A Anestesia Geral e suas fases

A anestesia geral é uma técnica anestésica que promove eliminação da dor, daí o nome anestesia, paralisia muscular, abolição dos reflexos, amnésia e, principalmente, inconsciência. A anestesia geral faz com que o paciente torne-se incapaz de sentir e/ou reagir a qualquer estímulo do ambiente, sendo a técnica mais indicada de anestesia nas cirurgias complexas e de grande porte.

Fases: Como é feito?

A anestesia geral possui cinco fases: pré-medicação, indução, manutenção e recuperação e emergência.

A fase de pré-medicação é feita para que o paciente chegue ao ato cirúrgico calmo e relaxado. Normalmente é administrado um ansiolítico (calmante) de curta duração, como o midazolam, deixando o paciente já com um grau leve de sedação. Deste modo, ele entra na sala de operação sob menos estresse.

A fase de indução é normalmente feita com drogas por via intravenosa, sendo o Propofol a mais usada atualmente. Após a indução, o paciente rapidamente entra em sedação mais profunda, ou seja, perde a consciência, ficando em um estado popularmente chamado de coma induzido.

O paciente apesar de estar inconsciente, ainda pode sentir dor, sendo necessário aprofundar ainda mais a anestesia para a cirurgia poder ser realizada. Para tal, o anestesista também costuma administrar um analgésico opioide (da família da morfina) como o Fentanil.

Neste momento o paciente já apresenta um grau importante de sedação, não sendo mais capaz de proteger suas vias aéreas das secreções da cavidade oral, como a saliva. Além disso, na maioria das cirurgias com anestesia geral é importante haver relaxamento dos músculos, fazendo com que a musculatura respiratória fique inibida.

O paciente, então, precisa ser intubado e acoplado a ventilação mecânica para poder receber uma oxigenação adequada e não aspirar suas secreções.

Em algumas cirurgias mais rápidas, ou que não abordem o tórax ou o abdômen, pode não ser necessária intubação, ficando o paciente apenas com uma máscara de oxigênio.

No início da fase de manutenção as drogas usadas na indução, que têm curta duração, começam a perder efeito, fazendo com que o paciente precise de mais anestésicos para continuar o procedimento. Nesta fase, a anestesia pode ser feita com anestésicos por via inalatória ou por via intravenosa. Na maioria dos casos a via inalatória é preferida.

Os anestésicos são administrados através do tubo orotraqueal na forma de gás junto com o oxigênio, sendo absorvidos pelos alvéolos do pulmão, passando rapidamente para a corrente sanguínea. Alguns exemplos de anestésicos inalatórios são o óxido nitroso e os anestésico halogenados como o halotano, sevoflurano e desflurano, drogas administradas continuamente durante todo o procedimento cirúrgico.

A profundidade da anestesia depende do procedimento cirúrgico a ser realizado. O nível de anestesia para se cortar a pele é diferente do nível para se abordar os intestinos, por exemplo. Conforme o procedimento cirúrgico avança, o anestesista procura deixar o paciente sempre com o mínimo possível de anestésicos.

Uma anestesia muito profunda pode provocar hipotensões e desaceleração dos batimentos cardíacos, podendo diminuir demasiadamente a perfusão de sangue para os tecidos corporais.

Quando a cirurgia entra na sua fase final, o anestesista começa a reduzir a administração das drogas, já planejando o final da anestesia junto com o término do procedimento cirúrgico, ou seja, entra na fase de emergência. Se há relaxamento muscular excessivo, drogas que funcionam como antídotos são administradas.

Nesta fase de recuperação, novamente analgésicos opióides são administrados para que o paciente não acorde da anestesia com dores no local onde foi abordado.

Conforme os anestésicos inalatórios vão sendo eliminados da circulação sanguínea, o paciente começa a recuperar a consciência, passando a ser capaz de voltar a respirar por conta própria. Quando o paciente já se encontra com total controle dos reflexos das vias respiratórias, o tubo orotraqueal pode ser retirado.

Neste momento, apesar do paciente já ter um razoável grau de consciência, ele dificilmente se recordará do que aconteceu nesta fase de recuperação devido aos efeitos amnésicos das drogas.

Riscos

Existe um mito de que a anestesia geral é um procedimento perigoso. Complicações exclusivas da anestesia geral são raras, principalmente em pacientes saudáveis. Na maioria dos casos, as complicações são derivadas de doenças graves que o paciente já possuía, como doenças cardíacas, renais, hepáticas ou pulmonares em estágio avançado, ou ainda, por complicações da própria cirurgia, como hemorragias ou lesões ou falência de órgãos vitais.

Só como exemplo, um trabalho canadense de 1997, apenas com cirurgias odontológicas com anestesia geral, ou seja, cirurgias de baixo risco realizadas em pacientes saudáveis, detectou uma taxa de mortalidade de apenas 1,4 a cada 1 milhão de procedimentos. Isto prova que a anestesia em si é muito segura.

Também há de se destacar que a anestesia geral é um procedimento complexo, devendo ser feita somente por profissionais qualificados e em ambientes com ampla estrutura para tal, no caso, um centro cirúrgico hospitalar.

Recomendações

Quem irá se submeter à anestesia geral deve realizar os exames pré-operatórios exigidos pelo cirurgião, além de passar por avaliação com um médico anestesiologista para checar se possui alergia aos fármacos utilizados. No dia da cirurgia, o jejum de 8 horas é solicitado para evitar que resíduos de alimentos entrem nas vias respiratórias (broncoaspiração).

Fatores que aumentam o risco da anestesia geral

Antes de qualquer cirurgia, um anestesista irá consultá-lo para avaliar o seu risco cirúrgico. Além do reconhecimento prévio de doenças graves que podem complicar o ato cirúrgico, é importante para o anestesista saber algumas informações pessoais do paciente que possam aumentar o risco da anestesia, tais como:

  • História prévia de reação anafilática;
  • Alergias alimentares ou a drogas;
  • Uso frequente de bebidas alcoólicas;
  • Uso de drogas, principalmente cocaína
  • Uso de medicamentos controlados ou não;
  • História de tabagismo;
  • Apneia do sono;
  • Obesidade.

Veja também:

Glossário de Terminologias e Termos Técnicos na Enfermagem

Referências:

  1. Conselho Federal de Medicina (CFM);
  2. Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA);
  3. Clínica Médica Integrada de Anestesiologistas (CMIA).

Escala de Aldrete e Kroulik: Recuperação Pós-Anestésica

A recuperação pós-anestésica compreende importante etapa do cuidado perioperatório. É um processo dinâmico, que inicia ainda na sala de operações e estende-se até a recuperação completa do paciente, a qual depende da técnica e dos fármacos anestésicos utilizados.

O tempo de permanência do paciente na sala de recuperação pós-anestésica (SRPA) é fundamental no manejo do fluxo de pacientes cirúrgicos e repercute tanto na capacidade de atendimento do centro cirúrgico quanto no custo global do paciente.

Os critérios de alta da SRPA podem ser sistematizados através de protocolos assistenciais, como a escala de Aldrete e Kroulik por critérios empíricos ou pelo anestesiologista que realizou o procedimento anestésico ao estabelecer um horário para alta.

Metodologia de Utilização

O sistema de Aldrete–Kroulik permite avaliação dos seguintes parâmetros:

  • Atividade do paciente;
  • Respiração;
  • Circulação;
  • Consciência;
  • Saturação de oxigênio.

Atribui-se uma pontuação que varia de 0 a 2 para cada parâmetro, na qual o 0 indica condições de maior gravidade, o 1 corresponde a um nível intermediário e o 2 representa a melhor função.

O Índice Aldrete e Kroulik tem como proposta, a avaliação dos sistemas cardiovascular,respiratório, nervoso central e muscular dos pacientes submetidos a ação das fármacos e técnicas anestésicas, por parâmetros clínicos de fácil verificação, como frequência respiratória, pressão arterial, atividade muscular, consciência e saturação periférica de oxigênio mediante oximetria de pulso.

Curiosidade

A Escala de Aldrete e Kroulik foi inspirada na escala de Apgar (Dra. Virginia Apgar (1909 – 1974) ) para avaliação de recém-nascidos, e em 1995 sofreu modificações passando a avaliar a saturação do oxigênio ao invés de coloração cutânea como na escala original.

Mesmo sendo muito utilizado, sugestões vem sendo feitas desde a criação do índice e muitos estudos para poder cada vez mais ajudar o paciente a evoluir melhor para a alta depois de uma cirurgia onde se usa uma anestesia.

Referências:

  1. ALDRETE JA. The post-anesthesia recovery score revisited. Journal Clinical Anesthesia, v.96, n.7, p. 89-91, 1995.
  2. ALDRETE JA, Kroulik D – A Postanesthetic Recovery Score. Anesthesia and Analgesia, v. 49, n. 6, p. 924-934, 1970.
  3. ASA – American Society of Anesthesiologists Task Force on Post Anesthetic Care- Practice Guidelines for Post Anesthetic Care. Anesthesiology, v.96, n. 3, p.742-752, 2002.

Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA)

O Período de recuperação pós-anestésica é considerado crítico, uma vez que o paciente passa por um procedimento cirúrgico e recebe drogas anestésicas, exigindo vigilância constante da equipe cirúrgica.

A Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA)é o local destinado ao atendimento intensivo do paciente, no período que vai desde sua saída da Sala de Cirurgia até a recuperação da consciência, eliminação de anestésicos e estabilização dos sinais vitais.

Os objetivos e vantagens da SRPA incluem prevenção e detecção precoce das possíveis complicações pós-anestésicas e pós-cirúrgicas, assistência de enfermagem especializada a pacientes submetidos a diferentes tipos de anestesias e cirurgias, maior segurança ao paciente, equipe médica e de enfermagem, racionalização de pessoal, eficiência dos recursos humanos e utilização de terapêuticas especializadas, além de servir de campo de aprendizagem para alunos da área da saúde.

Planta Física

Os requisitos ambientais indispensáveis ao centro de recuperação são:

  • Localização próxima ao centro cirúrgico;
  • Temperatura;
  • Ventilação e iluminação adequadas;
  • Piso refratário à condutibilidade elétrica;
  • Facilidades de limpeza;
  • Espaço suficiente, não devendo sua área ser inferior a 25 metros quadrados;
  • Os leitos devem estar dispostos de tal forma que os pacientes possam ser vistos de qualquer ângulo do recinto;
  • Portas amplas que permitam a entrada de aparelhos transportáveis como RX, aparelho de anestesia, aspiradores;
  • Fonte de oxigênio permanente;
  • Estantes e armários amplos para depósito de medicamentos, materiais cirúrgicos e aparelhos.

A Admissão

Após a anestesia, pacientes devem ser removidos para a sala de recuperação pós-anestésica (SRPA), unidade de terapia intensiva (UTI) ou outro local que o anestesiologista responsável determine e assuma a responsabilidade conforme o caso.

O médico anestesiologista que realizou o procedimento anestésico deverá acompanhar o transporte do paciente para a SRPA e/ou UTI.

Desde a admissão até o momento da alta, os pacientes permanecerão monitorados quanto:

  • À circulação, incluindo aferição da pressão arterial e dos batimentos cardíacos e determinação contínua do ritmo cardíaco, por meio da cardioscopia;
  • À respiração, incluindo determinação contínua da oxigenação do sangue arterial e oximetria de pulso;
  • Ao estado de consciência;
  • À intensidade da dor.

Cuidados de Enfermagem com Pacientes na SRPA

  • Conferir a identificação da paciente;
  • Fazer exame físico;
  • Monitorar Frequência Cardíaca (FC), PA, saturação de oxigênio, temperatura, nível de consciência e dor » Manter vias aéreas permeáveis;
  • Instalar nebulização de oxigênio para manter a oximetria periférica > 92%;
  • Promover conforto e aquecimento;
  • Verificar condições do curativo (sangramentos), fixação de sondas e drenos;
  • Anotar débitos de drenos e sondas;
  • Fazer balanço hídrico caso necessário;
  • Observar dor, náusea e vômito e comunicar anestesiologista;
  • Administrar analgésicos, antieméticos e antibióticos conforme prescrição médica;
  • Manter infusões venosas e atentar para infiltrações e irritações cutâneas;
  • Observar queixas de retenção urinária;
  • Minimizar fatores de estresse;
  • Orientar a paciente sobre o término da cirurgia, garantir sua privacidade e zelar por sua segurança;
  • Comunicar o anestesiologista de plantão intercorrências relacionadas às pacientes assistidas;
  • Aplicar o índice de Aldrete e Kroulik para estabelecer os critérios de alta da SRPA;
  • Aplicar a Escala de Bromage nas pacientes que foram submetidas a anestesias regionais (Raquianestesia ou Anestesia Peridural) para estabelecer os critérios de alta da SRPA somado aos critérios da Escala de Aldrete e Kroulik;
  • Providenciar ao destino as pacientes de alta médica.

Referências:

1. BRASIL. Conselho Federal de Medicina. 2006, Resolução Nº 1802.
2. Conselho Regional de Medicina do estado do Ceará. 2012, Portaria 44/2012.
3. Ministério da Saúde. 1977.
4. Oliveira, F.G.R. Rotinas de cuidados pós-anestésicos de anestesiologistas brasileiros. Rev. Bras. Anestesiol 2003; 53; 4; 518-534.
5. Contribuição para o cálculo de recursos humanos na área. Rio de Janeiro, 1988. 44p. Série Políticas de Saúde 5.
6. DRAIN; SHIPLEY. Enfermagem na sala de recuperação. Rio de Janeiro: Interamericana, 1981. cap. 14.