A administração de medicamentos é uma das responsabilidades mais importantes da equipe de enfermagem. Entre as diversas vias de administração existentes, a via sublingual merece destaque por proporcionar uma absorção rápida e eficiente, sendo amplamente utilizada em situações que exigem ação quase imediata do medicamento.
Embora pareça simples colocar um comprimido embaixo da língua, essa técnica possui fundamentos fisiológicos importantes, indicações específicas e cuidados que fazem toda a diferença para a eficácia do tratamento.
Nesta publicação, você entenderá como funciona a via sublingual, quais são suas vantagens e limitações, quais medicamentos podem ser administrados dessa forma e quais cuidados de enfermagem devem ser adotados.
O que é a via sublingual?
A via sublingual consiste na administração de medicamentos sob a língua, onde permanecem até serem completamente dissolvidos e absorvidos pela mucosa oral. Essa região é altamente vascularizada, permitindo que o fármaco seja rapidamente absorvido para a circulação sanguínea.
Diferentemente dos medicamentos ingeridos por via oral, os fármacos sublinguais não precisam passar pelo trato gastrointestinal antes de exercer seu efeito.
O Mecanismo da Absorção Sublingual
A região abaixo da língua é ricamente vascularizada por pequenos vasos sanguíneos, que funcionam como um atalho para a circulação geral. Quando administramos uma medicação por essa via, como o nitrato para um paciente com dor precordial ou alguns tipos de anti-hipertensivos, a substância se dissolve na saliva e atravessa rapidamente a mucosa. Por ser um ambiente muito vascularizado e com um epitélio fino, a absorção é praticamente instantânea.
Essa via é um recurso de ouro, mas também exige atenção. Nem todos os medicamentos podem ser administrados dessa forma. Para que a via sublingual funcione, o comprimido ou a gota precisam ser formulados especificamente para essa finalidade. Administrar um comprimido oral comum sob a língua muitas vezes não terá efeito, pois o fármaco não terá a solubilidade necessária para ser absorvido por aquela mucosa específica.
O que significa “evitar o efeito de primeira passagem”?
Um dos principais benefícios da via sublingual é que ela evita o chamado metabolismo de primeira passagem hepática.
Quando um comprimido é engolido, ele percorre o estômago e o intestino, sendo absorvido e transportado inicialmente para o fígado através da circulação porta. Nesse trajeto, parte do medicamento pode ser metabolizada antes mesmo de atingir a circulação sistêmica, reduzindo sua concentração ativa.
Na via sublingual, isso não acontece.
O medicamento é absorvido diretamente para a corrente sanguínea, chegando ao organismo praticamente intacto.
Como consequência, a ação costuma ser:
- mais rápida;
- mais previsível;
- mais eficiente em doses menores.
Quanto tempo demora para fazer efeito?
O tempo varia conforme o medicamento, mas geralmente o início da ação ocorre entre 1 e 10 minutos. Esse é um dos motivos pelos quais essa via é muito utilizada em situações de urgência.
Quais medicamentos podem ser administrados por via sublingual?
Nem todo medicamento pode ser administrado dessa forma. Os fármacos precisam ser desenvolvidos especificamente para absorção pela mucosa oral.
Alguns exemplos incluem:
Nitroglicerina
É provavelmente o medicamento sublingual mais conhecido. É utilizada para aliviar crises de angina (dor no peito causada por diminuição do fluxo sanguíneo para o coração).
Sua ação costuma ocorrer em poucos minutos.
Dinitrato de isossorbida
Também utilizado para tratamento da angina e de algumas situações cardiovasculares. Assim como a nitroglicerina, promove vasodilatação e melhora a perfusão cardíaca.
Captopril (em situações específicas)
Embora o uso rotineiro do captopril seja por via oral, em alguns serviços ainda é utilizado por via sublingual em situações específicas e sob prescrição médica. Entretanto, estudos mais recentes mostram que essa prática nem sempre oferece vantagens significativas em relação à administração oral, motivo pelo qual seu uso deve seguir os protocolos institucionais.
Buprenorfina
Muito utilizada no tratamento da dor intensa e em programas de tratamento da dependência de opioides. A absorção sublingual proporciona boa biodisponibilidade.
Vitamina B12
Algumas formulações de vitamina B12 são produzidas para administração sublingual, principalmente em pacientes com dificuldades de absorção gastrointestinal ou em situações específicas indicadas pelo médico.
Outros medicamentos
Dependendo do país e da formulação, também existem apresentações sublinguais de:
- alguns analgésicos;
- medicamentos para náuseas;
- ansiolíticos;
- hormônios;
- medicamentos utilizados em cuidados paliativos.
Quais são as vantagens da via sublingual?
A administração sublingual oferece diversos benefícios.
Entre eles:
Início rápido da ação
Como o medicamento entra diretamente na circulação sanguínea, o efeito costuma ser quase imediato.
Evita o metabolismo de primeira passagem
Isso aumenta a biodisponibilidade de muitos medicamentos.
Não depende do funcionamento do estômago
Pacientes com náuseas, vômitos ou alterações gastrointestinais podem se beneficiar dessa via.
Fácil administração
Não necessita de equipamentos especiais.
Menor degradação do medicamento
Alguns fármacos seriam destruídos pelos ácidos do estômago caso fossem ingeridos.
Quais são as desvantagens?
Apesar das vantagens, essa via apresenta algumas limitações. Nem todos os medicamentos podem ser formulados para absorção sublingual.
O paciente precisa colaborar durante a administração. A presença de excesso de saliva pode dificultar a absorção. Se o comprimido for mastigado ou engolido, parte do efeito poderá ser perdida. Pacientes inconscientes ou muito agitados geralmente não são candidatos para essa via.
Como administrar corretamente um medicamento sublingual?
A técnica correta faz toda a diferença, o medicamento deve ser colocado diretamente sob a língua. O paciente deve permanecer com a boca fechada.
Não deve mastigar e não deve engolir imediatamente. É importante aguardar a dissolução completa e durante esse período, recomenda-se evitar falar, comer ou beber.
O que acontece se o paciente engolir o comprimido?
Nesse caso, parte do medicamento seguirá o trajeto da administração oral convencional.
Dependendo do fármaco, isso pode resultar em:
- redução da eficácia;
- atraso no início da ação;
- diminuição da biodisponibilidade.
Em alguns medicamentos, praticamente todo o benefício da via sublingual pode ser perdido.
A saliva interfere na absorção?
Sim. A saliva é necessária para dissolver o comprimido. Por outro lado, excesso de saliva pode fazer com que parte do medicamento seja engolida antes da absorção completa.
Por isso, o paciente deve evitar movimentar excessivamente a língua durante a administração.
Quando a via sublingual é indicada?
Essa via é frequentemente utilizada quando se deseja:
- ação rápida;
- evitar o trato gastrointestinal;
- melhorar a absorção do medicamento;
- aumentar a biodisponibilidade.
Também pode ser uma alternativa para pacientes com dificuldade de deglutição, desde que estejam conscientes e consigam colaborar.
A enfermagem pode administrar medicamentos por via sublingual?
Sim. A equipe de enfermagem administra medicamentos sublinguais conforme prescrição médica, respeitando os protocolos institucionais e os princípios da administração segura de medicamentos. Além da técnica correta, é essencial orientar o paciente sobre como manter o comprimido sob a língua até sua completa dissolução.
Cuidados de enfermagem
Antes da administração:
- conferir os “certos” da administração de medicamentos;
- verificar alergias registradas;
- confirmar a identidade do paciente;
- explicar o procedimento.
Durante a administração:
- posicionar corretamente o paciente;
- orientar para não mastigar nem engolir o comprimido;
- observar a dissolução completa;
- evitar oferecer água imediatamente.
Após a administração:
- monitorar o efeito esperado;
- observar possíveis reações adversas;
- registrar a administração no prontuário;
- reavaliar sinais clínicos quando indicado, como pressão arterial e frequência cardíaca em pacientes que receberam nitratos.
Erros mais comuns
Alguns erros ainda são observados na prática clínica:
- oferecer água junto ao comprimido sublingual;
- pedir ao paciente para engolir rapidamente;
- mastigar o medicamento;
- administrar medicamentos que não possuem formulação sublingual;
- não orientar adequadamente o paciente.
Esses erros podem comprometer significativamente a eficácia do tratamento.
Curiosidades sobre a via sublingual
A região sublingual possui uma das maiores taxas de absorção do organismo. A nitroglicerina foi um dos primeiros medicamentos amplamente utilizados por essa via. Alguns medicamentos apresentam biodisponibilidade muito superior quando administrados por via sublingual em comparação à via oral.
Em muitos casos, doses menores são suficientes justamente porque o medicamento não sofre metabolismo inicial no fígado. A absorção pode variar conforme a vascularização da mucosa, a formulação do medicamento e as condições clínicas do paciente.
A via sublingual é uma alternativa extremamente eficiente para medicamentos que necessitam de ação rápida e elevada biodisponibilidade. Seu mecanismo de absorção direta pela mucosa oral permite que o fármaco alcance rapidamente a circulação sistêmica, evitando o metabolismo de primeira passagem hepática.
Embora seja uma técnica aparentemente simples, sua eficácia depende da administração correta e da orientação adequada ao paciente. Para a equipe de enfermagem, conhecer as indicações, vantagens, limitações e cuidados relacionados à via sublingual é fundamental para garantir uma assistência segura e baseada em evidências.
Referências:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br.
- POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
- BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude
- ANVISA. Bulário Eletrônico. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/
- KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 16. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
-
RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.











Você precisa fazer login para comentar.