Delirium em UTI: como reconhecer precocemente com o CAM-ICU e quais são os principais cuidados de Enfermagem

O delirium é uma das alterações neurológicas mais comuns e, ao mesmo tempo, mais subestimadas dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva.

Para quem trabalha na UTI, é relativamente fácil perceber quando um paciente está hipotenso, dessaturando ou apresentando uma alteração importante no eletrocardiograma. Já o delirium pode começar de maneira muito mais discreta: o paciente fica um pouco mais desatento, confunde horários, demora para responder, passa a olhar fixamente para algum ponto, apresenta um comportamento diferente ou começa a alternar períodos de agitação com momentos de sonolência.

É justamente aí que está um dos maiores desafios.

Delirium não é simplesmente “confusão mental”. É uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, geralmente de início rápido e curso flutuante, que pode ser consequência de uma alteração clínica subjacente, efeito de medicamentos, infecção, distúrbios metabólicos, privação de sono, dor, hipóxia, abstinência e diversos outros fatores.

Em pacientes críticos, a identificação pode ser ainda mais difícil porque muitos estão intubados, sedados, em ventilação mecânica ou impossibilitados de falar. Por isso foram desenvolvidos instrumentos específicos para a UTI, entre eles o CAM-ICU — Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit. Estudos brasileiros demonstraram que a versão em português do CAM-ICU é um instrumento válido e confiável para avaliação de delirium em pacientes críticos.

E existe uma diferença importante entre perceber que “o paciente está estranho” e avaliar sistematicamente se ele apresenta delirium.

O que é delirium?

Delirium é uma alteração aguda e flutuante da atenção e da cognição.

O paciente pode apresentar alterações de:

  • atenção;
  • consciência;
  • percepção;
  • pensamento;
  • memória;
  • orientação;
  • comportamento;
  • ciclo sono-vigília.

Uma característica muito importante é a flutuação. O paciente pode estar conversando normalmente às 10 horas da manhã e, algumas horas depois, apresentar desorientação, dificuldade de manter a atenção ou comportamento incomum.

Depois pode melhorar novamente. Isso não significa necessariamente que “ele está fingindo” ou que “está apenas nervoso”. A flutuação é uma característica típica do delirium. Estudos brasileiros descrevem o início abrupto e a variação da intensidade dos sintomas ao longo do dia como características importantes dessa síndrome.

Delirium não é sinônimo de demência

Essa confusão aparece bastante entre estudantes. Embora possam existir alterações cognitivas nas duas condições, elas são diferentes. A demência costuma apresentar evolução progressiva e mais prolongada, enquanto o delirium geralmente surge de forma aguda, em horas ou dias, e apresenta flutuação.

Além disso, o delirium caracteriza-se especialmente pela alteração da atenção. Um paciente pode ter demência e também desenvolver delirium. Por isso, encontrar um histórico de comprometimento cognitivo não deve fazer a equipe descartar automaticamente a possibilidade de delirium.

Delirium também não é simplesmente “agitação”

Esse é outro erro bastante comum.

Existe uma forma de delirium chamada hiperativa, em que o paciente pode ficar:

  • agitado;
  • inquieto;
  • agressivo;
  • tentando retirar cateteres;
  • tentando sair do leito;
  • apresentando alucinações.

Essa é a forma que geralmente chama mais atenção.

Mas existe também o delirium hipoativo.

Nesse caso, o paciente pode ficar:

  • sonolento;
  • apático;
  • lentificado;
  • pouco responsivo;
  • com pouca interação;
  • aparentemente “tranquilo”.

E esse paciente pode passar despercebido. Por isso, um dos grandes perigos na UTI é associar delirium somente ao paciente que está tentando arrancar o tubo.

Um paciente quieto demais também merece avaliação.

Por que o delirium é tão importante na UTI?

Porque ele não é apenas um problema comportamental. O delirium em pacientes críticos está associado a consequências clínicas importantes. A literatura aponta relação com maior comprometimento cognitivo após a alta da UTI, e a atualização de 2025 das diretrizes PADIS da Society of Critical Care Medicine destaca que um rastreio positivo para delirium está fortemente associado a comprometimento cognitivo em três e 12 meses após a alta da UTI.

Além disso, o delirium pode dificultar:

  • desmame da ventilação mecânica;
  • comunicação com a equipe;
  • participação na fisioterapia;
  • mobilização;
  • sono;
  • tratamento;
  • segurança do paciente.

Por isso, reconhecer precocemente é muito mais importante do que simplesmente controlar a agitação.

Por que o paciente da UTI desenvolve delirium?

Na maioria das vezes, não existe uma única causa. O delirium costuma resultar da combinação de diversos fatores. O paciente internado em UTI pode estar simultaneamente enfrentando:

doença grave + dor + inflamação + medicamentos + privação de sono + imobilidade + alterações metabólicas + ambiente desconhecido.

Isso cria um cenário extremamente favorável ao desenvolvimento da síndrome.

Principais fatores de risco

Alguns fatores aparecem frequentemente na prática de terapia intensiva. Entre eles estão:

  • idade avançada, especialmente quando associada a fragilidade ou comprometimento cognitivo prévio;
  • doença grave, principalmente em pacientes com disfunção de múltiplos órgãos;
  • sepse e infecções;
  • ventilação mecânica;
  • uso de sedativos e determinados medicamentos;
  • dor inadequadamente controlada;
  • distúrbios metabólicos e eletrolíticos;
  • hipóxia;
  • desidratação;
  • insuficiência renal ou hepática;
  • imobilidade prolongada;
  • privação do sono;
  • ausência de estímulos durante o dia e excesso de estímulos à noite;
  • alterações visuais ou auditivas;
  • abstinência de álcool ou determinadas substâncias.

O importante é entender que nem sempre conseguimos eliminar todos os fatores de risco. Mas podemos reduzir vários deles.

O ambiente da UTI pode contribuir para o delirium

Imagine passar vários dias em um ambiente onde:

  • não existe diferença clara entre dia e noite;
  • alarmes tocam constantemente;
  • pessoas conversam durante toda a madrugada;
  • há iluminação artificial contínua;
  • procedimentos interrompem o sono;
  • o paciente não sabe que horas são;
  • não consegue utilizar seus óculos;
  • não consegue ouvir adequadamente;
  • não reconhece as pessoas ao redor.

Para o paciente, isso pode ser extremamente desorientador. Uma revisão brasileira sobre cuidados multiprofissionais em delirium destaca justamente estratégias como redução de ruídos, reorientação cognitiva, objetos familiares, preservação do sono, mobilização precoce e participação estruturada da família.

Por isso, prevenção do delirium não é apenas uma questão de medicamento. O ambiente também faz parte do cuidado.

Como reconhecer precocemente?

Uma das melhores estratégias é não esperar o paciente ficar completamente desorientado. A equipe deve observar mudanças em relação ao comportamento habitual.

Pergunte:

“Esse paciente está igual ao que estava ontem?”

Essa pergunta aparentemente simples pode ser extremamente útil. Observe se ele:

  • perdeu a capacidade de manter uma conversa;
  • está mais distraído;
  • demora mais para responder;
  • não consegue acompanhar comandos;
  • apresenta comportamento incomum;
  • está alternando agitação e sonolência;
  • apresenta alterações na percepção;
  • confunde pessoas ou situações;
  • está acordado, mas parece “não estar presente”.

Quando existe mudança aguda ou flutuante, deve-se pensar em delirium.

O CAM-ICU: o que é?

O CAM-ICU é uma adaptação do Confusion Assessment Method desenvolvida especificamente para pacientes internados em terapia intensiva, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

Essa característica é muito importante. Um paciente intubado não consegue simplesmente responder:

“Você sabe onde está?”

Por isso, o CAM-ICU utiliza comandos, estímulos visuais e auditivos e avaliação objetiva da atenção e do pensamento. O instrumento foi desenvolvido justamente para tornar possível a avaliação de delirium em pacientes críticos, incluindo pacientes incapazes de falar.

Antes do CAM-ICU: avalie o nível de consciência

Aqui está uma parte que costuma causar confusão:

RASS e CAM-ICU não são a mesma escala.

A RASS — Richmond Agitation-Sedation Scale avalia o nível de agitação e sedação. O CAM-ICU avalia delirium.

Por isso, na prática, os dois instrumentos trabalham juntos. O primeiro passo é verificar se o paciente apresenta nível de consciência suficiente para que a avaliação de delirium possa ser realizada. A literatura descreve o método em duas etapas: primeiro avaliar o nível de consciência, frequentemente utilizando a RASS; depois, quando possível, aplicar o CAM-ICU.

RASS e CAM-ICU: qual a diferença?

Uma forma fácil de memorizar:

RASS = “quão acordado, sedado ou agitado está o paciente?”

CAM-ICU = “há características compatíveis com delirium?”

A RASS varia de +4 a -5.

No extremo positivo, temos agitação intensa, já no extremo negativo, temos sedação profunda.

O paciente com RASS -4 ou -5 não consegue ser adequadamente avaliado pelo CAM-ICU naquele momento.

Isso não significa:

“RASS -4 = delirium.”

Significa: não foi possível avaliar delirium naquele momento devido ao nível de consciência.

Essa diferença é fundamental.

Como funciona o CAM-ICU?

O algoritmo tradicional do CAM-ICU trabalha com quatro características principais.

Característica 1: início agudo ou curso flutuante

Pergunta-se:

Houve uma mudança aguda no estado mental?

Ou:

O comportamento/estado mental do paciente apresentou flutuação?

Pode ser uma alteração percebida nas últimas horas ou dias.

Exemplo:

“Ontem o paciente conversava adequadamente. Hoje está alternando períodos de lucidez com momentos de desorientação e dificuldade de atenção. Isso levanta a possibilidade de delirium.”

Característica 2: desatenção

Essa é uma das partes mais importantes do CAM-ICU. O paciente com delirium frequentemente apresenta dificuldade de manter ou direcionar a atenção. Uma forma de avaliação é utilizar estímulos padronizados, como pedir que o paciente acompanhe determinada sequência de letras ou realize uma tarefa de atenção conforme o treinamento do instrumento.

No paciente que não fala, isso pode ser realizado por meio de respostas visuais ou motoras. O objetivo não é simplesmente saber se ele “entendeu”.

É avaliar se consegue sustentar a atenção.

Característica 3: pensamento desorganizado

Depois, avalia-se se o pensamento está organizado. O paciente pode apresentar respostas incoerentes, contraditórias ou sem relação com a pergunta. Por exemplo, quando perguntado algo simples, pode responder algo completamente desconectado do contexto. Em pacientes intubados, podem ser utilizadas formas não verbais de avaliação.

Por isso, o profissional precisa ser treinado para aplicar corretamente o instrumento.

Característica 4: alteração do nível de consciência

Aqui entram alterações diferentes do estado de alerta normal.

O paciente pode estar:

  • hiperalerta;
  • sonolento;
  • estuporoso;
  • agitado;
  • excessivamente sedado.

O importante é relacionar essa alteração ao algoritmo do CAM-ICU.

Quando o CAM-ICU é considerado positivo?

A lógica clássica é:

Característica 1 + Característica 2 + (Característica 3 ou Característica 4).

Ou seja: início agudo/flutuação + desatenção + pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.

Essa combinação é o que caracteriza uma avaliação positiva para delirium pelo CAM-ICU. Esse esquema é excelente para memorizar para provas:

1 + 2 + (3 ou 4) = CAM-ICU positivo.

Um exemplo prático

Imagine um paciente internado há três dias na UTI. Ontem estava conversando adequadamente. Hoje começou a apresentar períodos em que parece não reconhecer a equipe e, em outros momentos, volta a interagir. Durante a avaliação:

Característica 1: houve mudança aguda/flutuação?
Sim.

Característica 2: apresenta desatenção?
Sim.

Característica 3: pensamento desorganizado?
Não.

Característica 4: alteração do nível de consciência?
Sim.

Temos:

1 + 2 + 4 = CAM-ICU positivo.

Esse paciente precisa ser comunicado e investigado pela equipe.

CAM-ICU positivo não significa “dar haloperidol”

Essa é uma associação que precisa ser desconstruída. Encontrar delirium significa que a equipe precisa procurar e tratar fatores precipitantes, além de implementar medidas de suporte e segurança. A atualização PADIS de 2025 não encontrou evidência suficiente para recomendar a favor ou contra o uso de antipsicóticos em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos na UTI.

Isso é importante porque ainda existe a ideia de que:

“Paciente delirou? Dá haloperidol.”

A abordagem atual é muito mais ampla. O medicamento pode ter papel em situações selecionadas, conforme avaliação médica e protocolo, especialmente quando há agitação importante e risco para o paciente ou para a equipe. Mas tratar delirium não significa simplesmente sedar o paciente.

E o que a Enfermagem deve fazer quando identifica delirium?

Aqui começa uma parte extremamente importante. A identificação do delirium não encerra a avaliação. Ela é o início de uma investigação. O profissional deve comunicar a alteração e observar possíveis fatores precipitantes.

É necessário pensar:

  • O paciente está com dor?
  • Está hipóxico?
  • Apresenta febre ou sinais de infecção?
  • Está desidratado?
  • Existe alteração glicêmica?
  • Há distúrbio eletrolítico?
  • Houve mudança recente de medicamentos?
  • Recebeu sedação em excesso?
  • Está dormindo durante o dia e acordado durante toda a noite?
  • Está imobilizado há muito tempo?
  • Está sem os óculos ou aparelho auditivo?
  • Está apresentando retenção urinária ou constipação?

Essas perguntas ajudam a direcionar o cuidado.

Cuidados de Enfermagem para prevenção do delirium

A prevenção é tão importante quanto o reconhecimento, e muitas medidas não dependem de equipamentos sofisticados.

Preservar o ciclo sono-vigília

Durante o dia, sempre que possível, favorecer iluminação natural e interação. Durante a noite, reduzir ruídos, luminosidade e interrupções desnecessárias. Isso não significa deixar o paciente sem monitorização, significa organizar os cuidados de forma racional para evitar perturbações desnecessárias do sono.

As diretrizes PADIS recomendam um protocolo multicomponente voltado à promoção do sono e estratégias que reduzam fatores modificáveis relacionados ao delirium.

Reorientação frequente

Conversar com o paciente pode ser uma intervenção de enfermagem. Dizer:

“Bom dia, senhor João. O senhor está na UTI do Hospital X. Hoje é sexta-feira. Eu sou a enfermeira Ana e estou cuidando do senhor.” pode parecer simples.

Mas para um paciente desorientado, essas informações ajudam a reconstruir referências. Relógio e calendário também podem ser úteis. A atualização de 2025 das diretrizes PADIS cita reorientação e estimulação cognitiva, incluindo uso de relógios, entre as estratégias de intervenções não farmacológicas multicomponentes.

Corrigir alterações visuais e auditivas

Um paciente que normalmente utiliza óculos e passa vários dias sem eles pode ter dificuldade para interpretar o ambiente. O mesmo pode acontecer com um paciente que utiliza aparelho auditivo. Sempre que clinicamente possível e seguro, facilitar o acesso a esses dispositivos pode ajudar na orientação. A recomendação atual inclui justamente a otimização da visão e da audição como parte das estratégias multicomponentes para reduzir fatores modificáveis de delirium.

Mobilização precoce

A imobilidade prolongada não é neutra. Sempre que houver condições clínicas e autorização da equipe, a mobilização deve ser estimulada. Isso pode variar desde:

  • mudança de decúbito;
  • exercícios ativos ou passivos;
  • sentar no leito;
  • sentar à beira-leito;
  • transferência para poltrona;
  • ortostatismo;
  • deambulação.

Tudo depende da condição clínica. A atualização PADIS de 2025 sugere mobilização/reabilitação intensificada em relação ao cuidado habitual para adultos internados em UTI. Importante: mobilização precoce não significa mobilizar qualquer paciente indiscriminadamente.

É necessário avaliar estabilidade clínica, dispositivos, suporte ventilatório, hemodinâmica e segurança.

Avaliação e controle da dor

Dor também pode contribuir para alterações comportamentais e pior experiência do paciente. O paciente intubado pode não conseguir dizer:

“Estou com dor.”

Por isso, escalas apropriadas para pacientes que não conseguem se comunicar verbalmente podem ser utilizadas conforme protocolo da instituição. O objetivo não é simplesmente administrar analgésico. É avaliar a dor, tratar adequadamente e reavaliar a resposta.

Cuidado com a sedação

Existe uma tendência histórica de manter pacientes críticos profundamente sedados para facilitar o cuidado. Mas sedação excessiva pode dificultar a avaliação neurológica, prolongar a ventilação mecânica e contribuir para problemas associados à terapia intensiva.

As diretrizes PADIS atualizadas em 2025 sugerem o uso de dexmedetomidina em vez de propofol em determinados pacientes adultos em ventilação mecânica quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium. Isso não significa que dexmedetomidina seja “o medicamento para prevenir delirium”. A recomendação é específica para determinadas estratégias de sedação, e o medicamento deve sempre ser administrado conforme prescrição, indicação e monitorização.

Evitar benzodiazepínicos quando não forem necessários

Alguns medicamentos podem aumentar o risco de delirium. Os benzodiazepínicos são um exemplo particularmente importante em pacientes críticos. Isso não significa que sejam absolutamente proibidos. Existem situações clínicas específicas em que podem ser necessários, mas o uso deve ter indicação e ser reavaliado.

O princípio é: usar a menor exposição necessária e adequada à situação clínica do paciente.

Família também pode ajudar

A família pode ser uma importante fonte de orientação e reorientação. Uma pessoa conhecida pode ajudar o paciente a reconhecer:

  • quem ele é;
  • onde está;
  • o que aconteceu;
  • quem está cuidando dele.

Além disso, objetos familiares, fotografias e comunicação com pessoas significativas podem ajudar na orientação.

Uma pesquisa brasileira recente sobre manejo não farmacológico do delirium em UTI identificou justamente a participação dos familiares como uma das estratégias relevantes, embora sua implementação ainda enfrente dificuldades em muitos serviços.

O que NÃO fazer com o paciente delirante

Algumas atitudes podem piorar a situação. Evite discutir com o paciente tentando “provar” que ele está errado. Se ele disser:

“Preciso ir para casa porque meu filho está esperando na porta.”

Responder agressivamente:

“Seu filho não está aqui! Você está delirando!” provavelmente não ajudará. Uma abordagem mais adequada pode ser:

“Entendo que você está preocupado com seu filho. Você está no hospital e nós estamos cuidando do senhor. Vou ficar aqui com você.”

O objetivo é reduzir ansiedade, oferecer segurança e reorientar.

Contenção física deve ser tratada com muita cautela

Um paciente delirante pode tentar retirar:

  • tubo orotraqueal;
  • cateter venoso;
  • sonda;
  • drenos;
  • outros dispositivos.

A reação automática pode ser “amarrar”. Mas contenção física não deve ser encarada como primeira solução para o delirium. É necessário avaliar a causa da agitação e utilizar medidas de segurança e estratégias menos restritivas sempre que possível, de acordo com a legislação, prescrição/protocolo e avaliação da equipe.

A própria atualização PADIS de 2025 aborda o tema das restrições físicas entre os tópicos de manejo do paciente crítico.

Delirium e segurança do paciente

Um paciente delirante pode apresentar risco aumentado de:

  • quedas;
  • retirada de dispositivos;
  • lesões;
  • interrupção de terapias;
  • dificuldade de cooperação;
  • acidentes durante mobilização.

Por isso, a identificação precisa resultar em um plano de segurança. Isso pode incluir:

  • ambiente organizado;
  • leito seguro;
  • monitorização adequada;
  • comunicação clara;
  • acompanhamento mais próximo;
  • retirada de obstáculos;
  • avaliação do risco de queda;
  • participação da família quando apropriado.

CAM-ICU deve ser aplicado uma única vez?

Não. Essa é outra característica importante. Como o delirium é flutuante, uma avaliação isolada pode não representar o estado do paciente durante todo o dia. Por isso, os protocolos de UTI devem estabelecer avaliação periódica e sistemática. A literatura brasileira destaca a importância da avaliação contínua com instrumentos específicos para permitir identificação precoce.

Na prática:

Não espere o paciente ficar agitado para repetir a avaliação.

O paciente pode estar em delirium hipoativo e apresentar poucos sinais externos.

O CAM-ICU substitui a avaliação clínica?

Não. Ele é uma ferramenta de rastreamento/avaliação estruturada. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico. Um CAM-ICU positivo deve fazer a equipe pensar:

“Por que esse paciente desenvolveu delirium?”

E não apenas:

“Qual medicamento posso administrar?”

A causa pode ser potencialmente reversível.

Delirium pode ser o primeiro sinal de deterioração clínica

Essa é uma das experiências que o profissional de UTI aprende com o tempo. Às vezes, antes de aparecer uma grande alteração hemodinâmica, o paciente muda o comportamento. Aquele paciente que normalmente responde adequadamente começa a apresentar desatenção. Aquele que conversava começa a ficar excessivamente sonolento.

Aquele que estava orientado passa a tentar retirar dispositivos. Essas alterações não devem ser automaticamente classificadas como “coisa da idade”, “ansiedade” ou “birra”. Uma alteração aguda do estado mental merece investigação.

Estudos brasileiros ressaltam que o delirium pode ser manifestação de uma condição física subjacente mais grave ou de toxicidade medicamentosa.

Um roteiro prático para o estudante de Enfermagem

Durante o estágio, uma forma simples de organizar o raciocínio é:

  1. Observe

O paciente está diferente do habitual?

  1. Avalie a sedação

Qual é o RASS?

  1. Se puder ser avaliado, aplique o CAM-ICU

Verifique as quatro características.

  1. Se positivo, comunique

Delirium não deve ficar apenas registrado como “paciente confuso”.

  1. Procure fatores precipitantes

Dor, infecção, hipóxia, alterações metabólicas, medicamentos, privação do sono, retenção urinária, constipação, desidratação, imobilidade e outros.

  1. Implemente medidas não farmacológicas

Reorientação, sono, mobilidade, visão, audição, comunicação e ambiente.

  1. Reavalie

Delirium flutua.

Um exemplo que acontece na rotina da UTI

Imagine um paciente de 72 anos internado por pneumonia. Durante o primeiro dia, está acordado, responde adequadamente e reconhece os profissionais. Na segunda noite, começa a dizer que existem pessoas dentro do quarto.

  • Tenta retirar o acesso venoso.
  • Fala frases desconectadas.

Depois de alguns minutos, fica extremamente sonolento. No dia seguinte, parece melhor. Um profissional poderia dizer:

“Ele está confuso por causa da idade.” Mas essa não deveria ser a conclusão. Existe:

  • mudança aguda/flutuação;
  • alteração da atenção;
  • pensamento desorganizado;
  • alteração do nível de consciência.

O CAM-ICU pode ser positivo. A partir daí, a equipe precisa investigar o que está desencadeando o quadro. Pode ser infecção, hipóxia, medicamentos, alteração metabólica, privação do sono ou uma combinação de fatores.

E o paciente intubado?

O fato de estar intubado não impede automaticamente a avaliação pelo CAM-ICU. Essa é justamente uma das vantagens da ferramenta. O CAM-ICU foi desenvolvido para pacientes críticos, inclusive aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente.

O paciente pode responder utilizando:

  • olhar;
  • movimentos da cabeça;
  • movimentos das mãos;
  • comandos motores padronizados.

Mas existe um detalhe: é necessário treinamento para aplicar corretamente o instrumento. Não basta conhecer o nome CAM-ICU. O profissional precisa conhecer o algoritmo e a forma padronizada de aplicação. O site oficial do CAM-ICU disponibiliza manual de treinamento, fluxograma, folha de avaliação, casos clínicos e outros materiais para capacitação.

Erros comuns na avaliação do delirium

Confundir agitação com delirium

Nem todo paciente agitado está delirante. É necessário avaliar sistematicamente.

Confundir sedação profunda com delirium

RASS -5 não significa CAM-ICU positivo. Significa que o paciente não está em condições de ser avaliado naquele momento.

Avaliar apenas pacientes agitados

Isso faz com que muitos casos hipoativos sejam perdidos.

Fazer o CAM-ICU sem avaliar o nível de consciência

RASS e CAM-ICU precisam ser entendidos conjuntamente.

Aplicar a escala de qualquer maneira

O CAM-ICU depende de aplicação padronizada.

Achar que o resultado resolve a causa

CAM-ICU identifica a síndrome; não explica sozinho por que ela aconteceu.

O papel da Enfermagem no delirium é muito maior do que aplicar uma escala

Essa talvez seja a principal mensagem para quem está aprendendo terapia intensiva. A escala é apenas uma ferramenta. O profissional de Enfermagem permanece ao lado do paciente durante grande parte do tempo e, por isso, pode perceber pequenas alterações que talvez passem despercebidas durante uma avaliação médica pontual.

É a Enfermagem que frequentemente percebe:

“Ele não estava assim ontem.” Essa informação tem valor clínico. Registrar a mudança, comunicar a equipe e acompanhar sua evolução pode contribuir para que uma causa reversível seja identificada mais rapidamente.

O que dizem as recomendações mais atuais?

As recomendações internacionais continuam reforçando a importância de avaliar sistematicamente delirium em pacientes críticos.

A atualização PADIS publicada pela Society of Critical Care Medicine em 2025 reforça uma abordagem que não se limita a medicamentos. Para prevenção e manejo, recomenda-se uma intervenção multicomponente e não farmacológica, envolvendo redução de fatores de risco modificáveis, melhora da cognição, sono, mobilidade, audição e visão.

A mesma atualização sugere mobilização/reabilitação intensificada e, em determinadas circunstâncias, preferência pela dexmedetomidina sobre propofol quando a prioridade é sedação leve e/ou redução do delirium em pacientes adultos sob ventilação mecânica.

Já em relação aos antipsicóticos, a diretriz de 2025 afirma que a evidência disponível não permite recomendar a favor ou contra seu uso em comparação ao cuidado habitual para tratamento do delirium em adultos de UTI.

Isso mostra como o manejo do delirium mudou.

Menos foco em simplesmente “acalmar o paciente” e mais foco em identificar causas, reduzir fatores modificáveis, preservar função e manter o paciente orientado e acordado quando clinicamente possível.

Delirium na UTI: o que o estudante precisa guardar

Se você estiver começando a trabalhar em terapia intensiva, memorize estas ideias:

  • Delirium é agudo e flutuante.
  • A desatenção é uma característica central.
  • Pode ser hiperativo, hipoativo ou misto.
  • Paciente intubado também pode apresentar delirium.
  • RASS avalia sedação/agitação; CAM-ICU avalia delirium.
  • RASS -4/-5 impede uma avaliação adequada pelo CAM-ICU naquele momento.
  • CAM-ICU positivo = característica 1 + característica 2 + característica 3 ou 4.
  • Não espere o paciente ficar agitado para investigar.
  • Procure causas reversíveis.
  • Sono, mobilização, reorientação, visão e audição fazem parte da prevenção.
  • A contenção física e os medicamentos não devem ser utilizados como resposta automática ao delirium.

E talvez a mais importante:

Na UTI, uma mudança súbita de comportamento também pode ser um sinal clínico.

O delirium é uma condição extremamente relevante na terapia intensiva e que exige atenção contínua da equipe. Para o estudante de Enfermagem, aprender a reconhecer delirium significa muito mais do que decorar o significado da sigla CAM-ICU.

É aprender a perceber mudanças sutis no comportamento, entender a diferença entre sedação e delirium, reconhecer que o paciente hipoativo também pode estar delirante e compreender que a síndrome frequentemente representa a manifestação de algum problema clínico subjacente.

O CAM-ICU é uma ferramenta importante para estruturar essa avaliação, inclusive em pacientes que não conseguem falar. Estudos brasileiros demonstraram validade e confiabilidade da versão em português para pacientes críticos.

Mas a escala não substitui o raciocínio clínico. Um resultado positivo deve desencadear uma pergunta:

“O que está acontecendo com esse paciente?”

A resposta pode estar na dor, na infecção, na hipóxia, nos medicamentos, na privação do sono, em alterações metabólicas, na imobilidade ou na combinação de vários fatores. E é justamente nesse ponto que a Enfermagem exerce um papel fundamental.

Reconhecer cedo, comunicar, investigar, prevenir fatores modificáveis e acompanhar a evolução do paciente são atitudes que fazem parte de um cuidado intensivo mais seguro e humanizado.

Resumo para salvar

Avaliação do Delirium em UTI com o CAM-ICU

  • Reconhecimento precoce e sistemático do delirium em pacientes críticos, indo além da simples impressão de confusão mental
  • Aplicação do CAM-ICU adaptado para pacientes intubados ou incapazes de se comunicar verbalmente por meio de estímulos objetivos
  • Verificação inicial do nível de consciência utilizando a escala RASS antes de prosseguir com a avaliação estruturada
  • Identificação baseada nos 4 critérios essenciais: início agudo/flutuante, desatenção, pensamento desorganizado ou alteração da consciência

Referências:

  1. ABELHA, Fernando; VEIGA, Dalila; NORTON, Maria; SANTOS, Cristina; GAUDREAU, Jean-David. Avaliação do delírio em pacientes pós-operatórios: validação da versão portuguesa da Nursing Delirium Screening Scale na terapia intensiva. Revista Brasileira de Anestesiologia, Rio de Janeiro. Disponível em: SciELO – Revista Brasileira de Anestesiologia
  2. GUSMAO-FLORES, Dimitri et al. The validity and reliability of the Portuguese versions of three tools used to diagnose delirium in critically ill patients. Clinics, São Paulo. Disponível em: SciELO – Clinics
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  5. SOCIETY OF CRITICAL CARE MEDICINE (SCCM). Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Disponível em: SCCM – PADIS Guidelines
  6. LEWIS, K.; BALAS, M. C.; STOLLINGS, J. L. et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Critical Care Medicine, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. Disponível em: SCCM – Focused Update PADIS 2025
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  8. Cuidados multiprofissionais para pacientes em delirium em terapia intensiva: revisão integrativa. Revista Gaúcha de Enfermagem. Disponível em: SciELO – Revista Gaúcha de Enfermagem.
  9. Desafios na avaliação e manejo não farmacológico do delirium por enfermeiros em Unidade de Terapia Intensiva. Cogitare Enfermagem, 2025. Disponível em: SciELO – Cogitare Enfermagem
  10. MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Protocolos de segurança do paciente em terapia intensiva: manejo do delirium. Brasília: Anvisa, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/seguranca-do-paciente
  11. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Atuação do enfermeiro na avaliação neurológica e prevenção de delirium em pacientes críticos. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/
  12. PASA, F. B.; SILVA, R. M. Validação e uso da escala CAM-ICU na prática diária da enfermagem em terapia intensiva. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, v. 35, n. 1, p. 45-52, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

EXPERIÊNCIA E ÁREAS DE CONHECIMENTO
UTI Adulto Enfermagem Intensiva Paciente Crítico Educação em Enfermagem
Conteúdo produzido com base em conhecimento, experiência profissional e educação em enfermagem.