ao lado do paciente nos primeiros 15 minutos, observando sinais de anafilaxia, como prurido, hipotensão, dispneia ou dor torácica.

Se o paciente tolerar bem o início, a velocidade pode ser aumentada conforme o protocolo institucional, mas geralmente uma ampola diluída em 100  mL deve correr em, no mínimo, 30 minutos. Lembre-se: quanto maior a dose, maior o tempo de infusão.

Noripurum Intramuscular (IM): A Técnica em Z

O uso da via intramuscular tem caído em desuso, mas ainda é uma realidade em locais onde o acesso venoso é impossível ou em tratamentos domiciliares específicos. O maior temor da via IM é a tatuagem permanente na pele. O ferro é um pigmento escuro e, se houver refluxo do líquido para o tecido subcutâneo, ele mancha a pele de forma irreversível, causando um transtorno estético e psicológico para o paciente.

Para evitar isso, a enfermagem utiliza obrigatoriamente a Técnica em Z. Ela consiste em tracionar a pele lateralmente antes de introduzir a agulha. Após a injeção do medicamento e a retirada da agulha, a pele é solta, criando um trajeto em zigue-zague que “tranca” o medicamento dentro do músculo, impedindo o refluxo.

O local de escolha é sempre o quadrante superior externo do glúteo (região dorsoglútea ou ventroglútea), utilizando uma agulha longa (30 x 7 ou 30 x8) para garantir que o ferro chegue ao tecido muscular profundo. Jamais massageie o local após a aplicação, pois a massagem favorece o refluxo do medicamento para a pele.

Principais Riscos e Reações Adversas

O uso de ferro parenteral exige atenção rigorosa da equipe de enfermagem devido ao risco de reações adversas, principalmente nas primeiras administrações.

Entre os efeitos mais comuns estão:

  • náuseas;
  • tontura;
  • cefaleia;
  • gosto metálico na boca;
  • dor no local da aplicação (principalmente IM).

Reações mais graves incluem:

  • hipotensão;
  • taquicardia;
  • broncoespasmo;
  • urticária;
  • anafilaxia (rara, mas possível).

Por esse motivo, recomenda-se que a administração seja realizada em ambiente com suporte para emergências e com monitorização do paciente durante e após a infusão.

Cuidados de Enfermagem e Riscos Associados

Independentemente da via, o cuidado primordial é a monitorização de reações de hipersensibilidade. Embora o Noripurum seja mais seguro que as formulações antigas de ferro dextrano, o risco de choque anafilático ainda existe. Sempre tenha o carrinho de emergência por perto e confira se o paciente tem histórico de alergias a medicamentos.

No caso da administração EV, monitore rigorosamente o sítio de punção. O extravasamento de ferro no tecido subcutâneo causa dor intensa e uma mancha escura que pode levar meses ou anos para desaparecer, além de risco de inflamação local severa. Se houver qualquer sinal de edema ou dor no local da veia, interrompa a infusão imediatamente.

Outro ponto importante é a orientação ao paciente sobre os efeitos colaterais comuns, como gosto metálico na boca logo após a infusão, náuseas e, ocasionalmente, cefaleia. Informe também que o uso de ferro pode escurecer as fezes, o que é perfeitamente normal e não deve ser confundido com sangramento intestinal.

Cuidados de Enfermagem na Administração do Noripurum EV

  • Antes da administração, é fundamental conferir a prescrição médica, dose correta, diluição adequada e tempo de infusão. O acesso venoso deve estar pérvio e em boas condições.
  • Durante a infusão, o profissional deve observar sinais de reação adversa, como queda de pressão, dispneia, prurido ou dor torácica. O paciente deve ser orientado a comunicar qualquer sensação diferente imediatamente.
  • A infusão deve ser lenta, conforme protocolo institucional, geralmente diluída em solução de cloreto de sódio 0,9%. Nunca deve ser administrado em bolus rápido.
  • Após a administração, recomenda-se manter o paciente em observação por pelo menos 30 minutos, principalmente nas primeiras doses.

Cuidados de Enfermagem na Administração do Noripurum IM

  • A aplicação intramuscular exige técnica correta para evitar complicações locais. A técnica em Z é essencial para impedir o refluxo do medicamento e a pigmentação da pele.
  • O local preferencial é o músculo glúteo profundo, evitando áreas com inflamação ou lesões. Deve-se alternar os locais de aplicação em tratamentos prolongados.
  • É importante informar o paciente sobre a possibilidade de dor local e escurecimento da pele, além de orientar para não massagear o local após a aplicação.
Característica Noripurum EV Noripurum IM
Diluição Obrigatória em Soro Fisiológico 0,9% Sem diluição (uso direto)
Técnica Infusão lenta em bomba ou gotejamento Técnica em Z (profunda)
Principal Risco Anafilaxia e flebite Mancha cutânea permanente
Dose Teste Recomendada nos primeiros 15 min Não se aplica (monitorar após aplicação)
Volume Grande (diluído) Pequeno (máx 2  mL por local)

Importância do Monitoramento Laboratorial

A resposta ao tratamento deve ser acompanhada por exames laboratoriais periódicos. A enfermagem deve estar atenta à evolução dos níveis de hemoglobina e ferritina, comunicando alterações importantes à equipe médica.

O excesso de ferro também é prejudicial ao organismo, podendo causar sobrecarga férrica. Por isso, a reposição deve ser sempre baseada em parâmetros laboratoriais.

Papel da Enfermagem na Segurança do Paciente

A enfermagem exerce papel central na prevenção de eventos adversos relacionados ao Noripurum. Desde a preparação correta do medicamento até a observação clínica do paciente, cada etapa influencia diretamente na segurança do tratamento.

Educar o paciente, registrar reações, garantir técnica adequada e manter vigilância contínua são responsabilidades fundamentais da prática profissional.

O Noripurum EV e IM são opções eficazes no tratamento da deficiência de ferro, porém apresentam diferenças importantes quanto à forma de administração, segurança e conforto do paciente. Atualmente, a via endovenosa é a mais utilizada e recomendada em ambiente hospitalar, enquanto a via intramuscular tem uso cada vez mais limitado.

O conhecimento técnico da enfermagem sobre essas diferenças é essencial para garantir um cuidado seguro, humanizado e baseado em evidências científicas.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Bula do Paciente e do Profissional: Noripurum (ferripolimaltose). Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/
  2. CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO (COREN-SP). Uso Seguro de Medicamentos: Guia para Profissionais de Enfermagem. São Paulo: COREN-SP, 2020. Disponível em: https://portal.coren-sp.gov.br
  3. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA E HEMOTERAPIA (SBHH). Diretrizes para o tratamento da anemia ferropriva. 2022. Disponível em: https://www.sbhh.org.br/
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia Ferropriva. Brasília: MS, 2018. Disponível em:
    https://www.gov.br/saude/pt-br
  6. ANVISA. Bula do medicamento Noripurum® Injetável. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/
  7. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.
  8. KATZUNG, B. G.; TREVOR, A. J. Farmacologia Básica e Clínica. 15. ed. Porto Alegre: AMGH, 2021.
  9. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Iron deficiency anaemia: assessment, prevention and control. Geneva: WHO, 2001. Disponível em:
    https://www.who.int/publications/i/item/WHO-NHD-01.3

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