Dreno de Penrose: Para que serve?

No dia a dia da enfermagem, especialmente em ambientes cirúrgicos ou de internação, nos deparamos com uma infinidade de dispositivos que, embora pareçam simples, são cruciais para a recuperação do paciente. Um desses dispositivos, que já salvou muitos pós-operatórios de complicações, é o dreno de Penrose.

Ele é, talvez, o mais “básico” dos drenos, mas sua eficácia e a simplicidade de seu mecanismo o tornam um velho conhecido e um grande aliado.

Para nós, profissionais de enfermagem e estudantes de enfermagem, compreender o que é, para que serve e como cuidar de um Penrose é fundamental. Vamos desvendar esse “caninho de borracha”?

O Que é o Dreno de Penrose? Um “Caminho” para o Excesso

Imagine que, após uma cirurgia ou um trauma, há um espaço no corpo onde se pode acumular sangue, soro, pus ou outros fluidos. Se esses fluidos ficam ali parados, eles podem formar coleções, servir de cultura para bactérias e causar infecções, inchaço excessivo ou até mesmo dificultar a cicatrização. É aí que entra o dreno!

O dreno de Penrose é um tipo de dreno passivo e por capilaridade. Isso significa que ele não utiliza sucção ativa (como outros drenos, que puxam o líquido). Ele é simplesmente um tubo de borracha macia e flexível (geralmente de látex) que é colocado na ferida cirúrgica ou no local da coleção.

O fluido escorre por fora e por dentro desse tubo, seguindo a gravidade e o princípio da capilaridade (como a água sobe em um canudo fino), para fora do corpo.

  • Formato: Ele parece uma fita ou um tubo achatado de borracha. Geralmente é fixado à pele com um ponto de sutura para não sair do lugar.
  • Mecanismo: Funciona como um “atalho” ou “canal” para que o líquido acumulado saia da cavidade e seja absorvido por um curativo externo ou coletado em uma bolsa.

Para Que Serve o Dreno de Penrose? Os Cenários de Uso

O Penrose é usado em cirurgias ou em situações onde se espera um acúmulo moderado de líquidos e onde não há necessidade de monitorar o volume exato do que está sendo drenado.

  • Drenagem de Coleções de Líquido: É sua principal função. Ajuda a prevenir o acúmulo de:
    • Seroma: Acúmulo de líquido seroso (claro, amarelado), comum após cirurgias onde há um “espaço morto” ou manipulação de tecidos (ex: mastectomias, cirurgias de hérnia).
    • Hematoma: Acúmulo de sangue.
    • Abscessos: Coleções de pus, onde o dreno é inserido após a drenagem do pus para manter o “caminho” de saída.
  • Prevenção de Infecções: Ao remover o líquido acumulado, o Penrose ajuda a reduzir o risco de infecção no local da cirurgia ou lesão, já que o líquido parado pode ser um meio de cultura para bactérias.
  • Cuidado com Feridas Contaminadas: Em feridas que já estão contaminadas ou infectadas, o Penrose pode ser usado para manter a drenagem e auxiliar na limpeza do local.

Exemplos de Cirurgias Onde o Penrose é Comum:

  • Cirurgias de mama (mastectomia, quadrantectomia)
  • Cirurgias de tireoide
  • Drenagem de abscessos
  • Algumas cirurgias abdominais de pequeno e médio porte
  • Cirurgias plásticas

Cuidados de Enfermagem com o Dreno de Penrose

O Penrose é simples, mas exige cuidados de enfermagem rigorosos para garantir sua eficácia e prevenir complicações. Nós somos os guardiões desse dreno!

Monitoramento da Drenagem:

    • Aspecto e Volume: Observar o tipo de drenagem (seroso, serossanguinolento, sanguinolento, purulento), a coloração, odor e a quantidade. Registrar essas características no prontuário.
    • Frequência da Troca de Curativo: O curativo externo (gaze e micropore) deve ser trocado sempre que estiver úmido ou saturado de drenagem, pois um curativo úmido facilita a entrada de bactérias.
    • Comunicação: Qualquer mudança brusca no aspecto ou volume da drenagem (ex: aumento súbito, drenagem purulenta, odor fétido) deve ser comunicada imediatamente ao médico.

Manutenção da Integridade e Fixação:

    • Fixação: Verificar se o dreno está bem fixado à pele pelo ponto de sutura. Se o ponto estiver frouxo ou rompido, comunicar ao médico.
    • Posicionamento: Certificar-se de que o dreno não esteja tracionado ou dobrado, o que pode impedir a drenagem.
    • Protetor de Pele: Em peles muito sensíveis ou com muita drenagem, pode-se usar um protetor cutâneo ao redor da pele para evitar irritação e assaduras.

Cuidados com o Curativo:

    • Técnica Asséptica: Realizar a troca de curativo utilizando técnica estéril, com luvas estéreis, solução antisséptica (clorexidina ou PVPI degermante, conforme protocolo) para limpar a pele ao redor doreno e soro fisiológico para a pele ao redor e ferida cirúrgica.
    • Limpeza do Sítio: Limpar o dreno da base (próximo à pele) para a extremidade, e a pele ao redor de forma suave.
    • Proteção: Usar gazes estéreis ao redor do dreno para absorver a drenagem e cobrir com curativo oclusivo, mas que permita a visualização se o dreno for transparente.

Sinais de Infecção:

    • Local da Inserção: Observar a pele ao redor do dreno para sinais de infecção, como vermelhidão, inchaço, calor, dor ou presença de pus.
    • Sinais Sistêmicos: Monitorar a temperatura do paciente (febre pode indicar infecção).

Educação ao Paciente e Família:

    • Explicação: Explicar o propósito do dreno e o que a família deve observar (aspecto da drenagem, sinais de alerta).
    • Cuidados em Casa: Se o paciente for para casa com o dreno, orientar sobre a troca do curativo, a frequência, como observar e quando procurar o hospital.

A Retirada do Penrose: O Último Passo

A retirada do dreno de Penrose é geralmente simples e feita pelo médico ou enfermeiro (em alguns protocolos, o enfermeiro pode retirar). O dreno é removido quando a drenagem diminui significativamente ou cessa, indicando que o espaço foi obliterado e não há mais risco de acúmulo. Após a retirada, um curativo oclusivo é feito sobre o pequeno orifício, que cicatriza por segunda intenção (de dentro para fora).

O dreno de Penrose, apesar de sua simplicidade, é um grande aliado na prevenção de complicações pós-operatórias. Conhecer suas particularidades e aplicar os cuidados de enfermagem adequados garante a segurança e o conforto do paciente, acelerando sua recuperação e diminuindo o risco de reintervenções. Mais uma vez, é a nossa atenção aos detalhes que faz a diferença!

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
  2. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre drenos e cirurgia).
  3. POTTER, P. A.; PERRY, A. G.; STOCKERT, P.; HALL, A. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Consultar capítulo sobre drenagens e cuidados com feridas).

Medicamentos Mais Utilizados no Centro Cirúrgico

O ambiente do centro cirúrgico é altamente técnico e exige dos profissionais de enfermagem não só agilidade, mas também um conhecimento sólido sobre os medicamentos utilizados durante os procedimentos. Cada fase da cirurgia – da indução anestésica à recuperação – demanda o uso criterioso de fármacos com ações específicas, que precisam ser administrados com precisão e segurança.

Este artigo vai detalhar os principais medicamentos usados no centro cirúrgico, explicando sua função, modo de uso e cuidados de enfermagem necessários. O objetivo é tornar esse conhecimento mais acessível e prático para os estudantes de enfermagem que desejam atuar nessa área ou simplesmente entender melhor a dinâmica da farmacologia cirúrgica.

Etapas da cirurgia e os medicamentos correspondentes

Durante um procedimento cirúrgico, diferentes classes de medicamentos são utilizadas. De maneira geral, eles se distribuem entre pré-anestésicos, anestésicos gerais e locais, bloqueadores neuromusculares, analgésicos, sedativos, antieméticos e antibióticos.

Anestésicos Intravenosos: Para Induzir o Sono Rápido

Esses medicamentos são a “chave” para iniciar a anestesia, fazendo com que o paciente durma rapidamente.

  • Propofol: É o queridinho dos anestesistas por sua ação rápida e despertar suave. É um líquido branco, leitoso (por isso chamado de “leite da amnésia”).
    • Cuidados de Enfermagem: Administrar em veia de bom calibre (pode causar dor na injeção). Monitorar de perto a pressão arterial (pode causar hipotensão) e a frequência respiratória (pode causar depressão respiratória). Verificar se há alergia a soja/ovo (pode conter emulsificante).
  • Etomidato: Usado quando o paciente tem instabilidade hemodinâmica (pressão muito baixa), pois causa pouca alteração cardiovascular.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar de perto os sinais vitais, especialmente em pacientes cardíacos. Pode causar náuseas e vômitos.
  • Midazolam: É um benzodiazepínico, usado principalmente para sedação, ansiólise (diminuir a ansiedade) e indução anestésica em doses mais altas. Causa amnésia, o que é ótimo para o paciente não lembrar do procedimento.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar depressão respiratória. Pode potencializar o efeito de outros depressores do SNC.

Anestésicos Inalatórios: Para Manter o Sono Cirúrgico

Após a indução com os medicamentos intravenosos, a anestesia é geralmente mantida com gases inalatórios, que o paciente respira através de um aparelho de anestesia.

  • Sevoflurano, Isoflurano, Desflurano: São os mais comuns. Mantêm o paciente dormindo e relaxado durante toda a cirurgia.
    • Cuidados de Enfermagem: O enfermeiro circulante e o instrumentador não administram esses medicamentos diretamente, mas são responsáveis por monitorar o paciente (através dos monitores) e o funcionamento do aparelho de anestesia, auxiliando o anestesista. Observar a presença de hipertermia maligna (uma reação rara e grave).

Relaxantes Musculares (Bloqueadores Neuromusculares): Para Deixar os Músculos “Flácidos”

Esses medicamentos paralisam temporariamente os músculos do corpo, incluindo os respiratórios. Isso é essencial para facilitar a intubação e para que o cirurgião possa trabalhar sem os músculos do paciente contraindo.

  • Rocurônio, Atracúrio, Cisatracúrio, Succinilcolina: Cada um tem um tempo de ação diferente. A Succinilcolina tem uma ação muito rápida e curta, usada para intubação de emergência.
    • Cuidados de Enfermagem: É crucial monitorar a ventilação do paciente, pois ele não consegue respirar sozinho sob o efeito desses medicamentos. O paciente deve estar sempre sedado antes de receber um relaxante muscular, pois ele estará paralisado, mas consciente se não sedado! Observar a recuperação do paciente no final da cirurgia (se consegue movimentar-se e respirar sozinho antes de ser extubado).

Reversão do Bloqueio Neuromuscular: Para o Músculo Voltar a Ativar

Ao final da cirurgia, o anestesista pode usar medicamentos para reverter o efeito dos relaxantes musculares, ajudando o paciente a recuperar a força muscular mais rapidamente.

  • Sugamadex, Neostigmina + Atropina/Glicopirrolato: O Sugamadex é mais moderno e específico para Rocurônio e Vecurônio.
    • Cuidados de Enfermagem: Observar a recuperação da força muscular do paciente (elevação da cabeça, força de preensão). Monitorar a frequência cardíaca (a Neostigmina pode causar bradicardia).

Analgésicos: Para Controlar a Dor Antes, Durante e Depois

A dor é uma preocupação constante. Os analgésicos são usados em diferentes momentos.

  • Opioides (Narcóticos): Potentes para dor intensa.
    • Fentanil, Remifentanil, Sufentanil, Morfina: Usados durante a cirurgia para controle da dor e no pós-operatório.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar de perto a depressão respiratória (principal efeito adverso grave). Observar sedação excessiva, náuseas, vômitos e constipação. Atentar para a dose e o intervalo.
  • AINEs (Anti-inflamatórios Não Esteroides): Diclofenaco, Cetoprofeno, Tenoxicam. Usados para dor leve a moderada e inflamação, geralmente no final da cirurgia ou no pós-operatório.
    • Cuidados de Enfermagem: Observar risco de sangramento, efeitos gastrointestinais e renais.
  • Paracetamol (Acetaminofeno): Analgésico e antipirético, usado para dor leve a moderada.
    • Cuidados de Enfermagem: Observar doses máximas para evitar toxicidade hepática.

Anestésicos Locais: Para Bloquear a Dor em Áreas Específicas

Usados para anestesia regional (ex: raquianestesia, peridural) ou para infiltrar o local da incisão.

  • Bupivacaína, Lidocaína, Ropivacaína: Bloqueiam os nervos, impedindo a transmissão da dor.
    • Cuidados de Enfermagem: Monitorar sinais de toxicidade (tontura, zumbido no ouvido, convulsões, cardiotoxicidade). Observar bloqueio motor e sensitivo. Se usados em raqui/peridural, monitorar a pressão arterial (podem causar hipotensão) e a frequência cardíaca.

Anti-eméticos: Para Evitar Náuseas e Vômitos

Náuseas e vômitos pós-operatórios são comuns e muito incômodos.

  • Ondansetrona, Dexametasona, Bromoprida: Usados para prevenir ou tratar esses sintomas.
    • Cuidados de Enfermagem: Administrar antes que as náuseas fiquem intensas. Observar sonolência.

Vasopressores e Inotrópicos: Para Manter a Pressão e a Força do Coração

Em algumas cirurgias, pode haver queda da pressão arterial ou necessidade de suporte ao coração.

  • Noradrenalina, Dopamina, Dobutamina: Usados para elevar a pressão ou aumentar a força de contração do coração.
    • Cuidados de Enfermagem: São medicamentos de alta vigilância. Administrar via acesso venoso central (preferencialmente). Monitorar rigorosamente a pressão arterial (de preferência invasiva), frequência cardíaca e débito urinário. Têm alto risco de efeitos colaterais.

Antibióticos: Para Prevenir Infecções

Administrados antes do início da cirurgia para prevenir infecções do sítio cirúrgico.

  • Cefazolina, Cefoxitina, Gentamicina, Vancomicina: A escolha depende do tipo de cirurgia e do perfil de risco do paciente.
    • Cuidados de Enfermagem: Administrar no tempo correto antes da incisão (geralmente até 60 minutos antes). Observar reações alérgicas.

Considerações sobre a prática da enfermagem no centro cirúrgico

O papel da enfermagem no centro cirúrgico vai além da administração dos medicamentos. É preciso entender o que cada fármaco faz, seus efeitos colaterais, interações e riscos. O profissional deve estar capacitado para:

  • Confirmar as medicações com a equipe médica e anestésica.
  • Conhecer os tempos corretos de administração.
  • Observar e relatar sinais de reações adversas.
  • Garantir a segurança do paciente durante todo o processo cirúrgico.

A comunicação com a equipe, a atenção ao detalhe e a preparação adequada fazem toda a diferença para o sucesso da cirurgia e a recuperação do paciente.

Referências:

  1. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLANN, B. C. As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman & Gilman. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
    https://www.mhmedical.com/book.aspx?bookID=3057
  2. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
    https://www.elsevier.com.br/farmacologia-8-edicao-9788535285153.html
  3. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boas práticas em anestesia – Guia de segurança do paciente. Brasília: ANVISA, 2017.
    https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/publicacoes/anestesia.pdf
  4. BARASH, P. G.; CULLEN, B. F.; STOELTING, R. K.; CAUDA, E. V.; LANDELL, B. F. Anestesia Clínica de Stoelting e Miller. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021. (Consultar capítulos sobre farmacologia anestésica).
  5. RANG, H. P.; DALE, M. M.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020. (Consultar capítulos específicos sobre anestésicos, analgésicos, relaxantes musculares).
  6. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar capítulo sobre farmacologia no centro cirúrgico).