Classificação de Ferida Diabética da Universidade do Texas

O pé diabético é uma complicação grave e frequente do diabetes mellitus, podendo evoluir para infecções, ulcerações e até amputações, quando não tratado adequadamente. Para que o manejo seja mais eficaz, a Universidade do Texas desenvolveu uma classificação bastante utilizada na prática clínica. Ela auxilia médicos e profissionais de enfermagem na avaliação do risco e no planejamento do tratamento.

Compreender essa classificação é essencial para os estudantes e profissionais da saúde, pois permite identificar o estágio da lesão, prevenir complicações e oferecer o cuidado adequado a cada situação.

Como funciona a classificação da Universidade do Texas?

A classificação avalia o pé diabético a partir de graus e estágios.

  • Graus (0 a 3): descrevem a profundidade da lesão.
  • Estágios (A a D): indicam a presença ou ausência de infecção e isquemia (redução do fluxo sanguíneo).

Essa combinação fornece um panorama detalhado da condição, sendo fundamental para orientar a conduta clínica.

Os Graus: A Profundidade da Lesão

Os graus de 0 a 3 indicam o quanto a ferida penetrou nos tecidos do pé:

Grau Descrição da Lesão (Profundidade) Significado Clínico
Grau 0 Lesão Pré-Ulcerativa ou Pós-Ulcerativa A pele está intacta, mas há alto risco de desenvolver úlcera (ex: calosidade espessa, deformidade óssea).
Grau 1 Úlcera Superficial A úlcera atinge apenas a pele (epiderme e derme), sem atingir tendões, cápsulas articulares ou osso.
Grau 2 Úlcera Profunda (Penetra Tendão ou Cápsula) A úlcera se aprofundou e atinge estruturas como tendões ou cápsulas articulares.
Grau 3 Úlcera com Envolvimento Ósseo ou Articular A úlcera atingiu o osso ou a articulação (osteomielite). É a lesão mais profunda.

Os Estágios: A Complicação da Lesão

Os estágios de A a D acrescentam informações cruciais sobre o estado da ferida, que têm um impacto direto no prognóstico do paciente:

Estágio Condição Clínica Significado Clínico
Estágio A Sem Infecção e Sem Isquemia A ferida está “limpa”, sem sinais de infecção e a circulação para o pé é adequada. (Melhor prognóstico).
Estágio B Infecção Presente A ferida apresenta sinais clínicos de infecção (pus, vermelhidão, calor).
Estágio C Isquemia Presente A circulação do pé está comprometida. A falta de suprimento sanguíneo prejudica a cicatrização.
Estágio D Infecção e Isquemia Presentes A ferida está infectada e o pé apresenta má circulação. (Pior prognóstico e alto risco de amputação).

Exemplo de aplicação prática

Um paciente pode ser classificado como Grau II, Estágio C: isso significa que há uma úlcera profunda atingindo tendão ou cápsula articular, acompanhada de isquemia, mas sem sinais de infecção.

Já um Grau III, Estágio D indica a forma mais grave, onde existe comprometimento ósseo ou articular, associado a infecção e isquemia.

Cuidados de Enfermagem

Nosso papel é de vigilância constante e intervenção especializada:

  1. Avaliação e Documentação: A cada curativo, é nosso dever classificar a lesão de acordo com o Texas. Documentar o grau, o estágio, o tamanho e as características da ferida no prontuário.
  2. Manejo da Infecção (Estágio B e D): Administrar antibióticos conforme a prescrição, realizar a limpeza da ferida (debridamento) e monitorar os sinais de sepse (febre, taquicardia, confusão).
  3. Cuidados com a Isquemia (Estágio C e D): Orientar a proteção da perna contra traumas e frio, e nunca massagear a área. Monitorar pulsos periféricos e a temperatura da pele, alertando o médico sobre qualquer sinal de piora circulatória.
  4. Alívio da Pressão (Grau 0 a 3): O principal cuidado é o offloading (alívio de peso). Orientar o paciente a não pisar sobre a úlcera, utilizar botas especiais ou muletas. O alívio de pressão é essencial para a cicatrização de todos os graus.
  5. Educação em Saúde: Enfatizar a importância do controle glicêmico rigoroso, que é a base para a prevenção e o tratamento de todas as complicações do pé diabético.

A Classificação da Universidade do Texas é a nossa bússola no cuidado das lesões diabéticas. Dominá-la nos permite ser mais assertivos, eficazes e verdadeiramente defensores da integridade física e da qualidade de vida dos nossos pacientes.

Referências:

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES (SBD). Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023–2024). São Paulo: SBD, 2023. Disponível em: https://diretriz.diabetes.org.br/.
  2. ARMSTRONG, D. G. et al. Validation of a diabetic wound classification system. The contribution of depth, infection, and ischemia to risk of amputation. Diabetes Care, v. 20, n. 5, p. 855-859, 1997. Disponível em: https://diabetesjournals.org/care/article/20/5/855/20703/Validation-of-a-diabetic-wound-classification
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes para o cuidado das pessoas com doenças crônicas nas redes de atenção à saúde e nas linhas de cuidado prioritárias. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_cuidado_doencas_cronicas.pdf

Os tipos de Bordas de Feridas

Quando falamos em avaliação de feridas, muitos focam apenas no tamanho, na profundidade ou na presença de exsudato. Porém, um detalhe que pode revelar muito sobre a evolução do processo cicatricial é a observação das bordas da ferida. As bordas indicam se o processo de cicatrização está ocorrendo de forma adequada ou se há fatores que dificultam a reparação tecidual.

Para a prática da enfermagem, compreender as características dessas bordas é essencial, já que esse olhar clínico orienta a escolha da conduta e dos cuidados. Vamos conhecer melhor os principais tipos: bordas justapostas, epíbole, maceradas, com hiperqueratose e descolamento.

Bordas justapostas

As bordas justapostas são aquelas em que as margens da ferida se encontram lado a lado, bem definidas, sem retrações ou elevações. É o que se espera em um processo de cicatrização saudável.

Esse aspecto sugere que há boa perfusão sanguínea, ausência de infecção e um processo adequado de regeneração tecidual.

Cuidados de enfermagem:

  • Manter a ferida limpa e protegida.
  • Escolher curativos que preservem o ambiente úmido ideal.
  • Avaliar periodicamente para garantir que não surjam complicações.

Bordas em epíbole

O termo epíbole se refere a bordas enroladas ou encurvadas para dentro. Esse fenômeno geralmente ocorre quando a epitelização (formação de novas células de pele) não avança corretamente, interrompendo o fechamento da ferida.

Feridas com bordas em epíbole tendem a se tornar feridas crônicas, de difícil cicatrização.

Cuidados de enfermagem:

  • Retirar tecidos inviáveis, se necessário, com orientação da equipe multiprofissional.
  • Utilizar curativos que estimulem a granulação e a epitelização.
  • Monitorar sinais de estagnação do processo cicatricial.

Bordas maceradas

A maceração ocorre quando as bordas da ferida ficam esbranquiçadas e frágeis devido ao excesso de umidade. Isso pode acontecer por uso inadequado de coberturas ou pelo contato constante com exsudato.

Bordas maceradas aumentam o risco de alargamento da ferida e atraso da cicatrização.

Cuidados de enfermagem:

  • Avaliar a quantidade de exsudato e ajustar o tipo de curativo.
  • Proteger a pele perilesional com barreiras protetoras.
  • Reduzir o excesso de umidade, mantendo o equilíbrio da hidratação.

Bordas com hiperqueratose

A hiperqueratose é caracterizada pelo espessamento da borda da ferida, geralmente endurecida e de coloração amarelada ou esbranquiçada. Esse processo pode dificultar a cicatrização, pois impede que as células epiteliais avancem sobre a lesão.

É comum em feridas crônicas, como úlceras de pressão ou de pé diabético.

Cuidados de enfermagem:

  • Orientar avaliação médica para possível desbridamento.
  • Manter curativos que auxiliem na remoção do excesso de tecido queratinizado.
  • Reforçar cuidados com hidratação da pele adjacente.

Bordas em descolamento

As bordas em descolamento aparecem quando há separação entre o leito da ferida e a pele adjacente. Esse tipo de borda é preocupante, pois pode indicar presença de infecção, necrose ou má perfusão tecidual.

Além de aumentar o risco de complicações, o descolamento prejudica a cicatrização e pode evoluir para feridas mais profundas.

Cuidados de enfermagem:

  • Investigar sinais de infecção (odor, exsudato purulento, eritema).
  • Utilizar curativos que favoreçam a aproximação das bordas.
  • Garantir avaliação multiprofissional em casos persistentes.

Mais cuidados de Enfermagem

A nossa responsabilidade vai além de apenas observar as bordas. A partir do nosso olhar, podemos planejar o cuidado e garantir que a cicatrização avance.

  1. Avaliação: A cada troca de curativo, é nosso papel inspecionar a ferida e classificar suas bordas. Documentar a aparência e o tipo de borda é crucial para o acompanhamento.
  2. Identificação e Comunicação: Identificar se a borda está “estacionada” (epíbole, hiperqueratose) ou com problemas (macerada, descolamento). Comunicar a equipe multidisciplinar (médico, estomaterapeuta) sobre as nossas descobertas para que o plano de tratamento possa ser ajustado.
  3. Escolha do Curativo: A escolha do curativo depende do tipo de borda.
    • Bordas Maceradas: Usar curativos que absorvam o excesso de exsudato (alginato, espumas) e proteger a pele ao redor com barreiras cutâneas.
    • Bordas Epíbole ou Hiperqueratose: É preciso debridar (remover) o tecido que impede a cicatrização, seja com um debridamento mecânico, autolítico ou cirúrgico.
    • Bordas com Descolamento: O tratamento envolve preencher o “bolso” com curativos que estimulem a cicatrização de dentro para fora.
  4. Educação ao Paciente: Orientar o paciente e a família sobre a importância do cuidado e de como as bordas da ferida podem indicar progresso ou estagnação.

As bordas de uma ferida são uma linguagem silenciosa que, se compreendida, nos dá o poder de intervir de forma precisa e eficaz. O nosso conhecimento e nossa atenção aos detalhes são a chave para a melhora do paciente.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Manual de Terapia Nutricional em Unidade de Terapia Intensiva. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2011. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_terapia_nutricional_uti.pdf
  2. FERREIRA, A. M. et al. Avaliação de feridas: aspectos essenciais para a prática clínica. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 2, p. 1-8, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/cRLTN8FJtD9LpJ6fG7HvF7y/. 
  3. CARVILLE, K. Wound Care Manual. 6. ed. Osborne Park: Silver Chain Foundation, 2017.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo para prevenção de úlcera por pressão. Brasília: MS, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_prevencao_ulcera_pressao.pdf

Coberturas para cada Estágio/Fase das feridas

O cuidado com feridas é uma das áreas mais técnicas e sensíveis da enfermagem. Escolher a cobertura correta para cada tipo e estágio de ferida não é apenas uma decisão clínica, mas também um passo essencial para acelerar a cicatrização, reduzir a dor e evitar infecções. Cada fase da ferida requer um tipo diferente de manejo, e entender essa lógica faz toda a diferença na qualidade do cuidado.

Este artigo tem o objetivo de guiar o estudante de enfermagem na identificação dos estágios e fases das feridas e na escolha apropriada das coberturas, com explicações claras, exemplos práticos e orientações de cuidados.

Entendendo os estágios das feridas

Antes de falarmos sobre os curativos, é crucial lembrarmos os três principais estágios da cicatrização, pois é a partir deles que tomamos nossas decisões:

  • Fase Inflamatória: É o início do processo. A ferida está avermelhada, inchada, com dor e calor. Há a presença de exsudato (o líquido que a ferida produz). O objetivo aqui é controlar a inflamação, limpar e proteger.
  • Fase Proliferativa (ou de Granulação): A ferida começa a se reconstruir. Aparece o tecido de granulação, que é aquele tecido vermelho, brilhante e com aspecto granuloso, rico em vasos sanguíneos. O exsudato diminui, mas ainda está presente. O objetivo é manter um ambiente úmido e proteger o novo tecido.
  • Fase de Maturação (ou de Remodelação): O tecido de granulação se transforma em uma cicatriz. O objetivo é proteger a pele nova e garantir que a cicatriz se desenvolva da melhor forma possível.

Além dessas fases, as feridas por pressão (escaras) são classificadas em estágios, de I a IV, além de feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo.

Coberturas indicadas para cada fase ou estágio da ferida

Estágio I – Eritema não branqueável

  • Características: Pele íntegra, com vermelhidão persistente, geralmente sobre proeminência óssea.
  • Objetivo do tratamento: Proteger a pele e evitar evolução para ferida aberta.
  • Coberturas indicadas:
    • Filmes transparentes (como poliuretano)
    • Hidrocoloides finos

Essas coberturas atuam como barreiras protetoras e permitem visualização da pele sem remoção constante.

Estágio II – Perda parcial da derme

  • Características: Lesão superficial, pode ter aparência de abrasão, bolha ou úlcera rasa.
  • Objetivo do tratamento: Manter o ambiente úmido e proteger contra infecção.
  • Coberturas indicadas:
    • Hidrocolóides
    • Hidrogéis com gaze secundária
    • Espumas de poliuretano finas

Estas coberturas ajudam a manter a umidade ideal para cicatrização sem agredir o leito da ferida.

Estágio III – Perda total da pele (epiderme e derme) com exposição de tecido subcutâneo

  • Características: Ferida profunda, com possível presença de exsudato moderado a intenso e tecido de granulação.
  • Objetivo do tratamento: Controlar exsudato, favorecer granulação e proteger o tecido.
  • Coberturas indicadas:
    • Espumas absorventes (com ou sem prata)
    • Alginatos de cálcio
    • Hidrofibras
    • Carvão ativado com prata (em caso de odor e infecção)

O uso de coberturas com maior poder de absorção é fundamental para controlar o excesso de exsudato e evitar maceração da pele ao redor.

Estágio IV – Perda total com exposição de músculo, osso ou tendão

  • Características: Ferida extensa, profunda, com alto risco de infecção e presença frequente de necrose ou túnel.
  • Objetivo do tratamento: Desbridamento, controle da infecção, absorção do exsudato e estímulo à granulação.
  • Coberturas indicadas:
    • Alginatos
    • Hidrofibras com prata
    • Espumas espessas
    • Hidrogéis (em áreas necróticas secas)
    • Terapia por pressão negativa (quando indicada)

Nessa fase, o cuidado multidisciplinar é ainda mais importante, pois há risco real de complicações sistêmicas.

Feridas não classificáveis e lesão de tecido profundo

  • Características: Cobertas por esfacelo ou necrose, impossibilitando a visualização do leito da ferida.
  • Objetivo do tratamento: Remover tecido desvitalizado e expor o leito para avaliação e cuidado adequado.
  • Coberturas indicadas:
    • Hidrogéis (desbridamento autolítico)
    • Carvão ativado com prata
    • Papaina (quando disponível, sob prescrição)
    • Desbridamento enzimático ou cirúrgico (quando indicado)

Essas lesões exigem avaliação contínua e, muitas vezes, intervenção médica direta.

Fase Inflamatória (ou Exsudativa)

Duração: Primeiros dias após a lesão (até 3 a 5 dias).
Características da ferida: Presença de exsudato (secreção), edema, dor, sinais de inflamação, possível infecção.

Objetivos do curativo:

  • Controlar o exsudato
  • Reduzir o risco de infecção
  • Manter o ambiente úmido adequado
  • Promover desbridamento autolítico, se necessário

Coberturas indicadas:

  • Espumas de poliuretano: absorvem o exsudato e protegem mecanicamente
  • Alginato de cálcio: excelente para feridas muito exsudativas
  • Carvão ativado com prata: quando há suspeita ou risco de infecção
  • Hidrogel: em feridas secas ou com crostas, para auxiliar na hidratação e desbridamento
  • Curativos com prata, PHMB ou iodo: com ação antimicrobiana

Fase Proliferativa

Duração: De 4 a 21 dias, dependendo do tipo de ferida.
Características da ferida: Formação de tecido de granulação, redução do exsudato, início da epitelização.

Objetivos do curativo:

  • Proteger o novo tecido
  • Manter ambiente úmido
  • Estimular a migração celular
  • Evitar trauma na troca de curativo

Coberturas indicadas:

  • Hidrocolóides: mantêm o meio úmido e são indicados para feridas com pouco exsudato
  • Espumas com baixa aderência: para absorver exsudato moderado e proteger o leito
  • Membranas de poliuretano transparentes (filmes): para feridas superficiais ou em epitelização
  • Curativos com colágeno: favorecem a proliferação celular
  • Hidrofibras: se ainda houver exsudato, ajudam a manter o equilíbrio da umidade

Fase de Remodelação (ou Maturação)

Duração: Pode durar semanas ou meses.
Características da ferida: Epitelização completa, redução da vascularização, cicatriz formada.

Objetivos do curativo:

  • Proteger o tecido novo
  • Prevenir traumas
  • Evitar hipertrofia ou quelóides

Coberturas indicadas:

  • Filmes de poliuretano: proteção e visualização sem remoção
  • Silicone em gel ou placas de silicone: para prevenção de cicatrizes hipertróficas
  • Curativos finos não aderentes: proteção mecânica até cicatrização total

Cuidados de enfermagem no manejo de coberturas

O enfermeiro ou técnico de enfermagem deve sempre observar aspectos importantes na escolha e no uso das coberturas:

  • Avaliação da Ferida: Antes de cada troca, avalie a ferida por completo (tamanho, profundidade, tipo de tecido, quantidade e tipo de exsudato, odor, sinais de infecção, estado da pele ao redor).
  • Limpeza Adequada: Limpar a ferida com soro fisiológico 0,9% é a regra de ouro, a não ser que haja outra prescrição.
  • Preparação da Pele Perilesional: Proteger a pele ao redor da ferida é tão importante quanto cuidar da ferida em si. Use cremes de barreira para evitar maceração.
  • Troca no Momento Certo: Não trocar o curativo mais do que o necessário. Trocas frequentes podem traumatizar o novo tecido.
  • Educação do Paciente: Explicar para o paciente e sua família o tipo de curativo que está sendo usado, por que ele foi escolhido e como ele funciona. Isso os tranquiliza e os torna parceiros no tratamento.
  • Registro Preciso: Documentar cada troca de curativo, descrevendo a ferida, o curativo usado e a resposta do paciente. Isso permite acompanhar a evolução e ajustar o plano de cuidados.

Além disso, o uso racional de coberturas evita desperdícios e reduz custos sem comprometer o cuidado.

Escolher a cobertura certa para cada estágio da ferida é um passo gigantesco para um tratamento eficaz. Com conhecimento, observação e um toque de humanidade, nós, profissionais de enfermagem, somos os verdadeiros catalisadores da cicatrização, trazendo alívio e bem-estar para os nossos pacientes.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de uso de coberturas para o tratamento de feridas. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em:
    https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_feridas.pdf
  2. SILVA, M. A.; SANTOS, L. C. Tratamento de Feridas: Guia Prático de Coberturas. São Paulo: Atheneu, 2019.
  3. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTOMATERAPIA (SOBEST). Prática clínica em estomaterapia: feridas, estomias e incontinências. 2. ed. São Paulo: Manole, 2020.
  4. SOUZA, N. L.; LOPES, C. M. “Feridas: avaliação e escolha adequada da cobertura.” Revista de Enfermagem Atual, v. 88, n. 2, 2021.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_curativos_normas_tecnicas.pdf
  6. SOBECC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMEIROS DE CENTRO CIRÚRGICO, RECUPERAÇÃO ANESTÉSICA E CME. Práticas Recomendadas. 8. ed. São Paulo: SOBECC, 2019. (Consultar os capítulos sobre tratamento de feridas e coberturas).

    MONTOYA, V. M. G.; et al. As melhores evidências no cuidado de feridas. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 45, n. 4, p. 950-955, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/Bv8y76yY7zSg4tPz9wWkMvD/?lang=pt

Classificação de Feridas: Quanto ao tempo de traumatismo

No dia a dia da enfermagem, é muito comum nos depararmos com diferentes tipos de feridas — sejam elas cirúrgicas, traumáticas, infecciosas ou por pressão. Para garantir um cuidado eficaz e seguro, é fundamental saber identificar e classificar essas feridas de forma adequada. Um dos critérios mais utilizados é a classificação quanto ao tempo de traumatismo, que se baseia na evolução cronológica da ferida.

Essa classificação é essencial não só para a escolha do curativo mais apropriado, mas também para traçar condutas específicas, avaliar o risco de infecção e acompanhar a cicatrização.

Vamos entender melhor como essa classificação funciona e qual o papel da enfermagem no cuidado com cada tipo de ferida.

O que são feridas?

Antes de entrarmos na classificação, é importante relembrar o conceito de ferida. Ferida é toda interrupção na continuidade da pele, podendo atingir também tecidos mais profundos como músculos, ossos e órgãos. Elas podem ser provocadas por diferentes causas, como cortes, queimaduras, úlceras, cirurgias ou acidentes.

A classificação das feridas quanto ao tempo de evolução considera o momento em que o trauma ocorreu e o estágio em que a ferida se encontra.

Por Que Classificar Pelo Tempo? O Relógio da Cicatrização

Quando uma ferida acontece, o corpo imediatamente inicia um processo complexo para repará-la, a famosa cicatrização. Esse processo tem fases bem definidas (inflamatória, proliferativa e de remodelação). O tempo que a ferida existe nos dá informações cruciais sobre qual fase de cicatrização ela provavelmente está e, consequentemente, qual é o seu prognóstico e os desafios no tratamento.

Basicamente, as feridas podem ser classificadas em dois grandes grupos quanto ao tempo de traumatismo:

Feridas Agudas: As Lesões do Momento Presente

As feridas agudas são aquelas que aparecem de repente, têm um tempo de evolução curto e se espera que sigam o processo de cicatrização normal e sequencial. Elas cicatrizam em um tempo esperado para aquele tipo de lesão, sem intercorrências significativas. Pense em um corte limpo com uma faca, uma queimadura leve ou uma incisão cirúrgica.

  • Características Principais:
    • Origem: Geralmente traumática (corte, queda, queimadura, cirurgia).
    • Tempo de Cicatrização: Espera-se que cicatrizem em até 4 a 6 semanas, dependendo da extensão e profundidade.
    • Processo: Seguem as fases normais da cicatrização.
    • Contaminação: Podem ser classificadas como limpas, limpas-contaminadas, contaminadas ou infectadas no momento da lesão, mas o objetivo é que não evoluam para uma infecção persistente.
  • Exemplos Comuns:
    • Incisões Cirúrgicas: Um corte feito por um bisturi em um ambiente estéril.
    • Laceracões: Feridas causadas por objetos pontiagudos ou irregulares, com bordas irregulares.
    • Abrasões/Escoriações: Raspões superficiais na pele.
    • Queimaduras (primeiro e segundo grau): Lesões térmicas que se espera que cicatrizem em um tempo determinado.
    • Feridas por Trauma: Cortes, perfurações, contusões resultantes de acidentes.
  • Cuidados de Enfermagem na Ferida Aguda:
    • Avaliação Inicial Rápida: Avaliar tipo de lesão, profundidade, presença de sangramento, corpo estranho e extensão.
    • Controle de Hemorragia: Se houver sangramento, aplicar pressão direta, elevada.
    • Limpeza e Irrigação: Lavar a ferida com soro fisiológico 0,9% (ou água e sabão neutro, dependendo do protocolo e localização), removendo sujeiras e detritos. Isso é crucial para prevenir infecção.
    • Antissepsia (se indicada): Em alguns casos, pode ser usado um antisséptico na pele ao redor da ferida.
    • Proteção: Realizar o curativo com técnica asséptica, utilizando coberturas adequadas para proteger a ferida, absorver exsudato e manter um ambiente úmido para cicatrização.
    • Manejo da Dor: Administrar analgésicos conforme prescrição.
    • Orientação ao Paciente: Ensinar sobre sinais de infecção, troca de curativo (se em casa) e cuidados gerais.
    • Avaliação Diária: Monitorar o processo de cicatrização, buscando sinais de infecção ou complicação.

Feridas Crônicas: As Lesões que Não Cicatrizam no Tempo Esperado

As feridas crônicas são aquelas que, por algum motivo, não seguem o processo normal de cicatrização. Elas persistem por um período prolongado (geralmente mais de 6 semanas, podendo ser meses ou anos), mesmo com o tratamento adequado. A cicatrização é estagnada ou muito lenta, e elas frequentemente estão associadas a uma doença de base.

  • Características Principais:
    • Origem: Geralmente associadas a uma condição de saúde subjacente (diabetes, doenças vasculares, imobilidade, problemas nutricionais).
    • Tempo de Cicatrização: Demoram a cicatrizar ou não cicatrizam no tempo esperado, mantendo-se abertas por longos períodos.
    • Processo: Ocorre uma interrupção ou atraso nas fases da cicatrização, como inflamação prolongada ou dificuldade de formação de novo tecido.
    • Risco de Infecção: São mais propensas à colonização bacteriana e infecção.
  • Exemplos Comuns:
    • Úlceras por Pressão (Lesões por Pressão): Conhecidas como “escaras”, são causadas por pressão prolongada em uma área do corpo, levando à isquemia e necrose tecidual. Comuns em pacientes acamados ou com mobilidade reduzida.
    • Úlceras de Perna (Venosa e Arterial):
      • Úlcera Venosa: Causada por insuficiência venosa crônica, com acúmulo de sangue nas pernas e inchaço. A pele fica fragilizada e qualquer trauma pode virar uma úlcera.
      • Úlcera Arterial: Causada por problemas circulatórios nas artérias, levando à falta de sangue e oxigênio para os tecidos, resultando em necrose.
    • Pé Diabético: Feridas nos pés de pessoas com diabetes, frequentemente associadas a neuropatia (perda de sensibilidade) e problemas circulatórios, dificultando a cicatrização.
    • Úlceras Neuropáticas: Causadas por perda de sensibilidade em outras áreas do corpo.
    • Feridas Tumorais: Causadas pelo crescimento de tumores na pele.
  • Cuidados de Enfermagem na Ferida Crônica:
    • Avaliação Holística do Paciente: Além da ferida, é fundamental avaliar a saúde geral do paciente, sua nutrição, doenças de base, mobilidade e fatores que dificultam a cicatrização.
    • Limpeza e Desbridamento: A limpeza rigorosa é essencial. Muitas vezes, é necessário o desbridamento (remoção de tecido necrótico ou desvitalizado) para permitir a cicatrização. O desbridamento pode ser mecânico, autolítico (com coberturas específicas), enzimático ou cirúrgico.
    • Manejo do Exsudato: Controlar o excesso de secreção para evitar a maceração da pele ao redor.
    • Escolha da Cobertura Adequada: Utilizar coberturas específicas para feridas crônicas (hidrocoloides, alginatos, espumas, hidrogéis, carvão ativado, entre outros), que promovam um ambiente úmido ideal para cicatrização, absorvam exsudato e atuem em fatores específicos da ferida.
    • Prevenção de Infecção: Monitorar sinais de infecção e, se houver, colher cultura e auxiliar na administração de antibióticos.
    • Manejo da Dor: As feridas crônicas podem ser muito dolorosas. Administrar analgésicos e usar coberturas que minimizem a dor durante a troca.
    • Educação em Saúde: Orientar o paciente e a família sobre a doença de base, nutrição, mobilidade e cuidados com a ferida a longo prazo.
    • Suporte Nutricional: A nutrição adequada é vital para a cicatrização de feridas crônicas.
    • Mobilização e Alívio de Pressão: Para úlceras por pressão, o reposicionamento e o uso de colchões especiais são cruciais.

A importância de classificar corretamente

Classificar a ferida corretamente permite ao profissional:

  • Determinar a melhor abordagem terapêutica
  • Estabelecer um plano de curativo adequado
  • Avaliar a evolução do quadro
  • Prevenir complicações como infecções ou necroses
  • Documentar corretamente no prontuário

Além disso, é importante lembrar que uma ferida aguda pode se transformar em crônica se não for tratada de forma correta e oportuna.

Cuidados de enfermagem de acordo com a classificação

O papel da enfermagem na avaliação e tratamento de feridas é central. Desde a triagem até o acompanhamento da cicatrização, o enfermeiro deve estar atento a sinais locais e sistêmicos que podem indicar uma mudança de conduta.

Cuidados com feridas agudas

  • Higienizar corretamente o local com solução salina ou antissépticos indicados
  • Manter curativo limpo, seco e bem aderido
  • Observar sinais de infecção (vermelhidão, dor, calor, secreção purulenta)
  • Orientar o paciente sobre cuidados domiciliares
  • Evitar manipulação desnecessária da ferida

Cuidados com feridas crônicas

  • Avaliar a presença de tecido desvitalizado e necessidade de desbridamento
  • Utilizar coberturas específicas (como espumas, alginatos, hidrocolóides)
  • Controlar o exsudato e manter o ambiente úmido, porém limpo
  • Promover medidas de alívio de pressão ou melhora da circulação
  • Registrar evolução em ficha própria de avaliação de feridas
  • Realizar educação em saúde com o paciente e família sobre a doença de base

Além disso, o enfermeiro deve trabalhar em conjunto com a equipe multidisciplinar, incluindo médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e, quando necessário, estomaterapeutas.

Compreender a classificação das feridas quanto ao tempo de traumatismo é um passo fundamental para qualquer profissional de enfermagem que deseja prestar uma assistência segura, técnica e humanizada. Saber diferenciar uma ferida aguda de uma ferida crônica não é apenas um detalhe, mas sim uma habilidade que interfere diretamente na escolha do tratamento e no desfecho do paciente.

Feridas não tratadas corretamente podem comprometer a qualidade de vida, aumentar o tempo de internação e até levar a complicações graves. Portanto, avaliar bem, registrar corretamente e aplicar o conhecimento técnico são atitudes que fazem toda a diferença.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Curativos: Normas Técnicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. (Disponível em sites oficiais do Ministério da Saúde ou no portal da Biblioteca Virtual em Saúde).
  2. SMELTZER, S. C.; BARE, B. G.; HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. (Consultar capítulos sobre integridade da pele e cicatrização de feridas).
  3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENFERMAGEM EM FERIDAS E ESTOMAS (SOBEFE). Consenso Brasileiro de Lesões de Pele. 2. ed. São Paulo: SOBEFE, 2021. Disponível em: https://www.sobefe.org.br/site/wp-content/uploads/2022/03/consenso-lesoes-de-pele-sobefe.pdf
  4. MEDEIROS, M. C. L. et al. Tratamento de feridas: da teoria à prática. São Paulo: Martinari, 2018. https://www.livrariamartinari.com.br/tratamento-de-feridas-da-teoria-a-pratica
  5. FERREIRA, A. M.; SOUZA, R. C. de. Enfermagem em feridas: uma abordagem prática. 2. ed. São Paulo: Yendis, 2020. https://www.editorayendis.com.br/enfermagem-em-feridas
  6. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: ANVISA, 2013. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/assistencia-segura-uma-reflexao-teorica-aplicada-a-pratica.pdf