
Vá direto ao ponto!
Na PAI, o número mostrado no monitor pode estar errado mesmo quando o paciente não mudou. Uma bolha de ar, um coágulo, uma conexão frouxa ou um transdutor fora do nível correto podem distorcer a pressão e até levar a uma interpretação inadequada da hemodinâmica.
O que é a pressão arterial invasiva?
A pressão arterial invasiva (PAI) é obtida por meio de um cateter inserido em uma artéria e conectado a um sistema preenchido com solução, transdutor e monitor. O sistema permite acompanhar continuamente a pressão sistólica, diastólica e média (PAM), além de possibilitar coleta de sangue arterial pelo acesso quando indicado.
A artéria radial é um dos locais mais utilizados em adultos. Femoral, braquial e dorsalis pedis também podem ser utilizados conforme condição clínica, anatomia, finalidade da monitorização e protocolo do serviço. Para adultos, o CDC recomenda preferir radial, braquial ou dorsalis pedis em relação a femoral ou axilar quando a escolha do local for possível, considerando o risco de infecção.
Quando a PAI faz diferença?
A monitorização invasiva é particularmente útil quando é necessário acompanhar a pressão de forma contínua e com maior resolução, como em pacientes com instabilidade hemodinâmica, uso de vasopressores ou necessidade de controle pressórico estreito. Também pode ser útil quando são necessárias coletas arteriais repetidas.
Não existe uma “PAM normal” única que determine a conduta para todos os pacientes. O valor deve ser interpretado de acordo com o quadro clínico, perfusão, diagnóstico e objetivo terapêutico. Em algumas situações críticas, por exemplo, a equipe trabalha com uma meta específica de PAM definida para aquele paciente.
O ponto que mais interfere na leitura
Antes de confiar no número, confira o nivelamento e o zero do transdutor. O ponto de referência habitual é o nível do átrio direito, aproximado pelo eixo flebostático, na linha médio-axilar e quarto espaço intercostal. O nivelamento corrige o efeito da pressão hidrostática; a zeragem elimina a influência da pressão atmosférica.
Se o transdutor ficar abaixo do nível de referência, a pressão poderá ser artificialmente elevada; se ficar acima, poderá parecer mais baixa. Por isso, após mudar a posição do paciente, é necessário conferir novamente o nível do transdutor e realizar nova zeragem quando indicada pelo protocolo e pelas condições do sistema.
Um cenário muito comum no plantão é mudar a cabeceira de um paciente para realizar um procedimento e, depois, esquecer que o transdutor permaneceu na altura anterior. Se a pressão exibida não combinar com o quadro clínico, antes de aumentar ou reduzir uma droga vasoativa vale olhar primeiro para o sistema.
A curva também fala
Uma PAI bem montada apresenta uma curva arterial reconhecível, com boa amplitude e incisura dicrótica. A qualidade da curva deve ser avaliada junto com os valores numéricos.
O teste de flush rápido, também chamado de teste da onda quadrada, ajuda a verificar a resposta dinâmica do sistema. Após o flush rápido, espera-se uma onda quadrada seguida por poucas oscilações antes do retorno à linha de base. Muitas oscilações sugerem subamortecimento, enquanto ausência ou redução importante das oscilações pode indicar superamortecimento. Esses problemas podem alterar principalmente os valores de pressão sistólica e diastólica.
Na prática, quando uma curva que estava adequada fica achatada, vale procurar causas simples antes de interpretar aquilo como uma mudança fisiológica: bolha de ar, coágulo, dobra do equipo, obstrução do cateter, conexões inadequadas ou problema no sistema de flush estão entre os fatores que podem comprometer a leitura.
Montagem e manutenção do sistema
A montagem deve seguir o fabricante e o protocolo institucional. O sistema precisa permanecer livre de ar, com conexões seguras e técnica asséptica. Em sistemas de monitorização com bolsa pressurizada, a pressão de 300 mmHg é utilizada para manter o fluxo de manutenção e impedir refluxo de sangue para o sistema.
Não é adequado transformar o flush em uma regra fixa de “a cada 6 horas”. Sistemas fechados de flush contínuo são preferíveis, e a manipulação deve ser reduzida ao necessário. Também não se recomenda adicionar heparina automaticamente à solução: a solução e a composição do sistema devem seguir o dispositivo, fabricante e protocolo institucional.
O CDC recomenda não substituir cateteres arteriais rotineiramente apenas para prevenir infecção; a retirada deve ocorrer quando o acesso deixar de ser necessário. Para os sistemas de transdução, recomenda a substituição dos transdutores em intervalos de 96 horas, juntamente com os componentes correspondentes, conforme a recomendação e as condições do serviço.
Quem pode realizar a punção arterial?
No Brasil, a Resolução Cofen nº 703/2022 determina que, no âmbito da equipe de enfermagem, a punção arterial para gasometria e a instalação de cateter intra-arterial para monitorização da PAI são procedimentos privativos do enfermeiro. O técnico ou auxiliar pode atuar na assistência dentro das atribuições legais, do protocolo institucional e sob supervisão, mas não realizar a punção arterial como se fosse uma atribuição própria da categoria.
Essa atualização é especialmente importante para páginas de estudo, porque materiais antigos ainda reproduzem a orientação de que o técnico “realiza” a instalação da PAI. Essa informação não deve permanecer como regra no conteúdo atual.
Cuidados de enfermagem
Antes de interpretar a pressão, confira:
- nível e zero do transdutor;
- qualidade e morfologia da curva;
- presença de bolhas, coágulos, dobras ou desconexões;
- pressão da bolsa pressurizadora conforme o sistema utilizado;
- permeabilidade e fixação do cateter;
- condições do sítio de inserção e perfusão distal;
- alarmes e limites programados no monitor;
- necessidade diária de manutenção do acesso.
Observe também sinais de sangramento, hematoma, isquemia, infecção ou perda acidental do cateter. Qualquer alteração inesperada da curva deve ser investigada antes de concluir que houve necessariamente uma mudança hemodinâmica.
A PAI é extremamente útil no paciente crítico, mas sua qualidade depende de algo que muitas vezes passa despercebido: não basta ter um cateter na artéria; é preciso ter um sistema de monitorização confiável
PAI na UTI: Saiba Interpretar a Curva
- A PAI permite monitorização contínua da pressão arterial
- Nivelamento e zeragem são fundamentais para uma leitura confiável
- A curva pode revelar problemas no sistema de monitorização
- A punção arterial para instalação da PAI é procedimento privativo do enfermeiro
Referências:
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Summary of Recommendations: Intravascular Catheter-Related Infection Prevention. Atlanta: CDC, 2024. Disponível em: CDC – Summary of Recommendations.
- COFEN. Resolução Cofen nº 703, de 18 de julho de 2022. Atualiza a norma para execução, pelo enfermeiro, da punção arterial para gasometria e/ou instalação de cateter intra-arterial para monitorização da pressão arterial invasiva. Brasília, DF: Cofen, 2022. Disponível em: Resolução Cofen nº 703/2022.
- SAUGEL, B. et al. How to measure blood pressure using an arterial catheter: a systematic 5-step approach. Critical Care, v. 24, 172, 2020. Disponível em: Critical Care – arterial blood pressure monitoring.
- NATIONAL CENTER FOR BIOTECHNOLOGY INFORMATION. Arterial Lines. StatPearls. Bethesda: NCBI Bookshelf, atualizado em 2025. Disponível em: NCBI Bookshelf – Arterial Lines.
- MERCK MANUAL PROFESSIONAL EDITION. How To Do Ultrasound-Guided Radial Artery Catheter Insertion. Disponível em: Merck Manual – Radial Artery Catheter Insertion.













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