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Nem todo profissional que termina o plantão exausto está com burnout. O sinal de alerta aparece quando o desgaste deixa de ser apenas cansaço e começa a mudar a relação com o próprio trabalho, com os pacientes e com a sensação de capacidade profissional.
O que é Burnout?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o burnout na CID-11 como um fenômeno ocupacional, relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente administrado. Ele é caracterizado por três dimensões principais: esgotamento ou perda de energia, aumento do distanciamento mental ou sentimentos de negativismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. Portanto, burnout não deve ser usado para descrever qualquer sofrimento ou cansaço da vida cotidiana.
Na enfermagem, fatores como sobrecarga, jornadas extensas, falta de pessoal, pressão constante, conflitos, violência no trabalho, pouca autonomia e exposição repetida ao sofrimento podem contribuir para o adoecimento relacionado ao trabalho. Uma revisão envolvendo 94 estudos encontrou elevada frequência de burnout entre profissionais de enfermagem, mas também mostrou grande variação conforme país, especialidade e período analisado, o que impede transformar um percentual único em regra para todos os serviços.
Quando o desgaste começa a preocupar
O profissional pode perceber exaustão persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração, afastamento emocional, perda de motivação e sensação de menor eficácia no trabalho. Alterações do sono e outras manifestações físicas também podem aparecer, mas esses sinais isoladamente não confirmam burnout.
Um cenário comum no plantão é o profissional que antes se envolvia com cada mudança clínica e, depois de meses de sobrecarga, passa a funcionar apenas no automático: administra, registra, responde e segue para o próximo atendimento, sem conseguir recuperar a mesma energia emocional. Essa mudança de relação com o trabalho merece atenção, principalmente quando permanece mesmo depois dos períodos de descanso. A avaliação profissional é importante porque burnout, ansiedade, depressão e outras condições podem apresentar manifestações semelhantes.
A causa não está apenas no profissional
Dizer apenas para “descansar mais”, fazer atividade física ou aprender a controlar o estresse é insuficiente quando a própria organização do trabalho mantém os fatores que produzem o desgaste.
Em 2026, essa discussão ganhou ainda mais importância no Brasil. A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Entre os exemplos estão sobrecarga de trabalho, assédio e falta de suporte.
Isso muda a forma de olhar para o problema: prevenção não significa apenas ensinar o trabalhador a suportar melhor a pressão. Também envolve identificar e controlar fatores presentes na organização e na gestão do trabalho.
O que pode ajudar na prevenção
No nível individual, reconhecer sinais persistentes, estabelecer limites possíveis, manter períodos de recuperação, buscar apoio e procurar avaliação profissional quando necessário são medidas importantes. A OMS recomenda que intervenções de saúde mental no trabalho combinem ações organizacionais, capacitação de gestores e trabalhadores, suporte individual e estratégias de retorno ao trabalho quando indicadas.
No serviço de saúde, a prevenção pode envolver dimensionamento e organização do trabalho, comunicação da equipe, apoio da liderança, enfrentamento do assédio e da violência, participação dos trabalhadores nas decisões e acompanhamento dos riscos psicossociais.
Em um plantão de UTI, por exemplo, uma sequência de pacientes graves, intercorrências sucessivas e equipe reduzida pode fazer com que até uma pausa básica seja constantemente adiada. Quando isso se repete por semanas, não basta orientar o profissional a “ter mais resiliência”; é necessário olhar também para a organização daquele trabalho.
Cuidados de enfermagem
O profissional de enfermagem deve observar mudanças persistentes no próprio comportamento e também sinais de sofrimento entre colegas. Escuta sem julgamento, acolhimento e encaminhamento para os canais institucionais de saúde do trabalhador ou para atendimento especializado podem ser necessários.
É importante evitar rotular um colega como “burnout” apenas pela aparência de cansaço ou irritabilidade. O diagnóstico e a avaliação clínica cabem aos profissionais habilitados. Quando houver sofrimento intenso, prejuízo importante no funcionamento ou risco à própria segurança, a busca por atendimento deve ser priorizada.
O Cofen mantém atualmente uma estrutura específica de atenção à saúde mental da enfermagem. Em 2026, o Conselho criou a Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental e reorganizou o antigo programa Enfermagem Solidária como Central de Atendimento e Suporte à Saúde Mental.
Burnout precisa ser tratado como questão de trabalho
Reconhecer o burnout não significa culpar o profissional nem considerar que todo sofrimento seja causado exclusivamente pelo emprego. A questão é compreender quando as condições de trabalho estão participando do processo e quais mudanças podem reduzir esse risco.
Para a enfermagem, cuidar da saúde mental também faz parte da segurança profissional. Uma equipe constantemente esgotada precisa ser ouvida, e os fatores que produzem esse desgaste precisam entrar na discussão do serviço, não apenas na responsabilidade individual de quem está na assistência.
Burnout na Enfermagem: Sinais que Não Ignore
- Burnout é um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho
- Os principais sinais envolvem exaustão distanciamento do trabalho e redução da eficácia profissional
- A prevenção também depende da organização e das condições de trabalho
- A NR-1 passou a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais em 2026
Referências:
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an occupational phenomenon. Geneva: WHO, 2019. Disponível em: WHO – Burn-out an occupational phenomenon.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on mental health at work. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: WHO – Guidelines on mental health at work.
- BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Ministério do Trabalho e Emprego – NR-1.
- BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Manual de interpretação e aplicação do capítulo 1.5 da NR-1. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Manual da NR-1 – Riscos Psicossociais.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Decisão Cofen nº 6, de 29 de janeiro de 2026. Brasília, DF, 2026. Disponível em: Cofen – Saúde Mental da Enfermagem.
- PALAZZO, L. S. et al. Global prevalence of nursing burnout syndrome and temporal trends for the last 10 years: a meta-analysis of 94 studies covering over 30 countries. Journal of Clinical Nursing, 2023. Disponível em: PubMed – Global prevalence of nursing burnout syndrome.
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Christiane Ribeiro
Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva. Une a vivência clínica à inovação digital e criativa, atuando na produção de conteúdos educacionais, ilustração digital e no desenvolvimento web de ferramentas e recursos interativos (PHP, CSS e JavaScript).
É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

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