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Revisado e atualizado em 06/09/2026.
A classificação de Johnson continua aparecendo em provas de cirurgia, gastroenterologia e enfermagem, mas existe uma armadilha: decorar apenas “tipo I, II, III, IV e V” não ajuda muito se você não souber onde está a úlcera e com que situação ela está associada. A classificação foi criada décadas atrás e permanece útil principalmente para descrever a localização e algumas associações clássicas das úlceras gástricas.
O que é a classificação de Johnson?
A classificação de Johnson organiza as úlceras gástricas em cinco tipos, considerando principalmente a localização da lesão e sua associação com úlcera duodenal ou uso de medicamentos, especialmente anti-inflamatórios não esteroides (AINEs).
Ela não deve ser confundida com a classificação de Forrest, utilizada na endoscopia para descrever estigmas de sangramento e ajudar na avaliação do risco de ressangramento.
Tipo I
É a forma clássica, geralmente localizada na pequena curvatura do estômago, próxima à incisura angular.
Historicamente, está associada a secreção ácida normal ou reduzida. Atualmente, porém, essa relação com a acidez deve ser entendida como uma característica histórica da classificação, e não como uma regra para determinar a causa da úlcera.
Tipo II
É uma úlcera gástrica associada a úlcera duodenal, podendo haver lesão duodenal ativa ou cicatrizada.
A classificação original relacionava esse padrão à maior secreção ácida, mas essa explicação fisiopatológica não deve ser utilizada isoladamente na avaliação atual do paciente.
Tipo III
Localiza-se na região pré-pilórica, geralmente até cerca de 3 cm do piloro.
Tradicionalmente, também foi associada à maior secreção ácida. Para fins de estudo, o ponto mais importante é reconhecer a localização pré-pilórica.
Tipo IV
É uma úlcera localizada na região proximal do estômago, próxima à cárdia e à junção gastroesofágica, sendo geralmente descrita na pequena curvatura alta.
Assim como no tipo I, a classificação clássica relacionava essa localização a secreção ácida normal ou reduzida.
Tipo V
Pode ocorrer em diferentes regiões do estômago e está classicamente associada ao uso de AINEs, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, além de outros medicamentos ulcerogênicos.
Esse tipo merece atenção porque o uso de AINEs continua sendo um dos principais fatores relacionados à doença ulcerosa péptica. Quando possível, deve-se avaliar a necessidade de manter o medicamento e considerar estratégias para reduzir o risco gastrointestinal.
O que mudou na interpretação?
A classificação de Johnson continua válida para fins descritivos e didáticos, mas não é uma classificação moderna de gravidade da úlcera. Ela também não substitui a investigação da causa.
Atualmente, diante de uma úlcera péptica, a avaliação deve considerar principalmente fatores como H. pylori, uso de AINEs ou ácido acetilsalicílico, características endoscópicas, sangramento, perfuração e possibilidade de neoplasia.
Na prática assistencial, isso faz diferença. Imagine um paciente internado que relata uso diário de anti-inflamatório por dor musculoesquelética e chega com melena e queda da hemoglobina. A equipe não deve ficar apenas na identificação de “úlcera tipo V”; o dado realmente relevante é relacionar o achado endoscópico com o possível fator desencadeante, observar sinais de sangramento e comunicar rapidamente alterações clínicas.
Endoscopia: onde a classificação entra?
A endoscopia digestiva alta permite identificar a lesão, determinar sua localização e características e, quando indicado, realizar biópsias. Em uma úlcera gástrica, a possibilidade de malignidade precisa ser considerada, por isso a avaliação histológica e o acompanhamento são particularmente importantes.
Recomendações recentes orientam que úlceras gástricas sejam avaliadas com biópsia quando clinicamente apropriado e reavaliadas após o tratamento para confirmar cicatrização. O intervalo pode variar conforme o protocolo e o contexto, mas referências recentes recomendam acompanhamento endoscópico em torno de 6–12 semanas.
Um detalhe que costuma passar despercebido durante o cuidado de enfermagem é justamente o acompanhamento. Se o paciente retorna para nova endoscopia porque a úlcera gástrica ainda precisa ser documentada como cicatrizada, não se trata simplesmente de “repetir um exame”: existe uma preocupação clínica com persistência da lesão, cicatrização inadequada ou necessidade de nova investigação.
Pylori e AINEs continuam no centro da avaliação
A infecção por Helicobacter pylori e o uso de AINEs estão entre os principais fatores relacionados à doença ulcerosa péptica. Por isso, identificar medicamentos utilizados pelo paciente, inclusive aqueles tomados por conta própria, pode fornecer uma informação importante para a equipe.
Nas recomendações atuais para H. pylori, pacientes infectados devem receber tratamento de erradicação adequado ao contexto e, depois, confirmação da erradicação conforme as recomendações vigentes. O esquema antibiótico não deve ser escolhido simplesmente com base em tratamentos antigos, porque resistência antimicrobiana influencia a seleção terapêutica.
Cuidados de enfermagem
Na assistência, vale observar dor abdominal, náuseas, vômitos, distensão, aceitação da dieta e sinais de sangramento digestivo, como melena, hematêmese, palidez, tontura, taquicardia ou hipotensão. Também é importante investigar e registrar o uso de AINEs, anticoagulantes e outros medicamentos relevantes, além de acompanhar hemoglobina, sinais vitais e resposta ao tratamento conforme prescrição.
Em um paciente com suspeita de hemorragia digestiva, uma mudança aparentemente pequena, como apresentar melena associada a tontura e taquicardia, deve ser comunicada rapidamente. Nessa situação, a classificação anatômica de Johnson deixa de ser a prioridade imediata; a avaliação da gravidade e a estabilização passam à frente.
Para não errar na prova
Uma forma simples de memorizar é associar localização e situação:
Tipo I: pequena curvatura, próximo à incisura angular.
Tipo II: gástrica + duodenal.
Tipo III: pré-pilórica.
Tipo IV: proximal, próxima à cárdia.
Tipo V: associada principalmente a AINEs e pode ocorrer em diferentes regiões.
A classificação de Johnson ajuda a reconhecer o padrão da úlcera, mas não informa sozinha a gravidade, o risco de sangramento ou se a lesão é benigna ou maligna. Para isso, são necessários avaliação clínica, endoscópica e, quando indicada, histopatológica.
- Tipo I: pequena curvatura próxima à incisura angular
- Tipo II: úlcera gástrica associada à duodenal
- Tipo III: úlcera pré-pilórica
- Tipo IV: úlcera proximal próxima à cárdia
- Tipo V: associada principalmente ao uso de AINEs
Referências:
- JOHNSON, H. D.; LOVE, A. H.; ROGERS, N. C.; WYATT, A. P. Gastric ulcers, blood groups, and acid secretion. Gut, v. 5, n. 5, p. 402-411, 1964. DOI: 10.1136/gut.5.5.402. Disponível em: PubMed – Johnson et al..
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- BRITISH SOCIETY OF GASTROENTEROLOGY; ASSOCIATION OF UPPER GASTROINTESTINAL SURGEONS. British Society of Gastroenterology and Association of Upper Gastrointestinal Surgeons guidance on best practice for upper gastrointestinal endoscopy. Frontline Gastroenterology, 2025. DOI: 10.1136/flgastro-2025-103455. Disponível em: Frontline Gastroenterology – BSG guidance.
- GIORDANO-NAPPI, José; MALUF FILHO, Fauze. Aspectos endoscópicos no manejo da úlcera péptica gastroduodenal. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 35, n. 2, p. 124-131, 2008. DOI: 10.1590/S0100-69912008000200010. Disponível em: Artigo original – Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.
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