Clostridium Difficile

Clostridium difficile é uma bactéria produtora de toxinas, que costuma estar presente em cerca de 3% dos adultos saudáveis e em até 23% dos pacientes hospitalizados, principalmente naqueles sob tratamento com antibióticos. Nos idosos internados em centros de cuidados prolongados, a taxa de contaminação chega a ser de 50%.

O Clostridium difficile costuma ser inofensivo em pessoas saudáveis, pois a sua proliferação é controlada pelas centenas de outras espécies de bactérias, fungos e protozoários que habitam nosso trato intestinal.

Porém, em pessoas que fazem uso repetido ou prolongado de antibióticos, a flora intestinal natural pode sofrer uma grave alteração, favorecendo a proliferação de cepas causadoras de doenças. O Clostridium difficile não é uma bactéria que ataca diretamente o cólon.

O seu problema reside no fato dela ser uma produtora de toxinas irritantes à parede do intestino. Quando a bactéria consegue se multiplicar descontroladamente, uma grande quantidade de toxinas são produzidas, levando à colite (inflamação do cólon) e diarreia profusa.

Pacientes portadores da bactéria C. difficile eliminam a mesma nas fezes sob a forma de esporas, podendo contaminar o ambiente (roupas, objetos, roupa de cama, toalhas…) e pessoas ao redor.

Para indivíduos saudáveis, como os familiares, essa contaminação é pouco relevante, pois o sistema imunológico e a flora intestinal são capazes de controlar a infecção.

Porém, em um ambiente hospitalar, onde existem muitos idosos debilitados e pessoas com sistema imunológico comprometido, isso pode gerar surtos de colite em vários pacientes internados. Por isso, qualquer paciente identificado como portador de Clostridium difficile deve ser colocado em isolamento de contato até que a bactéria seja erradicada.

SINTOMAS DA COLITE POR CLOSTRIDIUM DIFFICILE

A infecção pelo C. difficle pode provocar 4 apresentações clínicas distintas:

  • Portador assintomático: pacientes hospitalizados frequentemente sofrem mudanças na sua flora intestinal e podem passar a ser portadores da bactéria Clostridium difficile. São chamados de carreadores assintomáticos aqueles que possuem a bactéria, eliminam a mesma nas fezes, podendo contaminar o ambiente e outros pacientes, mas não apresentam quaisquer sintomas. Esses pacientes são habitualmente pessoas com sistema imunológico forte, que se curam sozinhos semanas depois de terem retornado para a sua casa.
  • Diarreia por Clostridium difficile: nos pacientes que desenvolvem sintomas, a diarreia é a manifestação clínica mais comum. A colite provocada pelo difficile costuma causar uma diarréia aquosa intensa, que pode levar o paciente a ter várias evacuações por dia. Cólicas abdominais, febre baixa e leucocitose (aumento do número de leucócitos no hemograma) são outras manifestações comuns. Febre acima de 38,500 é um sinal de gravidade.

A colite por C. difficile costuma estar relacionada à administração recente de antibióticos. O quadro pode iniciar-se ainda durante o tratamento ou até 5 a 10 dias após o fim do(s) antibiótico(s). Em casos raros, a colite por Clostridium Difficile pode aparecer somente semanas depois do fim do tratamento.

Eis antibióticos mais frequentemente implicados com a proliferação do C. difficile São as fluoroquinolonas (ex: ciprofloxacino, levofloxacino e norfloxacino), clindamicina, cefalosporinas e penicilinas.

Porém, praticamente todos os antibióticos, incluindo metronidazol e a vancomicina, que são habitualmente usados no tratamento da Clostridium difficile, podem facilitar o aparecimento desta colite.

  • Colite pseudomembranosa: é um quadro de colite um pouco mais grave que o anterior, com diarreia que pode chegar a 15 evacuações diárias, dores abdominais mais intensas e presença de sangue e pus nas fezes. A sua principal característica é a presença de uma pseudomembrana ao redor da parede do cólon, achado que costuma ser identificado através da colonoscopia.
  • Colite fulminante: uma forma mais grave e, felizmente, mais rara, é a colite fulminante, um quadro de intensa inflamação, com dilatação do cólon e grande risco de perfuração do mesmo.

FATORES DE RISCO PARA INFECÇÃO POR CLOSTRIDIUM DIFFICILE

O uso recente de antibióticos é o mais importante fator de risco para a multiplicação do C. difficile. Equanto maior for o espectro de ação, ou seja, quanto maior for a capacidade do antibiótico de atingir diferentes tipos de bactérias, e quanto mais prolongado for o tempo de tratamento, maior será o risco de colite por C. difficile.

Pacientes idosos, hospitalizados ou institucionalizados também apresentam elevado risco de infecção por esta bactéria. Uso crônico de medicamentos que suprimem a acidez gástrica, como omeprazol, pantoprazol e similares, também parece aumentar o risco de contaminação pela bactéria.

É importante destacar que existem outras causas de diarreia causada por antibiótico que não têm relação com o C. difficle. Na verdade, a maioria das pessoas jovens e não hospitalizadas que desenvolvem diarreia após o uso de um determinado antibiótico não tem colite por Clostridium difficile.

DIAGNÓSTICO DA COLITE POR CLOSTRIDIUM DIFFICILE

O diagnóstico da colite por C. difficile deve ser investigado em todo paciente hospitalizado, ou que tenha recebido alta hospitalar recentemente, que desenvolva quadro de diarreia intensa. O uso recente de antibióticos é uma dica importante. Pacientes não hospitalizadas que tenham feita uso recente de múltiplos antibióticos também podem desenvolver a infecção.

O diagnóstico é habitualmente feito através da pesquisa de toxinas do C. difficile nas fezes. A presença de toxinas em um paciente com diarreia persistente é suficiente para o diagnóstico.

Nos casos em que a pesquisa de toxinas do C. diffirde é negativa, mas a suspeita clínica é muito alta, uma colonoscopia pode ser realizada para investigar a presença de pseudomembranas, achado típico na colite pseudomembranosa.

TRATAMENTO DA COLITE POR CLOSTRIDIUM DIFFICILE

Ironicamente, o tratamento da infecção pelo Clostridium diflicde é feito com antibióticos. Para casos leves a moderados, o metronidazol é o antibiótico de escolha. Nos casos mais graves, a vancomicina, por via oral, deve ser a escolha.

No casas de colite fulminante, com rompimento iminente ou já estabelecido do cólon, o tratamento deve ser cirúrgico, com ressecção da região afetada.

Nos pacientes com infecção recorrente por C. difficile, apesar da tratamento adequado com metronidazol ou vancomicina, algumas alternativas podem ser tentadas.

O transplante de fezes é uma técnica nova que consiste na administração de fezes de um doador diretamente para o trato gastrointestinal da paciente, através do colonoscopia ou por uma sonda gastrointestinal. O objetivo desse tratamento é restabelecer a flora intestinal natural, impedindo que o C difficile volte a se multiplicar.

Seguindo o mesmo raciocínio, uma outra opção é a administração de probióticos, que é um medicamento que contém bactéria se fungos naturais da flora intestinal. Apesar de ser mais simples, os probióticos têm resultados inferiores ao transplante de fezes, principalmente nos casos de colite moderada a grave.

Referência:

  1. https://doi.org/10.1590/S0037-86821999000100009

O Terror dos Hospitais: Os Microrganismos Resistentes e seu tempo de sobrevida no ambiente

E aí, galera da enfermagem!

Hoje a gente vai mergulhar em um universo invisível, mas super importante para a nossa prática clínica: o mundo dos microrganismos resistentes e a incrível (e preocupante) capacidade que eles têm de sobreviver no ambiente hospitalar e em outros lugares.

Já pararam para pensar quanto tempo uma bactéria “superpoderosa” pode ficar esperando ali, quietinha, para encontrar um novo hospedeiro? Pois é, essa é uma questão crucial para entendermos a dinâmica das infecções e reforçarmos ainda mais nossos cuidados. Vamos nessa desvendar esse mistério?

Superpoderes Invisíveis: Entendendo a Resistência Microbiana

Antes de falarmos sobre o tempo de sobrevivência, é fundamental entender o que torna esses microrganismos tão “temidos”. A resistência antimicrobiana é a capacidade que bactérias, vírus, fungos e parasitas desenvolvem de não serem mortos ou inibidos pelos medicamentos (antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários) que foram criados para combatê-los.

Essa resistência surge principalmente devido ao uso excessivo e inadequado desses medicamentos, permitindo que os microrganismos sofram mutações genéticas que os tornam menos suscetíveis ou totalmente imunes aos seus efeitos.

O resultado? Infecções mais difíceis de tratar, prolongamento do tempo de internação, aumento dos custos de saúde e, em casos graves, maior risco de óbito para os pacientes.

E onde entra o tempo de sobrevivência nessa história? Simples: quanto mais tempo esses microrganismos resistentes conseguem permanecer viáveis no ambiente, maior a chance de eles entrarem em contato com um novo hospedeiro (muitas vezes, um paciente vulnerável em um ambiente de saúde) e causarem uma infecção.

Tempo de Espera dos Invasores: A Sobrevivência dos Microrganismos no Ambiente

A capacidade de um microrganismo sobreviver fora do corpo humano varia muito, dependendo de diversos fatores, como o tipo de microrganismo, as condições ambientais (temperatura, umidade, presença de matéria orgânica) e a superfície onde ele se encontra. Alguns “sobreviventes” notórios incluem:

  • Bactérias: Algumas bactérias resistentes podem ser verdadeiras “campeãs” de sobrevivência. O Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), por exemplo, pode persistir em superfícies secas por dias, semanas e até meses, especialmente em ambientes com matéria orgânica. Já o Clostridium difficile, conhecido por causar infecções intestinais graves, forma esporos que podem sobreviver por meses em superfícies e são resistentes a muitos desinfetantes comuns. Bactérias gram-negativas multirresistentes, como Acinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa, também podem sobreviver por longos períodos em superfícies úmidas e secas, além de serem encontradas em água e biofilmes.
  • Vírus: A sobrevivência de vírus fora do hospedeiro também varia. Alguns vírus respiratórios, como o influenza e o SARS-CoV-2, podem permanecer infecciosos em superfícies por horas ou até dias, dependendo das condições. Vírus mais resistentes, como o norovírus (causador de gastroenterites), podem sobreviver por semanas em superfícies e são difíceis de eliminar. O vírus da hepatite B (HBV) e o vírus da imunodeficiência humana (HIV) têm um tempo de sobrevivência menor fora do corpo, geralmente algumas horas a poucos dias.
  • Fungos: Alguns fungos patogênicos, como Candida albicans e Aspergillus spp., podem sobreviver por dias a semanas em superfícies e em ambientes úmidos. Os esporos de alguns fungos podem ser ainda mais resistentes e persistir por longos períodos.

É importante ressaltar que a viabilidade desses microrganismos não significa necessariamente que eles permaneçam altamente infecciosos por todo esse tempo. A carga microbiana e a capacidade de causar infecção tendem a diminuir com o tempo fora do hospedeiro.

No entanto, mesmo uma pequena quantidade de microrganismos resistentes pode ser suficiente para infectar um paciente vulnerável.

O Ambiente Fala: Onde Esses Microrganismos Gostam de “Esperar”

Os microrganismos resistentes podem ser encontrados em praticamente qualquer superfície no ambiente de saúde, mas alguns locais são mais propícios à sua persistência:

  • Superfícies de Alto Toque: Maçanetas, interruptores de luz, grades de leito, mesas de cabeceira, telefones, teclados de computador, bombas de infusão e equipamentos médicos compartilhados são frequentemente contaminados e podem abrigar microrganismos por longos períodos.
  • Dispositivos Médicos: Cateteres, ventiladores mecânicos, endoscópios e outros dispositivos médicos podem ser colonizados por biofilmes, comunidades de microrganismos aderidas a uma superfície e envoltas por uma matriz protetora, o que os torna mais resistentes à limpeza e desinfecção e serve como reservatório de infecção.
  • Água e Ambientes Úmidos: Pias, ralos, umidificadores e outros locais com umidade podem favorecer a proliferação de certas bactérias gram-negativas e fungos.
  • Roupas de Cama e Cortinas: Tecidos podem reter microrganismos e poeira, servindo como fonte de contaminação se não forem trocados e higienizados adequadamente.

Nosso Exército de Defesa: Os Cuidados de Enfermagem Contra a Sobrevivência dos Supermicróbios

Entender o tempo de sobrevivência e os locais onde os microrganismos resistentes podem se esconder reforça ainda mais a importância dos nossos cuidados diários:

  • Adesão Impecável à Higiene das Mãos: Lavar as mãos corretamente e nos momentos certos é a medida mais eficaz para interromper a cadeia de transmissão de microrganismos, incluindo os resistentes.
  • Limpeza e Desinfecção Rigorosas: Seguir os protocolos de limpeza e desinfecção de superfícies e equipamentos, utilizando os produtos adequados e nas concentrações corretas. Dar atenção especial às superfícies de alto toque.
  • Uso Adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPI): Utilizar luvas, aventais, máscaras e óculos de proteção conforme a indicação para evitar a contaminação das mãos e roupas e proteger o paciente.
  • Manejo Seguro de Resíduos: Descartar resíduos contaminados de forma adequada para evitar a disseminação de microrganismos.
  • Prevenção de Infecções Relacionadas a Dispositivos: Seguir os protocolos para inserção, manutenção e remoção de dispositivos invasivos, minimizando o tempo de permanência e manipulando-os com técnica asséptica.
  • Uso Prudente de Antimicrobianos: Administrar antibióticos apenas quando estritamente necessário, na dose e duração corretas, conforme a prescrição médica, e participar de programas de stewardship de antimicrobianos.
  • Educação do Paciente e Familiares: Orientar sobre a importância da higiene das mãos e outras medidas para prevenir a propagação de infecções.
  • Vigilância e Notificação: Estar atento à ocorrência de infecções e notificar a equipe de controle de infecção hospitalar.

Lembrem-se, a nossa atuação vigilante e a aplicação consistente das medidas de prevenção são a nossa principal arma contra a persistência e a disseminação dos microrganismos resistentes. Cada um de nós tem um papel crucial nessa batalha invisível pela segurança dos nossos pacientes.

Referências:

  1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Higienização das Mãos: Guia para Profissionais de Saúde. 2. ed. Brasília: ANVISA, 2009. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicos-de-saude/publicacoes/manual_higienizacao_maos_2ed.pdf.
  2. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). How Long Can Germs Live on Surfaces? 2020. Disponível em: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/more-info/cleaning-disinfecting.html.
  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Antimicrobial Resistance. 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/antimicrobial-resistance