Rotas nas Vias de Administração de Medicamentos: como o fármaco “escolhe” o caminho até o organismo?

Quando um paciente recebe um medicamento, seja um comprimido, uma injeção ou um adesivo na pele, existe toda uma ciência por trás da escolha da via de administração. Essa decisão não acontece por acaso. Ela é baseada nas características do medicamento, na condição clínica do paciente, na velocidade de ação desejada e até mesmo na capacidade do organismo em absorver aquele fármaco.

Uma dúvida bastante comum entre estudantes de enfermagem é: o medicamento “escolhe” sua rota?

Na verdade, quem escolhe a via de administração é o profissional prescritor, mas essa escolha é fortemente influenciada pelas propriedades físico-químicas do próprio fármaco. Em outras palavras, é como se cada medicamento tivesse um “caminho ideal” para chegar ao seu local de ação.

Nesta publicação você entenderá como funciona essa escolha, quais são as principais rotas de administração, suas vantagens, desvantagens e os cuidados de enfermagem em cada uma delas.

O que é uma via de administração?

A via de administração é o caminho utilizado para introduzir um medicamento no organismo.

Cada via possui características próprias que influenciam diretamente:

  • velocidade de absorção;
  • quantidade absorvida;
  • início da ação;
  • duração do efeito;
  • metabolismo do medicamento;
  • eliminação;
  • segurança do tratamento.

A escolha correta da via é tão importante quanto a escolha do próprio medicamento.

Afinal, o medicamento escolhe sua rota?

Essa é uma maneira bastante didática de compreender a farmacologia. Na prática, quem determina a via é o médico ou outro profissional habilitado na prescrição. Porém, essa decisão depende das características do medicamento.

É como imaginar uma encomenda: Uma carta pode ser enviada pelos Correios. Já uma carga extremamente pesada precisa ser transportada por caminhão e cada tipo de carga possui o transporte mais adequado.

Com os medicamentos acontece exatamente a mesma coisa:  Alguns são destruídos pelo ácido do estômago, outros praticamente não são absorvidos pelo intestino. Alguns precisam agir imediatamente e outros devem ser liberados lentamente ao longo do dia, tudo isso influencia a escolha da via.

Quais fatores determinam a escolha da rota?

Diversos fatores são avaliados.

Características do medicamento

Entre elas:

  • estabilidade química;
  • solubilidade;
  • tamanho molecular;
  • lipossolubilidade;
  • pH;
  • possibilidade de irritação dos tecidos;
  • metabolismo hepático.

Estado clínico do paciente

Também influencia bastante.

Exemplos:

  • paciente consciente;
  • paciente inconsciente;
  • presença de vômitos;
  • dificuldade para engolir;
  • intubação orotraqueal;
  • uso de sonda enteral;
  • choque;
  • má perfusão periférica.

Velocidade de ação desejada

Algumas situações exigem resposta imediata.

Exemplo:

Parada cardiorrespiratória.

Nesse caso, a via intravenosa é a mais indicada.

Já medicamentos para tratamento contínuo podem ser administrados por via oral.

Tempo de tratamento

Medicamentos utilizados durante meses ou anos geralmente utilizam vias mais confortáveis, como:

  • oral;
  • subcutânea;
  • transdérmica.

Local onde o medicamento deve agir

Alguns medicamentos atuam apenas em determinado órgão. Por exemplo:

  • Colírios atuam principalmente nos olhos.
  • Pomadas dermatológicas atuam na pele.
  • Sprays nasais atuam na mucosa nasal.

Assim evita-se maior exposição sistêmica.

Como o medicamento percorre o organismo?

Após ser administrado, ele passa por quatro etapas importantes conhecidas pela sigla LADME.

L — Liberação

O medicamento precisa ser liberado da sua forma farmacêutica.

Exemplo:

Um comprimido precisa se dissolver antes de ser absorvido.

A — Absorção

É a passagem do medicamento para a corrente sanguínea e essa etapa varia conforme a via utilizada.

D — Distribuição

Após entrar na circulação, o medicamento é distribuído para os tecidos. Alguns concentram-se no cérebro e outros no fígado, outros nos rins.

M — Metabolismo

Grande parte dos medicamentos sofre transformação química no fígado. Esse processo facilita sua eliminação.

E — Excreção

O medicamento é eliminado principalmente pelos:

  • rins;
  • fígado;
  • pulmões;
  • fezes;
  • suor.

Principais rotas das vias de administração

Embora existam dezenas de vias descritas, algumas são muito utilizadas na prática clínica.

Via oral (VO)

É a mais utilizada no mundo. O medicamento é ingerido pela boca.

Vantagens

É confortável, possui baixo custo, permite tratamento domiciliar, não é invasiva.

Desvantagens

Absorção mais lenta, pode sofrer influência dos alimentos, alguns medicamentos são destruídos pelo ácido gástrico, e não pode ser utilizada em pacientes inconscientes.

Via sublingual

O medicamento é colocado sob a língua. A absorção ocorre através dos vasos sanguíneos da mucosa oral.

Vantagens

Ação muito rápida, evita o metabolismo de primeira passagem pelo fígado.

Exemplo clássico:

Nitroglicerina.

Via bucal

Semelhante à sublingual. O medicamento permanece entre a gengiva e a bochecha e a absorção ocorre lentamente.

Via enteral por sonda

Muito utilizada em pacientes hospitalizados.

Pode ocorrer por:

Nem todos os medicamentos podem ser triturados. Comprimidos revestidos e de liberação prolongada geralmente não devem ser esmagados.

Via intravenosa (IV)

É considerada a via de ação mais rápida, o medicamento entra diretamente na circulação. Não existe fase de absorção.

Vantagens

Resposta imediata, controle preciso da dose, permite grandes volumes, ideal para emergências.

Desvantagens

Maior risco de infecção, necessidade de acesso venoso, maior risco de eventos adversos imediatos.

Via intramuscular (IM)

O medicamento é administrado no músculo, a absorção depende da vascularização muscular. É indicada para medicamentos que necessitam absorção relativamente rápida.

Via subcutânea (SC)

O medicamento é administrado no tecido adiposo, apresenta absorção mais lenta.

Exemplos:

Via intradérmica (ID)

O medicamento permanece na derme. Utilizada principalmente para:

Via tópica

Aplicada diretamente sobre pele ou mucosas.

Exemplos:

  • pomadas;
  • cremes;
  • loções;
  • géis.

Seu objetivo geralmente é ação local.

Via transdérmica

O medicamento atravessa lentamente a pele. Utiliza adesivos medicamentosos.

Exemplos:

  • nicotina;
  • fentanil;
  • nitroglicerina;
  • estrógenos.

A ação costuma durar muitas horas ou dias.

Via oftálmica

Administrada diretamente nos olhos.

Exemplos:

  • colírios;
  • pomadas oftálmicas.

Via otológica

Administrada no ouvido.

Indicada para:

  • infecções;
  • cerume;
  • inflamações.

Via nasal

Permite ação local ou sistêmica.

Exemplos:

  • descongestionantes;
  • corticosteroides;
  • naloxona intranasal.

Via inalatória

Muito utilizada em doenças respiratórias.

Exemplos:

O medicamento alcança diretamente os pulmões.

Via retal

Utilizada quando a via oral não é possível.

Exemplos:

  • vômitos;
  • convulsões;
  • pacientes inconscientes.

Via vaginal

Empregada principalmente para ação local.

Exemplos:

  • antifúngicos;
  • antibióticos;
  • hormônios.

Via epidural e intratecal

São utilizadas em situações específicas.

Exemplos:

Exigem técnica altamente especializada.

O metabolismo de primeira passagem

Esse é um conceito muito importante. Quando um medicamento é administrado por via oral, ele é absorvido pelo intestino e segue inicialmente para o fígado.

Nesse trajeto, parte do medicamento pode ser metabolizada antes mesmo de alcançar a circulação sistêmica. Esse fenômeno é chamado de efeito de primeira passagem hepática. Alguns medicamentos perdem grande parte da sua concentração por esse motivo. É justamente por isso que determinados fármacos são administrados por vias alternativas, como:

  • sublingual;
  • intravenosa;
  • transdérmica.

Biodisponibilidade: quanto do medicamento realmente chega ao sangue?

Nem todo medicamento administrado é totalmente absorvido. A biodisponibilidade representa a quantidade do fármaco que realmente alcança a circulação sistêmica. Na via intravenosa ela é praticamente de 100% e nas demais vias ela costuma ser menor.

Exemplos práticos

Imagine três pacientes com dor intensa:  O primeiro recebe um comprimido,  o segundo recebe uma injeção intramuscular. O terceiro recebe um medicamento intravenoso.

Embora seja o mesmo princípio ativo, a velocidade da melhora poderá ser completamente diferente. Isso ocorre porque cada via possui uma velocidade de absorção distinta.

Você sabia?

A insulina não pode ser administrada por via oral porque seria degradada pelas enzimas digestivas antes de ser absorvida. A nitroglicerina sublingual age em poucos minutos porque evita o metabolismo de primeira passagem no fígado.

Alguns adesivos transdérmicos conseguem liberar medicamento continuamente por até sete dias. A via intravenosa é a única que não possui etapa de absorção, pois o medicamento já é administrado diretamente na corrente sanguínea.

Nem todo medicamento disponível por via oral pode ser administrado por sonda. Formas farmacêuticas de liberação prolongada, revestidas ou gastro-resistentes podem perder sua eficácia ou causar eventos adversos se trituradas.

Cuidados de enfermagem

A administração segura de medicamentos começa antes da escolha da via e continua durante todo o processo assistencial. Entre os principais cuidados estão:

  • Confirmar a prescrição médica e verificar se a via prescrita corresponde à apresentação farmacêutica.
  • Realizar corretamente a identificação do paciente utilizando, no mínimo, dois identificadores.
  • Aplicar os princípios da administração segura de medicamentos (paciente, medicamento, dose, via, horário, registro e demais verificações institucionais).
  • Avaliar se o paciente apresenta condições para receber o medicamento pela via prescrita, como capacidade de deglutição, presença de náuseas, integridade da pele ou acesso venoso pérvio.
  • Conhecer as características farmacológicas do medicamento, incluindo tempo de ação, compatibilidade, diluição e possíveis efeitos adversos.
  • Nunca triturar comprimidos de liberação prolongada, revestidos entéricos ou cápsulas sem confirmação de que essa prática é permitida.
  • Na administração por sonda enteral, realizar lavagem da sonda antes e após cada medicamento, conforme protocolo institucional.
  • Observar possíveis reações adversas, alergias ou sinais de intolerância após a administração.
  • Registrar corretamente o procedimento no prontuário, incluindo a via utilizada, horário e intercorrências.
  • Manter-se atualizado sobre protocolos institucionais e recomendações de segurança do paciente.

A escolha da via de administração é resultado da integração entre as características do medicamento, as necessidades clínicas do paciente e o objetivo terapêutico. Embora seja comum dizer que o “fármaco escolhe sua rota”, essa é apenas uma forma didática de explicar que cada medicamento possui propriedades que o tornam mais adequado para determinadas vias de administração.

Para a enfermagem, compreender esses conceitos vai muito além da execução da técnica. Significa reconhecer por que determinado medicamento deve ser administrado por uma via específica, identificar situações que contraindicam essa administração e contribuir ativamente para a segurança do paciente. Quanto maior o conhecimento sobre farmacologia e vias de administração, maior será a qualidade da assistência prestada.

Referências:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de administração de medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br
  2. POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne G. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
  3. TORTORA, Gerard J.; DERRICKSON, Bryan. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
  4. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos. Brasília: ANVISA, 2013. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/publicacoes/protocolo-de-seguranca-na-prescricao-uso-e-administracao-de-medicamentos
  5. BRUNTON, L. L.; HILAL-DANDAN, R.; KNOLLMANN, B. C. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2023.
  6. BRUNNER, L. S.; SUDDARTH, D. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2023.
  7. WHALEN, K. Farmacologia Ilustrada. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  8. RANG, H. P. et al. Farmacologia. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2020.

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Christiane Ribeiro
SOBRE A AUTORA

Christiane Ribeiro

Técnica de Enfermagem Intensivista
16 anos de experiência em UTI

Profissional de enfermagem com experiência na assistência ao paciente crítico adulto em ambiente de terapia intensiva, contribuindo também para a produção de conteúdos educativos voltados à enfermagem.

É responsável pelo projeto Enfermagem Ilustrada, plataforma de educação em enfermagem criada para facilitar o acesso a conteúdos, conceitos, procedimentos, cálculos e informações úteis para estudantes e profissionais da área.

EXPERIÊNCIA E ÁREAS DE CONHECIMENTO
UTI Adulto Enfermagem Intensiva Paciente Crítico Educação em Enfermagem Ilustração Digital
Conteúdo produzido com base em conhecimento, experiência profissional e educação em enfermagem.